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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Novembro 06, 2013

a mão dada

Miguel Marujo

[a partir do texto do Tolentino, que reproduzo no post anterior]

 

nunca foi uma mão que se desse muito - a minha à dele, mas há uma foto das duas mãos dadas, naquele último internamento: não caminhávamos já pelo corredor do hospital. a última vez que o tínhamos feito, depois da refeição, foram aqueles 10 metros vagarosos a zurzir no que eles andavam a fazer ao país. era setembro, tinha ouvido alguma coisa no noticiário do televisor daquela sala comum para doentes, tinha conversado com o enfermeiro (comunista, disse-me a sorrir) sobre como isto ia mal, longe de saber o pior. mas já não caminhávamos no corredor, já não falava, apenas nos olhava. e naquela tarde, a sós, segurou-me a mão, segurei-lhe a mão. (depois guardei a sua força num instantâneo que ainda guardo, a tal foto. íntima. como se fosse o rosto que nos sorria.)

 

«Eu passava-lhe toda a força que podia com a minha mão. Mas a sua mão era maior do que a minha. E sei que ainda é.»

Novembro 06, 2013

toda a força

Miguel Marujo

«Uma das lembranças que me são mais queridas provém, por exemplo, do último internamento do meu pai. Recordo-me de, por dias e dias, andar de mão dada com ele, muito devagarinho, no grande corredor do hospital. Eu passava-lhe toda a força que podia com a minha mão. Mas a sua mão era maior do que a minha. E sei que ainda é.»
[José Tolentino Mendonça, Aprender a morrer, in Expresso, 2/11/13.]