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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Junho 11, 2013

Ora, batatas!

Miguel Marujo

Cavaco Silva quis fazer o elogio da agricultura, para justificar as suas opções como primeiro-ministro em 1985-1995, enaltecendo a PAC e o mundo rural que nasceu do "velho". E para melhor comparar disse, em Elvas, que «ao atraso do mundo rural estava associado o atraso das suas populações, que viviam em condições precárias, com níveis de analfabetismo muito elevados. Não é preciso recuar muitos anos para reviver situações de miséria que persistiam em pleno século XX, e que, pela pena de autores como Alves Redol ou Manuel da Fonseca, a literatura neorrealista captou em páginas que ilustram o modo como se vivia – ou, antes, sobrevivia – nos campos de Portugal.» O que o Presidente não explicou é que essas páginas (que ficam bem citadas no Alentejo) eram dos anos 1940 e 50, em tempos de ditadura, pelo que descrever o mundo rural a partir de Redol e Fonseca, mesmo em 1986, é desonesto.

Junho 06, 2013

Argumentos de peso contra a grafia de... 1911

Miguel Marujo

«Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriotico. Minha patria é a lingua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incommodassem pessoalmente. Mas odeio, com odio verdadeiro, com o unico odio que sinto, não quem escreve mal portuguez, não quem não sabe syntaxe, não quem escreve em orthographia simplificada, mas a pagina mal escripta, como pessoa própria, a syntaxe errada, como gente em que se bata, a orthographia sem ípsilon, como escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.» Fernando Pessoa, Livro do Desassossego.

 

«Na palavra lagryma, (...) a forma da y é lacrymal; estabelece (...) a harmonia entre a sua expressão gráfica ou plástica e a sua expressão psicológica; substituindo-lhe o y pelo i é ofender as regras da Estética. Na palavra abysmo, é a forma do y que lhe dá profundidade, escuridão, mistério... Escrevê-la com i latino é fechar a boca do abysmo, é transformá-lo numa superfície banal.» Teixeira de Pascoaes, na revista A Águia, sobre a Reforma Ortográfica de 1911.

 

«Imaginem esta palavra, phase, escripta assim: fase. Não nos parece uma palavra, parece-nos um esqueleto (…). Affligimo-nos extraordinariamente quando pensamos que haveríamos de ser obrigados a escrever assim.» Alexandre Fontes, A Questão Ortographica.

Junho 05, 2013

Haverá quem tenha sempre 1910

Miguel Marujo

Nada de novo, afinal. Na sequência da primeira grande reforma ortográfica da língua portuguesa, de 1911, ficaram célebres as reações críticas de alguns dos seus mais acirrados oponentes. Fernando Pessoa recusou sempre em vida escrever “farmácia” ou “filosofia” sem os “ph”. E Teixeira de Pascoaes escreveu mesmo um texto antológico sobre o que se perdia com a substituição do “y” pelo “i” latino na palavra “abismo”. E havia ainda quem, um ano antes da entrada em vigor das novas regras depois da implantação da República, “imaginasse”, já, o que seria passar a escrever “fase”, em vez de “phase”: «Não nos parece uma palavra, parece-nos um esqueleto.» [José Mário Costa]

Junho 04, 2013

Da obscenidade

Miguel Marujo

O Governo quer divulgar os nomes de quem mora em habitação social. Nós, por aqui, preferimos a sugestão de um anónimo comentador do Público: "Podiam até começar por divulgar a lista dos que têm rendimentos máximos, contas em off-shores e paraísos fiscais, carros pagos pelo dinheiro dos contribuintes, podiam também acabar com o sigilo bancário, e de facto, depois, se ainda tiverem coragem, podem coser uma estrela da cor que quiserem nas costas de quem tem habitação social."

Junho 02, 2013

Da iniquidade

Miguel Marujo



Leia-se esta breve notícia (do i de ontem). Note-se que, à conta do aumento da renda na sede do PSD lisboeta, o senhor que lidera a concelhia descobriu que a lei das rendas "é uma boa lei, mas precisa de ser claramente melhorada". A hipocrisia é espantosa. Os senhores deputados têm ouvido e recebido muitos exemplos de muita gente (velhinhos, sobretudo) que lhes escreve(ra)m a dar conta de aumentos obscenos das suas rendas, com o PSD e o CDS a recusarem que a lei necessite "de ser claramente melhorada". Mas basta o aumento de uma renda de uma sedezita partidária e logo o seu líder descobre a iniquidade da lei. Apetece mandá-los a uma certa parte.

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