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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Março 18, 2013

Tanta água correu debaixo da ponte

Miguel Marujo

Passos Coelho no Parlamento:
«A sensibilidade social do Governo concentra-se em quem tem menos recursos, o que é essencial para preservar a coesão social». (6/3/2013)

Passos Coelho no ISCSP:
«Num primeiro momento, o programa [de rescisões] poderá vir a ser dirigido primordialmente para grupo de trabalhadores inseridos nas categorias de assistentes operacionais e assistentes técnicos, como forma de suporte ao processo de incremento de qualificação da Administração Pública.» (hoje)

Março 18, 2013

Estes tempos de recusa da morte

Miguel Marujo

«O excelente artigo de António Pinto Ribeiro, no Ípsilon [de sexta-feira passada], traz uma raridade para a nossa refexão. O título é directo: "Eles também morrem". Partindo dos imperadores romanos Adriano e do estóico Marco Aurélio, e da sua precupação reflexiva com a acção, o poder e a morte, APR parte para a clara diferença que marca hoje os governantes europeus para quem, e cito: "o poder e a manutenção do poder são fins em si. Impreparados para agir com a humanidade e com a natureza, para a humanidade e para a natureza, ignorantes, irreflectidos […] cedo passam e enfermar do narcisismo patológico do poder".

Sei bem que há uns trinta anos Phillipe Ariès definia o nosso tempo e a sua relação com a morte (e de certo modo, a doença) como o período d'"A recusa da morte". Esta foi a fase de todos os "Enjoy the moment" que nos prepararam para os enriquecimentos ilícitos de muitos, a sua impunidade, mas também o "have fun" a qualquer peço enquanto se abandona a velhota no hospital para ir de férias. Como é possível? Devia ficar lavrado em acta que quem alguma vez teve este tipo de comportamento face aos seus pais, ou avós, ou outros, ficasse irremediavelmente fora de qualquer hipótese de apoio do Estado Social justamente por comportamento associal e egoísta.

Não são apenas os multimilionários - os associais e acumuladores de capital pelo capital - tal como os acumuladores de poder pelo poder - estou a vê-los... - que devem ser combatidos. Todo o comportamento individualista excessivo, mesmo quando desce pela hierarquia social, deve ser combatido e rejeitado. Para merecer o Estado Social actualmente debaixo de fogo deve começar-se por si próprio e praticar relações solidárias com os outros. Finalmente regressando ao artigo de APR "o que distingue os bons dos maus governantes é uma diferença radical no uso e nos instrumentos do poder".

É no seu tipo de uso - ou no tipo da sua omissão, dos instrumentos de poder e dos seus dispositivos - da sua orientação para uns ou para outros, para objetivos justos ou injustos que dele fazer-se a avaliação. Que fizeste para diminuir a crueldade humana? Que fizeste na tua acção de hoje para aumentar a solidariedade entre os teus próximos? É que, como diz APR, também nós vamos morrer. Usar a bela frase de Boaventura: um conhecimento prudente para uma vida decente.» [António Pinho Vargas]

Março 17, 2013

Bento XVI e Francisco: distintos no estilo, próximos nas palavras

Miguel Marujo

Pensamento. A obra de Bergoglio é curta e quase desconhecida, já a de Ratzinger é vasta. Tentámos descodificar os temas que aproximam e afastam os dois papas

 

Dois meses antes de ser eleito papa, Jorge Maria Bergoglio escreveu aos seus fiéis porteños. Estávamos na quarta-feira de cinzas, 13 de fevereiro, e nessa sua mensagem para esta Quaresma, o arcebispo de Buenos Aires sublinhava que “o sofrimento de inocentes e justos não deixa de nos esbofetear; o desprezo pelos direitos das pessoas e dos povos mais frágeis não nos são tão longínquos; e o império do dinheiro, com os seus efeitos demoníacos, como a droga, a corrupção e o tráfico humano, incluindo crianças, juntamente com a miséria material e moral são moeda corrente”.

Se ao Papa intelectual e académico que foi Joseph Ratzinger se atribuem cerca de 600 obras, Bergoglio parece resumir-se em 15 obras publicadas, todas em espanhol. O agora Papa Francisco ainda editou os diálogos entre João Paulo II e Fidel Castro, de acordo com a informação disponibilizada na Wikipédia. Apenas um destes livros atravessou o rio da Prata, para ser publicado em Espanha, e são porventuras as únicas páginas que a comunicação social tem dedicado alguma atenção nestes dias do novo pontificado. Em El Jesuita, livro-entrevista de Sergio Rubin e Francesca Ambrogetti, Bergoglio confronta-se com as acusações de alegada cumplicidade com a tenebrosa ditadura dos coronéis.

O seu pensamento traduz-se numa prática já proclamada ao mundo. Nos gestos despojados com que se apresentou na varanda de São Pedro e nas histórias espartanas repetidas desde a sua eleição: vivia num modesto apartamento em Buenos Aires, dispensou carro e motorista para se deslocar de transportes públicos.

Numa leitura de 15 anos de homilias e mensagens, desde abril de 1999, disponíveis na página da Arquidiocese de Buenos Aires (foi nomeado arcebispo em fevereiro de 1998), a atenção aos pobres, à educação e ao serviço prevalecem nas palavras deste homem. No primeiro texto de todos, da missa crismal de 1 de abril de 1999, Bergoglio dirige-se aos sacerdotes para lhes recordar que “o Pai se entrega inteiramente à sua família, em tudo e para todos: quando abraça, abraçando todos, justos e pecadores”.

No confronto com a modernidade, o Papa Francisco aproxima-se do seu antecessor, Joseph Ratzinger, até nas imagens de uma barca fustigada. Nas vésperas de se tornar Bento XVI, o cardeal alemão denunciava na missa do conclave de abril de 2005, a “ditadura do relativismo”. “A pequena barca com o pensamento dos cristãos sofreu, não pouco, pela agitação das ondas, arrastada de um extremo ao outro: do marxismo ao liberalismo até a libertinagem, do coletivismo ao individualismo mais radical, do ateísmo a um vago misticismo, do agnosticismo ao sincretismo”, apontava Ratzinger.

Já Bergoglio, meses antes, em outubro de 2004, referia-se a uma “cultura do naufrágio”, onde prevalecia “o reino da opinião, sem convicções”. “Não se conta com normas objetivas, não existe o bem ou o mal, mas sim vantagens ou desvantagens, numa retirada subjetiva dos valores. Nivela-se para baixo, avança-se pactuando. Todos opinam em igualdade de circunstâncias; tudo vale o mesmo.”

O direito à vida, que os dois tantas vezes afunilaram na defesa de uma moral sexual restritiva ou na recusa absoluta do aborto e da eutanásia, acaba por ter outra expressão, em outubro de 2011, por Bento XVI, ao sublinhar que “a libertação da submissão da fome é a primeira manifestação concreta do direito à vida”. Ou como apontava Bergoglio, em 2005, “os prazos da economia não têm em conta a fome ou a falta de escolas das crianças”.

 

Pobreza

“Os pobres são perseguidos por reclamar trabalho e os ricos aplaudidos mesmo fugindo à justiça” – Jorge Mario Bergoglio

“A Europa tem a sua responsabilidade. A economia não pode ser só lucro, mas também solidariedade” – Bento XVI

 

Aborto, eutanásia

“Lembro agora as crianças não nascidas, vítimas indefesas do aborto; nos velhos e doentes incuráveis, por vezes objeto de eutanásia; e tantos outros seres humanos marginalizados pelo consumismo e materialismo” – Jorge Mario Bergoglio

 

“Foi isso que o Papa João Paulo II fez: quando se defrontou com interpretações erradas de liberdade, sublinhou de forma inequívoca a inviolabilidade dos seres humanos, a inviolabilidade da vida humana da concepção à morte natural” – Bento XVI

 

Evangelização

“A religiosidade popular configura a identidade histórica: é a decantação de uma história de evangelização que integra de modo mais ou menos consciente uma multitude de elementos culturais e religiosos de muitos povos, raças e culturas” – Jorge Mario Bergoglio

 

“Quem anuncia o Evangelho deve ser humilde, não deve pretender obter resultados imediatos, nem qualitativos nem quantitativos, porque a lei dos grandes números não é a lei da Igreja” – Bento XVI


[texto publicado este sábado no Diário de Notícias]

Março 17, 2013

polícias

Miguel Marujo

Houve um incêndio na Portela, num centro comercial. A reportagem da SIC diz-nos que os ânimos com alguns lojistas se exaltaram e um deles foi detido. O que vi nas imagens da SIC foi um agente a empurrar e manietar um homem que depois corre e começa a levar pontapés do PSP e é atirado ao chão e algemado. Violência gratuita, pura e dura. Mas deve ser esta a polícia exemplar que nos gostam de vender.

 

O exemplo citado é menor ao pé do caso da Bela Vista, em Setúbal. Um rapaz morto, em acidente de viação ou pela polícia (que diz ter disparado balas de borracha para o ar), merecia uma investigação séria. Não um bairro a ferro e fogo.

Março 15, 2013

Obsceno

Miguel Marujo

Estamos a 15 de março e o Governo já está a apresentar um novo Orçamento. Por menos, muito menos, Cavaco atirou-se a Sócrates. Por menos, muito menos, o PSD e o CDS e o BE e o PCP despacharam o último Governo. Por menos, muito menos, o despudor de Vítor Gaspar (travestido de uma suposta competência que nunca se viu) já teria levado o ministro das Finanças a demitir-se. Ou este Governo. Para tudo isto, só encontro um termo: obsceno.

Março 13, 2013

Francisco.

Miguel Marujo

Há uma comoção diferente por descobrir alguém que se despojou das roupas. Sem as vestes sumptuosas com que João Paulo II e Bento XVI, e outros tantos, antes deles, surgiram na varanda de São Pedro. Como Francisco de Assis se despojou das roupas para ir a Roma criticar o fausto do Vaticano. E a este homem de hábitos simples cabe a ação para que a esperança não seja palavra vã.

 

 

«Irmãos e irmãs, boa noite. Vocês sabem que o dever de um conclave é dar um bispo a Roma. Parece que os meus irmãos cardeais foram buscar-me quase até ao fim do mundo. Mas aqui estamos. Agradeço a vossa hospitalidade. A comunidade diocesana de Roma já tem o seu bispo. Obrigado.»

Março 12, 2013

e o que esperar...

Miguel Marujo


Ficamos sem saber o que esperar do Conclave que hoje se reúne. Os pequenos sinais que nos chegam são mais demolidores para a Igreja, que congregadores. Se a luta dos homens pelo poder é deste reino, apesar destes homens insistirem que o Espírito Santo os ilumina na hora do voto, na hora do voto o que vale é mesmo a influência de curiali (os de Roma) e residenziali (os que vivem fora de Roma). Eu não quero um papa africano ou americano ou latinoamericano ou asiático ou italiano ou europeu. Quero um papa que limpe a Cúria, que torne transparente as contas vaticanas, que faça outro discurso sobre a moral sexual, que estabeleça outras pontes com as religiões, como o encontro de Assis em 1986. Então, sim, habemus papam.