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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Março 31, 2013

compassos

Miguel Marujo

Não há compasso na cidade - temo bem que muitos nem saibam o que isso é -, a cruz a ir de porta em porta, e são cada vez menos as portas abertas. Flores e folhas à entrada para acolher o compasso, mesmo que a chuva copiosa torne os passos mais lentos. Depois a saudação, o folar, a oferenda. A Páscoa também é isto. Longe da aldeia, na cidade a trabalhar, sinto falta do folar com pito, dos breves reencontros, do sino pequeno que anuncia a chegada da cruz. E do meu Pai que há um ano pegava nela, para a levar a cada um de nós.

Março 28, 2013

Só sei que nada sei

Miguel Marujo




Faltou a única certeza que valia a Sócrates, José: citar Sócrates, o grego, para humildemente não querer ter a verdade toda. Mais do que Dante, era esse o exercício que se impunha. Se há verdade em muita coisa ali dita - e o caso das escutas e a forma como Cavaco lidou antes e depois com "os limites dos sacrifícios", por exemplo, são porventura o exemplo mais forte -, faltou o assomo da realidade, a assunção do erro, para que a narrativa (palavra tão bela, a partir desta noite proscrita) se tornasse mais verosímel, não apenas uma justificação cadenciada pela vitimização e omissão.

 

Notas soltas:

Sobre o PS, Sócrates dá uma na rosa e outra na ferradura, mas teve mais comedimento que muitos dos seus tenentes em ano e meio de liderança de Seguro. A seguir com atenção no comentário que aí vem, sobretudo quando o ex-líder se diz livre de qualquer ambição política, que não a de comentador.

Sobre o PEC IV, a queda do Governo e o pedido de ajuda, ficaram espaços por preencher. Por culpa de entrevistadores que pareciam mais preocupados em cilindrá-lo com perguntas, para ninguém os acusar de não terem colocado as questões todas, do que em ouvir respostas para explorar omissões, falhas, ideias. [E deve regressar-se a «Resgatados» para se perceber o que foram aqueles dias.]

Sobre Cavaco, sabemos como ele reagirá, não sabemos quando. Algures encostado a uma parede, à saída de uma empresa, o Presidente não esperará pelo próximo prefácio para responder às acusações, alimentando assim as intrigas que ele diz rejeitar, quando adora promovê-las.
 
[foto Orlando Almeida/Global Imagens]

Março 26, 2013

Mexer sem mexer

Miguel Marujo

Almeida Henriques foi um nome dado como remodelado na última remodelação do Governo. Na altura, finais de janeiro, o secretário de Estado ficou, para agora sair a caminho das autárquicas de Viseu. Perante a quarta alteração ao governo-que-era-mínimo, Passos Coelho prefere não substituir Almeida Henriques, num superministério. Que explicação? Não aparecer a alterar o Governo menos dois meses depois de ter alterado vários secretários de Estado? Ou incapacidade para recrutar gente?

Março 26, 2013

A nossa família

Miguel Marujo

Na semana em que o Governo desmantela a Maternidade Alfredo da Costa.

 


Miguel Esteves Cardoso

«Se não fosse o NHS — o sistema de saúde do Reino Unido, onde nasceram, muito prematuramente, as minhas filhas — elas não teriam sobrevivido. Elas devem a vida ao NHS. E eu devo-lhe o amor e a alegria de conhecer a Sara e a Tristana, para não falar no meu neto, António, igualmente devedor, mais as netas e netos que aí vêm. Se não fosse o SNS (Serviço Nacional de Saúde) eu teria morrido em 2005, com uma hepatite alcoólica causada unicamente por culpa minha. Seria também coxo, quando me deram uma prótese para anca. E, sobretudo, teria morrido, se o SNS não me tivesse dado o antibiótico caríssimo (Linozelid) que me salvou do MRSA assassino que me infectou durante a operação.
Se não fosse o SNS, a Maria João, o meu amor, estaria morta.
Se não fossem o IPO e o Hospital de Santa Maria, pagos pelo SNS, ela não estaria viva, por duas vezes.
Sem a NHS e o SNS, eu seria um morto, sem mulher, filhas ou netos. Estaríamos todos mortos ou condenados à inexistência.
Não é difícil chegar à conclusão, atingida desde os meus dezanove anos, de que as melhores ideias de todas são a social democracia e o Estado-providência: não tanto no sentido ideológico como na prática.
A nossa família e as nossas famílias só existem e podem existir se não tiverem morrido. Damos graças aos serviços nacionais de saúde — a esse empenho ideológico e caríssimo — que nos tratam como se fizéssemos parte deles.
Devemos as nossas vidas a decisões políticas tomadas por outros.»

in Jornal Público 23/03/2013

Março 25, 2013

Uma proposta de troca aos senhores Ulrich, Belmiro e Borges

Miguel Marujo

«Há uma coisa que não dará para aguentar, claro: a arrogância de quem vive de barriga cheia, achando que só eles é que trabalham e lutam pela vida. Já tínhamos percebido que grande parte da classe política vive em circuito fechado, sem conhecer a vida real das pessoas. Agora, percebemos também que, para boa parte da classe empresarial, as pessoas são apenas factores de produção. Servem apenas para lhes dar dinheiro a ganhar, a eles que, eles sim, são cultos, dinâmicos e trabalhadores.» [António Marujo, no DN]

Março 24, 2013

Ramos

Miguel Marujo

No domingo de Ramos, Francisco saiu do papamóvel para ir cumprimentar a multidão. É este o verbo: cumprimentar. Não foi abençoar. E o verbo faz tanta diferença.

Março 19, 2013

ficar em tudo

Miguel Marujo

"PAI.

A tarde dissolve-se sobre a terra, sobre a nossa casa. O céu desfia um sopro quieto nos rostos. Acende-se a lua. Translúcida, adormece um sono cálido nos olhares. Anoitece devagar. Dizia nunca esquecerei, e lembro-me. Anoitecia devagar e, a esta hora, nesta altura do ano, desenrolavas a mangueira com todos os preceitos e, seguindo regras certas, regavas as árvores e as flores do quintal; e tudo isso me ensinavas, tudo isso me explicavas. Anda cá ver, rapaz. E mostravas-me. Pai. Deixaste-te ficar em tudo."

 

Jose Luís Peixoto
(roubei à Ana Luísa, mas ela desculpa-me)

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