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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Novembro 14, 2012

Este país é para todos

Miguel Marujo



Este blogue está em greve.

 

«"Eu sei que as pessoas estão muito angustiadas em Portugal e têm uma grande vontade de mostrar essa angústia e esse descontentamento com aquilo que se está a passar num momento como é o que vivemos. Mas eu, compreendendo essa situação, no meu caso, não vou fazer greve. Vou trabalhar amanhã [quarta feira], quer no PSD, quer depois dando aulas, mais ao final do dia", declarou Passos Coelho aos jornalistas, em Lisboa...» [Passos Coelho, 23 de novembro de 2010].

Novembro 13, 2012

"Entre os gritos e as vénias, que seja um bom dia de negócios"

Miguel Marujo



O título deste post é roubado a um comentário da diretora do Público, que pediu que a visita de Angela Merkel fosse um bom dia de negócios. Isso foi exatamente o que não se viu em Belém, com a Fábrica de Pastéis de Belém praticamente vazia, com poucos clientes e menos turistas, porque a PSP proibiu a circulação automóvel e pedonal em vastas zonas de Belém (o trânsito, esse, estava cortado em Alcântara e Calvário). Perante isto, o Álvaro não teve um assomo de se lamentar pela baixa produtividade provocada pelo seu Governo, Vítor não se lamuriou com as fracas receitas no IVA dos estabelecimentos da zona, nem a Administração Interna irá aparecer a justificar os gastos excessivos de centenas de polícias na rua, helicópteros e aviões no ar e lanchas no mar, para tão escassa uva. [foto MM, Belém, Praça do Império, Lisboa, 12/11/12]

Novembro 09, 2012

O bife a quem o trabalha

Miguel Marujo

 

 

 

 

 

«Quando as pessoas deixam de comprar bifes, o que acontece? Nada? Não será que o talho deixa de vender, o matadouro deixa de matar, o criador deixa de criar, o agricultor deixa de cultivar, o veterinário deixa de receitar, o camionista deixa de transportar - e o Estado deixa de tributar, e o alemão deixa de fabricar? Isso não faz parte da equação?» [Pedro Lains]

Novembro 08, 2012

Lembra-se do ministro que dizia que as equipas da MAC iam ficar todas juntas para manter um centro de excelência? Mentiu. É mais um a mentir

Miguel Marujo

«O futuro Hospital Oriental de Lisboa abre em 2016 e receberá apenas alguns serviços da Maternidade Alfredo da Costa, que fecha no final do ano, pois os restantes serão distribuídos por outras instituições, anunciou a administradora deste Centro Hospitalar. (...) Com 780 camas, o futuro hospital irá ter um serviço de ginecologia-obstetrícia e não irá acolher todos os departamentos e pessoal da MAC. "A MAC tem cerca de 700 pessoas, não são essas pessoas que vão ser todas transferidas para o novo hospital. Tem de haver uma reorganização da oferta em Lisboa", disse [Teresa Sustelo, administradora do Centro Hospitalar de Lisboa Central (CHLC)].» [da Lusa]

Novembro 08, 2012

Da caridadezinha

Miguel Marujo

Sobre Isabel Jonet, e a sua intervenção na SIC Notícias, reagi dizendo que enquanto a senhora estiver à frente do Banco Alimentar (instituição que prezo) não estarei disponível para colaborar com essa organização. (Não grito por um boicote organizado, é decisão pessoal assumida por mim.) Interpelado por algumas intervenções no facebook e por um post como este, deixo algumas notas.

 

1. Ninguém põe em causa o mérito da organização de Isabel Jonet, mas os seus "20 anos de voluntariado" não a tornam mais habilitada para falar de pobreza que muitos e muitos outros. O que aflige aliás no seu discurso é uma reiterada defesa da austeridade como "mal menor" e sobre a inevitabilidade do discurso atual de que só há um caminho, o do empobrecimento (é um padrão que vem desde junho de 2011, por exemplo).

 

Estou à vontade. Já em maio de 2008, antes da crise explodir desta forma, escrevi que "as mais de mil toneladas recolhidas pelo Banco Alimentar não nos deviam satisfazer". E explicava-me: "O bom era, ano após ano, ser cada vez mais pequena a necessidade de uma organização assim." E isto leva-me ao cerne de uma questão que Jonet nunca discute seriamente, nem com as suas reflexões sobre padrões de consumo desajustados. Compreender as razões e as causas da pobreza, para a atacar e debelar, tornariam inúteis organizações como o Banco Alimentar, e eu isso nunca lhe ouvi dizer: "que bom era eu já ter fechado a porta" *.

 

2. Insiste-se que os portugueses vivem acima das suas possibilidades. E Isabel Jonet di-lo à saciedade. Falta o "detalhe" (de quem devia conhecer o terreno) de um país que tem 20% de pessoas abaixo do limiar da pobreza viver acima das suas possibilidades. Que possibilidades? Nos exemplos dados, parece que Jonet prefere que regressemos a um certo país onde todo o consumo era castigado (daí o epíteto "salazarento" não ser tão estranho quanto isso), em que cinco milhões de portugueses não tinham acesso a um serviço nacional de saúde de qualidade, em que a instrução primária era a mãe de toda a universalidade (e ponto final parágrafo, que o liceu e a universidade eram coisa de elite). Desse país, em que os meus pais cresceram, das senhas racionadas no tempo da Guerra ao medo dos filhos terem de ir para uma guerra colonial injusta e fora de tempo, já não restam mais do que saudosistas, em que nem todos tinham bife para comer à mesa. A democracia trouxe-no isto, e muito mais. Trouxe também alguns comportamentos de excessos, sim, trouxe (curioso: foi Augusto Santos Silva que, como ministro da tutela, lançou uma campanha contra o consumo excessivo e foi então muito criticado por lançar o alarme...), mas a responsabilidade individual tão cara a um certo liberalismo (incluindo o de Jonet) esbarra na vontade do Estado nos dizer que alguns, muitos, não podem comer bife por causa do défice.

 

3. Muitos têm invocado a caridade como motor, neste debate. A própria Isabel Jonet defendeu em tempos que a «caridade vale mais que a solidariedade (...), caridade é amor, solidariedade e serviço». Percebo o que a presidente do Banco Alimentar quer dizer, duvido que a sua prática seja diferente da caridadezinha.

 

Vou direto ao tema, como católico: sim, a caridade como a hierarquia na verdade (aquilo que não deve ser esquecido) é "amar ao próximo como a si mesmo" e isto signfica muito mais que a noção pobre de manter pobres ao meu cuidado (chamemos a isto, caridadezinha). Significa sim, aprofundar a minha relação na sociedade com o outro, de tal modo que me seja insuportável aceitar a pobreza e que muitos iguais a mim vivam na pobreza. Ou seja: é-me impossível aceitar uma política que quer tornar mais pobres, que desprotege ainda mais os que nada ou pouco têm, que insiste em impor violentas taxas fiscais a quem se esforça por ganhar míseros salários e que rotula de preguiçosos ou gatunos aqueles que auferem um rendimento social de inserção.

 

4. As redes sociais são virais na exposição da indignação. Isto não faz delas estúpidas, obriga-nos antes a perceber que a ponderação que se pede a quem dedilha três frases em 150 caracteres ou um post no facebook, deve ser antes a arma de quem intervem na sociedade. Dizer que uma ativista como Isabel Jonet está isenta de crítica (como bem notou Paulo Pena, no facebook) é querer tornar estúpido e acéfalo qualquer debate.

 

Mais contributos, muito bons para o debate: de Domingos Farinho e de Pedro Lains. E sobre a "caridade", numa perspetiva histórica, ainda que lhe falte (na minha ideia) uma perspetiva mais atualizada sobre como os católicos devem entender esta virtude, este texto de Rui Bebiano.

 

[* - atualize-se: fazem-me notar que Jonet já disse (nunca lhe ouvi, daí ter escrito o que escrevi) que bom seria já ter fechado a porta; ;)mas - sublinho a incoerência - depois gosta muito de se manter ali agarrada à necessidade de ter pobres, em vez de querer de facto acabar com a pobreza, como se percebe pela necessidade de termos mais austeridade e de empobrecermos.]

Novembro 08, 2012

um microconto criado enquanto se joga ao adormecer

Miguel Marujo

 

Havia uma praia cheia de grãos de areia e outra que não tinha nenhuns. Então o camião amarelo pegou na sua pá e começou a levar muitos grãos de areia da praia grande para a praia pequena. Depois de levar muitos grãos para encher a praia pequena, ouviu um pequeno grão a chorar. Perguntou-lhe o que se passava, e ele respondeu, "não sei do meu papá e da minha mamã". O camião amarelo sossegou-o, "eu sei onde eles estão, vou já procurá-los", e partiu em direção à praia grande. E começou a procurar e logo encontrou o papá-grão e a mamã-grão, muito aflitos, "não sabemos do nosso pequenino". O camião amarelo respondeu-lhes, "venham, saltem para a minha pá, eu sei onde está o vosso filhote". Chegados à praia pequena, o camião deixou o papá-grão e a mamã-grão junto do grão pequenino e os três ficaram muito contentes. Nessa noite, viram a lua subir das águas e disseram-lhe "boa noite", e ela respondeu "boa noite, durmam bem, eu cuido dos vossos sonhos".

 

 

 

[Papá, conta outra vez, e assim, até adormecer, três vezes.]

Novembro 06, 2012

... music brings hope for a better tomorrow

Miguel Marujo

[ainda ao meu Pai]

 

Da janela da sala vê-se uma ténue luz por entre os ciprestes. Queimam-se as velas derradeiras deste dia de todos os santos, no cemitério dos Prazeres, que o feriado e a tradição popular fazem de memória, celebração e comemoração dos mortos. Afinal, o dia dos finados de amanhã transplanta-se para o dia em que se glorificam santos e santas. Os mortos, homens e mulheres, todos e todas, são assim santificados, por calendário, numa subversão eventualmente inconsciente - de vitória da vida sobre a morte. Uma ressurreição da festa. E os vivos que julgam apenas cuidar dos mortos, acabam por cuidar da celebração da sua vida. Na memória dos amigos e familiares mortos lembramos sempre os momentos de alegria, raramente nos recordamos da tristeza, dificilmente se festejam as angústias. Por isso, toda a alegria deve ser festejada - não condenada.
Da aparelhagem ouvem-se os sons da terra que deus sonhou: Johnny Cash canta o repertório de hinos religiosos de um livro da sua mãe, no disco 4 da absolutamente imperdível caixa "Unearthed" (à venda na net, que por cá já há muito esgotou). Cash gravou estes temas já marcado por um cancro, que à medida que avançava lhe debilitava a voz e engrandecia a vida. E é de vida, que esta voz à beira da morte, canta. É de vida que se sonha, com estes temas. Afinal, a mãe sempre lhe ensinou que a música é uma coisa festiva. «I'll just sing 'em, me and my guitar, simple, no adornment, knowing that God loves music and that music brings hope for a better tomorrow», escreve Cash.
A música deste tempo pode ser também um Requiem - mas lembrando que a festa da vida celebra-se sobre a morte. Assim os vivos santificam os finados.

 

[escrito a 1 de novembro de 2005, brevemente atualizado.]