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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Novembro 29, 2012

«o algarismo não passa fome nem morre, ao contrário do ser humano»

Miguel Marujo

«Após alguma reflexão sobre o assunto, ocorreu-me que talvez fosse importante que alguém apresentasse Vítor Gaspar a um ser humano.
Podia ser um encontro discreto, a dois, só com um terceiro elemento que começasse por fazer as honras: "Vítor, é o ser humano. Ser humano, é o Vítor." E depois ficavam a sós, a conviver um bocadinho.
Perspicaz como é, o ministro haveria de reparar que, entre o ser humano e um algarismo, há duas ou três diferenças. O ser humano comparece com pouca frequência nas folhas de excel, ao contrário do algarismo. E o algarismo não passa fome nem morre, ao contrário do ser humano.
É raro encontrarmos uma lápide, no cemitério, com a inscrição: "Aqui jaz o algarismo 7. Faleceu na sequência de um engano numa multiplicação. Paz à sua alma." Mal o ministro tivesse percebido bem a diferença entre o ser humano e os números, poderia voltar às suas folhas de cálculo. Admito que se trata de uma experiência inédita, mas gostaria muito de a ver posta em prática.
Houve um tempo em que quem não soubesse de economia estava excluído da discussão política. Felizmente, esse tempo acabou. Os que percebem de economia são os primeiros a errar todos os cálculos, falhar todas as previsões, agravar os problemas que pretendiam resolver.
As propostas de um leigo talvez sejam absurdas, irrealistas e inexequíveis. Não faz mal: as do ministro também são. Estamos todos em pé de igualdade.
A realidade não aprecia economistas. Se um chimpanzé fosse ministro das Finanças, talvez a dívida aumentasse, o desemprego subisse e a recessão se agravasse. Ou seja, ninguém notava.
Como toda a gente, também tenho uma sugestão para reduzir a despesa. Proponho que Portugal venda uma auto-estrada para o Porto. Temos três, e não precisamos de todas. Há-de haver um país que esteja interessado numa auto-estrada para o Porto. Não há nenhuma auto-estrada para o Porto no Canadá, por exemplo. Nem na Noruega. (Eu confirmei estes dados.) São países ricos, aos quais uma auto-estrada para o Porto pode dar jeito. Fica a proposta. Não é a mais absurda que já vi.»

Ricardo Araújo Pereira, Visão, 29 novembro 2012

Novembro 29, 2012

Verbo do dia

Miguel Marujo

estivar1 verbo transitivo

1.   colocar e arrumar a carga num navio
2.   pesar a mercadoria de um navio
3.   despachar na alfândega
4.   construir estivas (sobre terrenos alagadiços)
5.   figurado apurar
(Do latim stipāre, «amontoar»)



estivar2 verbo intransitivo

1.   passar o verão
2.   (animal) ficar imobilizado pela ação do calor, durante o verão

(Do latim aestivāre, «veranear»)

Novembro 22, 2012

Testemunhos

Miguel Marujo



A Sábado traz hoje um retrato impressionante sobre as testemunhas de Jeová. Vale a pena ler. Este artigo levou-me até um outro, que escrevi há dez anos (10!, percebi agora), ainda no PortugalDiário, sobre a recusa de prestação dos serviços militar e cívico (quando o serviço militar era obrigatório e a alternativa era o cívico, ao invocar-se objeção de consciência) por jovens deste movimento religioso. Num artigo em três partes* já antecipava um pouco do "mundo orwelliano" que hoje a Isabel Lacerda descreve tão bem na revista.


[* - republiquei este artigo num blogue "jornalístico" que mantive quando estive desempregado em 2006/07, link para o qual remeto o leitor; em boa hora o fiz porque todo o arquivo do PortugalDiário foi apagado.]

Novembro 22, 2012

Da saudade

Miguel Marujo


Fazia cevada, café assim leve, em chávena cheia, adoçada de açúcar e histórias pela tarde fora. "Eh meninos", interpelava-nos ela, mais curiosa que inquisidora, por isso mais sábia. Para nós já era velhinha quando éramos pequeninos, mas resistiu a tudo, até na minha lembrança à distância. Há um ano, lembra a Marta, apenas meses antes do afilhado, o meu Pai, outro contador de histórias, foi contar outra história mais longa que a vida. E vem-nos à memória, sem frases batidas: acho que as saudades dela são as saudades que tenho dele.

Novembro 19, 2012

Adiado

Miguel Marujo

O julgamento do caso dos submarinos devia ter começado hoje. Marcado há meses, só hoje o senhor juiz se lembrou de que precisaria de tradução simultânea e suspendeu a coisa por uma semana. A isto chama-se incompetência, mas nada acontecerá ao senhor juiz.

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