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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Outubro 01, 2012

O teu Avô Manuel, C.

Miguel Marujo

O mês de setembro fechou triste, apesar dos anos da Mãe, que mimaste e celebraste como só tu sabes. O Avô Manuel iniciou a última viagem, aquela que nos escapa sempre à compreensão - mesmo que achemos que depois desta viagem há algo maior. E este domingo, no funeral, o céu carregou-se de azul, sem nuvens, como se o verão resgatasse o outono para a vida.

Nos teus dois anos e meio, não perceberás como, de um dia para o outro, deixaste de ter quando aquela porta se abria os braços abertos, já doentes, enquanto corrias nos teus passinhos para as pernas do Avô. Ou de como não é ele que tocará a campainha - "Vôôô" e pulavas para a porta. Por isso, te deixo inscritas estas palavras mal alinhadas, em que as memórias se atropelam, em que as letras não são suficientes. O Avô não tem biografia para a página de um jornal, mas tem para o diário que todos os dias (nos) construímos. Na liberdade e na tolerância que nos soube transmitir, com a teimosia das suas convicções (sim, foi nele que bebi isto), uma teimosia que nunca se afirmava pela força, apenas pelo exemplo.

O Avô chorou uma vez no hospital, quando lhe falei ao ouvido dos 78 anos que ele celebrou no dia seguinte, mas sempre que viu as tuas fotos na praia, sorriu. Não sei no que pensaria, se na infância em que mergulhava na ria de Aveiro, se apenas na tua alegria contagiante a "mergulhares" ou apanhares conchas. Mas quando já pouco falava arranjou forças e sussurrou à Mãe "muitos, muitos, muitos" beijinhos para ti.
Um dia conto-te as histórias do meu Pai, o teu Avô. Comigo, com os teus tios, com a tua Avó. De como menino foi de casa aos 10 anos para trabalhar longe (era perto, mas naquele tempo o perto ficava muito mais longe). De como sempre quis uma vida diferente para os filhos. De como, naquele dia em que me perguntou por novidades e lhe disse que um senhor ia anunciar mais austeridade ao país, o Avô ainda se indignou contra esse e os outros senhores que não têm um pingo de vida que seja como a dele mas todos os dias esvaziam as vidas de todos.

O Avô não tem biografia que se escreva em página de jornal. Só porque esta não cabe lá. E as palavras ficam sempre aquém do que ele é. Porque o Avô Manuel está aqui connosco, C. Um dia saberás.