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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Agosto 28, 2012

A urgência em falar nisto

Miguel Marujo

Os médicos ameaçam com a rutura nas negociações com o Ministério da Saúde por causa do Governo querer mexer na dispensa das urgências. Falemos disso então, mas não falemos como este Governo gosta. Ou de como só gosta de olhar para as coisas: pelo dinheiro. Olhemos para a proposta que quer aumentar as horas de urgência de 12 para 18 horas (há muitos bancos de 24 horas). Olhemos para as propostas que querem aumentar a idade de quem fica dispensado de fazer bancos (o que não quer dizer que deixe de os fazer, seria bom o Ministério dizer quantos depois da idade ainda o fazem). Para um governante que dorme todas as noites na sua caminha e não tem de trabalhar durante a noite para atender situações-limite, pode ser irrelevante dizer-se que se faz mais umas horitas ou que se chamam médicos mais velhos, como se isso fossem detalhes economicistas. Não são.

 

Basta ler a literatura especializada (nos EUA, há estudos que comparam as 36 horas de um banco com níveis de alcoolemia absolutamente assassinos) para perceber que, com a privação do sono, «há erros na atenção auditiva e na estratégia de decisão (Linde et al, 99)» e que «os médicos em trabalho de urgência com privação de sono significativa têm maior probabilidade de cometer erros».

 

Falemos no concreto: Paulo Macedo não gostaria de encontrar pela frente, numa situação grave de doença ou acidente (sua ou de um familiar), um médico com 17 ou 22 horas de trabalho em cima. Mas também deve ser por isso que ele quer dar cabo do Serviço Nacional de Saúde. Os privados tratam-lhe da saúde.