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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Abril 29, 2012

Este post é mais do que um post sobre futebol

Miguel Marujo

Um clube deve salários há vários meses aos jogadores. Estes anunciam que vão rescindir e o presidente do clube acusa-os de tudo, dizendo que a rescisão laboral é um "caso de polícia".

Este clube consegue inscrever (sabe-se lá como e com que "pressões") nove jogadores para este domingo e, num jogo de 11 contra 11, a equipa entra em campo com oito (um dos nove afinal não joga).

No final do jogo, em que a equipa em causa perde 0-4, percebe-se porque um dos nove não jogou: o jogador fugiu com uma mala de dinheiro com seis mil euros (este jogador tem salários em atraso), denuncia o presidente, gritando de novo que é um "caso de polícia". [Diz a sabedoria popular que ladrão que rouba ladrão...]

O presidente diz que a mala de dinheiro era para pagar despesas "inerentes ao jogo". Seis mil euros? Não era para pagar salários, era para pagar algo.

Há uma pergunta que se impõe: que despesas são estas, que custam seis mil euros? Mais: porque leva um clube da I Liga dinheiro vivo numa mala, quais mafiosos a fazerem compras ilícitas?!

 

Tudo isto é uma bela parábola sobre o futebol. Mas mais: sobre empresas e trabalhadores, sobre crises e valores. Afinal, este post é mais do que um post sobre futebol - é sobre o país.

Abril 26, 2012

Um filme para discutir como aqui se chegou

Miguel Marujo

Documentário.

É um filme militante, não o esconde, que desvela factos históricos que podem ajudar a perceber o que o país andou para aqui chegar. Os Donos de Portugal é um documentário de Jorge Costa, que se [estreou] no dia 25 de abril, numa maratona de filmes deste género na RTP2. O filme [que pode ser visto na íntegra em baixo], que nasceu do livro homónimo (co-escrito por cinco dirigentes do Bloco de Esquerda, Jorge Costa, Luís Fazenda, Cecília Honório, Francisco Louçã e Fernando Rosas), retrata "Cem anos de poder económico". "Quisemos tornar acessíveis factos históricos, que são matéria útil de como aqui chegámos", explica Jorge Costa ao DN, que já viu o filme.

"Desde que o livro saiu, o país mudou muito, desde há um ano e meio", com a intervenção externa e a crise económica, diz o autor. Por isso, o filme pretende questionar – com esses factos – "se vivemos e quem viveu acima das suas possibilidades". É um retrato de família, uma "grande família", aquele a que assistimos em 48 minutos. "Os mesmos donos daquelas grandes famílias que povoavam a Baixa" lisboeta no século XIX povoam as páginas da imprensa deste início de século XXI, ouve-se logo a abrir o documentário, na narração de Fernando Alves. "Será que ainda lá vão estar em 2050?" Mesmo que hoje se encontrem "novas famílias capitalistas", a tese do filme que era a do livro é a de que "a árvore genealógica da burguesia portuguesa mostra-nos afinal uma grande família que domina o centro económico".

A teia tece-se com os mesmos nomes desde há 100 anos: Salgados, Espírito Santo, Roquette, Lima Mayer, Champalimaud, Cupertino Miranda, Soares dos Santos. Num umbiguismo que se reproduz pelo casamento, ou de outro modo, no campo económico com a bênção política: "Os bancos privatizados são adquiridos por privados com dinheiro emprestado pelos próprios bancos", resume a dado momento no documentário o economista Eugénio Rosa, sobre as privatizações que floresceram nos anos do cavaquismo (1985-1995).

Mas a síntese perfeita é dada pelo atual presidente do omnipresente Banco Espírito Santo. "O BES é um banco de todos os regimes, de todos os géneros", diz Ricardo Salgado, como que confirmando involuntariamente a tese do livro-documentário. Na narrativa de Os Donos de Portugal surgem episódios e personagens, que à luz dos dias que se vivem, parecem um fado repetido. Ali se recorda a crise financeira de 1876 e o empréstimo inglês a Portugal. Ou, muito mais recente, o "escândalo" da venda do Totta & Açores aos espanhóis do Banesto, no consulado de Cavaco, onde há caras que também são familiares no caso BPN. A História não se repetirá, mas tem coincidências: são "as teias da política que organiza os grandes negócios", defende-se no documentário. "E sob o regime da dívida, a própria democracia política é ameaçada", conclui-se.

 

[texto escrito para o DN, que saiu numa versão muito curta na edição em papel do dia 25/4/2012]

 

 

 

Abril 22, 2012

Uma rosa no deserto - com mãos de sangue.

Miguel Marujo

Crianças sírias em vigília por outras crianças sírias mortas por Assad

 

A Vogue resolveu publicar um artigo hagiográfico de Asma al-Assad, a bonita mulher "ocidentalizada" do ditador sanguinário. Estávamos em fevereiro de 2011. Em março seguinte, o regime de Assad iniciou uma violenta repressão que se traduz neste momento em mais de 9000 mortos, a maioria civis, muitas crianças e mulheres. Depois desta contabilidade de horror, a má consciência da Vogue retirou o artigo do seu site, não deixando qualquer rasto do mesmo. O pior é que um site (também hagiográfico) do regime mantém disponível o texto da revista americana, onde se pode ler a profunda hipocrisia de que se revestem estes perfis, pagos pelos próprios. Nesta história, ainda há quem acredite na sensatez de Asma, quando afinal esta rosa do deserto tem as mãos cheias de sangue.

 

Abril 21, 2012

A dita dura

Miguel Marujo

O que têm em comum O Amante de Lady Chatterley e O Anti-Cristo? Que laços unem Quando os Lobos Uivam ou Fanny Hill? O que aproximou Sá Carneiro, Álvaro Cunhal e Mário Soares? Para todas estas questões, a mesma resposta: a censura do Estado Novo, que proibiu 900 livros. A discricionariedade das ditaduras traduz-se sempre no seu fraco gosto estético. O primeiro passo para o abismo.

Abril 19, 2012

No futebol não se admitem gostos

Miguel Marujo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

«João Gobern, comentador de futebol num programa de televisão, foi dispensado por ter recebido a notícia de um golo do Benfica com um festejo contido. A RTP dispensou-o por ter festejado; eu tê-lo-ia dispensado por ter festejado contidamente. Celebrar um golo de qualquer clube é um acto de liberdade. Celebrar um golo do Benfica é um acto de liberdade e de bom gosto. Quem contém a liberdade e o bom gosto merece castigo.

Aqueles que acusaram a RTP de perseguição aos vermelhos estavam certos apenas em parte. Este novo macartismo é, na verdade, daltónico. Amanhã acontecerá o mesmo com adeptos do Sporting, do Porto, do Braga, do Arrifanense. Não se admite que quem fala de futebol goste de futebol. Quantos dos nossos amigos que se interessam por futebol e gostam de falar sobre ele não têm clube? Quantos dos que apreciam literatura não têm escritores preferidos? Quantos dos que sabem de música não se emocionam mais com um compositor do que com outro? E, no entanto, a esmagadora maioria dos comentadores de futebol que vemos na televisão não tem clube preferido. São apenas entusiastas assépticos das transições defensivas, burocratas da basculação, geómetras do duplo pivô. Não são exactamente seres humanos. São semideuses que não se deixam afligir pelas paixões da alma.

Ora, estes comentadores, tal como João Gobern, não relatam factos, comentam. Exprimem opiniões. O que torna o seu trabalho muito mais difícil, uma vez que os robôs não têm opiniões. Os comentadores políticos podem manifestar a sua preferência por determinado programa político ou líder partidário. Nenhuma estação dispensa um crítico de cinema quando exprime regozijo por um filme ou um artista da sua predilecção ter vencido um prémio.

No futebol, talvez por ser matéria mais importante que a política e a arte, não se admitem gostos. Há uma única excepção. Quando a brava selecção lusitana defronta a estrangeirada bárbara, não só os comentadores como os próprios jornalistas podem festejar o que quiserem, designadamente atirando ao ar os papelinhos que resultaram de terem rasgado o código deontológico. No futebol, o amor à pátria é o único que se tolera. Parece-me mais proveitoso que quem exprime opiniões sobre futebol tenha mesmo opiniões sobre futebol. E parece-me mais honesto que não as esconda.

Pessoalmente, nunca escondi que sou do Benfica, não por uma questão de honestidade mas de imodéstia: ser benfiquista é a minha melhor qualidade - se não for a única. E não tenho grandeza de carácter suficiente para a manter secreta. Um adepto do Vasco da Gama chamado Carlos Drummond de Andrade escreveu: "Para o diabo vá a razão quando o futebol invade o coração." Felizmente, a RTP já não foi a tempo de lhe mergulhar o coração em formol.» (Ricardo Araújo Pereira, in Visão)

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