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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Março 18, 2012

Leitura para esta semana: o matemático ministro da Educação chumba a... matemática

Miguel Marujo

Nuno Crato é professor catedrático de Matemática e Estatística. É, também, desde junho passado, ministro da Educação e do Ensino Superior. Pasme-se pois:

 

"(...) As primeiras informações dadas por Nuno Crato à Assembleia da República, e repetidas acriticamente pela comunicação social, foram estas: "houve uma subida de custos muito grande". E precisou: a derrapagem de custo por escola intervencionada seria de 447%. (...)

Quando finalmente tivemos acesso ao relatório o desvio era, afinal, de 66% de investimento por escola (está, preto no branco, no relatório em causa) que, segundo a IGF, "foi essencialmente devido ao aumento de área de construção por escola". O investimento médio por aluno aumentou 9,4% e o investimento médio por m2 aumentou 3,1% em relação ao inicialmente previsto (...).

A derrapagem de custos das obras em relação ao valor contratado variou, nas escolas analisadas pela IGF, entre os 0,6% e os 6,7%. (...)

E vale a pena ler as 145 páginas deste documento (mas quem não queira pode ficar pelas conclusões), que não só está muito longe de ser demolidor, como até reserva à Parque Escolar mais elogios do que criticas, sobretudo em matéria de contenção de despesas. Eu, que não tenho a fé de muitos na seriedade intelectual de Nuno Crato, dei-me a esse trabalho. O desvio explica-se, antes de mais, com a alteração da escolaridade obrigatória, em 2009, que obrigou a um aumento da área média de construção por escola em 61%, já que a média de alunos previstos por escola passou de 800 para 1.230 alunos, um aumento de 52% em relação ao que se esperava em 2008. E esta é a principal razão apontada pelo relatório para o desvio financeiro a que se assistiu. (...)" [Daniel Oliveira, sublinhados no original]

Março 17, 2012

Hermenêutica

Miguel Marujo

Fazer a História recente, mesmo sob a forma de ensaio, tropeça muitas vezes num condicionalismo ideológico que não se compagina com a ditadura dos caracteres de um jornal. Pedro Lomba ensaiou-se no Público a debater o semipresidencialismo desta república - um pressuposto pertinente - para concluir por uma tese conformada: que o poder dos presidentes se define (restringe) ao regime das sondagens. Fraco consolo.

 

Mas há outro aspeto que devo sublinhar. Pedro Lomba resume o mandato de Sampaio em 36 linhas de repetidos argumentários que a direita sempre gostou de colar ao homem que derrotou Cavaco e esquecendo o contexto (mais do que necessário) ao passar pelo fim do Governo de Santana/Portas. «O acto de dissolução, sem fundamento contra um governo que ele dizia "descredibilizado"» é uma frase que arruma uma memória histórica muito parcelar - e parcial. A descredibilização do Executivo de Santana/Portas não era dita por Sampaio, era vivida todos os dias pelos portugueses.

 

Há dias, em troca de comentários com o próprio Pedro no seu facebook (sobre o prefácio do comentador de Belém sobre Sócrates), caracterizei-lhe o governo desses meses de 2004-2005 como «um dos mais vergonhosos, caricatos e dementes governos de Portugal». Mantenho. Lomba não pensa assim, porque argumenta que Sampaio não o deixou ser governo: «Os escassos quatro meses também mostravam a arbitrariedade do mesmo Presidente que nem dava tempo para que um governo, sem legitimidade de título, adquirisse legitimidade de exercício.» Duas ideias: aquele governo, de facto, nunca deveria ter sido empossado - "sem legitimidade de título", reconhece Lomba -, mas teve o tempo suficiente para se perceber que o exercício seria cada vez mais ilegítimo, na sua penosidade e caricatura. Já todos se esqueceram que o episódio da dissolução transborda no copo de Belém com o ministro-amigo-braço-direito de Santana, Henrique Chaves, a bater com a porta acusando o primeiro-ministro de mentir?!

 

Há uma última conclusão no parágrafo de Sampaio, que é desonestidade intelectual. Resume Lomba: «Surtiu efeito [a dissolução]. Nas eleições seguintes Santana perdeu com clareza para Sócrates e tudo mudou.» Mais uma vez, a memória é tramada: da dissolução de Dezembro às eleições de Março, o próprio Santana conseguiu cavar ainda mais fundo o miserabilismo da sua governação, e nos cinco meses que foram de governação o desmando foi o tom na Educação, Saúde... ou mesmo em São Bento. O povo eleitor é que deu a derrota a quem nunca se credibilizou, o cidadão eleitor é que percebeu que Sampaio errou ao dar a posse a um governo ferido de legitimidade, como se provou na sua governação. O resto, caro Pedro, parece mais um ensaio ao sabor das sondagens de hoje.

 

 

[à margem]

Para memória futura: Santana Lopes anunciou-se hoje como putativo protocandidato a Belém. Que a memória não seja curta.

Março 13, 2012

Pela boca morre o pastel de nata

Miguel Marujo

«Eu e os meus secretários de Estado estamos a cumprir e não a anunciar. Esse tempo acabou há oito meses», afirmou Álvaro Santos Pereira, numa intervenção após o jantar [há uma semana]. «Eu e a minha equipa, como todo o Governo, sabemos o que queremos para Portugal, sem ceder a aproveitamentos políticos ou cortinas de fumo criados pela oposição», referiu o governante, acrescentando que esse ruído serve para apagar a memória do trabalho errado feito no passado. Santos Pereira assegurou ainda que o seu ministério também continuará «sem ceder a pressões de grupos de interesse e interesses instalados que apostam no ruído mediático para continuarem em setores protegidos».

Março 10, 2012

O défice que tem de ser assumido para ser resolvido

Miguel Marujo

«Cálculos do Dinheiro Vivo com base em dados do Eurostat e do Instituto Nacional de Estatística mostram que o número de trabalhadores pobres - pessoas que têm emprego mas que vivem com menos de 434 euros por mês - aumentou quase 12% entre 2009 e 2010. São mais 124 mil pessoas num universo que já vai em 1,2 milhões de trabalhadores. Não é difícil perceber o que acontecerá a estes números quando avaliarmos 2011 e 2012, anos em que o PIB vai recuar cumulativamente 5%. Além deste indicador dramático - a que se junta os 14,8% de taxa de desemprego - Portugal continua a ser um dos países mais desiguais do mundo desenvolvido. Os 20% mais ricos têm rendimentos seis vezes superiores aos dos 20% mais pobres. É o sexto resultado mais desigual entre os países da OCDE. Para dar corpo a estes números, basta recordar que, de acordo com os dados preliminares do Censos 2011, Portugal tem 6951 barracas, onde vivem 18 072 pessoas. Falar disto pode parecer demagógico - e muitas vezes o contexto é demagógico - mas não deixa de ser uma verdade importante: é outro tipo de défice que tem de ser assumido para ser resolvido.» (André Macedo, sublinhados nossos)