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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Novembro 09, 2011

Marcha atrás

Miguel Marujo

Escrevi há dias que aliviada a Grécia, a democracia dos mercados se virava para a Itália. O filme tem uma narrativa óbvia: afastado o despesista, os mercados assobiam para o ar e disparam os juros da dívida. O problema continua a estar também nos mercados. Corrijo: sobretudo nos mercados. Quando a Europa se resolver a assobiar para o ar contra os mercados, as coisas vão melhorar.

Novembro 07, 2011

Do fim de algumas boas memórias

Miguel Marujo

«Media: PortugalDiário acabou, redação concentrada no site TVI24

 

Porto, 07 nov (Lusa) -- O site noticioso PortugalDiário, do grupo Media Capital, deixou de existir em meados de setembro, ficando a redação concentrada no site TVI24, disse hoje à agência Lusa fonte da empresa. "A equipa que assegurava o PortugalDiário, e também o TVI24.pt desde 2009, manteve-se. Face à força do tvi24.pt decidiu-se apostar tudo nessa marca", referiu a fonte. O PortugalDiário era um dos poucos títulos sobreviventes do "boom" de sites noticiosos surgidos entre 1998 e 2000, a par do Setúbal na Rede, Caminha2000, Jornal Digital, Diário Digital, Maisfutebol e Agência Financeira (estes dois também da Media Capital), que ainda se publicam. "No futuro poderá fazer sentido reativar o PortugalDiário, mas por enquanto não", afirmou. Nascido em 14 de julho de 2000, o PortugalDiário foi durante anos um dos sites noticiosos portugueses que melhor aproveitou as potencialidades jornalísticas da Internet, apostando, fundamentalmente, na interatividade, mas também no vídeo e na informação em tempo real e em diferentes suportes. O endereço do antigo site está agora em reencaminhamento automático para o tvi24.iol.pt.» [da Lusa]

Novembro 04, 2011

Coisas óbvias (II)

Miguel Marujo

«[...] O referendo na Grécia justifica-se por várias razões. Em primeiro lugar, porque o remédio de austeridade cega que está a ser imposto altera de forma profunda a relação institucional da Grécia com a Europa. Até aqui o país já era um protectorado de Bruxelas e de Berlim – tal como Portugal –, mas em teoria o plano era de curto/médio prazo, durando até ao final do programa de ajustamento. Agora é diferente. Em troca de um corte de 50% da dívida grega – que, na verdade, assegura aos credores mais do que alguma vez veriam caso o país saísse do euro –, a Europa liderada pela Alemanha propõe uma dieta rigorosa aos gregos durante pelo menos o resto da década. Para garantirem que tudo corre como exigido, a troika instala-se definitivamente em Atenas, com uma equipa de controlo do governo grego liderada por um alemão. Isto é muito mais que a partilha de soberania que o euro implicava desde o início. [...]

 

Em Portugal o governo reagiu a medo à proposta grega. Presume-se que esse medo tenha a ver com o cumprimento das “metas”. Mas não é só isso. O governo tem de saber que, dependendo da situação social, dos contornos de um segundo pacote de resgate (que é uma certeza) e da reestruturação da dívida (outra certeza), Portugal poderá ter de fazer um referendo sobre o euro. Isso não tem de ser nenhuma desgraça, como nos vendem em tom de chantagem – antes pelo contrário. Seja qual for a decisão – e espero que seja um “sim” ao euro –, dará força a governos futuros e um real sentido de pertença à moeda única por parte dos portugueses.» Bruno Faria Lopes, no i

Novembro 02, 2011

Coisas óbvias

Miguel Marujo

«[...] é falsa uma dupla premissa em que assenta a elaboração do OE-2012 segundo a qual as medidas de severa austeridade são necessárias para ganhar a confiança dos mercados financeiros e os efeitos esperados de diminuição do défice e redução da dívida criarão um círculo virtuoso que virá a restabelecer o crescimento económico.
Trata-se de um raciocínio que ignora a complexidade e a opacidade de tais mercados, faz tábua rasa do conhecimento empírico acumulado acerca do impacto negativo das medidas de austeridade sobre a economia, minimiza a importância da conjuntura recessiva europeia e do efeito de contágio da crise noutros países da zona euro.
[...] Os argumentos apresentados para uma estratégia de grande austeridade tão pouco são convincentes: tão depressa os compromissos do Memorando da Troika são ditos intocáveis, como são esquecidos para satisfazer interesses de alguns sectores ou caem por serem ostensivamente mal fundamentados. Este discurso errático, hoje como no passado, mina a confiança dos cidadãos e cidadãs nos governantes em geral e na sua capacidade para definir políticas credíveis.

[...] Damo-nos conta, também, e com particular cuidado, de que o OE-2012 revela uma chocante insensibilidade social, expressa em múltiplos aspectos com destaque para os seguintes: a drástica redução dos rendimentos disponíveis das famílias, quer pela via dos cortes salariais, quer pelo aumento de impostos directos e indirectos, com consequências dramáticas para um aumento drástico da incidência da pobreza e das desigualdades na repartição do rendimento. Por outro lado, o facto de serem os salários e as pensões dos funcionários públicos o alvo prioritário da austeridade põe em causa princípios de justiça e de estado de direito.
Acresce que estas medidas não ponderam, como se imporia, a sua respectiva incidência em outras variáveis macroeconómicas, nomeadamente o consumo e a procura interna, que tenderão a contrair-se e, por essa via, a diminuir as receitas do Estado e a concorrer para a desaceleração da actividade económica.
O argumento da inevitabilidade de cortes nos rendimentos do trabalho é, ainda, menos convincente quando, por exemplo, se verifica que ficam praticamente intocados os rendimentos de capital, que são, como se sabe, prevalecentes entre os mais ricos. [...]» (Comissão Nacional Justiça e Paz)

Novembro 01, 2011

quase todos, santos: livros, mercados, igrejas

Miguel Marujo

A propósito do que será um livro menor, um secretariado da Igreja Católica emitiu uma violenta opinião sobre o dito romance. Obra de ficção, logo nas primeiras páginas plagia Dan Brown dizendo que o livro narra factos verídicos e apresenta a verdade sobre Jesus. A ficção não é a realidade, já deviam saber os escritores, mas talvez quando estes são jornalistas confundam grosseiramente as coisas e dão erros de palmatória (pondo João Paulo II no Vaticano em 1976) e pasmam-se com o óbvio (que Jesus era judeu).

 

Mas, dizia, um secretariado da Igreja (sublinho: um secretariado) veio criticar a coisa e logo uns quantos criticaram a Igreja (sublinho: a Igreja). Que não se devia meter com os livros, confundindo debate de ideias com queimas livrescas antigas, que não foram exclusivo de alguns (sublinho: alguns) na igreja. E parecendo querer cortar a cidadania da intervenção a quem, na matéria, pode e deve falar. É a mesma coisa nas coisas do sexo - a Igreja, dizem, devia ficar calada. Não se reconhece que, na igreja, haja quem possa e deva falar de sexo. É verdade que, na maior parte das vezes, quem é ouvido ou se faz ouvir é apenas um grupo de pessoas que dá uma imagem errada do que a Igreja pensa sobre o tema, esquecendo-se que a Igreja é sempre feita de muitas igrejas, até na cama. (Ámen.)

 

Depois sobra, neste dia de todos os santos, o espanto por ler em Alfredo Bruto da Costa o desassombro em dizer o óbvio: que muitos dos problemas que temos e vivemos se devem à impreparação dos patrões. O presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz (um organismo da Igreja, quase se omitindo a sua origem) clama contra uma coisa que muitos não têm coragem de verbalizar: o Orçamento que aí vem é um atentado à dignidade humana, um manifesto contra a vida. Felizmente pois que as igrejas dentro da Igreja não calam a sua voz. Pena que os bispos nesta ocasião se sumam, sem coragem de denunciar estas direitas no poder.

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