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Corredores

por Miguel Marujo, em 15.11.11

O cheiro dos corredores é sempre o mesmo. À entrada da sala, onde máquinas alimentam homens, desinfectam-se as mãos. E impregna-se o odor a álcool, imagem perene dessas visitas. Hoje devia ter gostado de ver o jogo ao nosso lado, sem máquinas. Para (apesar do resultado) lamentar a equipa e recordar como eles corriam em 1966. Mas ficar contente.

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«Uma família em que recebe 1.500 euros cada um. São, portanto, de classe média. Nem ricos, nem pobres. Têm dois filhos dependentes. Não vivem com desafogo mas, na miserável média nacional, são "privilegiados". Os dois filhos andam na escola.

 

Vamos esquecer que lhes aumentaram o IVA em quase todas as compras que fazem. Que um deles é funcionário público e perdeu, nos próximos anos, o 13º mês e o subsídio de férias que servia para compor o orçamento familiar. Que lhes aumentaram o IMI, que os juros ao banco para pagar a casa também estão mais altos. Que lhes congelaram os salários. Que comprar casa é agora uma impossibilidade e que têm de contar com os filhos a viverem em casa deles muito para lá do que seria saudável, porque não vão arranjar emprego minimamente seguro para assumirem qualquer compromisso nem ter outro lado onde viver. Vamos esquecer tudo isto. Vamos até imaginar que não estão com a corda na garganta.

 

Os filhos vão sozinhos para a escola. De transportes públicos, tal como os pais que, conscienciosos e poupados, não tiram o carro da sua rua nos dias de semana. É bom para a autonomia dos filhos, para a carteira dos pais e para a cidade, que assim tem menos carros a circular. É até bom para a economia, que gasta menos a importar combustível. O preço dos transportes públicos aumentou, o que fez os pais repensarem se valeria a pena continuar a fazer isto. Mas o passe social dos miúdos ainda compensa. Esta semana, ficaram a saber que o passe social dos seus filhos aumentará para o dobro. Porque são ricos. Isto de serem "ricos", com dois salários de 1.500 euros, tem sido um desastre. Nos impostos, nos serviços públicos, em tudo.

 

Os pais fizeram as contas. Com os transportes públicos caros e sem passe social para os filhos, a despesa é incomportável. Sai mais barato irem todos no carro. Levarem e trazerem os filhos à escola. Têm lhes explicado, na televisão (jornais já não podem comprar), que é uma questão de justiça social. Eles não são pobres e o Estado a quem eles entregam uma parte significativa dos seus salários é para pobres (e para os bancos). Isto apesar de saberem que os pobres viram as suas prestações sociais reduzidas e os bancos, pelo contrário, podem sempre contar com dinheiros públicos. Mas adiante. Eles tomam a decisão economicamente racional de deixar de usar os transportes coletivos. Eles e os remediados que ainda optavam por eles. Mais uns milhares de carros na cidade. A poluír. A engarrafar o tráfego. A levar, com o tempo e a energia que se perde, a uma redução da produtividade. A fazer perder tempo. A obrigar a importar mais combustível e a piorar a nossa balança comercial. A degradar as vias públicas, obrigando a maior investimento do Estado em manutenção. A encher passeios, porque não há lugar para estacionar.

 

Vamos fingir que esta família é rica. Vamos fingir que não paga impostos e que por isso não tem, como os outros, direito a algum retorno do que paga. Vamos fingir que esse País estranho de que nos falam economistas, governantes e comentadores existe mesmo e esta gente vive desafogada. Mesmo assim, as coisas são simples para esta família: vai voltar ao carro que o começo da crise, numa das poucas coisas boas que parecia ter trazido, os tinha feito abandonar no seu quotidiano. Com menos gente, os transportes públicos, que são tanto mais sustentáveis quanto mais gente os usar, são cada vez mais difíceis de manter. Cada vez mais caros. Cada vez mais escassos.

 

Os discursos sobre a justiça social, para enganar papalvos e tentar que os pobres se convençam que a destruição dos serviços públicos é feita em seu beneficio, valem de pouco para esta família. Tomam a decisão racional e pegam no carro todos os dias (assim como a razão que levou a classe média a comprar casas em vez de as alugar, contribuindo para o endividamento do País, foi a mais pura das racionalidades: era mais barato). Ficamos todos a perder. Mas ficam contentes os propagandistas do regime. E o secretário de Estado dos Transportes, que acha que transportes públicos acessíveis e com apoios públicos são apenas para "quem não tem alternativa de mobilidade" (ou seja, para quem não pode andar de carro), também. Nada como ter governantes e "ideólogos" de governantes com uma cabeça subdesenvolvida para fazer o nosso país regressar ao Terceiro Mundo. Com uma economia irracional, cidades caóticas e atrasado em quase tudo. Seremos mais competitivo assim? Eles acham que sim.

 

Eu, seguramente um alien nesta terra enlouquecida, acho que uma das formas de medir o desenvolvimento e a racionalidade económica de um País é ver a qualidade dos seus transportes públicos e a quantidade e a variedade social das pessoas que os utilizam. E que parece que não aprendemos nada sobre algumas das razões do nosso atraso, que nos tornou mais vulneráveis a esta crise. Que olhamos para este país coberto de autoestradas e quase sem linhas férreas e depois ouvimos um secretário de Estado falar do transporte público como um complemento ao transporte individual e percebemos porque estamos como estamos. Estamos atrasados porque somos governados por cabeças atrasadas. Quanto tínhamos dinheiro, apostaram tudo no carro. Quando falta o dinheiro, cortam tudo no transporte público. Com ou sem dinheiro, a receita é sempre a mesma.»



por Daniel Oliveira

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11.11.11, 11h11

por Miguel Marujo, em 11.11.11
Se neste momento acontecer alguma coisa, não há problema. Corta-se mais um subsídio qualquer.

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11.11.11, valha-nos São Martinho

por Miguel Marujo, em 11.11.11

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De uma notícia na Lusa: «Hoje, Portugal está "a atingir o limite", disse [Otelo Saraiva de Carvalho], corroborando o que há seis meses dissera à Lusa: "Se soubesse o que sei hoje não teria possivelmente feito o 25 de Abril". O coronel na reserva acredita que há condições para os militares tomarem o poder e vai mais longe: "bastam 800 homens". Em comparação com o golpe de 1974 -- do qual afirma ser um "orgulhoso protagonista" --, Otelo considera que um próximo seria até mais fácil, pois "há menos quartéis, logo menos hipóteses de existirem inimigos" da revolução.»

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Marcha atrás

por Miguel Marujo, em 09.11.11

Escrevi há dias que aliviada a Grécia, a democracia dos mercados se virava para a Itália. O filme tem uma narrativa óbvia: afastado o despesista, os mercados assobiam para o ar e disparam os juros da dívida. O problema continua a estar também nos mercados. Corrijo: sobretudo nos mercados. Quando a Europa se resolver a assobiar para o ar contra os mercados, as coisas vão melhorar.

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Finalmente

por Miguel Marujo, em 08.11.11

Berlusconi si arrende

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Do fim de algumas boas memórias

por Miguel Marujo, em 07.11.11

«Media: PortugalDiário acabou, redação concentrada no site TVI24

 

Porto, 07 nov (Lusa) -- O site noticioso PortugalDiário, do grupo Media Capital, deixou de existir em meados de setembro, ficando a redação concentrada no site TVI24, disse hoje à agência Lusa fonte da empresa. "A equipa que assegurava o PortugalDiário, e também o TVI24.pt desde 2009, manteve-se. Face à força do tvi24.pt decidiu-se apostar tudo nessa marca", referiu a fonte. O PortugalDiário era um dos poucos títulos sobreviventes do "boom" de sites noticiosos surgidos entre 1998 e 2000, a par do Setúbal na Rede, Caminha2000, Jornal Digital, Diário Digital, Maisfutebol e Agência Financeira (estes dois também da Media Capital), que ainda se publicam. "No futuro poderá fazer sentido reativar o PortugalDiário, mas por enquanto não", afirmou. Nascido em 14 de julho de 2000, o PortugalDiário foi durante anos um dos sites noticiosos portugueses que melhor aproveitou as potencialidades jornalísticas da Internet, apostando, fundamentalmente, na interatividade, mas também no vídeo e na informação em tempo real e em diferentes suportes. O endereço do antigo site está agora em reencaminhamento automático para o tvi24.iol.pt.» [da Lusa]

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A longa marcha

por Miguel Marujo, em 07.11.11

Aliviada a Grécia, a democracia dos mercados vira-se para a Itália. Um filme já visto.

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Coisas óbvias (II)

por Miguel Marujo, em 04.11.11

«[...] O referendo na Grécia justifica-se por várias razões. Em primeiro lugar, porque o remédio de austeridade cega que está a ser imposto altera de forma profunda a relação institucional da Grécia com a Europa. Até aqui o país já era um protectorado de Bruxelas e de Berlim – tal como Portugal –, mas em teoria o plano era de curto/médio prazo, durando até ao final do programa de ajustamento. Agora é diferente. Em troca de um corte de 50% da dívida grega – que, na verdade, assegura aos credores mais do que alguma vez veriam caso o país saísse do euro –, a Europa liderada pela Alemanha propõe uma dieta rigorosa aos gregos durante pelo menos o resto da década. Para garantirem que tudo corre como exigido, a troika instala-se definitivamente em Atenas, com uma equipa de controlo do governo grego liderada por um alemão. Isto é muito mais que a partilha de soberania que o euro implicava desde o início. [...]

 

Em Portugal o governo reagiu a medo à proposta grega. Presume-se que esse medo tenha a ver com o cumprimento das “metas”. Mas não é só isso. O governo tem de saber que, dependendo da situação social, dos contornos de um segundo pacote de resgate (que é uma certeza) e da reestruturação da dívida (outra certeza), Portugal poderá ter de fazer um referendo sobre o euro. Isso não tem de ser nenhuma desgraça, como nos vendem em tom de chantagem – antes pelo contrário. Seja qual for a decisão – e espero que seja um “sim” ao euro –, dará força a governos futuros e um real sentido de pertença à moeda única por parte dos portugueses.» Bruno Faria Lopes, no i

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Coisas óbvias

por Miguel Marujo, em 02.11.11

«[...] é falsa uma dupla premissa em que assenta a elaboração do OE-2012 segundo a qual as medidas de severa austeridade são necessárias para ganhar a confiança dos mercados financeiros e os efeitos esperados de diminuição do défice e redução da dívida criarão um círculo virtuoso que virá a restabelecer o crescimento económico.
Trata-se de um raciocínio que ignora a complexidade e a opacidade de tais mercados, faz tábua rasa do conhecimento empírico acumulado acerca do impacto negativo das medidas de austeridade sobre a economia, minimiza a importância da conjuntura recessiva europeia e do efeito de contágio da crise noutros países da zona euro.
[...] Os argumentos apresentados para uma estratégia de grande austeridade tão pouco são convincentes: tão depressa os compromissos do Memorando da Troika são ditos intocáveis, como são esquecidos para satisfazer interesses de alguns sectores ou caem por serem ostensivamente mal fundamentados. Este discurso errático, hoje como no passado, mina a confiança dos cidadãos e cidadãs nos governantes em geral e na sua capacidade para definir políticas credíveis.

[...] Damo-nos conta, também, e com particular cuidado, de que o OE-2012 revela uma chocante insensibilidade social, expressa em múltiplos aspectos com destaque para os seguintes: a drástica redução dos rendimentos disponíveis das famílias, quer pela via dos cortes salariais, quer pelo aumento de impostos directos e indirectos, com consequências dramáticas para um aumento drástico da incidência da pobreza e das desigualdades na repartição do rendimento. Por outro lado, o facto de serem os salários e as pensões dos funcionários públicos o alvo prioritário da austeridade põe em causa princípios de justiça e de estado de direito.
Acresce que estas medidas não ponderam, como se imporia, a sua respectiva incidência em outras variáveis macroeconómicas, nomeadamente o consumo e a procura interna, que tenderão a contrair-se e, por essa via, a diminuir as receitas do Estado e a concorrer para a desaceleração da actividade económica.
O argumento da inevitabilidade de cortes nos rendimentos do trabalho é, ainda, menos convincente quando, por exemplo, se verifica que ficam praticamente intocados os rendimentos de capital, que são, como se sabe, prevalecentes entre os mais ricos. [...]» (Comissão Nacional Justiça e Paz)

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quase todos, santos: livros, mercados, igrejas

por Miguel Marujo, em 01.11.11

A propósito do que será um livro menor, um secretariado da Igreja Católica emitiu uma violenta opinião sobre o dito romance. Obra de ficção, logo nas primeiras páginas plagia Dan Brown dizendo que o livro narra factos verídicos e apresenta a verdade sobre Jesus. A ficção não é a realidade, já deviam saber os escritores, mas talvez quando estes são jornalistas confundam grosseiramente as coisas e dão erros de palmatória (pondo João Paulo II no Vaticano em 1976) e pasmam-se com o óbvio (que Jesus era judeu).

 

Mas, dizia, um secretariado da Igreja (sublinho: um secretariado) veio criticar a coisa e logo uns quantos criticaram a Igreja (sublinho: a Igreja). Que não se devia meter com os livros, confundindo debate de ideias com queimas livrescas antigas, que não foram exclusivo de alguns (sublinho: alguns) na igreja. E parecendo querer cortar a cidadania da intervenção a quem, na matéria, pode e deve falar. É a mesma coisa nas coisas do sexo - a Igreja, dizem, devia ficar calada. Não se reconhece que, na igreja, haja quem possa e deva falar de sexo. É verdade que, na maior parte das vezes, quem é ouvido ou se faz ouvir é apenas um grupo de pessoas que dá uma imagem errada do que a Igreja pensa sobre o tema, esquecendo-se que a Igreja é sempre feita de muitas igrejas, até na cama. (Ámen.)

 

Depois sobra, neste dia de todos os santos, o espanto por ler em Alfredo Bruto da Costa o desassombro em dizer o óbvio: que muitos dos problemas que temos e vivemos se devem à impreparação dos patrões. O presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz (um organismo da Igreja, quase se omitindo a sua origem) clama contra uma coisa que muitos não têm coragem de verbalizar: o Orçamento que aí vem é um atentado à dignidade humana, um manifesto contra a vida. Felizmente pois que as igrejas dentro da Igreja não calam a sua voz. Pena que os bispos nesta ocasião se sumam, sem coragem de denunciar estas direitas no poder.

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