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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Novembro 19, 2011

Mentiras

Miguel Marujo

Zapatero chegou ao poder porque Espanha não perdoou ao Governo Aznar a mentira dos atentados de 11 de Março. Agora Rajoy chegará ao poder porque os mercados insistem na mentira das taxas de juro dos países europeus.

Novembro 16, 2011

Dias higiénicos

Miguel Marujo

De folgas, por motivos vários, eis que me deparo em dias sucessivos com um conjunto de afirmações que devem ser manchetes do Inimigo Público. A sério, só pode ser isso. Destaco duas, que dizem quase tudo sobre o estado das coisas.


"2012 irá certamente marcar o ano de fim da crise."

 

"A bem da Nação", a informação emitida pela RTP Internacional deve ser "filtrada" e "trabalhada" pelo Governo, defendeu João Duque, nesta terça-feira de manhã. Um tratamento que, acrescentou, "não deve ser questionado".

Novembro 15, 2011

Corredores

Miguel Marujo

O cheiro dos corredores é sempre o mesmo. À entrada da sala, onde máquinas alimentam homens, desinfectam-se as mãos. E impregna-se o odor a álcool, imagem perene dessas visitas. Hoje devia ter gostado de ver o jogo ao nosso lado, sem máquinas. Para (apesar do resultado) lamentar a equipa e recordar como eles corriam em 1966. Mas ficar contente.

Novembro 15, 2011

«Quando tínhamos dinheiro, apostaram tudo no carro. Quando falta o dinheiro, cortam tudo no transporte público.»

Miguel Marujo

«Uma família em que recebe 1.500 euros cada um. São, portanto, de classe média. Nem ricos, nem pobres. Têm dois filhos dependentes. Não vivem com desafogo mas, na miserável média nacional, são "privilegiados". Os dois filhos andam na escola.

 

Vamos esquecer que lhes aumentaram o IVA em quase todas as compras que fazem. Que um deles é funcionário público e perdeu, nos próximos anos, o 13º mês e o subsídio de férias que servia para compor o orçamento familiar. Que lhes aumentaram o IMI, que os juros ao banco para pagar a casa também estão mais altos. Que lhes congelaram os salários. Que comprar casa é agora uma impossibilidade e que têm de contar com os filhos a viverem em casa deles muito para lá do que seria saudável, porque não vão arranjar emprego minimamente seguro para assumirem qualquer compromisso nem ter outro lado onde viver. Vamos esquecer tudo isto. Vamos até imaginar que não estão com a corda na garganta.

 

Os filhos vão sozinhos para a escola. De transportes públicos, tal como os pais que, conscienciosos e poupados, não tiram o carro da sua rua nos dias de semana. É bom para a autonomia dos filhos, para a carteira dos pais e para a cidade, que assim tem menos carros a circular. É até bom para a economia, que gasta menos a importar combustível. O preço dos transportes públicos aumentou, o que fez os pais repensarem se valeria a pena continuar a fazer isto. Mas o passe social dos miúdos ainda compensa. Esta semana, ficaram a saber que o passe social dos seus filhos aumentará para o dobro. Porque são ricos. Isto de serem "ricos", com dois salários de 1.500 euros, tem sido um desastre. Nos impostos, nos serviços públicos, em tudo.

 

Os pais fizeram as contas. Com os transportes públicos caros e sem passe social para os filhos, a despesa é incomportável. Sai mais barato irem todos no carro. Levarem e trazerem os filhos à escola. Têm lhes explicado, na televisão (jornais já não podem comprar), que é uma questão de justiça social. Eles não são pobres e o Estado a quem eles entregam uma parte significativa dos seus salários é para pobres (e para os bancos). Isto apesar de saberem que os pobres viram as suas prestações sociais reduzidas e os bancos, pelo contrário, podem sempre contar com dinheiros públicos. Mas adiante. Eles tomam a decisão economicamente racional de deixar de usar os transportes coletivos. Eles e os remediados que ainda optavam por eles. Mais uns milhares de carros na cidade. A poluír. A engarrafar o tráfego. A levar, com o tempo e a energia que se perde, a uma redução da produtividade. A fazer perder tempo. A obrigar a importar mais combustível e a piorar a nossa balança comercial. A degradar as vias públicas, obrigando a maior investimento do Estado em manutenção. A encher passeios, porque não há lugar para estacionar.

 

Vamos fingir que esta família é rica. Vamos fingir que não paga impostos e que por isso não tem, como os outros, direito a algum retorno do que paga. Vamos fingir que esse País estranho de que nos falam economistas, governantes e comentadores existe mesmo e esta gente vive desafogada. Mesmo assim, as coisas são simples para esta família: vai voltar ao carro que o começo da crise, numa das poucas coisas boas que parecia ter trazido, os tinha feito abandonar no seu quotidiano. Com menos gente, os transportes públicos, que são tanto mais sustentáveis quanto mais gente os usar, são cada vez mais difíceis de manter. Cada vez mais caros. Cada vez mais escassos.

 

Os discursos sobre a justiça social, para enganar papalvos e tentar que os pobres se convençam que a destruição dos serviços públicos é feita em seu beneficio, valem de pouco para esta família. Tomam a decisão racional e pegam no carro todos os dias (assim como a razão que levou a classe média a comprar casas em vez de as alugar, contribuindo para o endividamento do País, foi a mais pura das racionalidades: era mais barato). Ficamos todos a perder. Mas ficam contentes os propagandistas do regime. E o secretário de Estado dos Transportes, que acha que transportes públicos acessíveis e com apoios públicos são apenas para "quem não tem alternativa de mobilidade" (ou seja, para quem não pode andar de carro), também. Nada como ter governantes e "ideólogos" de governantes com uma cabeça subdesenvolvida para fazer o nosso país regressar ao Terceiro Mundo. Com uma economia irracional, cidades caóticas e atrasado em quase tudo. Seremos mais competitivo assim? Eles acham que sim.

 

Eu, seguramente um alien nesta terra enlouquecida, acho que uma das formas de medir o desenvolvimento e a racionalidade económica de um País é ver a qualidade dos seus transportes públicos e a quantidade e a variedade social das pessoas que os utilizam. E que parece que não aprendemos nada sobre algumas das razões do nosso atraso, que nos tornou mais vulneráveis a esta crise. Que olhamos para este país coberto de autoestradas e quase sem linhas férreas e depois ouvimos um secretário de Estado falar do transporte público como um complemento ao transporte individual e percebemos porque estamos como estamos. Estamos atrasados porque somos governados por cabeças atrasadas. Quanto tínhamos dinheiro, apostaram tudo no carro. Quando falta o dinheiro, cortam tudo no transporte público. Com ou sem dinheiro, a receita é sempre a mesma.»



por Daniel Oliveira

Novembro 09, 2011

Este senhor de facto nunca percebeu o 25 de Abril e menos ainda a democracia

Miguel Marujo

De uma notícia na Lusa: «Hoje, Portugal está "a atingir o limite", disse [Otelo Saraiva de Carvalho], corroborando o que há seis meses dissera à Lusa: "Se soubesse o que sei hoje não teria possivelmente feito o 25 de Abril". O coronel na reserva acredita que há condições para os militares tomarem o poder e vai mais longe: "bastam 800 homens". Em comparação com o golpe de 1974 -- do qual afirma ser um "orgulhoso protagonista" --, Otelo considera que um próximo seria até mais fácil, pois "há menos quartéis, logo menos hipóteses de existirem inimigos" da revolução.»