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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Abril 22, 2011

Manifesto dos 74 Nascidos depois de 74: O Inevitável É Inviável.

Miguel Marujo

 

 

 

 

Somos cidadãos e cidadãs nascidos depois do 25 de Abril de 1974. Crescemos com a consciência de que as conquistas democráticas e os mais básicos direitos de cidadania são filhos directos desse momento histórico. Soubemos resistir ao derrotismo cínico, mesmo quando os factos pareciam querer lutar contra nós: quando o então primeiro-ministro Cavaco Silva recusava uma pensão ao capitão de Abril, Salgueiro Maia, e a concedia a torturadores da PIDE/DGS; quando um governo decidia comemorar Abril como uma «evolução», colocando o «r» no caixote de lixo da História; quando víamos figuras políticas e militares tomar a revolução do 25 de Abril como um património seu. Soubemos permanecer alinhados com a sabedoria da esperança, porque sem ela a democracia não tem alma nem futuro.

 

O momento crítico que o país atravessa tem vindo a ser aproveitado para promover uma erosão preocupante da herança material e simbólica construída em torno do 25 de Abril. Não o afirmamos por saudosismo bacoco ou por populismo de circunstância. Se não é de agora o ataque a algumas conquistas que fizeram de nós um país mais justo, mais livre e menos desigual, a ofensiva que se prepara – com a cobertura do Fundo Monetário Internacional e a acção diligente do «grande centro» ideológico – pode  significar um retrocesso sério, inédito e porventura irreversível. Entendemos, por isso, que é altura de erguermos a nossa voz. Amanhã pode ser tarde.

 

O primeiro eixo dessa ofensiva ocorre no campo do trabalho. A regressão dos direitos laborais tem caminhado a par com uma crescente precarização que invade todos os planos da vida: o emprego e o rendimento são incertos, tal como incerto se torna o local onde se reside, a possibilidade de constituir família, o futuro profissional. Como o sabem todos aqueles e aquelas que experienciam esta situação, a precariedade não rima com liberdade. Esta só existe se estiverem garantidas perspectivas mínimas de segurança laboral, um rendimento adequado, habitação condigna e a possibilidade de se acederem a dispositivos culturais e educativos. O desemprego, os falsos recibos verdes, o uso continuado e abusivo de contratos a prazo e as empresas de trabalho temporário são hoje as faces deste tempo em que o trabalho sem direitos se tornou a norma. Recentes declarações de agentes políticos e económicos já mostraram que a redução dos direitos e a retracção salarial é a rota pretendida.Em sentido inverso, estamos dispostos a lutar por um novo pacto social que trave este regresso a vínculos laborais típicos do século XIX.

 

O segundo eixo dessa ofensiva centra-se no enfraquecimento e desmantelamento do Estado social. A saúde e a educação são as duas grandes fatias do bolo público que o apetite privado busca capturar e algum caminho, ainda que na penumbra, tem sido trilhado. Sabemos que não há igualdade de oportunidades sem uma rede pública estruturada e acessível de saúde e educação, e estamos convencidos de que não há democracia sem igualdade de oportunidades. Preocupa-nos, por isso, o desinvestimento no SNS, a inexistência de uma rede de creches acessível, os problemas que enfrenta a escola pública e as desistências de frequência do ensino superior por motivos económicos. Num país com fortes bolsas de pobreza e com endémicas desigualdades, corroer direitos sociais constitucionalmente consagrados é perverter a nossa coluna vertebral democrática, e o caldo perfeito para o populismo xenófobo. Com isso, não podemos pactuar. No nosso ponto de vista,esta é a linha de fronteira que separa uma sociedade preocupada com o equilíbrio e a justiça e uma sociedade baseada numa diferença substantiva entre as elites e a restante população.

 

Por fim, o terceiro e mais inquietante eixo desta ofensiva anti-Abril assenta naimposição de uma ideia de inevitabilidade que transforma a política mais numa ratificação de escolhas já feitas do que numa disputa real em torno de projectos diferenciados. Este discurso ganhou terreno nos últimos tempos, acentuou-se bastante nas últimas semanas e tenderá a piorar com a transformação do país num protectorado do FMI. Um novo vocabulário instala-se, transformando em «credores» aqueles que lucram com a dívida, em «resgate financeiro» a imposição ainda mais acentuada de políticas de austeridade e em «consenso alargado» a vontade de ditar a priori as soluções governativas. Esta maquilhagem da língua ocupa de tal forma o terreno mediático que a própria capacidade de pensar e enunciar alternativas se encontra ofuscada.
Por isso dizemos: queremos contribuir para melhorar o país, mas recusamos ser parte de uma engrenagem de destruição de direitos e de erosão da esperança. Se nos roubarem Abril, dar-vos-emos Maio!

 

[assinam 74]

Abril 21, 2011

Jejuns

Miguel Marujo

Estes dias de semana santa, deviam-nos obrigar a cuidados redobrados. As abstinências, os jejuns dos dias de hoje não passam por comer peixe e deixar de lado o prato de carne. Aquele está mais caro do que esta. Os jejuns de hoje passam por observar um país que está entregue a três senhores que não dizem ao que vêm, limitam-se a ouvir aqueles que nos conduziram ao desastre - do Governo a uma oposição que avalizou sempre a destruição de direitos sociais, aos banqueiros e patronatos que só pedem para eles, nunca para os trabalhadores. O jejum tropeça num país que se tolera no ponto de uma quinta-feira santa, apenas celebrada para pôr os pés a andar, não para o lava-pés. O país jejua de homens e mulheres com grandeza. Nós jejuamos assim - preferindo olhar para uma pequenina lá em casa, que nos diz olá! e nos acena sorridente à saída. Pode parecer pouco para quem tem o FMI cá dentro. É muito. É uma Páscoa.

Abril 18, 2011

A triste figura dos discípulos

Miguel Marujo

«1. Há muitas maneiras de nos deixarmos alienar. Diz-se que alguns cristãos, sensíveis às acusações de alienação religiosa e decepcionados com algumas atitudes da Igreja no pós-Vaticano II, transitaram, com armas e bagagens, para a actividade política, julgando encontrar nela a salvação. De "vencidos do catolicismo" parecem, agora, vencidos da política. Segundo os Evangelhos, Jesus teria aconselhado os discípulos a distinguir essas duas áreas de intervenção: "Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus." Porque não são necessariamente incompatíveis, podem coexistir, no mesmo cidadão, sem esquizofrenia.

Tal distinção não basta para encontrar o caminho da conversão das religiões, nem o da transformação permanente das práticas políticas, expostas ambas a lamentáveis distorções.

Hoje, está na moda fazer dos políticos os bodes expiatórios de todos os nossos males, precisamente, porque transferimos, para eles, de forma mágica, a salvação do país, distraindo-nos da nossa intransferível responsabilidade cívica. Alienamo-nos, repetindo que eles não deixam espaço à sociedade civil, mas é esta que se demite da sua vocação e entrega tudo na mão dos partidos, que, por natureza, são apenas parte da acção política.

A vida em sociedade tem muitas dimensões e expressões e, por vezes, os meios de comunicação, cegos pela poeira dos acontecimentos políticos e por tudo o que corre mal, roubam, aos cidadãos, o país real, na sua complexidade. A verdade passa a ser a representação que eles nos distribuem. Por outro lado, a publicidade torna as pessoas infelizes, se não comprarem as suas propostas. Ora, é a civilização expressa nessas propostas que está falida.

 

2. Perguntam-me, muitas vezes, que pode e deve fazer a Igreja na situação actual. O que de pior poderia acontecer é que alguém fingisse que o sabe. Não faltam, aliás, na actualidade portuguesa, comissões de sábios que só aparecem depois do irremediável.

Nesta semana, proponho uma breve reflexão sobre o contraste entre Jesus e os seus discípulos.

Jesus, ao contrário de Buda, não é pela extinção do desejo, até o excita. Prega o reino do infinito amor. Exige, no entanto, a regeneração das raízes dos nossos apetites desencontrados, implicando a conversão e a hierarquização dos nossos desejos.

O Nazareno levou muito tempo a encontrar o seu próprio caminho e, quando pensava que já o tinha encontrado - foi iniciado e baptizado por João Baptista -, sentiu-se surpreendido, ao entrar em oração, por uma Voz que o fez estremecer: "Tu és o meu Filho muito amado." A partir daí, o rumo da sua existência mudou radicalmente. Não interpretou tal revelação como um privilégio, mas como uma missão que o levou a arriscar tudo: mostrar, por palavras e gestos, que o seu Deus nada tinha a ver com uma religião e uma prática social que colocava uns à mesa e outros à porta. Foi por isso que escolheu todas as más companhias, contrariando as normas religiosas e morais mais prestigiadas e aprovadas.

 

3. Não era o que os grupos dominantes esperavam. Queriam alguém que fosse um líder, um messias que, em nome de Deus, resolvesse, miraculosamente, as questões económicas, políticas e religiosas com que se debatia um povo dominado. Jesus não foi insensível a essa esperança. Há, porém, uma narrativa, na qual Jesus interpreta essas tentações como diabólicas, isto é, que o separavam do sonho que o habitava: subverter tudo aquilo que gerava a exclusão das mulheres, dos classificados como pecadores, dos doentes, dos pobres, dos estrangeiros, dos que estavam sempre a mais (Lc 4). Era o sonho infindável de reunir todos os filhos de Deus dispersos, como dirá S. João (Jo 11, 52).

Se Jesus venceu essas tentações que o acompanharam até à morte, elas eram o próprio desejo dos discípulos em luta pelo poder. Conta-se, no Evangelho de S. Marcos, que era, precisamente, essa a questão que os movia e impedia de entender o caminho do Mestre que, afinal, seguiam por equívoco. A questão azedou-se tanto que, um dia, dois foram ter com Jesus e disseram claramente ao que andavam: quando tomares conta do poder, queremos ser os primeiros da lista. Acontece que os outros dez ficaram indignados com esta jogada de antecipação. Jesus foi obrigado a uma reunião de emergência e declarou-lhes que escusavam de insistir em o desviar do seu rumo. Eram eles que tinham de mudar: aquele que quiser ser o primeiro, seja o último e ponha-se ao serviço de todos, porque ele, Jesus, também não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida por todos (Mc 4 - 10).

Calaram-se, mas não acreditaram no que ele dizia: se Deus estava com ele, tinha de ir à luta e Deus não o deixaria mal.

Esta semana é, realmente, santa pela fidelidade de Jesus. É criminosa por quem o assassinou, mediante uma farsa judicial. É, sobretudo, a semana da triste figura dos apóstolos, dos Doze, nosso retrato, quando criticamos o comportamento dos políticos e reproduzimos, no interior da Igreja, os esquemas e as atitudes que Jesus reprovou.

Para crentes ou não, as narrativas do Novo Testamento, que contam o que se passou, no Jardim das Oliveiras, na prisão e no desfecho do processo de Jesus, são a maior parábola da humanidade a que pertencemos.

Jesus era e é o ser humano com temperatura de Deus e um sonho que nem a cruz conseguiu quebrar.» 

 

Frei Bento Domingues, O.P., no Público de ontem (sem link para não assinantes)

Abril 17, 2011

Nobre barraca

Miguel Marujo

É interessante ver como Nobre passou de folclore esquerdista nas presidenciais para cidadão sério que merece encómios, visto pela direita blogosférica. A narrativa de uma semana explica-se em três linhas: no domingo passado, Passos anunciou-o como cabeça-de-lista. E futuro presidente da Assembleia da República - e o novel político diz que só assim entrará em São Bento. Uma semana depois, os laranjas têm dúvidas, mas a entourage passista sacode o capote e acha que o médico da AMI tem sido incompreendido. Eu, por mim, aguardo uma frase lapidar: que me dêem um tiro se não for indicado presidente da Assembleia da República.

Abril 15, 2011

A senhora verdade... mentiu

Miguel Marujo

A senhora verdade, a senhora que teve razão antes de tempo, a senhora que devíamos ter ouvido. Não poupam nos encómios os que dizem que Manuela Ferreira Leite é que falou verdade em 2009 na campanha e que o estúpido do eleitor português (só não é estúpido se votar em nobres neoliberais que andam aí) se deixou levar no canto socrático. Mas como se soube ontem, via Público, «para salvar Portugal de um procedimento comunitário por défices excessivos em 2003, o Governo de Durão Barroso titularizou dívidas fiscais, para receber do Citigroup, de uma só vez, a quantia de 1760 milhões de euros. Mas a ministra das Finanças Manuela Ferreira Leite nunca especificou qual seria o "preço" a pagar pelo Estado. A auditoria do Tribunal de Contas (TC) à operação de titularização, ontem divulgada, refere que, só até Fevereiro de 2010, o custo em juros e despesas de operação foi de 300 milhões de euros». [sublinhado nosso]

 

Ou seja: estamos a falar de alguém que omitiu a factura para as gerações futuras para não excedermos o défice naquele ano (onde é que ouvimos isto agora, não é?). Quando nos falam em "15 anos de socialismo", a expressão favorita à direita, devem estar a querer incluir a senhora verdade, no governo do comissário europeu e do seu ministro das fotocópias. Para falar verdade, MFL não hipotecou Portugal. Hipotecou a verdade. Por isso, não a apresentem como paladina de algo que ela nunca foi.

Abril 14, 2011

Aos amiguinhos dos alemães e dos mercados

Miguel Marujo

«Portugal had strong economic performance in the 1990s and was managing its recovery from the global recession better than several other countries in Europe, but it has come under unfair and arbitrary pressure from bond traders, speculators and credit rating analysts who, for short-sighted or ideological reasons, have now managed to drive out one democratically elected administration and potentially tie the hands of the next one.

If left unregulated, these market forces threaten to eclipse the capacity of democratic governments — perhaps even America’s — to make their own choices about taxes and spending.»

 

a ler, obrigatoriamente: Portugal’s Unnecessary Bailout, no NY Times (sublinhado nosso)

Abril 13, 2011

Assine-se!

Miguel Marujo

«Justifica-se, assim, a abertura dum inquérito para descobrir e recolher provas, que, além do mais que doutamente for considerado relevante, se sugerem para apurar:
a) a prática dos actos abusivos que são imputados às Denunciadas [agências de rating];
b) a existência de graves prejuízos produzidos nos interesses do Estado e do povo Português;
c) a identificação dos quadros directivos das ditas agências e os autores dos actos objecto desta denúncia, além das pessoas já indicadas;
d) se os benefícios obtidos pelas agências denunciadas e seus clientes foram de notória importância;
e) quais os contratos celebrados a partir de 1 de Janeiro de 2010 com as entidades participantes no mercado da dívida pública portuguesa;
f) todas as comunicações internas respeitantes às classificações referentes a Portugal, a partir de 1 de Janeiro de 2010.»

 

Aqui: A Relevância das Agências de Rating e o Risco de Abuso de Posição Dominante.