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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Janeiro 31, 2011

Peregrino

Miguel Marujo

De vez em quando, para impressionar (só pode ser para impressionar), um líder político saca da cartola uma ideia peregrina sobre transportes públicos. Não fazem ideia do que falam, nunca os frequentam, não estudam, mas resolvem mandar um bitaite. Agora foi Passos Coelho, que resolveu dizer que é um escândalo o Estado subsidiar o passe social.

Duas observações apenas: Passos Coelho alguma vez se deu ao trabalho de conhecer quem compra o passe social?! E por fim: se uma pessoa opta pelos transportes públicos, em detrimento do uso privado do carro, está a contribuir para um melhor ambiente, para uma cidade menos entupida de automóveis. Não é isto argumento suficiente para que se estabeleça um preço social para o seu passe?!

Janeiro 28, 2011

A rua

Miguel Marujo

Depois da Tunísia, o Egipto e o Iémen. E também, por motivos diversos, a Turquia. Aqueles que desdenham sempre da exportação da democracia, ou que acham que esta só lá vai com exércitos a derrubar os saddams deste mundo, agora fingem que a rua árabe explodiu contra os seus ditadores.

Janeiro 25, 2011

Coisa viva

Miguel Marujo

No próximo ano começa a adoptar-se/adotar-se o acordo ortográfico nas escolas. Hoje recebi (oferta da empresa) um livro sobre o dito, onde se ensina tudo (apesar do jornal onde escrevo ainda não assumir a nova grafia). Posto isto: voltemos à escola, que só nos faz bem. E a língua, que é coisa viva, merece.

Janeiro 24, 2011

[comovente]

Miguel Marujo

Pequenos milagres democráticos
Por Rui Tavares

...O meu pai nasceu em 1929, já em ditadura. Cresceu numa aldeia do Ribatejo, em ditadura. Veio a Guerra Civil de Espanha, havia refugiados do país vizinho pelos campos, "comiam até o musgo das paredes, com a fome que tinham" dizia-me ele de vez em quando. Depois a II Guerra Mundial, o racionamento, e as irmãs dele - minhas tias - adoeceram gravemente - "entuberculisaram", como se diz na Arrifana. O pai do meu pai morreu, e era ainda ditadura. O meu pai namorou e desfez-se o namoro, casou e teve filhos e enviuvou, e casou de novo com a primeira namorada e teve mais filhos e, em todo este tempo, era sempre, sempre, sempre a mesma ditadura.

(Talvez eu já tenha contado aqui esta história; honestamente não estou certo se o fiz ou não. Para mim é como uma oração familiar.)

Só quando o meu pai tinha já cinco filhos e quarenta e cinco anos que viu a democracia pela primeira vez. Poucos depois do 25 de abril viu em Lisboa, numa manifestação, um velhinho que chorava copiosamente num dos passeios da Almirante Reis, enquanto via a multidão subir a avenida. "Achei que já não chegava a ver este dia", disse-lhe o homem. Um ano depois o meu pai, e espero que aquele homem também, votaram pela primeira vez numas eleições livres e justas.

Hoje o meu pai é aquele velhinho. Ainda na aldeia preparamo-nos para o ritual cada vez mais frágil do voto. "Acho que desta vez ele já não consegue", diz a minha mãe, forçando-se a ser objetiva. Ele insiste uma, duas vezes: "se não votar com a mão esquerda (é canhoto) voto com a direita (com que foi ensinado a escrever)". A voz dele ficou afetada recentemente, temos dificuldade em entendê-lo.

A minha mãe vem com a minha irmã num carro, e eu trago o meu pai no meu. Na estrada para Lisboa digo-lhe em que lugares do boletim estão os candidatos. "Eu conheço a cara deles", diz-me. Já na cidade, apanhamos a minha sobrinha. Aqui há uns anos o ritual dos votos incluía um almoço de bife numa cervejaria. Hoje seria demasiada confusão para eles.

Chegamos à escola secundária onde estudaram os meus irmãos. Novo obstáculo: não trouxemos cadeira de rodas. A minha mãe, apenas um ano mais nova que o meu pai, vota imediatamente e explica o nosso problema à mesa de voto.

E em dia eleitoral opera-se momentaneamente a magia cívica. O presidente da mesa de voto indica-nos os bombeiros. Os bombeiros têm uma cadeira de rodas. Um deles vem buscar o meu pai. Trata com jovialidade, com alguma ternura até, aquele velhinho que nunca viu.

De repente o meu pai está na mesa de voto, sem sair da cadeira de rodas. Foi tão rápido aqui chegar como é lento o que se passa a seguir. Numa sala silenciosa, com todos os membros da mesa de voto, e a minha mãe, e eu, e o bombeiro a torcermos por ele, o meu pai demora uma eternidade a fazer o primeiro traço da cruz. Quando achamos que terminou, demora outra eternidade a fazer o segundo traço. Demorará mais ainda a dobrar o boletim. Ninguém se aproxima, ninguém o apressa, deixamo-lo levar o seu tempo.

Está, finalmente, feito. À saída da escola, a minha mãe diz o que sempre diz nestes dias: custou muito conquistar isto, tantos anos sem poder votar, etc. - outra oração familiar. Ela está orgulhosa. O meu pai acabou por votar com a mão direita, sabemo-lo bem, e num candidato de esquerda. Aconteça o que acontecer, valeu a pena.

Mas, sinceramente, eu gostaria de o ver repetir daqui a quinze dias.

Janeiro 23, 2011

"Vitória histórica"

Miguel Marujo

Cavaco perdeu à primeira (contra Sampaio, para quem não se lembre);
Cavaco ganhou à segunda, à tangente;
Cavaco ganhou a reeleição (a terceira vez), com a mais baixa percentagem de sempre de um presidente reeleito - não chegou aos 53 por cento.
Cavaco foi reeleito com a maior taxa de abstenção de sempre em presidenciais (53,37%).

Cavaco foi reeleito com o maior nº de sempre de votos nulos e brancos em presidenciais (1.93%+4.26%).

Uma "vitória histórica", de facto.

 

 

 

[contributo do mano]

Janeiro 23, 2011

Primeira nota

Miguel Marujo

Cavaco será eleito provavelmente com o menor de eleitores num presidente. Diz bem do estado a que isto chegou, mas diz ainda mais do que o senhor fez em cinco anos pelo país. Como ele próprio dizia, estaríamos pior se não tivesse sido. Poucos acreditaram.

Janeiro 23, 2011

Votar

Miguel Marujo

Hoje os dois inaugurámos o voto na freguesia em que vivemos. O cartão do cidadão levou-nos a subir a rua uns 20 metros para votar. À entrada, a confusão instalada, mas já íamos precavidos: um sms meu (enviado há dias) que me dava o meu novo número de eleitor e uma ida ao portal do eleitor (muito, muito lento) para saber o da M. - o sms enviado à hora de almoço para saber o dela só teve resposta às 17h28 - quatro horas depois. Posto isto: nós com acesso privilegiado em casa à net (sim, ainda é privilegiado) e telemóveis, conseguimos votar sem problemas. Os outros, os muitos outros não estão a ter tanto sucesso.

Janeiro 23, 2011

Hoje

Miguel Marujo

Hoje não se visita a tasca do Chico, por mais simpática que seja, nem se come coelho, para evitar indigestões. Guarda-se um acto nobre para campanhas de recolha de radiografias e não se tenta ser defensor de moura alguma. Mas não se passa definitivamente cavaco a um Aníbal. Posto isto, cara alegre e vote-se.

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