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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Maio 11, 2010

O direito à festa e as novas inquisições

Miguel Marujo

«Houve festa no domingo, era previsível, por causa do futebol. Voltará a haver hoje, por causa do Papa. Ainda bem: a festa é uma dimensão importante da existência. Mesmo se um certo discurso dominante quer negar, pelo menos a quem faz a festa em nome da sua fé, esse direito. Há um novo discurso inquisitorial que, hoje, se volta muitas vezes contra quem crê.

 

Muita gente se manifestou indignada por causa da tolerância de ponto concedida pelo Governo a propósito da viagem do Papa. Outros contestam os custos da visita. E argumentam com o país em crise ou com dinheiros que deveriam ser utilizados na ajuda aos pobres.

Não sou favorável à concessão de tolerância de ponto para dia 13. Quem pretende ir a Fátima, organiza normalmente a sua vida para isso. Desta vez, não teria que ser diferente. Já as tolerâncias de Lisboa e Porto são uma questão de bom senso: as duas cidades serão perturbadas, trata-se de facilitar a vida às pessoas.

Claro que poderíamos não ter cá o Papa para evitar estes aborrecimentos. Mas quantos acontecimentos extraordinários já nos perturbaram a vida? Cimeiras, um campeonato de futebol, visitas de estadistas, festejos de vencedores...

Quanto à crise: na sociedade contemporânea, o trabalho é um deus. Séculos atrás, quem não trabalhava é que estava do lado certo. Algures no meio estará a virtude? Um acontecimento como a visita do Papa, mesmo em tempos de crise, pode fazer-nos recordar que não somos feitos, como pessoas, apenas para trabalhar. Aliás, a crise e a produtividade de que o país precisa poderia levar-nos a outras conversas. Como a da incapacidade dos Governos em controlar poderes financeiros que ninguém escolheu e que são, esses sim, responsáveis pela crise que vivemos.

E sejamos justos sobre a conversa dos pobres: são muitos os católicos e as instituições da Igreja que estão onde o Estado e tantos outros críticos não estão. E é curioso ouvir o pedido de contenção de custos no país europeu que menos poupou em 2009, como soubemos na semana passada.

 

Finalmente: do que conheço do cristianismo, a multidão não é o que melhor concretiza a experiência da fé. Mas reconheço a legitimidade das pessoas poderem dar uma dimensão festiva a elementos essenciais da sua existência. Para alguns, isso não deveria acontecer. Prefiro respeitar quem o quer viver dessa forma.» [António Marujo, in Público]

Maio 10, 2010

Papados

Miguel Marujo

De um lado, os mais conservadores da Igreja que aproveitam a visita do Papa para uma papalidolatria e para fazer crer que só há uma igreja, a sua, e não várias, feitas de muitos carismas, como na realidade é. Do outro lado, uma militância antipapal que não abre espaço a qualquer diálogo porque, como os primeiros, acha que a igreja é só um rosto e não vários, esquecendo por ignorância ou omissão o papel dessas igrejas. No meio, não está a virtude, estão os papados - pelas duas extremidades. Está a vontade de que esta visita não fosse um Benfica-Porto, entre católicos e ateus, mas antes um momento único, católico e universal, de inclusão e debate franco.

Maio 06, 2010

Isto não é utopia

Miguel Marujo

Entre cá e lá, entre a casa em que se experimentam todos os dias novidades e afectos, entre o mundo que quase fica à porta, descubro que este país pode ser melhor do que é. Se não embarco no discurso dos políticos todos iguais (ou ladrões ou corruptos) ou da culpa do rendimento mínimo, como fazem o taxista e o líder do PP, também não me posso rever na prática actual em que o défice é tornado central atropelando as pessoas. Quero lá saber das agências de rating e da Grécia e do défice que Barroso impõe. Quero é que o país responda (e acabe) com os 600/700 mil desempregados, com uma pobreza que atinge cerca de 18 por cento dos portugueses e as desigualdades gritantes entre quem recebe salários (quase) mínimos e gestores de pacotilha pagos a peso de ouro. O país que a minha filha terá não se decide na comissão da TVI nem com o TGV até Madrid, mas decide-se naqueles aspectos que deviam ser o centro do debate político português.

Maio 06, 2010

Canalhice

Miguel Marujo

O Governo quer poupar milhões com tostões, atacando quem mais precisa. Repare-se: «os cortes no subsídio de desemprego que o Governo se prepara para aprovar já afectarão os beneficiários que recebem subsídios próximos dos 516 euros». Que é que isto significa? Quase nada: «a imposição de um limite para o subsíodio desemprego igual a 75 por cento da remuneração líquida fará poupar ao Estado cerca de 40 milhões de euros em 2010, ou seja, menos de 2 por cento da verba orçada para 2010». Isto é o quê? Uma canalhice, travestida de consolidação orçamental, mas cujo verdadeiro nome é um ataque neoliberal indigno de um governo PS.