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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Março 17, 2010

Noves fora nada

Miguel Marujo

Das propostas para o subsídio de desemprego, só dá vontade de rir. Invocam-se os melhores argumentos, que são estudados nas dinamarcas de um forte estado social, esquecendo-se que nesses mesmos países escandinavos o desemprego é pago (quase) a 100 por cento, logo ao início. Vamos acertar contas, então? Razão tenho eu há muito nesta casa: o discurso da flexisegurança em Portugal perde sempre a "segurança". Fica a "flexi"-tudo-menos-o-bem-estar-dos-trabalhadores.

Março 16, 2010

Lixo de referência

Miguel Marujo

A polícia portuguesa volta a matar. Claro que sim e fez muito bem, dirão os entusiastas da autoridade, por estes dias. O gajo estava a pedi-las, a fugir à operação stop num chaço mas que a PSP nunca apanharia. Mais. É preto e só podia levar droga. É menos um criminoso.

 

Não estou a inventar. Está mais ou menos tudo assim, com linguagem ainda mais colorida, na página do jornal de referência que é o Público. Mas se o jornal limpar este lixo, logo virão os senhores da autoridade dizer que é um ataque à liberdade de expressão. Como não limpa, é ele próprio veículo da imundície e do racismo. Jornalismo de referência.

Março 15, 2010

Coerências

Miguel Marujo

De Mafra, só saiu uma coisa: a lei da rolha. Sessenta dias antes de umas eleições, ninguém do PSD pode falar mal da chafarica. Compreende-se de onde vem a coisa: é a aplicação interna da suspensão da democracia, uma tese do agrado de quem sai.

Março 14, 2010

Ámen

Miguel Marujo

 

A propósito da intervenção deste senhor Fernando Costa recupero uma reportagem publicada originalmente a 7 de Julho de 2003 no PortugalDiário.

Crónica de uma missa profana

REPORTAGEM: A liturgia de um congresso social-democrata, que se confunde com Portugal. Haja fé no Partido. O jornalista esperou pela madrugada para ouvir os delegados que as televisões não mostram


«Visto lá de baixo isto parece bem mais fácil, mas daqui vê-se um Portugal inteiro.» Afinal, "isto" «não é só um congresso do PSD, é um congresso de Portugal, de portugueses para portugueses». Ninguém duvida da afirmação do jovem engravatado que fala ao "povo laranja" - e as palmas confirmam.
É, pois, uma liturgia popular a que se assiste. A segunda noite de trabalhos do conclave máximo do Partido Social-Democrata, de volta ao poder, sublinha os rituais de quem gosta do poder. E de se confundir com o poder. Que é como quem diz, de ser Portugal: «Só com o Governo social-democrata», diz-se para justificar pedidos, exigências, conquistas, sucessos, para sublinhar o óbvio: é «um congresso de Portugal».
O povo fala. «O PS é mau, primário, totalitário, incompetente», «sufoca a nossa vida», exclama um delegado de Matosinhos. Que tem uma curiosa tese sobre a democracia, para quem vive sufocado no totalitarismo: «O aperfeiçoamento da democracia só pode servir bem às ideologias que são capazes.»
O povo aplaude. «Num acto humilde e público quero agradecer a vitória ao fim de 27 anos de socialismo em Caminha», terra onde «o senhor primeiro-ministro [então Durão Barroso] e sua excelentíssima família passa férias», agradece o porta-voz dos «pescadores e agricultores humildes».
O povo lembra. «Encontrei o "Zé" do Marcelo Rebelo de Sousa, do Pedro Santana Lopes e do Durão Barroso, o "Zé" esquecido» em tempos de poder, que pediu a um delegado, Fernando Costa, para ser lembrado. «Ó Costa, dá lá uns recados, diz que este congresso está muito pacífico, que as bases é que devem falar.»
O povo engole. A custo, aplaude-se o líder popular Paulo Portas, outras vezes vaiado. Mas há quem ainda tenha dificuldades em beber do mesmo corpo e sangue: «Temos uma maioria absoluta, infelizmente com Paulo Portas.» E daí a conclusão do mesmo delegado: «Com Deus me deito, com o Diabo me levanto.»
Para não desdizer Fernando Seara, que ao PortugalDiário falava no congresso do PSD como «uma missa», muitos leram na Bíblia os sinais do futuro. «Expulse os vendilhões do templo», exortou um fiel seguidor ao seu Cristo-Durão (o mesmo Cristo invocado por Marcelo, no congresso da Feira).
Mas a missa não é sagrada. Todos falam, todos riem, mil toques de telemóvel florescem, e nem a advertência professoral de Manuela Teixeira, dirigente da Federação Nacional de Educação, convenceu os delegados: «Façam menos ruído, por favor, não gosto que outros falem quando eu falo.» As rezas em surdina continuaram.
E se Cristo não desceu à Terra, o congresso teve no palco um orador nato: Pedro Santana Lopes. E uma sala a meio gás, transfigurou-se. Cheia, silenciosa, embevecida. «Sou um homem de fé», proclamou o profeta de Lisboa. Que abençoou a cerimónia: «Assim Deus nos ajude.»
O povo debandou - para casa, para o bar, para a noite. Já ninguém ouviu as dezenas de oradores ainda inscritos. Cá fora, anuncia-se uma peça de teatro. «Últimas representações.»

Março 14, 2010

Cheirinho

Miguel Marujo

«O ministro das Finanças anunciou hoje a possibilidade de o PEC cortar nos subsídios de desemprego com o objectivo de estimular o regresso à vida activa.»

 

Pois, pois. Também concordo: no dia em que Teixeira dos Santos for para o desemprego deverá receber 60 por cento do salário, obviamente dependente do tempo dos descontos efectuados desde Outubro... Para ter um cheirinho de realidade, ou nas suas palavras, um estímulo.

Março 13, 2010

Hoje (para quem puder)

Miguel Marujo

De um convite do Tiago: «É já [hoje] que o Alfredo Abreu e o António Marujo se juntam na Igreja Baptista de S. Domingos de Benfica para conversar sobre "O Cristianismo na Boca dos Outros". Às 19h em frente ao Hospital da Cruz Vermelha Portuguesa. Vai ser uma oportunidade flagrante de reflectirmos sobre a fé dos cristãos na praça pública».

Março 12, 2010

Ou de como o bode expiatório devia ser outro*

Miguel Marujo

«(...) Dá-se o caso da quantia que se propunha pagar aos milhares de presidentes de Junta ser, mais euro menos euro, a mesma que, sozinho, um jovem sem currículo, Rui Pedro Soares, recebia como administrador da PT para tratar dos recados do PS. E para boys destes, que ninguém conhece até estalar um escândalo, em quem ninguém vota e que fazem a sua escalada profissional à sombra de boas relações partidárias, nunca faltou money.» (Daniel Oliveira)

 

 

* - sim, já aqui o disse, e repito: estranha concepção esta de um país que cura sempre o défice não aumentando os funcionários públicos durante anos, mas vai tratando com enlevo todos os senhores administradores. Haja paciência.

Março 10, 2010

PECado

Miguel Marujo

Pecado original, a do PEC que atormenta a Europa desde não sei quando. Primeiro, com Durão, tivemos de apertar, Santana alargou-se só no disparate, e com Sócrates voltou a obsessão do défice. Antes, ainda tínhamos um Presidente que nos dizia que havia vida para lá do défice, agora temos um senhor que só faz continhas e avança para Belém através da SIC. O défice desta história é outro: a função pública e a classe média que paguem a crise. Eu por mim, era mexer no défice, só depois de apostar no que é prioridade: o emprego para todos, a distribuição mais equitativa da riqueza, a taxação das mais valias. Arrumada esta casa das pessoas, aí sim podíamos dar o bombom à Europa, ao senhor que deixou um défice bem acima dos 3 por cento e que agora, qual frei Tomás, prega o rigor dos números.

Março 10, 2010

Explicar bem

Miguel Marujo

«Ao ler declarações de José Eduardo Moniz, hoje, no Parlamento, acusando José Sócrates, António Guterres e António Costa de pressões sobre a TVI, percebi finalmente o conceito de pressão: se telefona um dirigente do PSD ou do CDS, um Durão Barroso, um Paulo Portas, um Santana Lopes, trata-se de um telefonema de amigos, de correligionários políticos que exercem o seu direito a esclarecer uma qualquer notícia coxa, enviesada; mas se o telefonema é de um adversário político, de um qualquer dirigente do PS, por exemplo, o telefonema só pode ser entendido como uma pressão. Havia qualquer coisa que eu não entendia nestas denúncias de pressão sobre jornalistas. O José Eduardo Moniz hoje foi tão claro que eu, finalmente, percebi: o conceito de pressão está associado aos adversários políticos e não aos amigos políticos. Afinal é um conceito simples. Mas Manuela Moura Guedes não foi muito clara. O Moniz sim, explicou bem.»

 

Tomás Vasques, Hoje há conquilhas