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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Outubro 02, 2008

Gestor Pangloss

Miguel Marujo

22.09.2008, Rui Tavares

 

«Enganados de novo. Andámos durante estes anos a aturar os consultores da Merryl Linch, os gestores da Lehman Brothers, os génios financeiros da Goldman Sachs - para vermos, numa só semana, que nem da casa deles sabem cuidar. Quantas vezes os ouvimos dizer que tínhamos de "desregular", ou que havia controlos demasiado "rígidos" sobre o mercado, ou que não tínhamos dinheiro para pagar saúde aos cidadãos, ou a universidade aos estudantes, ou que os privados fariam melhor com as nossas pensões de reforma? Pois bem, o contribuinte americano deve estar bem lixado, neste momento, ao ver que o dinheiro que não havia para reparar pontes e diques já terá que aparecer para safar todo o sistema financeiro desregulado. E no entanto há sempre crentes. Tal como havia membros do Politburo que se felicitavam pela robustez da RDA enquanto o Muro de Berlim caía. Alberto Gonçalves, no DN, supõe que as "falências sejam sintoma do perfeito funcionamento" do sistema. António Borges continua a defender a privatização da Segurança Social, alegando que as pensões privadas nos EUA não entraram em colapso, só perderam grande parte do seu valor. E o programa de John McCain diz que o sistema de saúde deve ficar mais parecido com o sistema financeiro. A ideia é que as falências sucessivas são uma purga "natural" e que a seguir à desregulação temos de desregular mais ainda. Esta gente era capaz de viver na Idade Média e não só dizer que a peste negra era uma coisa óptima como defender que a cura era esfregar os abcessos bubónicos uns nos outros. No século XVIII, Voltaire criou o Professor Pangloss, personagem que representava o filósofo dogmático que, por mais desgraças que visse - massacres, estupros, escravidão -, dizia sempre que "tudo vai pelo melhor no melhor dos mundos possíveis". Não seria difícil recriar, hoje em dia, a personagem do gestor Pangloss ou do político Pangloss. A tua empresa faliu e foste despedido? Isso é estupendo, porque o mercado se liberta espontaneamente das ineficiências. Os bancos deram cabo do jogo? É a purga necessária após um período de exuberância. Houve gente que perdeu casas, seguros de saúde, pensões de reforma? Wunderbar! Tudo vai pelo melhor no melhor dos mundos possíveis. Estás a morrer de uma infecção generalizada? Sim, mas repara que as bactérias gozam de excelente saúde. Esta gente fala em desregulação e liberdade mas não percebe que viver sob o jugo destas empresas de sucesso é levar uma vida de regras leoninas, em letra miudinha, em que não resta liberdade alguma para o cliente, o empregado que lhes deu o tempo da sua vida ou o contribuinte que vai ter de lhes salvar o couro. Se há azar, chama--se-lhe ajustamento e espera-se que todos fiquemos saciados com a explicação. Pela mesma lógica, também o terramoto de 1755 foi só um ajustamento das placas tectónicas. Aos sofistas de mercado falta-lhes entender o que dizia Protágoras: "o Homem é a medida de todas as coisas" - para si mesmo, naturalmente. Mas é de nós mesmos que estamos a falar. O maravilhoso funcionamento da teoria fez vítimas na prática. Esta é a medida última: não o mercado, não as empresas, não o sistema financeiro - mas as pessoas.»

 

(eu sei, já tem uns dias, mas só agora cheguei à sua leitura - obrigado, Zé Filipe! - e permanece actual. e merece ser reproduzido, no dia em que o Parlamento discute a xenofobia travestida do CDS sobre a segurança, o mesmo CDS que esquece a criminalidade bem mais gravosa para o País dos Jacintos Capelos Regos desta terra...)

Outubro 01, 2008

Sem estado

Miguel Marujo

Ontem de manhã, ainda atordoado por 28 horas de viagem, ouço na rádio a crise a bater-nos estrondosamente. Um baralho de cartas a ruir. E quem chama à antena o jornalista? Nogueira Leite, economista de profissão, um dos que anda há anos nisto: a anunciarem-nos o fim do Estado social, mas a criticar agora quem não quis o Estado a ajudar Wall Street. Estes senhores têm a lição estudada: o bolso deles merece Estado, o dos pobres do rendimento mínimo, penas mais duras.

Outubro 01, 2008

Os novos navegadores (notas de viagem)

Miguel Marujo

Ok, há Ronaldo, depois Luís Figo, Rui Costa, Fernando Couto, Vitor Baía, Nuno Gomes. Assim, sem vacilar. E Deco, my favourite. O bagageiro deste hotel de Ho Chi Minh faz mais por Portugal que qualquer campanha institucional. E diz o óbvio: Deco é português, my favourite. Só os nacionalistas é que ainda não perceberam.

 

 

[Por estes dias vou contando em breves pinceladas os caminhos do Oriente por onde andei. Em palavras ou imagens. Meros apontamentos, eventuais divertimentos.]

Outubro 01, 2008

Obama, católicos, aborto

Miguel Marujo

«I believe that abortion is an unspeakable evil, yet I support Sen. Barack Obama, who is pro-choice. I do not support him because he is pro-choice, but in spite of it. Is that a proper moral choice for a committed Catholic?

As one of the inaugural members of the U.S. bishops' National Review Board on clergy sexual abuse, and as a canon lawyer, I answer with a resounding yes. [...]»

(Nicholas P. Cafardi, National Catholic Reporter)

 

- um ponto de vista interessante...

Outubro 01, 2008

Assim se vê a incoerência do PC

Miguel Marujo

Leio no projecto de teses ao Congresso do PCP: "Importante realidade do quadro internacional, nomeadamente pelo seu papel de resistência à «nova ordem» imperialista, são os países que definem como orientação e objectivo a construção duma sociedade socialista – Cuba, China, Vietname, Laos e R.D.P. da Coreia." (sublinhados meus). Acabado de chegar do Vietname, pasmo com esta afirmação do PCP. Ao pé do Governo de Hanoi, José Sócrates é um aprendiz das políticas de direita. Sem surpresa (basta olhar para a China), o Vietname acabou com um serviço educativo e um serviço de saúde gratuitos. De socialista (estragando o uso da palavra), apenas se mantém a ditadura de partido único. Os senhores das teses do PCP bem podiam estudar melhor...

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