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Ecos

por Miguel Marujo, em 06.08.08

O velho ardina já deve ter morrido há muito, e a memória esconde-me o nome. Era quem me valia ao domingo, com o quiosque da estação fechado. Não sente a cidade falta dele, mas melhor assim. Hoje, o que teria para gritar de manhã? O Comércio, Janeiro, olhó Notícias..., dizia, assim, por esta ordem, em voz estridente. O seu mundo gritado da sacola acabou.

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Um país quase imaculado (o Janeiro)

por Miguel Marujo, em 06.08.08

Raramente o li. Lá em casa, miúdo, entrava o Comércio, depois com o irmão mais velho na capital começaram a chegar o Expresso e o Diário de Lisboa, este comprado no Duarte dos Jornais aí pelas 18h/19h, quando era (ó sôr Marujo, o comboio hoje vem atrasado, e o meu Pai dizia-me, vamos dar uma volta, a fazer horas). O bichinho de contar nasceu assim, meio cozinhado entre jornais decadentes, outros regionais, paroquiais de pobres que eram. As referências, tantas vezes confundidas com reverências, viriam depois. Mas o Janeiro, por extenso O Primeiro de Janeiro, raramente o li.

 

O que não quer dizer que não sinta tão próxima a iniquidade que os seus jornalistas estão a sofrer à mão de um empresário sem rosto e sem coluna vertebral e de um grupo de alegados jornalistas que fazem o pasquim-substituto. O despedimento ilegal com subterfúgios indignos de 32 profissionais não provoca comoção à nossa direita sempre lesta a propagandear a malandrice dos rendimentos-mínimos, sem cuidar que estas fraudes empresariais são muito mais perniciosas à nossa economia.

 

Olho para as notícias, para as fotografias dos jornalistas à porta do jornal, impedidos de ali entrar, e lembro-me do mesmo suberfúgio canalha com que o Metro me despediu. Eu espero há dois anos pelo Tribunal do Trabalho. Estes camaradas começam um calvário pelos caminhos sinuosos da Justiça deste país. Para penalizar empresários canalhas, para reaverem algum pouco do muito que lhes roubaram na sexta-feira passada.

 

[mais sobre o caso lido na primeira pessoa, por Filinto Melo]

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Um país quase imaculado (do quotidiano)

por Miguel Marujo, em 05.08.08

Lembram-se da mala? Foi recuperada. A 19 de Julho, a TAP informou-me que tinha sido encontrada. Uma semana depois, a 26, só depois de uma ida ao aeroporto, é que a companhia portuguesa garantiu que a mala viria de Roma no sábado, 27. Ficou no aeroporto até 28 à noite, quando finalmente tivemos de a ir buscar, porque a Grounforce e a TAP não a conseguiam entregar num endereço a cinco minutos do aeroporto. Kafka gostaria destas duas empresas para escrever um segundo tomo de O Processo.

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Um país quase imaculado

por Miguel Marujo, em 05.08.08

04.08.2008

Rui Tavares

 

Nunca tive ilusões sobre isto: a discussão sobre quais são os povos mais ou menos racistas é no mínimo um equívoco, e nos casos extremos tão preconceituosa como o racismo. Franceses e ingleses acusam-se mutuamente de racismo. No Brasil, crê-se que há muito racismo nos EUA, mas evita-se comparar a realidade dos negros em ambos os países. E Portugal, evidentemente, considera-se naturalmente não-racista: seremos talvez uma raça superior a quem falta o gene do preconceito? Esta discussão pueril esquece duas coisas. A primeira, que o racismo pode andar na cultura e na sociedade, mas cabe ao indivíduo não ser racista. Não é coisa de povos; é responsabilidade de cada um. A segunda, que a coisa não é estática: uma comunidade profundamente racista pode deixar de sê-lo se indivíduos suficientes se forem levantando contra o racismo. Para que isso aconteça, ser não-racista é insuficiente; é mesmo preciso ser anti-racista. Também nunca tive ilusões sobre outra coisa: em Portugal, a comunidade que é vista com mais preconceito, há mais tempo e de forma mais consistente, é a dos ciganos. O preconceito anticigano agarra-se a tudo e pode fugir ao controlo. Uma sondagem no Expresso dá os ciganos como a comunidade mais detestada no país. No mesmo jornal, Miguel Sousa Tavares prega um sermão aos líderes da comunidade para que abandonem uma vida de crime e tráfico de droga. E claro: Paulo Portas logo veio sugerir que há um Portugal que trabalha para que os ciganos vivam do rendimento mínimo.

 

Neste país onde os bancos "arredondaram" os empréstimos à habitação e meteram ao bolso uma média de cinco mil euros por família, os ciganos são ladrões. Neste país onde a Operação Furacão encontrou fraude empresarial de grande escala mas não chegará a lado nenhum, os ciganos é que são os dissimulados. Neste país onde Paulo Portas ainda não explicou quem é o famoso Jacinto Leite Capelo Rego que generosamente deu dinheiro ao seu partido (nem explicou o "caso sobreiros", nem o "caso submarinos", nem o "caso casino"), os ciganos é que são os malandros. Ainda se vai descobrir que os ciganos é que raptaram Maddie ou atrapalharam as brilhantes investigações policiais. Ainda se vai descobrir que, afinal, os ciganos estão por detrás do escândalo Casa Pia. Ainda se vai descobrir que são os ciganos quem monta as empresas manhosas onde os nossos jovens licenciados trabalham a recibos verdes. Ainda se vai descobrir que os ciganos é que estacionam os nossos carros em cima dos passeios.

Mas, até lá, tenhamos sentido das proporções. Ou então chegaremos ao ponto a que agora chegou a Itália. Em Itália, todos os ciganos e apenas os ciganos (estrangeiros ou italianos, menores ou adultos, meros suspeitos ou completamente inocentes) estão a ser identificados compulsivamente pela polícia, algo que não acontecia na Europa Ocidental desde o nazismo. No outro dia, duas meninas ciganas morreram afogadas numa praia de Nápoles e os seus corpos estiveram ali expostos sem que isso incomodasse os banhistas. A Itália dá-se a este luxo: está agora obcecada com os ciganos, como se de repente os seus políticos fossem incorruptos, já não houvesse italianos mafiosos nem pilhas de lixo para apanhar nas ruas. Eu estou certo de que os italianos não são racistas; mas pelos vistos faltaram-lhes anti-racistas em número suficiente no momento certo.

 

[in Público, sublinhado nosso, texto enviado pela Shyznogud]

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A ler

por Miguel Marujo, em 04.08.08

A ler obrigatoriamente a crónica de Rui Tavares, no Público de hoje. Prometo publicar o texto na íntegra assim que o tenha.

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«Prepara-te para a volta de Jesus»

por Miguel Marujo, em 04.08.08

Depois de Scarlett, o spam do meu e-mail continua a prometer profetas.

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aqui

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Homem só

por Miguel Marujo, em 02.08.08

No viaduto da autoestrada, algures no Alentejo, o homem de braços cruzados e boné enfiado via o país passar.

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Ciclone dos Açores

por Miguel Marujo, em 02.08.08

Eu não interrompi as minhas férias para ouvir o Presidente.

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