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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Agosto 12, 2008

E se... (um país quase imaculado)

Miguel Marujo

É dos argumentos que leio até ao vómito final: se fosses tu com uma arma apontada, não dizias isso. Pois não. Repare-se: limitei-me a não tomar partido na euforia da morte de um tipo, que merecia a condenação em julgamento; e condenei uma "perseguição" muito mal explicada pela GNR.

Mas - voltemos ao início - de facto já tive uma arma apontada ao pescoço: uma naifa. Dois magalas, numa noite de Outubro de 1992, mandava Cavaco e Dias Loureiro nas polícias (dizia ele que andavam aí uns perigosos gangues de pretos, mudam-se os tempos, mudam-se as etnias). Os dois eram branquinhos, vieram por trás e agarraram-me com a faca bem encostadinha ao pescoço. Não havia negociadores nem snipers por perto, não havia ninguém aliás nas escadinhas do Lavra, e ainda hoje acho que um morador fugiu da janela.

Levaram-me a carteira com cinco contos, os documentos, ficou perdido o passe nas escadas, que levava no bolso. Ainda hoje lamento esse assalto, ainda hoje sei que nunca desejaria a morte deles. Tremi que nem varas verdes, espreitei pelo ombro durante meses...

A superioridade moral de uma democracia - sim há uma coisa assim! - é ser diferente da ditadura: por isso, um Estado democrático não pode ter uma GNR que actue como no caso do miúdo morto; nem um ministro que se excita felicíssimo pela morte de um cidadão, mesmo bandido. Guantánamo ou a barbárie ficam ao virar da esquina. A minha rua segue em frente.

Agosto 12, 2008

Tiro certeiro (a propósito de um comentário)

Miguel Marujo

Pressuposto errado, Maldonado: ao contrário do que diz, os media fazem muito alarido quando morre um polícia (e rejubilam, como rejubilaram nos últimos dias, com a morte de um ladrão). Outro detalhe: quantos polícias morrem por ano? E quantos "delinquentes" morrem com balas atiradas para o ar ou para os pneus?

Para rematar, o mais importante, aquilo que me importa ver discutido: o problema não é da autoridade do Estado Novo. Exactamente por vivermos e sermos uma democracia é que não podemos ficar contentes com estas actuações policiais. Na democracia, o poder de condenação não é do tiro certeiro, é do juiz. Na democracia, eu exijo que as polícias não se comportem como esquadrões da morte. Na democracia, eu não quero uma autoridade policial que actue como no Estado Novo. Isto é muito simples de aprender. O problema não é o alarido, o problema é a morte de uma criança de 11 anos.

Agosto 12, 2008

Tiro certeiro

Miguel Marujo

Com o país eufórico com os tiros certeiros, morre agora uma criança às mãos da GNR: os militares não têm a certeza de terem visto armas e dispararam para os pneus. A carrinha entrou aos solavancos e a maldita bala desviou-se.

 

Escusado será dizer que a populaça rejubila nos fóruns (nos comentários do Público, por exemplo). País imaculado, este. Retire-se o quase: esta gente é virgem, nunca pecou, adora atirar pedras. E balas.