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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Abril 19, 2008

Uma imagem de Portugal

Miguel Marujo

«Que Augusto Brázio é um fotógrafo fabuloso já o sabíamos. Diante da difícil prova que é fotografar um rosto ele sai quase sempre vencedor. E eu diria que é porque não o quer capturar. Mesmo próximos, os rostos mostrados por Brázio, mantêm a sua distância e reserva. Olham para nós, mas a partir do que lhes é próprio. Por isso, nunca são planos, nem banais. Porém, mesmo sabendo isso, a fotografia com que ele acaba de ganhar o prémio fotojornalismo de 2008, tirou-me, por momentos, a respiração. Sem perceber como, os olhos já estavam embaciados, e o tempo corria sem que eu tivesse coragem de passar à notícia seguinte.

A legenda da imagem diz: «O INEM presta assistência a uma mulher de 19 anos cujo terceiro filho acaba de nascer em casa. Lisboa, Fevereiro de 2007». «A mulher de 19 anos» é uma rapariga de um dos bairros pobres da capital, estendida numa maca de ambulância, a cabeça reclinada ao lado direito, presa a uma máscara de oxigénio, enquanto abraça com delicada firmeza o seu recém-nascido. Ela tem uma camisola ou um roupão rosa e o filho está (como o Outro Filho, de que reza a história) «envolto em panos», de cor azul.

Quem já contemplou uma «Madona con il Bambino», de Rafael, Boticelli ou de qualquer um dos grandes mestres já viu tudo o que aqui tem diante dos olhos. O mesmo grito impávido, um inenarrável desamparo, o mesmo abraço fragilíssimo e poderoso àquele que gerou. E a certeza de que nenhuma história é mais humana e mais sagrada do que esta. Mas, nem por isso, perante esta fotografia nos deixa de sobrevir uma vontade de chorar.

Portugal é um país estranho. As estatísticas dizem que o número de pobres não deixa de crescer, e o desnível económico entre os grupos sociais é um dos mais altos entre os países da Comunidade. As notícias sobre compensações e reformas milionárias chocam-nos cada vez mais remotamente. A euforia de um liberalismo arcaico, travestido de modernidade, aparece como receituário. E a inconsciência social ganha espaço como se fosse uma fatalidade. A imagem de Augusto Brázio vale por milhares de palavras.»

José Tolentino Mendonça

Editorial da Agência Ecclesia on-line

Abril 18, 2008

Next Life' by Woody Allen

Miguel Marujo

In my next life I want to live my life backwards. You Start out dead and get that out of the way. Then you wake up in an old people's home feeling better every day. You get kicked out for being too healthy, go collect your pension, and then when you start work, you get a gold watch and a party on your first day. You work for 40 years until you're young enough to enjoy your retirement. You party, drink alcohol, and are generally promiscuous, then you are ready for high school. You then go to primary school, you become a kid, you play. You have no responsibilities, you become a baby until you are born. And then you spend your last 9 months floating in luxurious spa like conditions with central heating and room service on tap, larger quarters every day and then Voila! You finish off as an orgasm! I rest my case.

[obrigado ao Z.]

Abril 18, 2008

Intempérie

Miguel Marujo

Menezes contabilizou: desde o primeiro dia, a primeira hora, que lhe atiraram pedras. Mas o rapaz devia saber que quem atirou a primeira pedra foi ele - desde a primeira hora, o primeiro dia -, a Marques Mendes. E o pecador devia abster-se agora de o fazer.

Abril 17, 2008

A democracia explicada pelo sr. Silva

Miguel Marujo

«No seu próximo mandato virei aqui dar conta da plantação que irei fazer com as sementes que levo daqui de Laurissilva», disse Cavaco Silva, sorridente, a Alberto João Jardim, ao que este replicou: «Mas vai haver outro mandato? Onde?». [in PD]

Abril 17, 2008

Mais cabelo

Miguel Marujo

«'IL CAVALIERE' VOLTA A MONTAR. Berlusconi, parte III. A Itália vai mal por causa da metade que se revê nele desde 1994 - e por causa da outra metade que quando lá está também faz maus governos. A Itália política são duas metades incompetentes que se diferenciam na maquilhagem: Berlusconi tem-na, exagerada; a esquerda não a põe, para dizer que existe. Com a volta de Berlusconi não faltará circo. Ou ele, com os dedos, põe cornos num colega europeu, em foto de cimeira, ou ele se vira publicamente para o eurocrata Javier Solana e lhe diz: "És alto-representante porquê, se tens a minha altura?" Com Il Cavaliere não falta o riso. Falta é a rima, o siso, como já se voltou a ver, agora, acabadinho de ser eleito. Berlusconi telefonou a Zapatero, admoestando o espanhol por pôr tanta mulher no Governo. Não que o italiano não aprecie inovações, aprecia. Será o primeiro político que, ao repetir o juramento para presidente do Conselho, levará mais cabelo do que da vez precedente.» [Ferreira Fernandes]

Abril 16, 2008

Raios e trovoadas

Miguel Marujo

Quando não há nada para dizer fala-se do tempo. Entramos no autocarro ou no elevador ou no táxi, e - desbloqueador de conversa - queixamo-nos da chuva ou do calor. Cavaco na Madeira, ontem, disse que estava um dia perfeito e que o Presidente levou a bonança. Para o táxi, não está mal, para um Presidente da República é pouco, mas para este Presidente, é típico. O senhor Silva não gosta de ondas, nem de enfrentar o mau tempo, e depois dá nisto.

Abril 15, 2008

Ricochete

Miguel Marujo

A direita que questionou e detestou o voto popular em Espanha (especialmente no 14 de Março de 2004) agora vem perguntar se alguém por cá se vai queixar dos votos em Itália. Não, , nós não amuamos com os votos dos italianos. Mas assustamo-nos com estes regressos. Salvíficos, mas sempre apocalípticos, como também se vê com o PSD-PP destes últimos dias.

[actualize-se: Pedro-o-inominável-Lopes diz que é impressionante a vitória de Berlusconi. Deve ter-se olhado ao espelho a imaginar-se numa manhã de regresso... O pior, para ele, é que ele Santana não tem 3 canais de televisão e os portugueses têm mais memória que o PSD.]