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Justiça fora nada

por Miguel Marujo, em 03.02.07
Cavaco indultou um empresário foragido, condenado a outras penas. Um juiz, sob anonimato, disse não compreender «quais as razões para que um indivíduo sem escrúpulos, que se furtou ao cumprimento de qualquer pena evadindo-se do país, tenha sido beneficiado com uma medida de perdão excepcional». Fosse Soares ou Sampaio e tínhamos a direita trauliteira de portas e melos a pedir a revisão destas medidas. Cavaco terá achado que um empresário merece segunda oportunidade. Ah, anteontem foi recusado um indulto a um certo sargento.

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Perder pontos

por Miguel Marujo, em 03.02.07
«O objectivo era conquistar os três pontos e sabemos que perdemos dois.» Fernando Santos, treinador do Benfica, e não estava a falar do que tem sido a lei do aborto em Portugal.

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Quiz

por Miguel Marujo, em 03.02.07
Haja pasto para a canalhice.

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Adivinhar os silêncios

por Miguel Marujo, em 02.02.07

O Grande Silêncio

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Desmazelo

por Miguel Marujo, em 02.02.07
Lisboa maltratada, também no uso do português.

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Negócios da China

por Miguel Marujo, em 02.02.07
José Sócrates na China falou pouco de direitos humanos. Manuel Pinho falou por ele: lembrou como todos os dias se violam os direitos de milhares de trabalhadores (portugueses) que pagam por um el-dorado europeu que teima em não existir na realidade.

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Condição humana

por Miguel Marujo, em 02.02.07
Ontem à noite terminei de ler «Baía dos Tigres» (sim, só agora). Livro que merece demora, estilhaços de vida que não se podiam roubar todas as noites, pausas forçadas e longas para retomar os caminhos difíceis de uma viagem fascinante, dilacerada. Ontem também escolhi nova leitura, fui buscá-la à estante, apesar dos outros quatro livros que preenchiam aquelas pausas repousarem ali ao lado da cama: «Prosa completa», de Woody Allen (ed. Gradiva/Produções Fictícias). Só na aparência me vou meter em coisa mais leve, já o sei.

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Lembrar o essencial:Nem mais, nem menos

por Miguel Marujo, em 01.02.07
[Retomo aqui o texto «Nem mais, nem menos», do passado domingo, 29/1/07, no Público, do frei Bento Domingues, O.P.. Para não esquecermos o essencial.]


1. Eu incompetente me confesso para dizer aquilo que a sociedade civil – as famílias, as associações, as empresas, as escolas, as igrejas, os meios de comunicação social, os clubes, etc. –, assim como as diferentes expressões e poderes do Estado, deve fazer para criar um ambiente cultural, social, político e espiritual que estimule a alegria de ter filhos e de os educar com gosto. Eu incompetente me confesso para informar como é que isto seria possível, embora saiba que, enquanto ter filhos for um pesadelo, não adianta pensar muito no aumento da natalidade. O sacrifício pelo sacrifício é uma doença. Só o sacrifício que é fruto do amor possível é fonte de coragem. Mas é um exagero pedir às pessoas que desejam filhos viverem em permanente estado de heroicidade. Não adianta queixar-se da cultura hedonista pela falta de generosidade. Quando as empresas e as organizações, através de sofisticada publicidade, incitam aos prazeres mais imediatos e indeferíveis – casas de sonho, carros de sonho, férias de sonho –, teremos uma minoria regalada e a maioria acumulando desejos e decepções e adiando sempre, por estas e por outras razões, a altura para ter descendentes. Mas também incompetente me confesso para desenhar ou sugerir um modelo capaz de configurar uma outra sociedade viável.

2. Eu incompetente me confesso para sustentar que a hierarquia da Igreja fez bem ao entregar, apenas, às leis da natureza a regulação da natalidade: “A continência periódica, os métodos de regulação dos nascimentos baseados na auto-observação e no recurso aos períodos infecundos são conformes aos critérios objectivos da moralidade. Estes métodos respeitam o corpo dos esposos, estimulam a ternura entre eles e favorecem a educação de uma liberdade autêntica. Em contrapartida, é intrinsecamente má qualquer acção que, quer em previsão do acto conjugal, quer durante a sua realização, quer no desenrolar das suas consequências naturais, se proponha, como fim ou como meio, tornar impossível a procriação” (1). João Paulo II repetiu até à saciedade esta herança: “As duas dimensões da união conjugal, a unitiva e a procriadora, não podem ser separadas artificialmente sem atentar contra a verdade íntima do próprio acto conjugal. (...) A Igreja ensina a verdade moral acerca da paternidade e da maternidade responsável, defendendo-a das visões e tendências erróneas, hoje, difusas.” Está muito consciente de que o Episcopado em união com o Papa é acusado de ser insensível à gravidade dos problemas actuais, de perder popularidade e ver os fiéis a afastarem-se cada vez mais da Igreja (2). Desde 1968, sobretudo por causa desta atitude perante os métodos contraceptivos, ouvimos com frequência um certo tipo de expressões: “sou católico, mas não sou praticante”; “deixei de ser católico ou não posso continuar a dizer-me católico, embora adira aos seus valores”; “Cristo sim, Igreja não”. Mas também há muitos que se guiam pela sua própria consciência, que resistem, digam ou não, “nós também somos Igreja”.

3. João Paulo II, na encíclica Evangelho da Vida (n.° 73), é peremptório: “O aborto e a eutanásia são crimes que nenhuma lei humana pode pretender legitimar. (...) Portanto, no caso de uma lei intrinsecamente injusta, como aquela que admite o aborto e a eutanásia, nunca é licito conformar-se com ela.” Parece-me que um Papa que estivesse de acordo com o aborto ou com a eutanásia devia pedir a sua demissão. No entanto, eu incompetente me confesso para, sob o ponto de vista jurídico, julgar se o Estado tem ou não direito a fazer leis que permitem o aborto. É saudável, é normal que a lei de um Estado laico não tenha que estabelecer o que é bem e o que é mal sob o ponto de vista religioso. Não desejaria ver os Estados europeus a adoptarem regimes equivalentes aos da Arábia Saudita ou do Irão: o Estado e a sociedade regidos pela lei ou pela ética religiosas. É por isso que talvez não seja um absurdo perguntar aos cidadãos, como agora, em Portugal, no referendo, se se deve responder “sim” ou “não” à despenalização da interrupção da gravidez, em estabelecimento de saúde, nas primeiras dez semanas, realizado a pedido da mulher. Não se trata de saber quem é e quem não é pelo aborto, neste prazo e nestas condições, mas quem é ou não pela penalização da mulher que aborta neste prazo e nestas condições. E inevitável a pergunta: dentro das dez semanas, já existe vida humana, ser humano ou pessoa humana? Sobre o que é a vida, sobre o que é vida humana, sobre o que é pessoa, as linguagens do senso comum, das ciências, das filosofias e das religiões não são coincidentes. E, no interior de cada um desses ramos do conhecimento, o debate não está encerrado. Para o padre Anselmo Borges, professor de Filosofia na Universidade de Coimbra, “a gestação é um processo contínuo até ao nascimento. Há, no entanto, alguns “marcos” que não devem ser ignorados. (...) Antes da décima semana, não é claro que o processo de constituição de um novo ser humano esteja concluído. De qualquer modo, não se pode chamar homicídio, sem mais, à interrupção da gravidez levada a cabo nesse período” (3). A embriologia expressa no boneco chinês é uma pura fraude e uma obscenidade. Parece-me exorbitante ameaçar os católicos que votem “sim” com a excomunhão. Comparar o aborto ao terrorismo é fazer das mulheres aliadas da Al-Qaeda. A retórica deve ter limites. Creio que é compatível o voto na despenalização e ser – por pensamentos, palavras e obras – pela cultura da vida em todas as circunstâncias e contra o aborto. O “sim” à despenalização da interrupção voluntária da gravidez, dentro das dez semanas, é contra o sofrimento das mulheres redobrado com a sua criminalização. Não pode ser confundido com a apologia da cultura da morte, da cultura do aborto, embora haja sempre doidos e doidas para tudo. Eu, agora, competente me confesso para afirmar: quando, em Portugal, o aborto for obrigatório, abandono o país. Nem mais, nem menos.

(1) Catecismo da Igreja Católica, n.° 2370, citando a Humanae vitae, 14: AAS 60 (1968), 490.
(2) Carta às Famílias, n.° 12.
(3) DN, 21/01/2007. Sobre esta questão, cf. Miguel Oliveira da Silva, Ciência, Religião e Bioética no início da vida, Lisboa, Caminho, 2006, pp. 53-85.

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Nota

por Miguel Marujo, em 01.02.07
Lisboa é um mundo de vários mundos.

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