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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Fevereiro 24, 2007

Saber mais de gente assim

Miguel Marujo

«[...] Contam-se os centímetros, as barras de ferro, as baratas que nos entram pela grade. O frio. O grito de noites mal dormidas que nos distinguem dos cem metros que nos separam daquela rua mesmo ali à nossa frente. A ausência de poetas. A anulação de pensamentos positivos. O sentir que podemos ser alguma coisa.
Por vezes, somam-se ilusões. Acumulam-se fundos nas esperanças retardadas que os tribunais teimam em prolongar e uma nudez que não tememos em mostrar. [...]», in Memórias do Cárcere.

Fevereiro 23, 2007

Filho da terra

Miguel Marujo

José Afonso nasceu em Aveiro, quase acidentalmente - mas é de lá. Para ajudar ao adágio de que "nenhum profeta é bem recebido na sua terra", a cidade que o viu nascer sempre o tratou mal (uma rua com o seu nome só ao fim de muitos anos mereceu a anuência do CDS e PSD locais, e só depois de Sá Carneiro e Amaro da Costa serem assim homenageados). Hoje, 20 anos depois da morte, quem ignora o acontecimento, quem esquece o filho da terra? Aveiro.

Fevereiro 23, 2007

Zeca. 20 anos depois. Ouvir, ouvir, ouvir, ler, ler, ler...

Miguel Marujo

Ouça-se:
A mulher da erva

Leia-se:

Velha da terra morena
Pensa que é já lua cheia
Vela que a onda condena
Feita em pedaços na areia

Saia rota subindo a estrada
Inda a noite rompendo vem
A mulher pega na braçada
De erva fresca supremo bem

Canta a rola numa ramada
Pela estrada vai a mulher
Meu senhor nesta caminhada
Nem m'alembra do amanhecer

Há quem viva sem dar por nada
Há quem morra sem tal saber
Velha ardida velha queimada
Vende a fruta se queres comer

À noitinha a mulher alcança
Quem lhe compra do seu manjar
Para dar à cabrinha mansa
Erva fresca da cor do mar

Na calçada uma mancha negra
Cobriu tudo e ali ficou
Anda, velha da saia preta
Flor que ao vento no chão tombou

No Inverno terás fartura
Da erva fora supremo bem
Canta rola tua amargura
Manhã moça... nunca mais vem

[O meu amigo António escreve-me esta manhã: «Se eu tivesse um blogue, hoje postava a “Mulher da Erva” para a malta ouvir...» E manda-me o link. Pode lá haver melhor saudação! Obrigado.]