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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Outubro 09, 2006

No quintal do Kim

Miguel Marujo

A Coreia do Norte realizou um ensaio nuclear. O mundo estremeceu, e bem. Mas o que se segue? Uma invasão do território, em busca de verdadeiras armas de destruição maciça? Ou o estrangulamento de todos os canais de alimentação deste verdadeiro programa nuclear? [Acaso seremos ingénuos para achar que os norte-coreanos têm tudo no seu rectângulo e não precisam de estarem a receber produtos e materiais e recursos humanos para desenvolver estes ensaios?!]
Por mim, a diplomacia oriental milenar deve ser posta em marcha acelerada. E evitar que o ranger do Texas decida ir brincar aos cowboys para o quintal do Kim.

Outubro 09, 2006

Sonhar

Miguel Marujo

Num jogo de palavras: o que se pode transportar num vagão de mercadorias?, pergunta o pai de L.. O miúdo responde: Nuvens!

Outubro 08, 2006

Interrupção voluntária do diálogo[debates destes dias II]

Miguel Marujo

[nota prévia:
quando se reacendem velhos debates recupero textos antigos meus para dizer ao que venho... agora, o aborto, que já aqui falámos.]

Há um debate por fazer na sociedade portuguesa - o do aborto. Longe do soundbyte que foram os momentos legislativos e o referendo de 1998. [Antes que a poeira volte a soltar-se], retomo esta questão [...].
A interrupção voluntária de diálogo joga-se entre a barriga em que só a mulher manda e uma concepção da vida que, no limite, pode excluir outras vidas. Não parece nunca haver um caminho diverso destes que opte, serenamente, por encontrar uma tábua de compromisso - necessária e desejável. Quanto a mim, não é contraditório afirmarmo-nos «pela vida» e simultaneamente procurar-desejar-conseguir a despenalização da mulher.
Explico melhor a recusa da habitual "dicotomia" que tem prevalecido nas discussões sobre o aborto. Recuso a ideia de que é [apenas] a mulher quem manda na sua "barriga". Com este argumento, há uma desresponsabilização séria do papel do homem na vida a dois. Já bastam as situações em que deliberadamente o homem foge a essas responsabilidades. Mas também não entendo o carácter categórico com que se defende a vida nestas paragens e se desdenha dela em situações concretas de todos os dias.
A pobreza extrema é tolerada, a pena de morte eventualmente aceitável, aquela raça de ciganos e pretos roubam-nos tudo: posso estar a ser injusto, mas já ouvi às pessoas cheias de boas intenções este tipo de afirmações. A Igreja Católica é, pois, bem mais afirmativa "nesta" defesa da vida do que em outros momentos, que nos exigem (também) muito.
Não é fácil procurar um terceiro caminho. Na via legal - aquela onde acaba por se jogar a discussão do aborto - tivemos [...] uma proposta que, pelo menos, tentou estabelecer pontes. O insuspeito Diogo Freitas do Amaral, antigo dirigente do CDS e professor de Direito, procurou «despenalizar a mulher que aborta sem descriminalizar o aborto», em dois artigos publicados em Fevereiro e Março [de 2004], na revista Visão [não disponíveis na internet].
Recordo alguns aspectos essenciais dessa proposta, por eventualmente ser desconhecida dos meus ocasionais leitores: para o jurista bastará acrescentar uma nova disposição ao artigo 142º do Código Penal («Que já se intitula - imagine-se! - "interrupção da gravidez não punível"», ironiza o próprio), com uma redacção aproximada a isto: «A interrupção voluntária da gravidez praticada, a pedido da mulher grávida, fora dos casos previstos neste artigo, e até às 12 semanas de gravidez, presumir-se-á ocorrida em estado de necessidade desculpante, com dispensa da pena, salvo se o Ministério Público apresentar prova concludente em contrário».Permitam-me ainda duas pinceladas mais para melhor compreender o enquadramento deste possível debate. Francisco Louçã, do Bloco de Esquerda (partido que defende a legalização), na altura, reagiu dizendo que «a diferença é, a partir desta proposta, já muito curta, entre o que propomos e o que diz o professor Freitas do Amaral. Mas temos condições para ir mais longe». O mais longe de uns pode não ser o de outros, mas como então alertava Freitas, o país só tem «a perder», se se mantiver o «método "ou tudo ou nada" (que até aqui tem sido utilizado de ambos os lados)». E defendia o «método da busca do "consenso possível"». Vamos retomar o diálogo?

[E para se perceber que os católicos não se abstêm de pensar diferente, eis outra perspectiva sobre o tema: «Teólogo católico diz que aborto não é sempre homicídio».]


[texto originalmente publicado na Terra da Alegria, a 2 de Junho de 2004.]

Outubro 07, 2006

Espesso

Miguel Marujo

Não se assuste o incauto ou ocasional leitor. Por ser sábado, e por termos texto longo já a seguir, não estamos a concorrer com o Expresso e o Sol.

Outubro 07, 2006

Romper os muros do clube[debates destes dias I]

Miguel Marujo

[nota prévia:
agora que se reacendem velhos debates recupero textos antigos meus para dizer ao que venho... hoje, sobre a Turquia, antes que o Papa lá vá.]


Os mapas enganam: a velha Europa rejuvenesce por estes dias. De Talin a Lisboa, o sonho desenhado por gestos e palavras de João Paulo II e (depois) Mikhail Gorbatchov, é uma realidade única – mas diversa.
Os quadros enganam: esta nova Europa toma ares de velha, quando olhamos os números de frias maiorias. Entre a quase unanimidade de Malta (98 por cento de católicos romanos) ou da Polónia de Karol Wojtila (95 por cento) e a “estranha” paridade checa entre ateus (39,8) e católicos romanos (39,2, mais 7,6 por cento de outras denominações cristãs), há uma pertença prática ou apenas estatística que permanece de matriz judaico-cristã: 60,3 por cento de católicos (mais 12,5 por cento de outros cristãos) na Eslováquia; 70,8 por cento também de católicos na Eslovénia; 78 por cento de luteranos (mais 19 por cento de ortodoxos) na Estónia; 67,5 por cento de católicos (e 25 por cento de calvinistas e luteranos) na Hungria; 79 por cento de católicos romanos na Lituânia, e números não determinados na Letónia mas que apontarão para uma maioria clara de crentes cristãos.
Quase fora deste mapa, a República do Chipre tem 78 por cento de cristãos gregos ortodoxos e 18 por cento de muçulmanos. A ilha dividida do Mediterrâneo pode ser a última fronteira, mas o muro permanece por derrubar. A escassos 75 quilómetros da costa cipriota, está outro “obstáculo” a uma Europa ainda mais rica na sua diversidade: a Turquia.
Que podem significar estes jogos geoestratégicos ou de soma das partes “religiosas” [...]? Tudo: no diálogo interconfessional reside o maior desafio das igrejas. Aos profetas do Mal que proclamam este novo século como o do terror, a resposta tem de ser outra. Necessariamente, a do diálogo, das pontes que se fazem, dos muros que se derrubam.
Daí o regresso à Turquia. A porta do Oriente e do diálogo com o mundo muçulmano deve ser um desejado parceiro europeu, de pleno direito na União Europeia. Não escondo algum incómodo naquela democracia musculada, com uma tutela abusiva dos militares e constantes atropelos de direitos humanos básicos. Mas – por acreditar que «todos nós somos verdadeiramente responsáveis por todos» (João Paulo II, Sollicitudo Rei Socialis) – julgo que uma Turquia na União Europeia poderá ser uma forte machadada no fundamentalismo islâmico e na defesa da laicidade no mundo muçulmano. E representará um passo seguro para democratizar o país (como foi, a outra escala, com a Grécia, Portugal e Espanha).
Aqui é que a velha Europa torce as ideias: são de uma direita dita cristã os principais críticos e opositores à integração da Turquia na UE. Por temores otomanos, aqui d’el Rei, que se defenda o Papa e a cristandade. O absurdo deste medo inscreve-se na defesa de uma Europa com vocação de «clube cristão», na expressão de Helmut Kohl. Só que a vocação universal do cristianismo é a da inclusão, não da exclusão. Uma Turquia “europeia” não pode nunca significar uma tentativa (tentação) de a cristianizar, para pertencer ao clube. A única “cruzada” (chamemos-lhe assim, para alguns perceberem) admissível é outra – a da democracia, dos direitos humanos, da laicidade, da liberdade. E isto conquista-se pelo respeito da diferença, por uma Turquia muçulmana a romper os muros de abençoados clubes cristãos.
Dados estatísticos: in Atlas da Nova Europa, revista Visão, 29 de Abril de 2004.
[texto original publicado na Terra da Alegria, a 5 de Maio de 2004.]