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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Março 22, 2006

OPA Dei

Miguel Marujo

Francisco de Assis não teria dificuldades em viver como viveu no mundo de hoje. Talvez não se despojasse dos bens familiares e preferisse antes despir o fato e gravata, vender o carro e caminhar em direcção às azinhagas de besouros deste país ou para os prédios esconsos e inacabados das cidades onde dormem ao relento gisbertas e zés e marias e vanessas (também o vejo, noutra latitude, nas barricadas da Sorbonne).

Paulo Teixeira Pinto é católico. Escreve-o à mão cheia, inscreve-o nos retratos que autoriza de si na imprensa, di-lo nas entrevistas em que lhe pedem algo mais que um comentário ao mercado. Mas no resto, desculpem-me a tirada, é pouco católico. Ao anunciar a intenção de despedir três mil pessoas, se for bem sucedido na OPA que lançou contra a BPI, mostra PTP como de boas intenções se enche rapidamente o inferno e a terra.

Acredito que seja complicado a um empresário ou a um banqueiro (até mesmo a um simples assalariado, caramba) ser-se católico no mundo. Pede-se ao empresário que não despeça, nem ninguém pede, nem os associados da mui reverente Associação Cristã de Empresários e Gestores de Empresas, que sejam bons samaritanos. Ao banqueiro, pede-se que dê dinheiro, não que distribua bodos aos pobres.

Estas duas linhas de argumentação é que me parecem falhas de razão: o bom samaritano devia ser um exemplo de seriedade no relacionamento entre todos - o aceitar e cuidar o Outro, não numa perspectiva assistencialista, como à partida a parábola parece indicar: o "bodo ao pobre" não é, igualmente, assistencialista; mas obriga a uma justa partilha dos bens, o que não acontece no BCP de Teixeira Pinto, no qual os administradores do banco absorveram em 2005 quase 87% do total pago pelo banco em remunerações a todos os seus trabalhadores.

Chamem-me simplista, mas num país onde o fosso entre ricos e pobres aumenta, não posso deixar de assinalar comportamentos menos católicos. O desemprego e a pobreza são pecados quando mantidos e promovidos por quem se diz católico. E se não cultivo qualqur superioridade dos católicos, julgo que a responsabilidade social de um crente está intimimamente ligada à sua condição de fé. Dizer isto é dizer que é intolerável perpetuar estes mecanismos de injustiça. Já o disseram tantos, de formas tão mais bonitas e veementes, como D. Hélder da Câmara, frei Leonardo Boff ou João Paulo II. Eu assino por baixo.


[Publicado originalmente hoje na Terra da Alegria, onde há outros três textos bem mais interessantes. texto inspirado numa outra diatribe do Luis Raínha, no "Aspirina B"]

Março 22, 2006

Obélix tinha razão

Miguel Marujo

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O Governo Villepin quer garantir que lojas online ou produtos, como o iTunes e o iPod, não guardem para si o segredo da sua tecnologia e os seus utilizadores não fiquem "reféns" de um determinado formato protegido. É coerente com o famoso CPE: as empresas também não devem reter os jovens num formato tão rígido, como um contrato de trabalho que não permite despedimentos sem justa causa. As lojas do iTunes podem deixar de vender em França, com estas regras; os jovens dos CPE são software compatível em todos os formatos - despedimentos, precariedade, instabilidade, desigualdade, liberalismos. E só temem que o céu lhes caia em cima.