Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Fevereiro 23, 2006

Da Silva

Miguel Marujo

Falam, falam, falam, mas depois calam-se todos. Já não há debate, já não há inflamadas vozes. A agenda exige agora outra atenção. Quem disse que o mundo está perigoso? Não, não está. Está é preguiçoso: manda-se uma atoarda, berra-se alto e depois arruma-se tudo na gaveta — uns com Fátima e futebol, outros com fado e jaquinzinhos. O mundo esse segue. E nós aqui contentinhos da silva.

Fevereiro 22, 2006

Da superioridade das civilizações

Miguel Marujo

lambarena.JPG

Por causa de uns cartoons, houve quem sublinhasse a superioridade da civilização europeia e ocidental. Nestas alturas, começo à procura de exemplos dessa superioridade — são muitos dizem-me e quase me convenço: o tratamento às mulheres, a perseguição política e religiosa, as ditaduras, a pobreza classista. Mas será assim? Recordo-me de um filme, "Al-Massir" (O Destino), que já, em 1997, nos colocava questões de hoje, de amanhã, a partir do confronto de ideias entre moderados e radicais nos califados andaluzes do... século XII. Já então o confronto de civilizações, com guerras e superioridades, se desenhava nos céus da Europa.


Deixem-me blasfemar: Bach, Johann Sebastian, é tido como o compositor de todos os tempos. Mas quando escuto o seu "Prélude de la Partita pur Violon nº 3" precedido de "Pepa Nzac Gnon Ma", vacilo. Estou a meter no mesmo saco, Bach e um tema tradicional gabonês, interpretado por Elugu Ayong?! Pois, estou. Na música, descobrimos, desarmados perante o Belo, que é impossível ser-se superior: Bach desenha uma melodia que se entrelaça na perfeição com os sons da selva africana: vozes, percussões, violoncelo, música, beleza. Sem concessões, Bach e a dança do povo Fang, do Norte do Gabão, derrotam os discursos das falsas superioridades civilizacionais.

Este é um exemplo, de outros, que se escutam no álbum "Lambarena — Bach to Africa" (edição de 1995, que agora volta a ser publicitada, sem motivo aparente), onde se recorda o espírito de Albert Schweitzer, médico alemão que viveu e trabalhou no Gabão, no coração de África, um apaixonado de Bach. Diz-se na contracapa: "Pela exaltação, a regra encontra o ritmo. Pela exaltação, o ritmo encontra a regra. Em Lambaréné, Albert Schweitzer realizou o encontro da Europa e de África pela música."

Blasfemo, para puristas de música clássica — e do politicamente correcto destes dias: o que neste disco se desenha não é da superioridade das civilizações. É da superioridade da alteridade, da descoberta do Outro, a vitória da civilização do Amor. Mas isto não é música que se queira para estes dias.

[publicado hoje originalmente na Terra da Alegria]

Fevereiro 21, 2006

O Sindicato

Miguel Marujo

1. Sou sindicalizado. No único Sindicato que os jornalistas têm: 1 por cento do meu ordenado é descontado para um sindicato que me representa - liricamente, insisto na possibilidade de contar com apoio jurídico em tempos aziagos para os trabalhadores, face aos poderes das empresas do meio; realmente, pouco ganho, nem a revista a que supostamente tenho direito (insistem que a enviam em "resma" para a TVI e que se perderá algures entre os corredores da redacção colorida da estação e do forno que é a do Metro).
2. No Sindicato que me representa, participei mais activamente no arranque de um suposto núcleo de jornalistas online. Na altura, propunha-nos o Sindicato de Jornalistas um estatuto do jornalista deste meio novo, em que se pretendia vigiar a actividade dos profissionais, para evitar que qualquer site fosse jornal. Escusado será dizer que de intenções estão os documentos cheios: a proposta era suficientemente inadequada às realidades e, no quadro apresentado, eu teria de ser "estagiário" uns dois anos (e as empresas esfregariam as mãos de contente). Hoje, fora do meio online, afastei-me: pago a quota, não recebo a revista e confiro no e-mail a newsletter diária.
3. Do Sindicato, não espero um debate aprofundado sobre a profissão, pelo que expus acima - como em muitas profissões, as direcções sindicais defendem privilégios adquiridos por uma geração (a "de Abril") e esquecem, sempre, as gerações mais novas, aquelas que sofrem na pele a precariedade na imprensa, aquelas que aguentam jornais, em estágios contínuos não remunerados ou contratos a termo mal pagos (a geração "500 euros").
4. Mais: do Sindicato continuo a desconfiar de uma direcção politicamente marcada. Sobre isto, mantive escassa polémica com Oscar Mascarenhas, nas páginas do Público (eu tive de editar um texto longo, o então "senhor deontologia" arrasou-me em resposta mais alongada), por causa das autárquicas de 2001 e da candidatura de Alfredo Maia pelas listas da CDU a um órgão autárquico. Mantenho o que escrevi, nem uma linha de Mascarenhas me demoveu do que escrevi.
5. Quatro anos depois, o Sindicato e o seu Conselho Deontológico tem uma posição vergonhosa e atrasada sobre o caso Lusa. Muito próprio de quem se afastou da realidade noticiosa. Facto sacrossanto: as jornalistas não terão ouvido as duas partes. Diz isto, o mesmo CD que não cuidou de ouvir as partes envolvidas.
6. Vou continuar sindicalizado. A ver se o sindicato me passa a representar também a mim. E não quero uma Ordem. Basta olhar para as ordens corporativas que existem para perceber o que elas fazem: metem na ordem direitos estabelecidos da geração que manda, esquecem os novos.

Fevereiro 20, 2006

Importa-se de repetir?

Miguel Marujo

[Ontem, na SIC Notícias, num programa sobre a Europa] "Fomos perguntar aos estudantes da Universidade Católica de Lisboa quem é o presidente do Parlamento Europeu." As respostas foram invariavelmente "Não, não sei." Nestas alturas, penso sempre em pegar numa câmara e deslocar-me à redacção da (por exemplo) SIC Notícias e perguntar quem é o presidente do Parlamento Europeu. Tenho a certeza que as respostas seriam iguais às dos estudantes universitários.

Fevereiro 18, 2006

(este blogue desarranjou-se)

Miguel Marujo

Não trocámos a nossa melhor roupa por uma farpela mal cuidada, mas ao que parece, no "Internet Explorer", o blogue aparece desfraldado: a coluna da direita, de ligação a blogues e outros dados mais ou menos pertinentes, caiu lá para o fundo. A coisa, no "Safari" dos macintoshes, continua direita - e por isso não reparei no erro. Assim que se der conta da coisa, voltamos a enfiar a camisa dentro das calças e a ajeitar o nó da gravata.

[actualizado: Já tá! Um título justificado desjustificou a casa, vá lá entender-se o html...]

Fevereiro 17, 2006

[o leitor irregular de jornais desportivos]

Miguel Marujo

«[Pedir empenho] É o meu trabalho, por isso sou o treinador. A partir de domingo porta fechada e não haverá nenhum problema», disse Ronald Koeman. Os jornalistas entusiasmaram-se com um puxão de orelhas dado por um chefe aos seus empregados. What's the point?