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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Novembro 26, 2005

A direita, sempre pela metade

Miguel Marujo

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A direita gosta de gritar liberdade no 25 de Novembro, mas esquece-se de o fazer no 25 de Abril. Porque a direita continua a esquecer-se que o Novembro do seu contentamento só foi possível por haver Abril. Não houvesse Abril, não havia quem gritasse liberdade.
Mas a direita é vezeira nestas coisas da História: a culpa da descolonização não foi do obstinadamente sós do regime fascista de Salazar, foi de Mário Soares; as guerras civis de Angola e Moçambique foram uma vergonha e deixaram muitos portugueses sem nada, esquecendo os que tudo perderam - mesmo a vida - na guerra colonial; a culpa do atraso da economia é das nacionalizações do PREC, não de uma classe empresarial intolerante com justos salários para os seus trabalhadores e indulgente para os seus próprios bolsos. A direita grita muito pela liberdade de Novembro; a direita gosta do Inverno, já se sabe.

Novembro 24, 2005

E não se pode julgá-los?

Miguel Marujo

Eduardo Catroga está na SIC Notícias a perorar, qual académico, sobre desemprego e défices e afins, como se não fosse ele responsável por nada do muito mal que se fez algures na primeira metade da década de 90. Estes senhores são chamados impunemente a debitar bitaites... Para dizerem como foram incompetentes? Não, para ensinar como deve ser, para os que lá estão, quando ele(s) não fez(izeram) nada.

Novembro 24, 2005

Sexo fora nada (mais preliminares)

Miguel Marujo

A minha questão sobre o documento do Vaticano que quer afastar os homossexuais dos altares não tem a ver com noção de pecado, caro timshel. O meu problema com este documento prende-se com o celibato - de que discordo e que entendo ser um problema para a questão da sexualidade, como ela se colocou nos EUA e noutros países. Se há celibato, a pretensa homossexualidade ou heterossexualidade do seminarista não se coloca [nota: hoje no Público - sem link - o padre Carreira das Neves fala a partir deste ponto de vista, vale a pena ler].

Ainda assim: também não concordo absolutamente com a abordagem que fazes do pecado e da homossexualidade, mas a esse tema voltarei depois, com mais tempo e fundamento (espero).

Novembro 24, 2005

Dos limites da tolerância[um comentário]

Miguel Marujo

Caro Afonso, a frase que me atribuis não é minha, mas citei-a por me parecer correcta/discutível. E suponho que o problema começa pela "semântica": o verbo tolerar tem hoje um significado quase depreciativo - e o dicionário não ajuda: "do Lat. tolerare, v. tr., consentir tacitamente; ser indulgente; deixar passar; permitir; desculpar; suportar." [in priberam.pt] Menos mal com a tolerância, mas ainda assim imperfeito: "do Lat. tolerantia, s. f., qualidade de tolerante; acto ou efeito de tolerar; atitude de admitir a outrem uma maneira de pensar ou agir diferente da adoptada por si mesmo; acto de não exigir ou interditar, mesmo podendo fazê-lo; permissão; paciência; condescendência; indulgência" [idem]. Trago aqui as definições para se perceber como as palavras acabam por atrapalhar mais. Mas, como dizes, "nas actuais circunstâncias histórias não haverá princípio alternativo que satisfatoriamente possa substituir o princípio da tolerância. Abandoná-lo, ou tão-só enfraquecê-lo, miná-lo, produziria o efeito perverso de abrir espaço não tanto para o vazio quanto para a intolerância". Por mim, prefiro dizer que a minha liberdade começa onde começa a do outro - e é este o exercício que deve ajudarmo-nos a conhecer ("co-naître", co-nascer) com o Outro (sem ser só "tolerá-lo").

Novembro 24, 2005

descredibilizar a blogosfera

Miguel Marujo

«O que dizer de um blogue que coloca um pedido de esclarecimento ao governo, convida toda a blogosfera a colocar a mesma questão, e que quando o governo responde, escreve:

"ver o Primeiro-ministro a responder aos blogues da micro-causa" (ah ah o parvalhãozeco que caíu no engodo de andar atrás do meu micro-rebanho)

"Ele fá-lo por arrogância, convencido que ganha uns pontinhos, mas está muito enganado." (ele está muito enganado, o arrogante)

O que não se encontra entre aspas e em itálico é, embora não pareça, da minha autoria.» [timshel]

Novembro 24, 2005

Cartas ao Pai Natal[de um e-mail]

Miguel Marujo

Cartas ao Pai Natal I - Mário Soares

Pai Natal
Acordei agora da sesta. Tive um sonho original.
Conversei com a Maria
E achamos que não é sonho
Mas uma ideia genial!
Já fui ministro, primeiro-ministro
E duas vezes presidente deste país
Está na hora de mudar de ares
Aceitar novos desafios
Levar mais longe o nome de Portugal
Ou o meu nome? Como sempre quis.
Como tu tenho já uma certa idade
E no ventre a mesma proeminência
Decidi que para o ano quero ser o Pai Natal.
Portanto?
Olha pá faz as malas. Desocupa a Lapónia.
Vou ser eu o Pai Natal.
Tem lá paciência.

Assinado: Mário Soares
(Ex-deputado. Ex-Primeiro Ministro. Ex-Presidente da República. Ex-Deputado europeu. Futuro Pai Natal)


Cartas ao Pai Natal II - Manuel Alegre
Pai natal quando voares nos céus da minha Pátria
Quando aterrares as renas nas planícies do meu País
Lembra-te desta carta, pedido singelo
De um homem que só para a Pátria pede
Para si? Nada quis.
Se o nevoeiro que levou D. Sebastião
Te fizer perder o rumo e baralhar o norte
Segue o cheiro a verde pinho
Ouve a minha trova no vento que passa
E chegarás às chaminés do meu país
Pátria desafortunada. Sem euros. Má sorte.
Numa das chaminés de Lisboa
Sentirás o odor e verás o fumo negro da traição
Que o teu trenó sobre ela paire
Que sobre a chaminé de Soares a tua rena páre
E solte bosta. Um imponente cagalhão.

Assinado: Manuel Alegre


Cartas ao Pai Natal III - Francisco Louçã
Isto não é uma carta!
É um manifesto. Um protesto. Uma petição
Assinada por dezenas de intelectuais
E outras pessoas que jamais
Se reviram numa festa
Bacanal
Orgia de oferendas
Dadas sem qualquer critério
E que perpetuam uma tradição
Caduca. Reaccionária. Clerical.
Que tu representas oh pai do natal.
Com esta petição pretendemos
Que a data seja referendada
Não imposta, decretada
Por um estado economicista e liberal
E que seja celebrada quando um homem quiser
Não à roda da mesa. Consoada.
Mas num portuguesíssimo arraial.

Assina: Francisco Louçã


Cartas ao Pai Natal IV - Aníbal Cavaco Silva
Excelentíssimo Senhor Doutor Pai Natal
Venho por esta via pedir para a minha Maria
O Kama Sutra, versão condensada
Não sei se a minha Maria teria
Para a versão completa e ilustrada
Suficiente pedalada.
Eu para mim
Por ora nada peço
E de momento nada digo
Não abdico do meu direito de manter o suspense
E de fazer tabu do meu posterior pedido.
Mas?. E só isto adianto
Não preciso de Viagra
Para acompanhar a minha Maria na leitura
Do acima citado livro
Que teso e hirto ando eu sempre
Não precisando por isso de muleta
Ou qualquer outro suplemento
Para manter a rigidez
E o meu porte sobranceiro.
Despeço-me atentamente economizando palavras
Porque como vossa Excelência sabe:
Os tempos são de crise e tempo é dinheiro.

Assina o Professor Doutor:
Cavaco Silva


Cartas ao Pai Natal V - Jerónimo de Sousa

Camarada

Tu que és explorado pela entidade patronal
Durante a época do Natal
Usado como símbolo do capitalismo
Para fomentar o consumismo
Desenfreado, descontrolado
Que enriquece a burguesia
E empobrece o proletariado
Junta-te a nós no combate
Contra a guerra no Iraque
Oferece Che Guevaras, não ofereças Action Man's
Luta pela igualdade feminina
Não dês Barbies mas Matrioshkas
Educa as crianças de hoje
Comunistas amanhã
Substitui o Harry Potter pelo livro "O Capital".
Camarada
Reivindica o teu direito a um transporte decente
Pára o trenó e as renas
Que não é veículo de gente operária e trabalhadora
Como tu oh pai natal!
Unidos venceremos o imperialismo e os reaccionários
Viva o Natal dos oprimidos!
Viva o Natal dos operários!

Assinado pelo candidato: Jerónimo de Sousa
(Carta aprovada por unanimidade e braço no ar pelo Comité Central do PCP)