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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Junho 13, 2005

Adeus

Miguel Marujo

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Eugénio de Andrade


Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

Junho 13, 2005

Até amanhã, camarada

Miguel Marujo

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Mário Soares, Magalhães Mota e Álvaro Cunhal


De Álvaro Cunhal cresci com o temor (sim) de uma sociedade dividida como poucas. Lá em casa, apreciava-se a coerência, desdenhava-se (quase sempre) da política: eram campos opostos. Enquanto cresci, cresceu a admiração pela história de vida e a contestação a uma cassete que debitava a mesma pauta, indiferente aos ventos da História - que não eram o ocaso comunista, mas sim a permanência da opressão soviética. Agora, os últimos anos, afastado pela doença, deram-me a distância para admirar o que se deve admirar - a vida contra o fascismo - e criticar o que não merecia contemplação - persistir no erro de um modelo que ignorava o indivíduo e o espezinhava, mesmo na direcção do partido.