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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Março 04, 2005

Sinais de contradição

Miguel Marujo

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Por estes dias, a vida cruzou-se demasiadas vezes com a morte. Este blogue não escapa aos humores do tempo e às saudades das partidas. Faltam-nos as sementes de esperança, de uma mercearia: «O que pedimos a Deus? Normalmente, tudo: saúde, amor, felicidade, sabedoria e dinheiro, em doses e associações variadas. E, num assomo de má consciência, lá democratizamos o pedido, estendendo-o a todos os outros. O Deus atendedor do balcão desses pedidos responde sempre o mesmo, embora de muitas maneiras: "Acho que não me compreendeste. Aqui não vendemos frutos. Vendemos unicamente sementes".»

Março 04, 2005

Carta a um Barnabé

Miguel Marujo

[ou Idiotas, parte II - um longo comentário deixado no Barnabé]

Eis um verdadeiro democrata, este Nuno! Como deve ter aprendido no futebol que a melhor defesa era o ataque, defende-se - no Barnabé - misturando o que não é misturável, digno do melhor discurso de um padre Serras Pereira ou de um João César das Neves! Eles misturam alhos com bugalhos, o Nuno responde bugalhos com alhos. Paciência. O Nuno escorregou na casca de banana (um humor nojento - e sim, eu não faço humor com um velho doente, chamado Pinochet! Apenas espero que ele seja julgado e condenado pelos crimes!) e atirou-nos à cara com a nossa intolerância. A dele ficou arrumada numa gaveta qualquer...

Sim, o Papa errou várias vezes, Nuno. Mas gostava de saber a tua opinião, quando o mesmo Papa, contra a opinião de sectores conservadores da Igreja, visitou outro velho e doente, Fidel, de seu nome (sim, e eu também não gostei quando alguma gente parodiou/gozou a queda que ele deu há uns tempos!) e o chamou à pedra pela violação dos direitos humanos. Como fez em relação ao Chile, em mais do que um discurso e iniciativas diplomáticas. Como fez em relação a outros territórios (mesmo em Timor, depois de uma visita ambígua, em que parecia deixar para trás os anos de esforço da Igreja timorense, João Paulo II referiu-se por mais de uma vez à necessidade de referendar a autodeterminação e foi uma voz fundamental na condenação dos ataques das milícias pró-indonésias, a seguir ao referendo).

Sim, o Papa erra, quando insiste num discurso moralizador que confunde mais do que ajuda. Escrevi aqui, antes da tua piada reles: «O Papa mistura temas que não se comparam. Eutanásia, aborto, preservativo, por exemplo, lêem-se demasiadas vezes no mesmo parágrafo. Agora, o aborto e o Holocausto surgem no mesmo plano, levantando um coro de protestos. E com razão. Não pelo que se escreve no livro de João Paulo II (lendo bem, não há uma comparação "absoluta" aborto=Holocausto), mas pela forma confusa (intencional?) como se aborda os limites das leis. E, em vez de se reflectir seriamente sobre estes temas, acabamos por estar a discutir o acessório ou a defender e atacar semânticas.»

Lendo melhor, podia adaptar este post ao Nuno do Barnabé: «O Nuno mistura temas que não se comparam. Doença, velhice, poder, miséria, dor e mediatismo, por exemplo, lêem-se demasiadas vezes no mesmo parágrafo. Agora, o Chile de Pinochet e Serras Pereira surgem no mesmo plano. E, em vez de se reflectir seriamente sobre estes temas, acabamos por estar a discutir o acessório ou a defender e atacar semânticas.»

Neste caso, queres sublinhar uma alegada conivência deste Papa com regimes ditatoriais, mas esqueces a importância que ele teve na denúncia do comunismo e das ditaduras do Leste Europeu (ou não eram ditaduras?), mas também na denúncia do capitalismo, de um mercado que só pensava no «ter» e esquecia o «ser» (em 1980, e depois repetiu-o por várias vezes).

Mais: este Papa sempre deu jeito a muitos, que o atacam por causa da moral sexual, quando ele se colocou contra as guerras do Iraque (em 1991 e 2004).

Agora que vais descansar por uns dias, era bom que pudesses voltar, sem espingardar "à Serras Pereira ou César das Neves". Separando os assuntos, e reconhecendo: mandei uma boca infeliz. Quanto ao resto - o discurso com que procuraste justificar o injustificável, é matéria para séria discórdia. E debate. E que é diferente daquela piada. Muito diferente.

Março 03, 2005

Estupefacção

Miguel Marujo

Um senhor padre franciscano fez publicar um anúncio em que nega a comunhão a quase todos os católicos. O senhor Nuno Serras Pereira é tão católico como eu, tem tanta legitimidade para abrir a boca como eu. Mas o senhor Nuno Serras Pereira esquece-se que a exclusão é um caminho contrário ao anunciado por Jesus. E que a exclusão é o maior atentado à vida que existe.

Março 01, 2005

Idiotas*

Miguel Marujo

Gosto do Barnabé. Gosto muito do Barnabé - e tenho lá amigos, uns mais do que outros; como tenho outros desconhecidos. Um deles assina-se Nuno Sousa. E assassina o bom gosto, parece-me. Tem lá um texto sobre um homem idoso de 84 anos, que está internado, e que já ingere alimentos por uma palhinha. Espera o Nuno que esse idoso, um homem muito doente, melhore rapidamente para poder "gatinhar sem amparo alheio". O Nuno é um idiota*: não deve ter avós, doentes ou não, deve cultivar o espelho e a figura viril e máscula da eterna juventude, sem maleitas ou deficiências, um mundo nazi de perfeição, em que os velhos gatinharão e isso é uma "excelente notícia"! O Nuno não pensa nada disto, se calhar, mas para achincalhar o Papa (é esse o idoso de que fala) raia o mau gosto e o fascismo do politicamente higiénico. Eu, por mim, tentei dizer-lhe (mas o computador bloqueou o envio do comentário, lá no Barnabé) que espero que ele nunca leve uma traulitada de um carro ou que mergulhe descuidamente num local com uma rocha matreira (tipo Mar Adentro) e fique internado durante algum tempo, a ter de ingerir alimentos por uma palhinha. Nessa altura, esperaremos todos que volte a gatinhar sem amparo! Rezaremos todos ao São Barnabé! Ámen!

[actualizado: o Nuno deve ser novo na blogosfera e, por isso actualizou o seu texto sem o indicar. O que lá estava era isto: "O Papa já bebe sozinho por uma palhinha. Os médicos estão em crer que, a partir de amanhã, poderá começar a gatinhar sem amparo alheio. Aguardamos ansiosos." Depois, resolveu acrescentar um comentário auto-explicativo, onde apenas revela mais algumas ideias "limpinhas": que o Papa morra longe dos nossos olhares, aquele velho! (as palavras são minhas, o tom é o do post). Estou à vontade para escrever o que escrevo aqui. Já defendi a resignação do Papa, como já ataquei aqueles que se incomodam com os velhos cuja "decrepitude e decadência do seu corpo" deve ficar "longe dos olhares do mundo".]

* - idiota: que tem ou denota falta de inteligência ou de bom-senso.

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