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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Novembro 23, 2004

Definitivos

Miguel Marujo

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Prefiro a dúvida à certeza. Por método, mas também por falta de certezas. Sim, eu sei que aqui já escrevi muito da minha condição de católico, mas também é assim que vivo a minha fé: no campo da dúvida, para melhor compreender os outros, o diferente. Talvez seja esta a minha dimensão ecuménica. As certezas que aqui vou polvilhando são depois postas em causa com reparos amigos, outras leituras, novas certezas.


Aqui há tempos escrevi sobre os católicos e os homossexuais. Um leitor desta casa mandava-me ler a Bíblia, em determinados livros e precisos versículos. Reagi epidermicamente: quando me atiram versículos acho que me atiram sentenças. Esperei para ler aqueles «trechos».


Depois de os ter lido, mantenho muito do que escrevi - não por serem certezas. Apenas por achar que naquilo que disse há lugar para a dúvida, e menos para sentenças, que como se sabe são definitivas.


Ao contrário do que me sugerem aquelas leituras, não encontro na Bíblia sentenças definitivas sobre a homossexualidade. Perdoar-me-ão: o que encontro são livros que merecem mais do que uma leitura apressada, lida aos olhos de 2004, quando foram escritos há milhares de anos [a disciplina da coisa chama-se hermenêutica]. Mais: os trechos «definitivos» de que ali se fala ajudam à piada certeira do comentário colocado pelo «Portugalgay» de que não devemos comer camarão... (Mas, lá está, os senhores deste "site" cometem o mesmo erro que criticam nos católicos definitivos: agora dizem que a Bíblia ofende a Constituição Portuguesa!)


Retomo os comentários: «o conceito de inclusão se não apaga totalmente a ideia de pecado, pelo menos é muito mais importante. "Não será possível continuar a amar as pessoas e, ao mesmo tempo, chamar a atenção para os seus erros?" Sim, é. Mas o que sublinho, neste caso, é que ser-se homossexual não é "uma ofensa contra Deus". A ofensa a Deus não é por aquilo que é a nossa orientação sexual. É por aquilo que fazemos em relação ao outro: quem ama mais? o heterossexual que maltrata o seu cônjuge, ou o homossexual que vive um amor pleno com o companheiro? (o contrário também é válido, mas não falo de orientações sexuais). E David remata: "Dizer que a homossexualidade é pecado não significa exclusão. Implica sim, alertar para o caminho errado." Implica excluir, sim: porque afirmamos que apenas outro caminho é o correcto, aumentando o sofrimento de quem também pode amar».