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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Julho 13, 2004

Charlatanice (zapping improvável)

Miguel Marujo

Por momentos passo na TV Canção Nova, onde prega o omnipresente padre Borga. O senhor vai para intervalo, onde é anunciado um livro em que Deus dá as respostas. E qual é a primeira dúvida (colocada em brasileiro) que atormentará o telespectador-comprador? «Porquê você foi traído?» O vidente do metro não faria melhor.

Julho 12, 2004

Da credibilidade...

Miguel Marujo

Santana foi indigitado primeiro-ministro. É um facto, já não há volta a dar. Diz ele, com aquela pose de novo-estadista, que, agora sim, vai começar a formar Governo: «Só agora começarei as conversas e nenhuma antes houve com essa finalidade». Pois, pois, as redacções fervilham de nomes e cenários por obra e (des)graça do Espírito Santo de orelha...

Julho 11, 2004

Um lamento (ou a cadeira vazia do bispo)

Miguel Marujo

Maria de Lourdes Pintasilgo teve hoje o aplauso de centenas de populares. Anónimos e conhecidos. Mas faltou um aplauso, uma mensagem, uma presença - a de um bispo (qualquer) que fosse da Igreja portuguesa. Pintasilgo não era uma católica ortodoxa, como porventura foi Sousa Franco, e não era A Voz, como foi Amália. Mas na sua heterodoxia foi inovadora e acolhedora de uma outra forma de ser Igreja. E, na sua simplicidade, foi a voz de deserdados ou desalinhados. O senhor cardeal-patriarca de Lisboa, que presidiu aos funerais de Sousa Franco ou Amália, para Pintasilgo não teve sequer uma palavra pública, nem enviou um dos seus bispos auxiliares à cerimónia deste domingo. Às vezes, é difícil ser Igreja nesta Igreja.

Um lamento menor: as cadeiras do «Presidente da República e esposa de Jorge Sampaio» também ficaram vazias.

Julho 11, 2004

Memorial do Convento

Miguel Marujo

Na noite de sexta-feira fiz uma pausa. Adriana Calcanhotto cercou-me num bonito jardim encostado ao Convento de Mafra: simpática, generosa, «com os dedos enregelados». O país afundava-se de vez na fractura quase irremediável que se desenha há muitos meses (dois anos?) no uso do poder. Há quem só saiba governar assim: sem questões fracturantes, mas rachando o país em bons e maus, e em que os outros são sempre maus, sem possibilidade de diálogo ou troca de ideias.



Na quinta-feira tinha estado no Parlamento. O turbilhão sussurrava-se, mas ninguém o admitia. E no hemiciclo a indolência, a má educação, quer na postura (palavra abusada para tudo e para nada, mas que aqui significa literalmente a posição na cadeira), quer na vozearia (que outro nome se dá à gritaria?) de deputados, como Isménia Silva (quem?), Álvaro Castelo-Branco, Diogo Feio ou Nuno Melo e outros desconhecidos.



Regresso à sexta-feira à noite. Feito o parêntesis a Sampaio (ninguém é de ferro!), Adriana faz-nos acreditar noutro país. Ela gosta de Portugal. Mas ela apenas nos encanta - e se encanta - de passagem. Assim, é fácil. Todos os dias, é pior. Todos os dias, cansa. Muito.

Julho 10, 2004

1930-2004

Miguel Marujo


Pintasilgo. Adeus.

[Primo Galarza: aproveito o teu «adeus» para a memória.] Fiz campanha por ela em 1985, na primeira volta daquelas presidenciais únicas. Em Aveiro, desconfiei das sondagens. As centenas que a receberam no largo da Estação não eram a onda que a faria chegar a Belém. Mas, como ela, fomos ingénuos: acreditámos no sonho, ousámos acreditar. Ela em cima de um caixote, falou com a convicção de quem acredita. Antes de muitos ela falava no ambiente e nas pessoas: «cuidar o futuro» é um extraordinário legado que nos deixou. E depois havia o olhar intenso, de constante curiosidade, e a atenção! Sempre atenta a quem a ouvia, nem que fossem os miúdos imberbes prontos para mudar o mundo, naquele mês de Abril de 1995... Obrigado, Maria de Lourdes Pintasilgo. [M.Marujo]