Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Abril 19, 2004

À mesa

Miguel Marujo

Há dias diverti-me numa cervejaria da Baixa a observar uma japonesa atrapalhada com a sandes de bife panado. Olhava muito próximo, cheirava, tocava, tudo para perceber o que lhe tinha saído na ementa do almoço tardio. Hoje, a senhora da caixa do YiLi deve ter-se divertido com o meu ar atarantado entre caracteres chineses, gingibre ou massa levar forno à procura de uns crepes vietnamitas. Lá os descobri. Abençoada mesa que promove a inter-confessionalidade*.



* - ler artigo «Do restaurante para o calvário», do Tiago de Oliveira Cavaco.

Abril 19, 2004

De um lado para o outro na cidade

Miguel Marujo

Ao Liceu Camões, uma placa limpa e discreta grita a quem passa, «edifício acabado de construir pela Ditadura Nacional. Ano de 1928». No elevador do Lavra, monumento nacional, que faz hoje 120 anos, os grafittis pintam o outrora amarelo da Carris (que não se lembrou ou não quis celebrar a data).



No Largo da Estefânia, 11 pessoas entretêm-se a preparar a nova fonte em volta da sua estátua. Engenheiros, doutores, assistentes, assessoras, técnicos, operários, em alegre convívio, entre telemóveis, pastinhas reluzentes, todos atrás uns dos outros. 11 pessoas. Deve vir aí inauguração a preceito.



Nos subterrâneos, descubro que o metropolitano está «com perturbações». Subo à superfície.



Visito o «edifício Marconi», com placa reluzente a anunciar inauguração em 1992, «por sua excelência», blá-blá-blá, o ministro «Ferreira do Amaral». Aquela fealdade que se atravessa aos olhos: um amarelo-dourado piroso em branco outrora imaculado. Os intelectuais da cidade costumam desdenhar de casas assim nas aldeias.



Transporto-me com dois sacos de plástico e uma pasta pesada de computador. De um dos sacos espreitam DVDs e livros. No outro, cheira a folar da Páscoa (único, irrepetível, escusam de procurar) e a crepes. Tal e qual! Se a cultura cheirasse naquele autocarro, julgo que seria amaldiçoado.

Abril 19, 2004

Desordem doméstica

Miguel Marujo

Lá em casa, levo justamente nas orelhas pelo caos em que se transforma o escritório improvisado na marquise e as estantes onde se acumulam jornais, papéis, postais, bilhetes de cinemas, as contas da casa, livros de medicina e depois nada se encontra quando é preciso. Por contraponto, levo nas orelhas - em tom de gozo, é certo - pela organização que mostro na estante dos CDs: por ordem alfabética de "intérprete" e, em cada grupo ou cantor(a), por ordem cronológica dos álbuns. Simples e eficaz para procurar aquele álbum ou um qualquer ganda maluco. O pior é que esta ordem é aparente: da estante para o leitor de CDs a desarrumação volta a ser a imagem de marca - e, por isso, passo o fim-de-semana a ouvir coisas completamente diferentes. E é por essa lógica que hoje cheguei a pôr o televisor mais alto... Não gosto que me ponham na ordem, pois.

Abril 19, 2004

Adeus, Alcácer-Quibir

Miguel Marujo

No fim do "Olá Portugal!", de Manuel Luís Goucha (à espera dos telejornais), vejo José Cid. E oiço «El-Rei D. Sebastião», o velhinho tema dos Quarteto 1111, a abrir um "medley" das canções mais conhecidas do Cid, el português... O que prometiam ser boas memórias viraram em cinco segundos uma tragicomédia: a voz desafinada, gasta, foi incapaz de voar pelos campos de batalha de Alcácer Quibir ou pela neve de Nova Iorque...

Abril 19, 2004

Défices

Miguel Marujo

Há um défice que assoma à nossa porta todos os dias. Agora, a OCDE diz-nos que aquele que a Europa nos impõe ferozmente vai voltar a ser violado em 2005. Manuela Ferreira Leite, que pode estar a caminho de Bruxelas, deixando livre o Governo para a rédea solta da demagogia de uma anunciada «viragem social» - que se mascarará em obras de betão armado e beijinhos às velhinhas - deixa assim mais uma das suas heranças pesadas. Foi assim no início da década de 90, quando - aos cortes feitos na Educação, como secretária do Orçamento - foi premiada com a tutela da... Educação. Foi assim nos últimos dois anos com a insistência numa política de combate ao défice dos números e um défice de atenção às pessoas. Nisto tudo há um défice de política. Se as pessoas não estão primeiro, de que serve a política? A resposta foi dada ontem por Zapatero: a retirada das tropas espanholas cumpre uma promessa sua (de há um ano, e não de 12 de Março) e combate uma guerra assente na mentira e na manipulação.