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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Março 16, 2004

Sobressaltos

Miguel Marujo

Ontem e hoje, à volta da mesa, encontros que perduram nos dias. E na memória. Para fazer da memória projecto, para fazer da figueira fruto. Ontem à noite, entre os dois encontros, um corpo dilacerado que entrou pelos olhos, pelos ouvidos, pelo corpo todo, em «Paixão de Cristo». Haverá possibilidade de encontro, aqui?

Março 16, 2004

Sobressalto católico

Miguel Marujo

Em demanda googlística, à procura de uma imagem ou uma página que ajudasse a ilustrar aos nossos leitores quem é o Seabra da questão, encontrei uma pérola do economista católico de serviço: João César das Neves fala-nos de «um padre». Faltou-lhe a coragem suficiente para titular o texto como «O padre».



Afinal, escreve o escriba-economista-catequista, «com a sua "desfaçatez na Fé" só sei de outro [padre], um polaco chamado Karol Wojtyla». Assim, tal e qual. E anda a comunicação social distraída a pensar em José Policarpo como próximo bispo de Roma. Esqueçam: está aqui!



César das Neves ilumina a nossa vida sobre a vida e obra de Seabra: «O livro [deste padre] é, pois, uma notável mistura de catecismo, geopolítica, moral prática e história. Na clareza da argumentação, na contundência das comparações, sente-se o que tanto foi repetido nos milénios da Igreja: "Vieram para discutir, mas era--lhes impossível resistir à sabedoria e ao Espírito com que ele falava" (Act 6, 9-10).»



Depois disto, falta-me a clareza da argumentação ou a contundência das comparações (exemplo: «A Europa é o nariz da Ásia. Se a Ásia se assoa, a Europa desaparece. (...) A Europa é o Cristianismo ou não é nada»). Frágil me confesso: as minhas certezas são as minhas dúvidas.

Março 16, 2004

Sobressalto cómico

Miguel Marujo

Em demanda blogosférica encontrei uma página que se apresenta singelamente por «João Seabra». Sobressaltado, a imaginar o padre trauliteiro de Santos-o-Velho a entrar no reino dos blogues, cliquei no endereço. Afinal, descobri que a comédia é outra: trata-se da página sobre «A vida de um Stand Up Comedian».

Março 16, 2004

Passou um ano

Miguel Marujo

Faz hoje precisamente um ano que Durão Barroso assumiu a responsabilidade de acolher, na Base das Lajes, aquela que ficou conhecida pela Cimeira da Guerra. Dos quatro protagonistas de há um ano, só já sobram três: Aznar e o seu PP foram castigados pelos espanhóis, entre outras coisas por causa da participação da Espanha na guerra contra o Iraque. O seu sucessor socialista, Zapatero, já anunciou que as tropas espanholas destacadas no Iraque vão regressar a casa. A "Velha Europa" rejubila; os aliados de Aznar mostram-se preocupados.



Entretanto, por cá, o mesmo Durão Barroso que trouxe todos os chefes guerreiros aos Açores, colocando Portugal na primeira linha da coligação que haveria de bombardear, invadir e ocupar o Iraque, levando-lhe o caos e a morte e a destruição; o mesmo Durão Barroso que diz ter visto provas que, hoje, todo o Mundo reconhece nunca terem existido; o mesmo Durão Barroso que se prestou a participar numa encenação ridícula que pretendia mostrar aos espanhóis que os governos europeus apoiavam Mariano Rajoy e o PP; o mesmo Durão Barroso que não resistiu a desfilar, ao lado de Aznar e de Berlusconi, numa manifestação que fazia parte da estratégia mentirosa e vergonhosa do governo espanhol para retirar dividendos eleitorais da morte de 201 seres humanos; esse mesmo Durão Barroso, primeiro-ministro de Portugal, veio hoje garantir que não há qualquer ameaça terrorista credível dirigida contra o nosso país.



Eu gostaria de acreditar, mas a verdade é que já há muito que as "garantias" do primeiro-ministro Durão Barroso deixaram, elas sim, de ser minimamente credíveis. Acaso terá o nosso primeiro visto provas da não existência de ameaças terroristas dirigidas contra Portugal? Ter-lhe-ão sido fornecidas essas provas pelo aliado e amigo George W. Bush? Serão os serviços de informações e segurança portugueses mais eficazes e mais competentes do que os seus colegas norte-americanos e/ou espanhóis?



Diz o primeiro-ministro que nenhum país no mundo pode estar absolutamente imune a atentados terroristas. É verdade. Ainda que também seja verdade que há uns menos imunes do que outros... Mas se isso é verdade, porque raio vem o primeiro-ministro dizer que não há ameaças terroristas contra Portugal e que, por isso, devem os portugueses estar tranquilos?!



Sejamos sérios e comecemos já por pôr de lado o nosso proverbial machismo: estamos todos preocupados. Alguns de nós, só estamos preocupados desde a semana passada; mas há outros que já estamos preocupados há muito tempo. Para este últimos, os atentados de Madrid vieram apenas reforçar a falta de tranquilidade.



O primeiro-ministro Durão Barroso bem pode tentar tranquilizar os portugueses. Eu, pela minha parte, não só ficava mais tranquilo mas também mais agradado, se o Governo português não esperasse que o drama acontecesse para, depois, tomar medidas. Preferia que retirássemos já as nossas tropas, que retirássemos já o nosso apoio à acção ilegal dos EUA e do RU e que engrossássemos, como país, as fileiras daqueles que ainda acreditam, como nos mostraram os nossos irmãos espanhóis, que o terrorismo deve (e só pode) ser combatido através da cidadania, da democracia, do diálogo e da tolerância activa.



Passou um ano. 366 dias. Muitas mortes. Demasiadas mortes.

Basta ya!