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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Janeiro 28, 2004

Tradução simultânea

Miguel Marujo

Televisor 1: um funeral em longos directos, a partir de uma pequena cidade húngara, sob um manto de neve branco. E as câmaras sempre lá.



Televisor 2: um juiz, Hutton, com voz pausada, lê um longo texto cheio de argumentos sustentados e fundamentados. Claro como a sua leitura.



Televisor 3: Um debate irritado entre Celeste Cardona, muito "amiga" dos trabalhadores precários do seu ministério, e deputados da oposição que teimam em não pedir a demissão de quem cometeu uma ilegalidade.



O mundo traduzido em simultâneo mostra-nos como este nosso canto é pequenino.

Janeiro 28, 2004

A alta tensão, ou como só com choques o «homem-bom» vem ao de cima

Miguel Marujo

Lembra aqui o nosso Marujo que a morte de um jovem jogador de futebol está a ser tratada com uma ultra-sensibilidade e, adito, um sensasionalismo natural dos dias que passam.



Ora, por muito que lamente a morte de Fehér, e faço-o, já expressei noutros fórums que o choque por ver um jogador morrer em campo se dá não apenas pela juventude do mesmo ou pelo clube a que pretence, bastião do futebol nacional, mas porque a comunicação social explorou - e o público foi atrás - a morte que, nos dias de hoje, se trata com recato.



O bom senso nos livre de voltar às ideias da idade média, ou dos romanos, ou dos gregos, onde a morte era mais mística e, por isso, mais pública. Aprendemos, e creio que evoluimos, com o tempo e com a experiência.



Fehér foi, infelizmente, apenas mais um. No dia em que caiu redondo no campo de Guimarães noticiava-se algo que, pessoalmente, considero mais terrível: crianças que morrem asfixiadas por gás butano, por causa de um esquentador colocado numa casa de banho. Em pleno Portugal do século XXI. Mais: as mortes que se sucedem a nível laboral, de imigrantes incógnitos e ignorados, são também tenebrosos sinais de uma sociedade que se preocupa com os mortos mediáticos mas que depressa esquece os mortos incógnitos.



Isto não é de hoje, é de sempre. Mas os pressupostos que levam a «decidir» que morte «é mais importante» são viciados. O jogador, figura pública, tem direito à atrocidade maior que pode existir: três tv's em directo, câmaras apontadas à urna, adeptos a protestar contra a polícia porque esta não os deixava chegar ao local onde o corpo estava em câmara ardente. «Estamos aqui para a festa do Fehér», gritava um adepto aos microfones da TVI.



Apesar de tudo, continuo a pensar que a sociedade lida mal com a morte. E lida pior com a morte dos que são próximos, como era este jogador para os adeptos do futebol e, em especial, para os benfiquistas. Mas a resposabilidade da exposição é dos jornalistas e do público ávido de emoções fortes.



No sonambulismo a que a vida urbana nos obriga, só um choque eléctrico como este mobiliza. Terá sido isto que levou o presidente do clube do atleta falecido a declarar que tinha de ir repensar o seu futuro. Se estiver a ser sincero, compreendo-o. É que depois das guerrilhas mais ou menos sui generis do mundo do futebol, uma morte parece fazer com que os resposáveis pelo espectáculo se dêem conta que nem tudo vale a pena.



Não creio que existam grandes mudanças no comportamento. Aliás, não darei mais de uma semana para que, após o funeral, surjam as piadas sobre a morte do jogador. Mas a verdade é que nenhuma morte é mais importante que outra. Há é circunstâncias mais arrepiantes. O que prova ainda o nosso emotivo comportamento. E este é saudável. Pena que outras ideias, objectivos ou propostas não reúnam os portugueses como o fado da morte. Deve ser o nosso destino.

Janeiro 27, 2004

A morte pública

Miguel Marujo

Talvez a comoção ou a indignação sejam resultado de uma morte pública, quase em directo. Arrepia. Mas (acho eu) a morte de Fehér impressiona mais por ser pública: hoje, a morte quer-se reservada, empurrada para os hospitais - ou nas clínicas de rectaguarda, para não afectar as estatísticas de produtividade dos "hospitais SA". Todos negam a morte. Todos fogem da morte. Sofrer em público já é criticável, morrer publicamente é inconcebível. Muito longe das "ars moriendi" - a arte de bem morrer ou a "boa morte"- da Idade Média.

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Janeiro 27, 2004

No jardim da Celeste

Miguel Marujo

Vou formar uma empresa. Apetece-me. Mas depois não cumprirei as minhas obrigações com a Segurança Social e reterei os descontos dos meus funcionários. Durante um ano. Quando for "apanhado" direi que a situação está em vias de ser regularizada e que o farei nos próximos dias. Ora nem mais. E, ai da Ferreira Leite ou do Bagão!, que me ameacem. Digo-lhes para irem falar com a Cardona! Toma.

Janeiro 26, 2004

Fehér

Miguel Marujo

Miklos Fehér morreu em Guimarães, aos 24 anos, na sequência de uma paragem cardio-respiratória ocorrida durante o jogo entre o Vitória de Guimarães e o Benfica.



Tinha acabado de ver um cartão amarelo e a câmara mostrava o seu sorriso irónico. Voltou-se, recuou, parou, curvou-se e caiu inanimado. Dois minutos antes tinha feito o passe para o golo que deu a vitória à sua equipa.



Manuel Cajuda considerava-o o melhor ponta-de-lança a jogar em Portugal. Apesar de nunca ter deixado de ser a segunda ou terceira opção nos clubes por onde passou, "tapado" por jogadores como Jardel, Nuno Gomes ou Sokota, o internacional húngaro nunca virou a cara a luta, nunca desistiu e empenhava-se em todos os jogos como de finais se tratassem.



O Benfica obteve ontem a vitória mais triste da sua centenária história. Miklos Fehér saiu derrotado da final de ontem, mas viverá para sempre na nossa memória.



Vai ser difícil esquecer as imagens vistas em directo. A morte de um jovem ser humano, transmitida em directo pela televisão... Ainda por cima, a morte de um futebolista da nossa equipa, ocorrida no estádio da terra que dizemos nossa.



Os homens também choram quando assim tem de ser... Ontem teve de ser!

Janeiro 26, 2004

Da sobriedade

Miguel Marujo

A imagem de Fehér a tombar no relvado já foi mostrada à exaustão. Agora são os jornais televisivos da tarde levados à exaustão. Com mais de 35 minutos de jornal, apenas se falou da morte do jogador nos três canais televisivos. Noutros campos, a sobriedade também parece ter estado de fora (a primeira página do JN é má...). Valeu a primeira página de A Bola.


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Janeiro 26, 2004

Sobre a laicidade

Miguel Marujo

O André Belo, no Barnabé, ao falar dos 30000 alunos de escolas portuguesas [que] vão copiar em conjunto a Bíblia à mão, disse esperar «sinceramente que seja uma medida laica, isto é, sem a participação do Estado nem de alunos e professores exteriores à opção de religião e moral» [sublinhado nosso]. Na caixa de comentários ao texto disse-lhe que a laicidade não era isto...



Para mim, a laicidade do Estado não se joga na ausência do Estado de iniciativas que partam da Igreja Católica - ou de outras igrejas e comunidades.



A laicidade do Estado joga-se na pluralidade de todas as religiões no espaço público (podemos discutir se é isso que acontece na prática, mas isso é outro ponto). Não me incomoda uma manifestação religiosa - cristã, muçulmana, judaica, ... - ter a "participação" «de alunos e professores exteriores à opção de religião e moral». Ou as religiões apenas são toleráveis metidas na sacristia ou enfiadas em sinagogas clandestinas?



É uso e costume de algum discurso da esquerda se insurgir contra o discurso da Igreja (assim se identificando a Igreja de Roma, o Vaticano) na moral sexual. Que devia ser outro o discurso do Papa. Concordo. Mas a seguir parece querer remeter-se as igrejas para o interior dos seus templos. Este sinal também é dado, sobretudo em espaços à direita, quando as questões são políticas. Por exemplo, no fórum de leitores do PortugalDiário, a propósito das declarações críticas do bispo católico Januário Torgal Ferreira, sobre a política de imigração deste Governo PSD-PP, houve comentadores que escreveram: "a igreja não se deve meter na política" (claro: se for contra este Governo; se for a favor, lá escreverão que "até os senhores bispos falam bem"). Noutros sítios, há quem reclame ainda por mais intervenção da Igreja Católica na área social, na denúncia de más políticas sociais (como as do católico Bagão, por exemplo)...



São dois ou três exemplos. A condição da laicidade também é a minha. Defendo a laicidade do Estado, mas esta não se deve basear no totalitarismo da "ausência" de sinais religiosos, como na Albânia de Enver Hoxa ou, salvas as devidas proporções, na França de Chirac, que se meteu (como bem sublinhaste) numa alhada com a "lei do véu"...



Por fim, remeto para um texto do Movimento Católico de Estudantes, redigido já em 1993: «O cristão não é "a alternativa a este mundo corrompido", a única possibilidade de salvação. Evangelizar a partir da cultura, discernir como viver a fé no diálogo reconhecedor da autonomia e da pluralidade da Cidade e das especificidades culturais, exige que os cristãos não se posicionem paralelos a nada, mas numa cidadania feita com outros [...]».

Janeiro 26, 2004

Última Vontade

Miguel Marujo

«Morrer assim / como outrora o vi morrer – , / o amigo que lançou relâmpagos e olhares / divinos na minha escura juventude: / – malicioso e profundo, / um bailarino na batalha –, // entre guerreiros o mais jovial, / entre vencedores o mais grave, / um destino sobrepujando o seu destino, / duro, pensativo, clarividente –: // estremecendo porque vencia, / exultando porque morrendo vencia –: // ordenando, ao morrer, / – e ordenou o aniquilamento... // Morrer assim / como outrora o vi morrer / vencendo, aniquilando...» (Nietzsche)


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Luís Afonso, in A Bola