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Quando o anjo negro deixou entrar a luz

por Miguel Marujo, em 22.12.13

Push the Sky Away

Nick Cave & The Bad Seeds

 

 

Sabemos bem quem ele é: o anjo negro que subia ao palco num filme a preto e branco alemão a dizer que não ia cantar sobre uma rapariga e acabava a cantar sobre essa rapariga, é o mesmo (muitos anos depois) que nos surge na capa deste disco a expulsar uma mulher do paraíso. Push the Sky Away marcou o regresso de Nick Cave – depois das explosões de Dig, Lazarus, Dig!!! (2008) e dos dois álbuns com os Grinderman (de 2007 e 2010) – a ritmos mais lentos, a sonoridades que parecem planar pelos céus, mas sem se aproximar de Murder Ballads (1996) ou The Boatman’s Call (1997), referências mais óbvias quando procuramos mares mais calmos na torrente discográfica do australiano.

Este álbum é também um recomeço para Nick Cave, o primeiro sem o seu companheiro de todas as outras 14 aventuras, Mick Harvey, que optou por semear a sua música a solo. Este álbum é também a minha escolha num ano de regressos que podiam ser também escolhidos como o que melhor se fez, seja David Bowie ou Arcade Fire ou The National.

Quando deixamos de voar e começamos a escavar as palavras que formam cada uma destas nove canções, percebemos que a turbulência da música de Nick Cave (e os seus companheiros de tantos anos, os Bad Seeds) afinal permanece lá, indelével, como a fé de muitos.

Há sereias, há Deus, ou um deus muito pessoal deste australiano, que apesar de toda a expiação e possível redenção, permanece sempre mergulhado na tristeza de despedidas, de amores impossíveis e carnais.

Só por momentos conseguimos achar que “We No Who U R”, “Higgs Boson Blues” ou “Jubilee Street” – provavelmente a mais bela canção do ano – nos transportam para paisagens sonoras reconfortantes. Os poemas, os apontamentos soltos que Nick Cave foi compilando num pequeno bloco-notas ao longo de um ano, nasceram também de curiosidades que o músico e também escritor foi googlando ou consultando na Wikipédia. Martin Luther King ou Miley Cirus são personagens de uma mesma história, nove histórias de aparente descrença, que retratam estes tempos de desesperança.

Ouvido o álbum, escutadas as canções, podemos olhar de novo para a capa e ver aquele anjo negro a deixar entrar a luz para o quarto, iluminando o corpo despido dessa mulher. Talvez, como nesta foto, este seja também um álbum de enganos. Empurrado o céu para longe, a esperança são as pessoas. Sem necessidade de esquecer, porque sabemos bem quem ele é, este anjo negro.

[texto publicado este sábado no QI, suplemento aos sábados do DN, sobre Os discos que contam a banda sonora do que ouvimos em 2013.]

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