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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Setembro 01, 2013

Da política e do jornalismo

Miguel Marujo

 

Há um debate que volta e meia aflora no espaço mediático sem grandes consequências - da qualidade dos partidos e da formação dos quadros dos partidos. Esta semana, que termina, dei por mim a refletir algumas vezes sobre isso, em conversas laterais ou breves, com camaradas de profissão e participantes da Universidade de Verão do PS, em Évora, que acompanhei como jornalista. O ponto de partida era a comparação, inevitável, com outra Universidade de Verão, a do PSD, que decorria em simultâneo e só hoje terminou em Castelo de Vide. Sublinhava-se para pior a do PS: sem estrelas, sem soundbites, quase sem interesse jornalístico, argumentaram-me.

 

Dei por mim a pensar na crítica (tantas vezes) justa da falta de qualidade do discurso político e político-partidário em Portugal. Exigimos (mais ainda os jornalistas, num quotidiano relacionamento com políticos) que haja competência nesse discurso, competência técnica, argumentativa, retórica. Mas depois, ao primeiro confronto com um espaço que foge ao ditame mediático do minuto e meio televisivo ou do título que encha o olho, damos por nós (jornalistas) a suspirar por Castelo de Vide e a desdenhar Évora. Os pressupostos dos dois encontros são diferentes, percebe-se logo no programa e nos "professores", e o espaço reflexivo proposto pelo PS é porventura mais académico. Abel Caballero jantou com Pedro Reis, António Covas competiu com Santana Lopes, Fonseca Ferreira enfrentou Paulo Rangel, Gustavo Cardoso mediu forças com Marcelo Rebelo de Sousa e Caldeira Cabral competiu com Alexandre Relvas. Dir-me-ão que são apenas nomes. Não acho: é uma intenção clara, com uns e outros.

 

O jornalismo ainda não encontrou a fórmula para sobreviver: o Público tem ensaiado, todos os dias e não apenas ao fim de semana, um jornal menos breaking news e mais ensaíastico, com mais ou menos sucesso, qualidade e equilíbrio. Sem particular reflexo nas audiências e vendas. Mesmo o jornal i deixou um pouco de parte um modelo de notícias breves para a atualidade e aprofundamento longo de poucos temas por dia.

 

É difícil pois encaixar nos atuais modelos discursivos da comunicação social eventos da academia (sem a inevitável dose de político-governante-visitante-interpelado-por-outros-temas) ou de algo como a Universidade de Verão do PS. No caso dos eventos desta semana, um e outro modelo têm lugar como espaço de formação político-partidária, talvez falte tempo e disponibilidade do espaço mediático para descobrir como encaixar algo como o encontro do PS. Para que não nos fiquemos por soundbites muito coloridos nas manchetes noticiosas, mas encontremos outros discursos muito significativos - e sim, Caballero, Covas, Cardoso ou Caldeira Cabral foram estimulantes. Sem particulares soundbites.

 

Declaração de interesses: foi a primeira vez que acompanhei um evento deste tipo, pelo que o que refiro é impressionista (mais ainda sobre o encontro do PSD). E sim, também é uma autocrítica ao meu trabalho como jornalista. Na foto (de MM, ago/13): transmissão em direto da intervenção de Correia de Campos, na sexta-feira à noite, pela RTP I, vista no iPad.
E sim, também senti esta disfunção de comunicação quando organizava encontros estimulantes e importantes no Movimento Católico de Estudantes...