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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Agosto 17, 2013

De como o Álvaro deixou de andar de metro

Miguel Marujo

 

É sábado de manhã e na estação da Baixa-Chiado, em Lisboa, o tempo de espera pelo próximo metro é de pelo menos 10 minutos. Chegados a Santa Apolónia, o tempo de passagem do 728 pode chegar aos 30 minutos – é um autocarro que vai do Restelo à Portela, passando por Belém, Santos, Cais do Sodré, Terreiro do Paço, Xabregas e Parque das Nações. Este roteiro explica o grande número de turistas (e sim, Xabregas é destino muito procurado, ou não fosse lá o Museu do Azulejo).

 

Repito: sábado de manhã. Mas os tempos de espera também podem chegar aos 25/30 minutos durante a semana. E na estação do Marquês, linha azul, pode esperar-se pelas três (em vez de seis) carruagens seguintes pelo menos uns 8 minutos, às 20h30 de um dia de semana – e o cenário repete-se duas estações depois, no Saldanha, na linha vermelha. Com as mesmas três carruagens, para os turistas poderem experimentar o que é a sardinha em lata. Pelos vistos, para a administração do Metropolitano de Lisboa, 20h30 é uma hora tardia que não merece maior frequência na passagem de comboios nem mais composições.

 

Estes pequenos exemplos replicam-se noutras coisas: no metropolitano, há escadas rolantes sistematicamente avariadas (naquele sábado, era ver turistas a carregarem pesadas malas, em dois lanços de escadas da Baixo-Chiado); há elevadores continuamente fora de serviço (experimente-se o da estação do Rato, sistematicamente indisponível); muitos postos de atendimento estão fechados. Os autocarros andam cheios fora da hora de ponta, não vá algum passageiro ficar mal habituado e achar normal encontrar lugar sentado. Há turistas que suspiram. Uma amiga diz-me de Londres de como uma cidade que aposta no turismo dá emprego a muita gente. Apostar no turismo é também apostar na qualidade dos serviços oferecidos.

 

Apesar disto, pagamos mais e mais. Entrar no autocarro e validar o cartão custa 1,25 euros – eram 90 cêntimos a.T., antes da Troika, a 1 de janeiro de 2011. Se não se tiver bilhete, paga-se ao motorista 1,80 (a tarifa de bordo era 1,50 no início de 2011). Mais: ao fim de um ano, qualquer cartão Viva Viagem termina a sua validade. Mesmo que esteja em perfeitas condições e a uso. Para o trocar e manter os títulos que tem no cartão, é necessário ir a um “posto de atendimento” e pagar mais 50 cêntimos (100 escudos!) pelo novo cartão.

 

Álvaro Santos Pereira, o ministro que veio de Vancouver e enchia a boca nas primeiras semanas de que usava o metro (ficava bem para o boneco) como meio de transporte, não aprendeu nada nos anos em que viveu no Canadá. A aposta nos transportes públicos é a pedra de toque de qualquer política sustentável de um país. E o famigerado memorando da troika não é desculpa para tamanha degradação de serviços e oferta. O único aumento que ali explicitamente se referia era no “sector ferroviário” (“em particular aumentando os preços dos bilhetes”, lê-se, num documento que também parecia conhecer muito mal os transportes).

 

Nas últimas semanas, correu mundo uma foto de uma manifestante no Brasil. “País civilizado não é aquele em que o pobre anda de carro, é aquele em que o rico usa o transporte público.” Álvaro veio de um país civilizado para dar cabo do pouco que começava a haver de civilização. Pode sempre voltar para lá, nós ficamos com este pastel de nada.

 

[originalmente publicado no Dinheiro Vivo - foto MM, ago/13]

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