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Esquerdas - da falta de memória

por Miguel Marujo, em 15.07.13

[no meu regresso de férias]

 

O Bloco de Esquerda pediu ao PS, no sábado, que não negociasse nada sobre "acordo" algum pedido por Cavaco, colocando-se de fora da óbvia exigência de integrar essa discussão (depois do Presidente que se diz da República descaradamente ter ignorado dois partidos que representam cerca de 20% dos eleitores portugueses) e fazendo assim um favor ao inquilino de Belém. Os bloquistas esqueceram a lição de 2011, quando não quiseram reunir com a troika, sofrendo também por isso uma penalização forte nas eleições legislativas desse ano. O conservador PCP seguiu o mesmo caminho, para depois apontar o dedo estafado "à política de direita do PS".

É assim a esquerda, diz-nos a prática, não fosse esta (se se tiver memória) enganadora: em 1989, Jorge Sampaio federou um consenso à esquerda para a Câmara de Lisboa (algo que muitos julgavam impossível), que depois se renovaria e alargaria. (Os comunistas romperam mais tarde, os hoje bloquistas saíram quando Luís Fazenda liderava a concelhia...).

O jogo socialista de se sentar à mesa (apesar do PS ter insistido para que BE e PCP também se juntassem) é de risco, mas já se percebeu que o país está dividido sobre a necessidade de romper já (com eleições) ou tentar chegar ao fim do famigerado memorando (julho de 2014, a data de Cavaco). Nesse deve e haver, não basta que se aponte um horizonte de eleições (mesmo que para daqui um ano).

Aceitar qualquer reforma baseada nos cortes de 4700 milhões de euros será o mesmo que dizer adeus ao voto de muitos eleitores. O PS tem de centrar o seu discurso em duas balizas: reformar sem valores na mesa (afinal, estes 4700 milhões foram uma invenção gaspariana para troika ver); reformar sem atingir o cerne do Estado Social - saúde, educação, segurança social. Aquilo que deve ser posto na mesa do debate são funções do Estado que, por estranhos motivos, não são questionáveis: a defesa, para começar. Porquê manter um estado dentro do Estado? As PPP: porque não romper contratos penalizadores, como os da Lusoponte, resgatando para o Estado essas parcerias? Os swap: porque não rasgar estes contratos? A contratualização fora do Estado: porque continuar a entregar aos privados aquilo que o público pode e tem capacidade de fazer? Tantas coisas para fazer antes de atacar aquilo que sempre se atacou: o SNS, a escola pública, as pensões e reformas.

 

A esquerda (toda) tinha mais uma oportunidade para se fazer valer junto da direita. Não quiseram PCP e BE, deixando o PS sozinho, acusando-o de colaborar com a mesma direita a quem se aliaram em 2011 para derrubar um governo socialista. Comunistas e bloquistas insistem que não têm de negociar, mas os mesmos já se sentaram à mesa com o Governo (e não com o PSD e CDS) a discutir a reforma do Estado. Podiam não fazer valer nenhum dos seus pontos de vista, mas faziam-se ouvir. O que a esquerda continua a fazer é ilusionismo. Falta ao PCP e BE descerem ao terreno concreto e mostrarem que querem ser um projeto de poder - só assim podem proclamar (alto e bom som) que a esquerda deve governar.

[outras leituras recomendadas:
Ana Matos Pires, Não entendo...

Rui Bebiano, PS na grande encruzilhada
Pedro Marques Lopes, Insustentáveis
João Galamba, Salvação, disse ele]

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