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O que vale uma vaia?

por Miguel Marujo, em 12.06.13

A memória é tramada. Tropecei por estes dias num texto da blogosfera, nos idos de 2003 (estávamos em outubro desse ano), governava uma coligação PSD/CDS, e o primeiro-ministro era vaiado... O texto foi escrito por um jornalista, que hoje é assessor de imprensa do... primeiro-ministro atual. É muito interessante de se ler.

 

«O que vale uma vaia como aquela que o primeiro-ministro recebeu na inauguração do novo estádio da Luz? Tem significado político suficiente para que Durão Barroso e o PSD metam as mãos à cabeça? Merece editoriais nos jonais e um fórum na TSF? Negar a importância da vaia é negar a realidade. Mas é preciso contextualizá-la, claro. A vaia aconteceu num clima de festa (mas, em Portugal, as “festas” e as homenagens são sempre contra alguém, como se sabe) e sucedeu a vaias ainda mais ruidosas endereçadas a Gilberto Madaíl e a Valentim Loureiro. Ou seja, a “autoridade” foi contestada, como parece ser de bom tom nos dias que vão correndo. Pedro Santana Lopes, também ele sportinguista como Durão Barroso (e como Jorge Sampaio, o único que passou incólume no novo “inferno” da Luz) conseguiu transformar a vaia em aplausos. Durão não teve a mesma sorte (começou até por escorregar nos degraus do púlpito) mas foi despedido com mais palmas e menos assobios. Todavia, foi um bocado patético ouvir Fialho Gouveia, o “speaker” de serviço no estádio (e ao ouvi-lo recuei 20 anos no tempo) apelar à boa educação da “família benfiquista”… Por falar em recuar no tempo… Quatro ou cinco dias antes do dia 25 de Abril de 1974, o então Presidente do Conselho, Marcello Caetano, foi entusiasticamente aplaudido de pé por uma multidão que enchia o estádio do Restelo. Passados poucos dias desta entusiática manifestação, em que muitos na altura viram um sinal de vitalidade do regime, Marcello Caetano seria obrigado a sair do Quartel do Carmo num “Chaimite”, rodeado de povo que pedia a sua cabeça. O mesmo povo que dias antes supostamente o venerava e que permitiu que ele morresse no Brasil num exílio sem glória.
A importância das vaias é relativa, como se pode ver neste episódio. Mas ignorá-las pode ser um erro muito caro eo PSD tem que ter consciência disso. Na memória de toda a gente ainda está fresca a vaia que o então primeiro-ministro António Guterres recebeu no Pavilhão Atlântico, quando teve a péssima ideia de assistir ao encerramento do Open de Portugal em ténis. Nesse caso não foi o povo quem vaiou o primeiro-ministro – foram as elites. Mas as manifestações populares de desagrado pela maneira como o país estava a ser conduzido não tardaram a aparecer e nas eleições autárquicas (sim, porque é nas eleições que se avalia o desempenho dos políticos) Guterres foi simplesmente despedido pelo povo. Muita gente acha que Guterres fez mal em ir-se embora nessa altura, muitos acusam-no de ter fugido. Eu acho que ele não tinha outra saída se quisesse manter (como mantém) algum capital político que lhe permita um “come back” em grande, provavelmente daqui a dois anos e meio, nas presidenciais.
A vaia de Guterres é comparável à de Durão? Sim e não. “Sim”, porque ambas são ruidosas manifestações de desagrado. Desagrado em relação aos políticos (“esses malandros que só querem tratar da sua vidinha”, como diz cruelmente o cidadão anónimo) e desagrado em relação às figuras concretas e ao seu modo de actuar. “Não”, porque surgiram em contextos diferentes.
Guterres foi vaiado pelas elites quando o “guterrismo” já tinha entrado no seu estertor; Durão foi vaiado pelo povo porque o país está deprimido com tantos escândalos e porque a vida não está fácil para ninguém. Saber qual é vaia mais significativa do ponto de vista político é tarefa impossível. Tenho para mim que Durão não “pagou a fava” apenas pelo rumo do país está a tomar. Tenho para mim que o primeiro-ministro foi vaiado como foi porque o povo sente, inconscientemente se calhar, que não existe hoje em dia alternativa a Durão e ao seu Governo de coligação. E não haver uma alternativa é terrível num sistema democrático. O PS, infelizmente, está amarrado, enredado, no caso Casa Pia. O seu secretário-geral está a prazo e ninguém (nem mesmo o inefável Carrilho) quer pegar no partido. O PS não tinha sequer ninguém de primeira linha na Luz para ser vaiado. Ou para ser aplaudido. E isto é triste e preocupante.

O país (e o país somos todos nós) precisa de alternativas. Precisa de um PS forte, que fiscalize o Governo, que faça propostas, que represente uma esperança de mudança. De um PS que não se demita das suas obrigações. Isto não é uma declaração ideológica ou partidária – é uma simples questão de bom senso. Se a situação continua com está, ainda vamos ver o PSD a fazer um Governo-sombra ao seu próprio Governo de coligação. Candidatos a primeiro-ministro-sombra no PSD é coisa que não falta. Basta olhar à volta...»
Rui Baptista, in Suspeitos do Costume [sublinhados nossos]

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