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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Fevereiro 26, 2013

[escrever sobre política, por vezes dá gosto]

Miguel Marujo

«As palavras de evocação de Aquilino Ribeiro atropelaram-se na tosse. Mário Soares pousou os papéis do discurso, pediu desculpa e disse que precisava de um rebuçado. Assim fez: o Dr. Bayard saiu do bolso do sobretudo castanho e voltou a temperar a força de uma voz, que mais sumida contava as venturas do “homem quase rude, por vezes difícil”, provavelmente “um dos maiores escritores” de língua portuguesa. Foi o regresso à vida pública do antigo Presidente da República, 88 anos, depois de ter estado internado de 12 a 21 de janeiro.

No Panteão Nacional, comemoravam-se os 50 anos da morte de Aquilino Ribeiro, com um debate sobre “o Homem e o Escritor”, numa iniciativa da Associação Portuguesa de Escritores, à qual se quis associar Mário Soares. Ali, na Igreja de Santa Engrácia repousam os restos mortais do autor de O Malhadinhas, que “devia ter sido prémio Nobel” da Literatura, sentenciou Soares, perante o acordo de uma plateia que incluía Eduardo Lourenço e Mário de Carvalho, Maria Barroso e Pilar del Rio, mulher de José Saramago, afinal o primeiro e único Nobel literário para as penas portuguesas.

Ali, Mário Soares não foi para falar da troika, apenas de Aquilino, disse aos jornalistas que o esperavam à chegada, nos “frigoríficos da glória”, como lhe chamou Eduardo Lourenço, quando da trasladação de Amália Rodrigues para o Panteão. Mas sempre foi dizendo sobre a Grândola, Vila Morena, que esta é uma canção “atual”. “Eu quando cheguei depois de quatro anos e meio de exílio e de expulsão do país, em França, comecei logo a ouvir a Grândola, Vila Morena, eu sou mau cantador, tenho mau ouvido, mas de qualquer maneira gostei sempre muito de também ajudar a gritar e a falar e a cantar Grândola, Vila Morena.”

No Coro Alto da Igreja de Santa Engrácia – cujos séculos de construção motivaram o dito popular sobre demoras nas obras –, uma sala em meia lua à pinha de gente e câmaras de televisão e fotografia, Mário Soares teve tempo para se passear (sem os papéis na mão, que só leu “para não ser atraiçoado pela memória”) sobre a Aventura Maravilhosa de D. Sebastião, resumindo aos presentes um livro que ficciona o regresso do rei que estava vivo e reivindica o trono a Filipe II, e deliciando quem o ouvia com uma história sobre a duquesa de Medina Sidonia, a quem chamavam a “duquesa vermelha”.

No final, arrumou os óculos no bolso interior do sobretudo. “Peço desculpa, mas retiro-me”, com os aplausos ainda a ecoarem. Aquilino também foi pretexto para homenagear Soares.»

[reportagem minha publicada no DN de hoje]

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