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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Dezembro 16, 2012

Trinta anos de fantasmas

Miguel Marujo

 

É impossível fazer a lista definitiva do ano que agora acaba. Não ouvimos todos os discos que queríamos; há muitas canções que ainda ressoam no ar à espera de outro tempo para a escuta, há discos que porventura só tropeçaremos daqui a muito tempo, a destempo de quaisquer listas. Recordamos este 2012 naquilo que nos interessa, nas coisas e pessoas que merecem ser citadas. Já se sabe: os afetos não se explicam. Como neste caso, em que a nossa escolha é afinal uma compilação que percorre 30 anos de música – até 2012. Não que o ano não tenha sido fértil em possíveis álbuns do ano, de Andrew Bird a Cat Power, de Fiona Apple a Beach House, de Leonard Cohen a Paul Buchanan. Mas os afetos também se explicam: A Victim of Stars (1982-2012), de David Sylvian, resume 30 anos de carreira a solo do antigo vocalista dos Japan e sintetiza um caminho invulgar da história da pop.

Há um fantasma que abre este duplo álbum: Ghost, que vem dos Japan, a sua banda de origem, aqui numa remistura de 2000, de uma anterior compilação, Everything and Nothing, edição luxuriante, mas menos atenta ao detalhe temporal e histórico desta A Victim of Stars. Mas Ghost não é o fantasma dos Japan, antecipa antes o que mais tarde David Sylvian nos dará a descobrir. O registo cronológico permite estas descobertas e leituras. A cada álbum, o britânico baralhou-nos os sentidos, no experimentalismo sonoro ou no lirismo musical, cruzados em perfeita sintonia, sintonizados na voz deste artesão. Mas há detalhes, timbres e vibrações que percorrem estes 30 anos como marca do artífice – mesmo quando em colaboração com outros. E os outros têm também espaço e tempo aqui.

Depois o primeiro CD viaja por Bamboo Houses e Bamboo Music, single de 1982, cartão de visita da carreira a solo que parece (insistimos) revisitar os 30 anos que se seguem. E Forbidden Colours, com Ryuichi Sakamoto, é um pequeno monumento pop que plana até Heartbeat, outro fresco que nos chega da obra do pianista e compositor japonês.

A narrativa das colaborações de Sylvian marca aliás este álbum, que não deixa de fora nenhum dos seus trabalhos vocais (os álbuns instrumentais, muitas vezes longos, minimais, intraduzíveis, ficam à porta desta coletânea). Além de Sakamoto, há Robert Fripp, Mark Isham, Jon Hassel, Evan Parker, Holger Czukay. E há lugar para quatro temas que David Sylvian nos trouxe nas experiências coletivas de Rain Tree Crow e Nine Horses. Registe-se a ausência do dueto com Virginia Astley, Some Small Hope, que nasceu à sombra de Secrets of the Beehive, opus maior da pop de Sylvian. Álbum de culto, esta obra de 1987 vive aqui com três temas – Let the Happiness In, Orpheus, Waterfront – que nos conduzem até Pop Song, uma "antipopsong" que vive desta aparente contradição. Como toda a obra de Sylvian: a sua música é pop de primeira água – mesmo que hoje se aventure por terrenos onde pede a atenção, toda a atenção e disponibilidade aos ouvidos de quem ouve. Para que escutem, sem pressas, sem concessões.

Desde Blemish (2003) que David Sylvian acentua esse lado experimental em sucessivos álbuns de originais, de canções ou instrumentais, ou entregando as suas criações à recriação e linguagem de outros. E esta compilação traduz esses resultados, rematados no inédito Where’s Your Gravity?, síntese perfeita da matéria dada e revista deste duplo álbum. De fantasmas.

David Sylvian
A Victim of Stars (1982-2012)
Virgin/EMI Music

 

[texto publicado no QI, suplemento de cultura do DN de ontem, numa escolha pessoal do álbum do ano.]

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