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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Novembro 08, 2012

Da caridadezinha

Miguel Marujo

Sobre Isabel Jonet, e a sua intervenção na SIC Notícias, reagi dizendo que enquanto a senhora estiver à frente do Banco Alimentar (instituição que prezo) não estarei disponível para colaborar com essa organização. (Não grito por um boicote organizado, é decisão pessoal assumida por mim.) Interpelado por algumas intervenções no facebook e por um post como este, deixo algumas notas.

 

1. Ninguém põe em causa o mérito da organização de Isabel Jonet, mas os seus "20 anos de voluntariado" não a tornam mais habilitada para falar de pobreza que muitos e muitos outros. O que aflige aliás no seu discurso é uma reiterada defesa da austeridade como "mal menor" e sobre a inevitabilidade do discurso atual de que só há um caminho, o do empobrecimento (é um padrão que vem desde junho de 2011, por exemplo).

 

Estou à vontade. Já em maio de 2008, antes da crise explodir desta forma, escrevi que "as mais de mil toneladas recolhidas pelo Banco Alimentar não nos deviam satisfazer". E explicava-me: "O bom era, ano após ano, ser cada vez mais pequena a necessidade de uma organização assim." E isto leva-me ao cerne de uma questão que Jonet nunca discute seriamente, nem com as suas reflexões sobre padrões de consumo desajustados. Compreender as razões e as causas da pobreza, para a atacar e debelar, tornariam inúteis organizações como o Banco Alimentar, e eu isso nunca lhe ouvi dizer: "que bom era eu já ter fechado a porta" *.

 

2. Insiste-se que os portugueses vivem acima das suas possibilidades. E Isabel Jonet di-lo à saciedade. Falta o "detalhe" (de quem devia conhecer o terreno) de um país que tem 20% de pessoas abaixo do limiar da pobreza viver acima das suas possibilidades. Que possibilidades? Nos exemplos dados, parece que Jonet prefere que regressemos a um certo país onde todo o consumo era castigado (daí o epíteto "salazarento" não ser tão estranho quanto isso), em que cinco milhões de portugueses não tinham acesso a um serviço nacional de saúde de qualidade, em que a instrução primária era a mãe de toda a universalidade (e ponto final parágrafo, que o liceu e a universidade eram coisa de elite). Desse país, em que os meus pais cresceram, das senhas racionadas no tempo da Guerra ao medo dos filhos terem de ir para uma guerra colonial injusta e fora de tempo, já não restam mais do que saudosistas, em que nem todos tinham bife para comer à mesa. A democracia trouxe-no isto, e muito mais. Trouxe também alguns comportamentos de excessos, sim, trouxe (curioso: foi Augusto Santos Silva que, como ministro da tutela, lançou uma campanha contra o consumo excessivo e foi então muito criticado por lançar o alarme...), mas a responsabilidade individual tão cara a um certo liberalismo (incluindo o de Jonet) esbarra na vontade do Estado nos dizer que alguns, muitos, não podem comer bife por causa do défice.

 

3. Muitos têm invocado a caridade como motor, neste debate. A própria Isabel Jonet defendeu em tempos que a «caridade vale mais que a solidariedade (...), caridade é amor, solidariedade e serviço». Percebo o que a presidente do Banco Alimentar quer dizer, duvido que a sua prática seja diferente da caridadezinha.

 

Vou direto ao tema, como católico: sim, a caridade como a hierarquia na verdade (aquilo que não deve ser esquecido) é "amar ao próximo como a si mesmo" e isto signfica muito mais que a noção pobre de manter pobres ao meu cuidado (chamemos a isto, caridadezinha). Significa sim, aprofundar a minha relação na sociedade com o outro, de tal modo que me seja insuportável aceitar a pobreza e que muitos iguais a mim vivam na pobreza. Ou seja: é-me impossível aceitar uma política que quer tornar mais pobres, que desprotege ainda mais os que nada ou pouco têm, que insiste em impor violentas taxas fiscais a quem se esforça por ganhar míseros salários e que rotula de preguiçosos ou gatunos aqueles que auferem um rendimento social de inserção.

 

4. As redes sociais são virais na exposição da indignação. Isto não faz delas estúpidas, obriga-nos antes a perceber que a ponderação que se pede a quem dedilha três frases em 150 caracteres ou um post no facebook, deve ser antes a arma de quem intervem na sociedade. Dizer que uma ativista como Isabel Jonet está isenta de crítica (como bem notou Paulo Pena, no facebook) é querer tornar estúpido e acéfalo qualquer debate.

 

Mais contributos, muito bons para o debate: de Domingos Farinho e de Pedro Lains. E sobre a "caridade", numa perspetiva histórica, ainda que lhe falte (na minha ideia) uma perspetiva mais atualizada sobre como os católicos devem entender esta virtude, este texto de Rui Bebiano.

 

[* - atualize-se: fazem-me notar que Jonet já disse (nunca lhe ouvi, daí ter escrito o que escrevi) que bom seria já ter fechado a porta; ;)mas - sublinho a incoerência - depois gosta muito de se manter ali agarrada à necessidade de ter pobres, em vez de querer de facto acabar com a pobreza, como se percebe pela necessidade de termos mais austeridade e de empobrecermos.]

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