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Hermenêutica

por Miguel Marujo, em 17.03.12

Fazer a História recente, mesmo sob a forma de ensaio, tropeça muitas vezes num condicionalismo ideológico que não se compagina com a ditadura dos caracteres de um jornal. Pedro Lomba ensaiou-se no Público a debater o semipresidencialismo desta república - um pressuposto pertinente - para concluir por uma tese conformada: que o poder dos presidentes se define (restringe) ao regime das sondagens. Fraco consolo.

 

Mas há outro aspeto que devo sublinhar. Pedro Lomba resume o mandato de Sampaio em 36 linhas de repetidos argumentários que a direita sempre gostou de colar ao homem que derrotou Cavaco e esquecendo o contexto (mais do que necessário) ao passar pelo fim do Governo de Santana/Portas. «O acto de dissolução, sem fundamento contra um governo que ele dizia "descredibilizado"» é uma frase que arruma uma memória histórica muito parcelar - e parcial. A descredibilização do Executivo de Santana/Portas não era dita por Sampaio, era vivida todos os dias pelos portugueses.

 

Há dias, em troca de comentários com o próprio Pedro no seu facebook (sobre o prefácio do comentador de Belém sobre Sócrates), caracterizei-lhe o governo desses meses de 2004-2005 como «um dos mais vergonhosos, caricatos e dementes governos de Portugal». Mantenho. Lomba não pensa assim, porque argumenta que Sampaio não o deixou ser governo: «Os escassos quatro meses também mostravam a arbitrariedade do mesmo Presidente que nem dava tempo para que um governo, sem legitimidade de título, adquirisse legitimidade de exercício.» Duas ideias: aquele governo, de facto, nunca deveria ter sido empossado - "sem legitimidade de título", reconhece Lomba -, mas teve o tempo suficiente para se perceber que o exercício seria cada vez mais ilegítimo, na sua penosidade e caricatura. Já todos se esqueceram que o episódio da dissolução transborda no copo de Belém com o ministro-amigo-braço-direito de Santana, Henrique Chaves, a bater com a porta acusando o primeiro-ministro de mentir?!

 

Há uma última conclusão no parágrafo de Sampaio, que é desonestidade intelectual. Resume Lomba: «Surtiu efeito [a dissolução]. Nas eleições seguintes Santana perdeu com clareza para Sócrates e tudo mudou.» Mais uma vez, a memória é tramada: da dissolução de Dezembro às eleições de Março, o próprio Santana conseguiu cavar ainda mais fundo o miserabilismo da sua governação, e nos cinco meses que foram de governação o desmando foi o tom na Educação, Saúde... ou mesmo em São Bento. O povo eleitor é que deu a derrota a quem nunca se credibilizou, o cidadão eleitor é que percebeu que Sampaio errou ao dar a posse a um governo ferido de legitimidade, como se provou na sua governação. O resto, caro Pedro, parece mais um ensaio ao sabor das sondagens de hoje.

 

 

[à margem]

Para memória futura: Santana Lopes anunciou-se hoje como putativo protocandidato a Belém. Que a memória não seja curta.

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