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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Julho 19, 2011

Cristo entraria na Católica?

Miguel Marujo

António Marujo (Público, 19.7.2011)

 

«Seria um homem andrajoso, vestido com uma túnica, usada, suja e cheia de pó, de quem andava muito a pé pela Galileia, barba e cabelos desalinhados. Doze séculos depois, outro homem, um saco de serapilheira castanha escura, toscamente cozida, vagueava pelas terras da Úmbria italiana, falando sobre a importância do despojamento. Seriam assim Jesus Cristo e Francisco de Assis (a túnica usada pelo Poverello pode ser vista, aliás, em Assis).

Mais recentemente, outros tinham a mesma atitude: o Abbé Pierre, que morreu em 2007, usava vestes pobres, mas mesmo assim foi exemplo para muitos. Algum deles poderia ser professor ou aluno da Universidade Católica? Sem vestuário “digno e conveniente”, talvez tivessem que ficar à porta.

Uma universidade não é uma praia, claro. Por isso usamos roupa diferente em diferentes situações. Trata-se de bom senso. Mas nunca entendi a ditadura segundo a qual um homem só está bem vestido com fato e gravata (as mulheres têm mais liberdade), nem os Estados que querem impor códigos de vestuário — sejam os talibãs afegãos ou a laica França.

Espera-se, assim, que prevaleça a “chamada de atenção” referida pelo reitor. Mas há uma ideia perversa: a de que cada um vigiará a “salvaguarda do ambiente e da imagem” da UCP, “devendo chamar a atenção dos que se apresentarem de maneira imprópria”. O gosto pessoal dita a regra do alheio? Quem diz o que é “impróprio”?

O Conselho Académico de uma universidade católica poderia concentrar-se, por exemplo, na importância de criar alternativas à ditadura financeira dominante. E em que nela se ensinassem mais valores de acordo, por exemplo, com os apelos do Papa à “refundação do sistema financeiro” e menos com a formação de elites que reproduzem o desejo de lucro dos “mercados”.»

2 comentários

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    boriscanis

    20.07.11

    Eu fui estudar para a Holanda nos anos 70. Na minha turma tinha gente mal vestida (a maioria), alguns traziam o cão e comer uma sopinha na aula eram coisas que não aqueciam nem arrefeciam quem quer que fosse. Os professores (a maioria) eram tratados por tu. No entanto havia respeito uns pelos outros e a qualidade do ensino, aposto que superior ao da Católica de hoje. Temo que pessoas como o edu, preocupados só com fachadas, por mais que naveguem, dificilmente o farão "para a frente".
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