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A triste figura dos discípulos

por Miguel Marujo, em 18.04.11

«1. Há muitas maneiras de nos deixarmos alienar. Diz-se que alguns cristãos, sensíveis às acusações de alienação religiosa e decepcionados com algumas atitudes da Igreja no pós-Vaticano II, transitaram, com armas e bagagens, para a actividade política, julgando encontrar nela a salvação. De "vencidos do catolicismo" parecem, agora, vencidos da política. Segundo os Evangelhos, Jesus teria aconselhado os discípulos a distinguir essas duas áreas de intervenção: "Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus." Porque não são necessariamente incompatíveis, podem coexistir, no mesmo cidadão, sem esquizofrenia.

Tal distinção não basta para encontrar o caminho da conversão das religiões, nem o da transformação permanente das práticas políticas, expostas ambas a lamentáveis distorções.

Hoje, está na moda fazer dos políticos os bodes expiatórios de todos os nossos males, precisamente, porque transferimos, para eles, de forma mágica, a salvação do país, distraindo-nos da nossa intransferível responsabilidade cívica. Alienamo-nos, repetindo que eles não deixam espaço à sociedade civil, mas é esta que se demite da sua vocação e entrega tudo na mão dos partidos, que, por natureza, são apenas parte da acção política.

A vida em sociedade tem muitas dimensões e expressões e, por vezes, os meios de comunicação, cegos pela poeira dos acontecimentos políticos e por tudo o que corre mal, roubam, aos cidadãos, o país real, na sua complexidade. A verdade passa a ser a representação que eles nos distribuem. Por outro lado, a publicidade torna as pessoas infelizes, se não comprarem as suas propostas. Ora, é a civilização expressa nessas propostas que está falida.

 

2. Perguntam-me, muitas vezes, que pode e deve fazer a Igreja na situação actual. O que de pior poderia acontecer é que alguém fingisse que o sabe. Não faltam, aliás, na actualidade portuguesa, comissões de sábios que só aparecem depois do irremediável.

Nesta semana, proponho uma breve reflexão sobre o contraste entre Jesus e os seus discípulos.

Jesus, ao contrário de Buda, não é pela extinção do desejo, até o excita. Prega o reino do infinito amor. Exige, no entanto, a regeneração das raízes dos nossos apetites desencontrados, implicando a conversão e a hierarquização dos nossos desejos.

O Nazareno levou muito tempo a encontrar o seu próprio caminho e, quando pensava que já o tinha encontrado - foi iniciado e baptizado por João Baptista -, sentiu-se surpreendido, ao entrar em oração, por uma Voz que o fez estremecer: "Tu és o meu Filho muito amado." A partir daí, o rumo da sua existência mudou radicalmente. Não interpretou tal revelação como um privilégio, mas como uma missão que o levou a arriscar tudo: mostrar, por palavras e gestos, que o seu Deus nada tinha a ver com uma religião e uma prática social que colocava uns à mesa e outros à porta. Foi por isso que escolheu todas as más companhias, contrariando as normas religiosas e morais mais prestigiadas e aprovadas.

 

3. Não era o que os grupos dominantes esperavam. Queriam alguém que fosse um líder, um messias que, em nome de Deus, resolvesse, miraculosamente, as questões económicas, políticas e religiosas com que se debatia um povo dominado. Jesus não foi insensível a essa esperança. Há, porém, uma narrativa, na qual Jesus interpreta essas tentações como diabólicas, isto é, que o separavam do sonho que o habitava: subverter tudo aquilo que gerava a exclusão das mulheres, dos classificados como pecadores, dos doentes, dos pobres, dos estrangeiros, dos que estavam sempre a mais (Lc 4). Era o sonho infindável de reunir todos os filhos de Deus dispersos, como dirá S. João (Jo 11, 52).

Se Jesus venceu essas tentações que o acompanharam até à morte, elas eram o próprio desejo dos discípulos em luta pelo poder. Conta-se, no Evangelho de S. Marcos, que era, precisamente, essa a questão que os movia e impedia de entender o caminho do Mestre que, afinal, seguiam por equívoco. A questão azedou-se tanto que, um dia, dois foram ter com Jesus e disseram claramente ao que andavam: quando tomares conta do poder, queremos ser os primeiros da lista. Acontece que os outros dez ficaram indignados com esta jogada de antecipação. Jesus foi obrigado a uma reunião de emergência e declarou-lhes que escusavam de insistir em o desviar do seu rumo. Eram eles que tinham de mudar: aquele que quiser ser o primeiro, seja o último e ponha-se ao serviço de todos, porque ele, Jesus, também não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida por todos (Mc 4 - 10).

Calaram-se, mas não acreditaram no que ele dizia: se Deus estava com ele, tinha de ir à luta e Deus não o deixaria mal.

Esta semana é, realmente, santa pela fidelidade de Jesus. É criminosa por quem o assassinou, mediante uma farsa judicial. É, sobretudo, a semana da triste figura dos apóstolos, dos Doze, nosso retrato, quando criticamos o comportamento dos políticos e reproduzimos, no interior da Igreja, os esquemas e as atitudes que Jesus reprovou.

Para crentes ou não, as narrativas do Novo Testamento, que contam o que se passou, no Jardim das Oliveiras, na prisão e no desfecho do processo de Jesus, são a maior parábola da humanidade a que pertencemos.

Jesus era e é o ser humano com temperatura de Deus e um sonho que nem a cruz conseguiu quebrar.» 

 

Frei Bento Domingues, O.P., no Público de ontem (sem link para não assinantes)

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