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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Março 24, 2011

Os ricos que paguem a crise e o rapaz de Massamá

Miguel Marujo

[A 1 de Setembro de 2010 fui convidado a escrever umas coisas no Delito de Opinião. Hoje, relendo o texto, noto que ganha uma actualidade visceral. Porque, ao contrário de Manuela Ferreira Leite que anda a dizer que teve razão - que não teve nem tem -, eu prefiro dizer que isto tudo não promete nada de bom. Porque o que ameaça aí vir é pior.]

 

 

Agora que só se sai à rua de cravo na mão a horas certas, fica arrumada na memória a frase tantas vezes pintada nas paredes, os ricos que paguem a crise, mesmo que agora ela permaneça actual. É verdade que os ricos deste país, na altura em que frase era mote pichado, se tinham pisgado para o Brasil, regressando anos depois sem grandes mazelas na conta e na sobranceria. Hoje, os ricos confundem-se com um IRS de 40, 42 ou 45 por cento, coisa mal pensada, que belmiros e amorins são poucos nos 45 e zés e marias que chegam aos 40 não podem sonhar com a lista da Forbes – talvez com a foto de férias no Jornal da Noite da SIC. Hoje, os ricos, muito ricos, ganham cada vez mais, um fosso cavado nos anos de ouro dos dinheiros da Europa, que o senhor inquilino de Belém parece hoje renegar no discurso confuso que vai produzindo, e continuado nos anos socialistas socráticos. Pelo meio houve um assomo de justiça social – o rendimento mínimo garantido, hoje travestido em coisa menor e arma de arremesso demagógica (por um PP que trata pelo nome velho o que rebaptizou por não ter coragem de exterminar), depois de portas fechadas a um trabalho mais inclusivo sério. Hoje, aos ricos pedem-se sacrifícios simbólicos, aos que vivem no fim tudo se exige: o corte cego nas despesas sociais, em nome de um défice que só foi atropelando quem pouco ou quase nada ganha. Hoje, nos ricos pode incluir-se uma banca lucrativa como poucas, mesmo na crise, apesar da mão estendida ao Estado, o mesmo Estado que veio cortar nas despesas sociais.

 

Nos ricos só não se pode incluir os políticos – não são ricos, damos de barato e a demagogia feita à maneira pelo CDS que quer cortar nos gabinetes políticos (depois de ter afundado milhares de milhões em submarinos para brincar aos connerys) é própria de quem gosta de falar desta classe como se dela não bebesse. E como se nela nunca tivesse tido a sua dose de gamela. Mas, a mim que me pedem sacrifícios sérios, custa-me não se pedir aos políticos idênticas doses de sacrifício. Ou melhor: exemplos e práticas generosas. A coisa pública que este ano faz 100 anos merece políticos bons, bem pagos, mas generosos. Por isso, quando um bispo pede contributos para um fundo social de coesão, escusa uma certa esquerda de atirar a primeira pedra, lembrando as eventuais fortunas vaticanas ou os maus exemplos eclesiais (que os houve) com as contas e os impostos. Devia antes essa esquerda seguir o exemplo da generosidade (devia escrever caridade, mas é palavra muito maltratada e mal interpretada nos dias de hoje) que os cidadãos são chamados a prestar. E traduzi-los na prática.

 

Dizer isto é bem diferente da inveja do rapaz de Massamá, que diz que é do povo, mas abomina a vista que tem da marquise, que diz que vem do povo, mas almoça no mesmo resort que o outro ocupa ou sonha em ocupar esse mesmo resort no dia em que o outro de lá sair. O rapaz de Massamá é trejeito de cantor com verve para o palco, não serve como alento para quem, sacrificado, sonha com esse resort ou outro em Pipa ou Varadero, uma casa no Parque das Nações ou o cartão de crédito dourado. Esta ideia de riqueza nasceu na escola cavaquista dos anos dourados de betão e auto-estradas e teve discípulos nos pontais dos que saem da praia para jantar vaca estufada, ouvir uns senhores lá de Lisboa e descobrir que um deles até é de Massamá – mas que no fundo não quer dar o exemplo ao viver em Massamá. Quer apenas fugir de lá a sete pés.

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