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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Dezembro 20, 2010

A política e a caridade

Miguel Marujo

«A publicidade, de índole claramente eleitoral, dada por Cavaco Silva à sua visita a uma festa de pessoas sem-abrigo e a memória de Fernando Nobre da criança que corria atrás de uma galinha com um pedaço de pão no bico marcam, da pior maneira, o debate sobre a relação entre a política e a pobreza em Portugal.

Não pretendo fazer juízos de valor sobre intenções subjectivas. Preocupa-me apenas a visão que estes dois episódios dão à sociedade portuguesa, neste momento, sobre o que deve ser a intervenção política no mundo dos pobres.

A plataforma programática da candidatura de Cavaco Silva é a apologia, explícita ou implícita (conforme convém), dessa máquina imensa de produzir pobres que é o capitalismo predador que hoje domina.

O seu bloco de apoio e a sua comissão de honra reúnem todos os nomes que representam em Portugal o capitalismo liberal, onde se incluem vários administradores de empresas que se destacaram pela antecipação da distribuição de dividendos milionários de molde a evitar a devida e justa incidência fiscal. Nesse mundo e na sua ideologia, a abordagem da pobreza faz-se numa lógica assistencialista cujo propósito é minorar os efeitos e as manifestações mais grotescas do funcionamento "normal" da economia. Não há aí lugar para políticas públicas que situem o combate à pobreza onde ele tem que esta: na origem (desequilibrada distribuição de rendimentos ao trabalho e ao capital) e não nas consequências (pobreza extrema, exclusão,marginalização,etc.). Cavaco Silva,enquanto candidato presidencial, é o símbolo maior desta visão das coisas em que a economia, funcionando normalmente, produz pobres que a sociedade tem depois o dever moral de amparar.

Fernando Nobre, todos o sabemos, tem obra feita no combate aos efeitossocialmente devastadores de catástrofes naturais e de conflitods armados. A história da criança e da galinha, que ele contou no debate com Francisco Lopes, arranca dessa experiência pessoal de contacto com a desgraça, que lhe é reconhecida. Mas aí mesmo assentou o seu contributo equivocado para a reflexão sobre o papel das políticas no combate à pobreza em Portugal. Na verdade, confundir o universo da pobreza com as situações de miséria extrema cria uma ilusão perigosa: a de que, no nosso país, é essa a pobreza mais importante socialmente. Não é. A pobreza em Portugal é uma mancha socialmente ampla,feita cada vez mais de trabalhadores/as empregados/as ou de precários/as. E, por isso, a realidade da pobreza é, mais que tudo, a realidade dos salários baixos, das pensões de miséria e da distribuição crescentemente desigual da riqueza. Desfocar esta verdade é desajudar a combater o fenómeno e as suas raízes.

Insisto no que afirmei num post anterior: a pobreza exige socorro imediato mas não prescinde de uma acção política que actue no coração das desigualdades. E vice-versa, sempre. Política sem caridade e caridade sem política - eis duas formas equivocadas de equacionar um combate certo à pobreza, que a pegue, em simultâneo, pelas suas raízes e pelas suas concretizações.»

[José Manuel Pureza]

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