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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Dezembro 15, 2010

Omitir para encher verbo

Miguel Marujo

Faça-se a citação longa: «[...] os países com Estados Sociais mais fortes e eficazes (Canadá, Dinamarca, etc.) são os países com leis laborais mais flexíveis. Ponto. Não é uma questão de opinião, é uma questão de facto. Alguém duvida que o Estado Social dinamarquês é melhor do que o Estado Social português? Ora, na Dinamarca, a lei laboral é muito flexível, mais flexível do que nos EUA (segundo alguns indicadores). Portanto, ao contrário da lenlalenga mui tuga que anda por aí, a flexibilização laboral não é um ataque ao Estado Social. Pelo contrário. Ao promover o crescimento económico, a flexi-segurança laboral cria a riqueza necessária para abastecer o Estado Social.»

 

Quem o diz é Henrique Raposo. Que abusa do argumentário dinamarquês para pedir a liberalização (que já existe na prática, na lei contornada e na justiça demorada) completa dos despedimentos. É disto que se trata, quando falam de flexi-. O que Henrique não escreve é o resto da história dinamarquesa. O Estado Social dinamarquês fundou a sua riqueza num tempo e modo bem diferentes dos que a pacotilha neoliberal vende: a licença de maternidade em que a mãe fica em casa paga a 100 por cento durante um ano; a subsidiação de uma ama para os filhos, se os pais não as quiserem (basta querer) numa escola; o trabalho que pelas 15h30/16h30 vai acabando (a jornada laboral começa pouco antes dos horários de cá), permitindo a pais e filhos encontrarem-se a tempo, com tempo; o serviço nacional de saúde que é absolutamente gratuito, sem moderação alguma; e podia continuar... De facto, já o disse, e mantenho: a flexisegurança, em Portugal, enche muitas bocas, mas só a flexi- é que vingará. A segurança, essa, de futuro, será ainda pior do que já é.