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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Março 14, 2004

O teórico da conspiração

Miguel Marujo

O conspiracionista-mor deste reino não é, definitivamente, Marcelo Rebelo de Sousa, submerso em mil leituras apressadas na sua missa dominical. Pacheco Pereira leva-lhe a palma. No seu blogue, desde quinta-feira, dia dos infames atentados de Madrid, só tem escrito com um propósito: apontar o dedo a uma perigosa esquerda que esfregaria as mãos de contentamento por os atentados serem da Al-Qaeda. É um insulto gratuito. Não há terroristas bons (todos são hijos de puta, como escrevemos aqui, naquelas horas).



O que não se admite a Pacheco Pereira é uma suposta superioridade moral. Lembro: a guerra contra o Iraque foi assente numa mentira, grosseira mentira, alicerçada num suposto engano de serviços secretos, mas que esqueceu o papel da ONU na vigilância ao regime odioso de Saddam.



Agora que a Al-Qaeda supostamente assume os atentados (como nos conta o Diogo), que afirmará Pacheco? Insistirá, como insistiu o líder do PP, Mariano Rajoy, ontem em dia de reflexão, na «autoria moral» da ETA? Ou sublinhará uma alegada aliança das «trevas», que é como quem diz a ETA aliada à Al-Qaeda, como defende hoje, em dia de eleições, a ministra Ana Palacios?



Os meus sublinhados não são inocentes: os populares (e Pacheco di-lo-á certamente) dizem que as manifestações de ontem contra o PP foram «ilegais» e partidarizadas. Não passa pela cabeça conspirativa de Pacheco que aqueles manifestantes se cansaram de mais uma «mentira». Mentiras que não significaram nada - mataram muita gente, continuam a matar todos os dias.



É isto: o que incomoda Pacheco (e seus acólitos) é que a mentira da guerra nunca foi a solução para paz nenhuma. Por isso, hoje os espanhóis votam contra todos os terrorismos. Mas também devem votar contra todas as mentiras. E contra a maior mentira - a da morte, a que defende a morte.



«Aqueles dispostos a abdicar da essencial liberdade em troca de uma segurança temporária, não merecem nem liberdade nem segurança.»

Benjamin Franklin, "Historical Review", 1759 [citado na Rua da Judiaria]



Nota final: contra mim escrevo neste "post" - assumi que era a ETA que tinha matado naquela manhã. Mas, ao contrário do polícia do pensamento correcto, não procuro tornar isto num desafio Benfica-Sporting. Eu, por mim, desde quinta-feira preferi lembrar os 200 mortos e os mais de 1400 feridos. Pacheco, hipócrita, nunca o fez.

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