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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Fevereiro 17, 2010

Sete dias... sem rezar*

Miguel Marujo

 

5.ª

Meu Deus! O desafio que me fazem é o de não rezar durante sete dias. Não sou dos que andam sempre com o credo na boca, mas a incredulidade instala-se à volta: "Mas tu rezas?" - e logo imagino a pergunta a esconder ideias feitas de alguém que bate com a mão no peito ou despeja a ladainha a horas certas. Não é facilitismo dizer que não há burocracia no que entendo por oração: importa pouco a prece interesseira, nem o irresponsável que se encomenda à espera que tudo se resolva por artes mágicas ou pela mão de Deus, que até Maradona convoca para um golo trapaceiro.

 

6.ª

Há coisas que, durante estes dias, procuro evitar, como por exemplo, ouvir "A Paixão segundo São Mateus", de Johann Sebastian Bach, ou qualquer um dos últimos álbuns de Johnny Cash - que podem ser experiências de oração. Não duvide o incauto leitor. Para um crente, a música, as letras e as artes podem ser manifestações de oração. Felizmente, para cumprir o desafio que me propuseram não visitarei esta semana a Capela Sistina ou a Basílica Inferior de São Francisco, em Assis. Apenas um sobressalto, que se repetirá ao longo da semana: acompanhar a graça de uma barriga que cresce lá em casa. E mordemos o lábio.

 

Sábado

Atrabalhar no fim-de-semana, acabo por ter a desculpa perfeita para evitar qualquer missa - seja vespertina, no sábado, ou no domingo. Não, não é pecado, não se preocupem com qualquer lugar cativo deste escriba. Mas nos dias que correm, é de facto complicado ter muitas vezes tempo para parar - e não é em capelas de centros comerciais que me sinto particularmente acolhido. Mas (descansem também os laicistas de serviço) não estendo qualquer tapete na redacção e viro-me para Jerusalém ou Roma. Também não podia: estaria a prevaricar e isso é coisa que não se pede a um crente, mesmo sem rezar.

 

Domingo

"Por amor de Deus" e outras interjeições do género não são modos de oração, são jeito de falar e muleta de linguagem, até para quem se benze perante a ideia de ser católico ou fiel de qualquer outra congregação. Um pouco como o "Jesus", que um qualquer actor repete a cada cinco minutos num filme de Hollywood, à mistura com outros impropérios, e que os tradutores insistem em pôr como "meu Deus" nas legendas de português. Eu, por mim, prefiro a castidade nas palavras e evitar estes dizeres. Mesmo que de oração não tenham nada...

 

2.ª

Quase todos os dias alguém se lembra do desafio. "Então, já rezaste?" - com sugestões de coisas a que me devo dedicar. É confundir a oração com a precezinha, com contabilidade de deve e haver. Mas, argumentam-me, há quem se encomende à senhora de Fátima, com resultados práticos evidentes: em tempos, tivemos um ministro da Defesa que a invocou na protecção da maré negra de um petroleiro na Galiza. Não consta que o mesmo ministro nos tenha explicado porque não nos safou ela de outras marés negras.

 

3.ª

Em dia de folga, dou folga a grandes reflexões sobre o desafio que vai chegando ao fim. Ocupo-me de afazeres domésticos, sem grandes preocupações.

 

4.ª

Um convite inesperado leva-me à catedral para ver Jesus e os seus apóstolos. Esta outra religião tem a sua liturgia muito própria, cânticos e orações de verdadeiros devotos. A vitória do Benfica (sim, é disto que falo, e perdoem-me os outros fiéis, mas quase se pode substituir o nome do clube, que a veneração será idêntica) por 3-0 não obrigou a muitas ladainhas, nem a grandes rezas. Cardozo, Saviola e Rúben Amorim trataram de distribuir a bênção dos golos pelos 33.179 espectadores. Mas, desenganem-se os leitores que me seguiram até aqui: estas orações, digamos assim, eram-me permitidas. Não era este o reino, o desafio que fiz. Sem heresias, regresso aos meus dias. Com mais ou menos orações. Ámen.

 

MORAL DA HISTÓRIA

Pode ser fácil nos tempos que correm esquecermo-nos ou deixarmos passar dias e dias sem rezar. Mas não é nenhuma heresia este desafio. O bom humor também é um antídoto para dias com menos graça.

 

 

 

* - este texto foi escrito para o 24horas, de 7 de Fevereiro de 2010, numa crónica em que um jornalista vive "sete dias" numa determinada situação.

 

Para estes dias da Quaresma, entremos no passo-a-rezar, uma proposta que o Zé Maria me fez chegar. Ouvi apenas a proposta para hoje, quarta-feira de Cinzas, e entre música e textos a experiência é muito interessante. Para ouvir no mp3 que levamos connosco.

 

(a imagem que acompanha este post é a porta de entrada para um site muito bem conseguido.)

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