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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Julho 04, 2020

A culpa é do algoritmo. De um bom algoritmo

Miguel Marujo

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O algoritmo faz isto. Quando termina o álbum que estou a ouvir no Spotify, propõe-me a “rádio” desse mesmo disco: uma seleção aleatória de músicos e canções alinhados com o que acabei de ouvir. Foi o caso — e a escolha apanhou-me num mundo eletrónico de sons, raras vozes, de suspensões e sussurros, de pausas e excitações.

A lista algorítmica recupera outros temas do autor de que ouvimos o disco, e introduz-nos nomes que navegam nas mesmas águas; uns que me dizem alguma coisa, como Alva Noto, Ryuichi Sakamoto ou Fennesz, outros que nunca ouvi mais gordos, como Felicia Atkinson, Kali Malone ou Lucrecia Dalt.

O álbum que tinha acabado de ouvir também foi obra do acaso (leia-se: algoritmo). E deixei-me ir. Nas recomendações para mim lá estava o nome da obra, The Ghost Album, e o nome do autor, Elio Martusciello. Nada me dizia, pouco me diz ainda. É de Nápoles, cidade a que associamos (mesmo sem lá ter estado) um caos quente de máquinas e corpos, e é um “compositor e intérprete de música experimental italiano, principalmente no violão e no computador”, descreve a tradução da wikipédia, no google apressado.

A acompanhar o italiano está a voz de Alexandra Staraşciuc, que o google também praticamente desconhece (a não ser nas colaborações com Martusciello). Sem a plasticidade ou a profundidade de uma Björk, a voz emprestada aos sons de Elio remete-nos na sua pureza para algumas paisagens sonoras da islandesa — mas talvez só procure dar-vos pistas para o que poderão ouvir, ao escutarem The Ghost Album. 

Passados todos estes anos, dou por mim a gostar de algoritmos: há alguns que contaminam os nossos dias com prazer. Como este The Ghost Album, 11 composições em 48 minutos do ano da pandemia de 2020, que me abriu a porta para a obra de um tal senhor Elio de Nápoles.

 

Junho 19, 2020

Deus, as joaninhas, o cão lunático ou a morte do filho. Nick Cave já escreveu 100 cartas aos fãs

Miguel Marujo

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É a centésima carta – e o próprio Nick Cave assinala o facto e agradece aos leitores, aos que leem e perguntam, que lhe dirigem todo o tipo de questões desde setembro de 2018. Das mais desconcertantes ou bizarras, íntimas e poéticas, às mais banais e quotidianas. É, pois, a carta n.º 100, divulgada sexta-feira, 5 de junho de 2020, na era da pandemia.

O músico australiano, radicado no Reino Unido responde sempre de forma desassombrada e próxima. “A minha forma de manter o meu passado no seu lugar é escrever sobre ele”, escreveu uma vez. E assim acontece em The Red Hand Files, o sítio de correspondência de que se fala.

É num corpo de letra courier, uma fonte tipográfica que imita a batida de uma máquina de escrever, que Nick Cave escreve estas cartas de resposta aos fãs que lhe perguntam sobre a sua criação, a poesia ou a música, a sua vida, a morte do filho (um tema recorrente este) ou a sua fé, como o espanto de Maria Madalena e Maria diante do túmulo.

Entre os sonhos de que não se lembra, o anúncio do último álbum ou o adiamento da sua digressão por causa da pandemia da covid-19, nada parece ficar de fora destas epístolas, que retomam os temas que percorrem também o seu longo percurso criativo de 40 anos, onde o amor, a morte, o sexo e a religião se cruzam de forma quase omnipresente.

Cada uma destas cartas tem sempre a mesma assinatura de despedida, “Love, Nick”.  Como esta carta n.º 100, enviada por Hajalti, a partir da Islândia: “Hoje, a minha pergunta é pessoal: se você tivesse um anel de ouro que o seu filho herdaria um dia, o que gravaria dentro do anel? (Atualmente, estou a fazer um anel que quero que o meu filho tenha depois do meu dia [da morte]).”

A resposta serve para o anel como para os seus seguidores, os que subscrevem estas cartas. No interior do anel, Nick Cave gravaria uma frase, revela: “I am beside you.” “Estou ao teu lado.”

“Como estrangeiros flutuando num espaço profundo”

É como um gesto de amor aquele que o escritor de canções aqui ensaia, num ritmo mais ou menos semanal. Em setembro de 2018, a primeira questão de todas foi colocada pelo polaco Jakub, e relaciona de forma direta o luto com o processo criativo. Jakub recorda-lhe que em One More Time with Feeling [vídeo acima reproduzido], o documentário que acompanhou as sessões de gravação do álbum Skeleton Tree (2016), Nick admitia que tinha perdido o controlo sobre a escrita durante algum tempo e pergunta-lhe se estaria a mudar como compositor. O cantor australiano admite que sim, que durante “um ano foi difícil descobrir como escrever” – tudo tinha desmoronado, o centro da sua vida e da vida de Susie, a mulher, tinha morrido. Susie e Nick sentiam-se “uma espécie de estrangeiros flutuando num espaço profundo”.

“A boa notícia”, respondeu Cave a Jakub, é que em 2017 sentiu-se “intensamente ligado” à escrita. E acrescentou: “Algo definitivamente mudou e escrevi muitas coisas novas. Não posso dizer-te o alívio que foi. Eu estou a escrever muito mais e é algo forte e focado, na minha opinião.” Algumas destas composições — e poemas, como um que o compositor divulgou numa das cartas — dariam origem a Ghosteen, o último álbum lançado por Nick Cave (2019).

O desmoronamento na vida de Nick Cave não foi apenas o da perda física de um dos seus filhos. Aquilo que está no centro da sua vida é ainda, “no caso de um artista”, “um sentimento de espanto”. “Talvez seja o mesmo para todos”, confessa o músico. “As pessoas criativas em geral têm uma propensão aguda para a maravilha. Um grande trauma pode roubar-nos isso, a capacidade de ficar impressionado com as coisas. Tudo perde o brilho.”

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“Mudar, crescer e confundir”

Ouvindo Skeleton Tree, composto durante o seu tempo de dor, sabemos que há um espanto permanente em cada uma das suas canções, um sobressalto indizível e um arrebatamento por uma polifonia de afetos. O brilho está lá. Nick Cave revê-se nas palavras de S, uma fã que lhe escreveu de Londres, em outubro de 2018, na terceira carta, sobre o processo criativo, de que é sempre algo que se vê de forma imperfeita ou apenas pelo canto do olho.

“Eu gosto muito da sua descrição do processo criativo: ver algo imperfeito ou pelo canto do olho. É isso mesmo. Uma boa ideia de música nunca se aproxima de ti, nunca te olha nos olhos, nunca se anuncia – pelo menos não na minha experiência. Ideias líricas são tão ilusórias quanto pirilampos: eles são espíritos que voam entre as árvores. No momento em que lhes dás atenção, eles foram-se.”

Na carta n.º 99 é sobre a identidade que Cave discorre. Questionado por Max, de Hamburgo (Alemanha), sobre o que “procura pessoalmente num artista”, e interpelado por Eleanora, de Bruxelas (Bélgica), sobre se a identidade de cada um “é uma manta de retalhos de desejos, escolhas, afiliação, excentricidade”, que habitam em nós “em conflito” e de forma incoerente, Nick Cave garante que “sempre” sentiu “o horror de ser encaixotado por uma identidade e uma opinião inflexível, pois essa lealdade a uma única persona pode ser a própria morte da criatividade”.

Defendendo que o melhor será “a capacidade de abraçar ideias contraditórias ao mesmo tempo”, o músico aponta que, “para um artista, particularmente um compositor, essa capacidade de estar aberto a influenciar, descartar a persona, nos dá a liberdade de nos expressar de maneiras contrastantes”. E conclui: “Quando penso nos artistas que tiveram o maior impacto em mim, esta identidade flutuante e desordenada, e a necessidade de se reinventar, é comum à maioria deles. Acho que é isso que procuro num artista – a capacidade de mudar, crescer e confundir.”

Otis, Nosferatu e o feitiço

Nick Cave vai além do que lhe perguntam, dá notícias do que está a fazer ou do que poderá acontecer, parece deixar cair a armadura de quem desafia a natureza quando sobe a um palco. Em 2018, na segunda carta, Jenn, da cidade americana de Boston, pergunta-lhe se tem animais em casa. Dois cães, responde ele: “Um cão lunático gentil de olhos tristes e com cancro chamado Otis e um pequeno salsicha psicótico chamado Nosferatu, cujo único grande empreendimento na vida é morder-me.”

Antes de falar dos cães, Cave começa por dar uma novidade. “Enquanto escrevo isto, estou sentado num estúdio com Warren na Califórnia a trabalhar no novo disco.” E desvela um pouco do que está a acontecer: “É uma coisa estranha e maravilhosa e muito diferente do que aconteceu antes. Estamos sob o seu feitiço.” Seria o feitiço que andaria agora em digressão, não fosse a pandemia.

Foi esse feitiço que se desvendou em outubro de 2019, como tinha antecipado Cave numa outra carta divulgada neste site, dias antes. Parecia combinado: o britânico Joe perguntou-lhe diretamente: “Quando podemos esperar um novo álbum?” – e a resposta surgiu acompanhada de uma foto de Nick sentado com Warren Ellis: “Podes esperar um novo álbum na próxima semana”, dizia, referindo-se a 4 de outubro. E a seguir mostrava a capa de Ghosteen.

“Uma certa santidade nessa amizade…”

Em tempos em que as mediações tradicionais são postas em causa todos os dias, através das redes sociais – com atores e atrizes, músicos, modelos, um sem mundo de famosos e antes intocáveis a interagirem com os seus admiradores e detratores, Nick Cave surpreende-se com a reação que o site teve logo no primeiro instante. “Tenho sido inundado com perguntas. A adesão a The Red Hand Files apanhou-me completamente desprevenido. Por isso, muito obrigado a todas e a todos.”

O australiano sempre foi um magnífico contador de histórias, como provam também as suas canções (e os romances a que já deu vida) ou as prosas breves deste site. Como quando Irina, de Londres, questiona se no “bloco-notas cheio de palavras” de Nick grava peças do seu subconsciente e atreve-se a perguntar como serão os sonhos e como influenciam eles a escrita do australiano.

A resposta é desconcertante: “Assassinos cruéis sequestraram o Warren. Os sequestradores enviaram-me uma lista de exigências. Eu tive que escrever uma carta de volta concordando com essas exigências. A carta que eu estava a compor tinha exatamente o mesmo formato de uma edição do Red Hand Files, com a mesma fonte cambria de vermelho sangue, o mesmo fundo de cor creme. O problema era que eu estava a ter um problema técnico em formatar a carta. As letras continuaram a lutar. A fonte continuou a mudar. O pequeno logotipo da mão vermelha não ficava de pé. O tempo estava a esgotar-se. E eu acordei, a tremer.” Era um sonho, bem se vê, mas pelo sim pelo não Nick telefonou a Warren. “Parece-me que ele está bem.”

Warren Ellis, que foi o responsável pela direção musical de Skeleton Tree e Ghosteen, começou a colaborar com Nick Cave na gravação de Murder Ballads, e desde então tem ganho preponderância na definição do som do australiano e da sua banda. E tornou-se um amigo, concorda Cave, em resposta a vários fãs que o questionaram sobre… Ellis. “Há uma certa santidade nessa amizade, na medida em que ela atravessou todos os tipos de problemas nos últimos vinte e poucos anos, mas permanece resiliente como sempre. A nível profissional, desenvolvemos um estilo de composição baseado quase exclusivamente num tipo de intuição e improvisação espiritual que, como diz Henry Miller, parece calmo, alegre e imprudente.”

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Como soará a voz de Deus

Uma portuguesa, Rute, pergunta-lhe de Lisboa como soará a voz de Deus. Talvez seja parecida com a do australiano, sugeriu a leitora. “Espero que a voz de Deus seja algo que não é estrondosa, autoritária e masculina. Imagina que boa surpresa seria”, respondeu Nick, que disse esperar que não seja como a dele, ou de Tom Waits, nem mesmo de Morgan Freeman, o ator americano que apresentou a série Deus.

Lembrando-se de como há refrães que surgem da polifonia de várias vozes, Cave diz que pode ser essa a voz. “Talvez a voz de Deus seja a combinação de uma coleção de biliões de almas, uma assembleia dos que já partiram falando como um só, sem rancor, dominação ou divisão”, ou “um grande chamamento, em várias camadas, e que chega talvez como a voz determinada e pequena de uma criança. Sem género, pura e descomplicada, que diz ‘procura-Me, estou aqui’.”

Há uma espiritualidade que atravessa a música e a poesia de Nick Cave, já se sabe. Quando questionado sobre Deus – por um ateu, por exemplo, que lhe pede que explique a sua fé –, o australiano prolonga a resposta para lá do óbvio. “Há décadas que ando às voltas da ideia de Deus. Tem sido um lento arrastar pela periferia de Sua Majestade, com a caneta na mão, tentando escrever ao Deus vivo. Às vezes, acho que quase consigo. Quanto mais me torno disposto a abrir a minha mente para o desconhecido, a minha imaginação para o impossível e o meu coração para a noção do divino, mais Deus se torna aparente. Acho que temos aquilo que estamos dispostos a acreditar e que a nossa experiência do mundo se estende exatamente aos limites de nosso interesse e credibilidade. Estou interessado na ideia de possibilidade e incerteza. A possibilidade, pela sua própria natureza, estende-se além dos factos prováveis, e a incerteza impulsiona-nos para a frente. Eu tento encontrar o mundo com uma mente aberta e curiosa, insistindo em nada mais do que a liberdade do olhar para lá do que achamos que sabemos.”

E perante outra questão, sobre se Deus existe, a resposta dada é aquela que ouvimos nas suas canções. “Eu não tenho nenhuma evidência, mas não tenho a certeza de que essa seja a pergunta certa. Para mim, a questão é o que significa acreditar.” E acrescenta: “Acho impossível não acreditar, ou pelo menos não estar envolvido na procura disso, o que de certa forma é a mesma coisa. A minha vida é dominada pela noção de Deus, seja a Sua presença ou ausência. Eu sou um crente – na presença de Deus e na Sua ausência. Acredito na procura em si, mais do que no resultado dessa procura. Como extensão dessa crença, as minhas músicas são perguntas, raramente respostas.”

“Vemos joaninhas em todos os lugares”

Foi com um primeiro texto em que falou explicitamente da morte do filho que estes Red Hand Files se projetaram no espaço mediático. A americana Cynthia conta-lhe que experimentou a morte do pai, da irmã e de seu primeiro amor nos últimos anos e que sente que, “de algum modo, mantém a comunicação com eles através de sonhos”. E Nick e Susie vivem o mesmo?, pergunta-lhe então.

“Sinto a presença do meu filho, por todo o lado”, diz-lhe Nick Cave. “Parece-me que se amamos, sofremos. É esse o pacto. O amor e o luto estarão para sempre ligados”, escreve o músico. “O luto é o lembrete terrível das profundezas do nosso amor e, tal como este, não é negociável.”

A dor, conta-nos ainda, “ocupa o núcleo do nosso ser e estende-se dos nossos dedos até aos limites do universo. Dentro dessa volta existem todo o tipo de loucuras: fantasmas, espíritos, sonhos, tudo o que na nossa angústia desejarmos existir.”

A morte regressa vezes sem conta – a do filho. Como noutra carta em que lhe perguntam se acredita em sinais. A resposta é uma quase parábola.

“Dois dias depois de o nosso filho ter morrido, Susie e eu fomos à falésia onde ele caiu”, contou. “Quando Arthur era criança, ele falava de joaninhas e besouros. Ele amava-os, desenhava-os e identificava-se com eles. Falava constantemente sobre eles. E enquanto nos sentávamos ali, uma joaninha pousou na mão de Susie. Nós dois vimos, mas não dissemos nada, porque, embora reconhecêssemos o triste significado disto, não estávamos prontos a menosprezar a enormidade da tragédia com alguma exibição sentimental de um pensamento mágico. Mas éramos novos nisto do luto. Não tínhamos consciência dos apetites particulares da dor. Quando voltámos para casa, e eu estava a abrir a porta da nossa casa, outra joaninha pousou na minha mão. Desde então, Susie e eu vemos joaninhas em todos os lugares. Quando Warren e eu estávamos a trabalhar no último álbum, uma praga de joaninhas entrou no estúdio. Não sei o que pensar deste fenómeno, mas cada vez que vejo uma joaninha, recebo uma espécie de choque de que talvez algo esteja em jogo no mundo que está para lá da minha compreensão, mesmo que seja, com toda a probabilidade, apenas a estação das joaninhas.”

De tudo isto, Nick Cave responde com dúvidas que sempre o apoquentam. “Se eu acredito em sinais? Bem, prefiro dizer que assumi, por razões de sobrevivência, um compromisso com a natureza incerta do mundo. É aqui que o meu coração está. E suspeito que é onde sempre esteve.”

[Este texto foi publicado originalmente no jornal Sete Margens, a 11 de junho de 2020, e retoma partes substantivas de um anterior artigo, escrito em dezembro de 2018, entretanto revisto, editado e muito aumentado. As fotos são retiradas do site The Red Hand Files.]

Maio 21, 2020

rãs, chuva, trovoada — por entre as ruínas

Miguel Marujo

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Gosto de álbuns onde os sons dos dias e das noites entram de rompante, uma porta que bate, passos que se ouvem, aves que se metem à janela, animais que se fazem notar, a chuva que cai, um sino a repique, miúdos que brincam, pessoas que falam, e podia continuar à medida que salto dos Pink Floyd de Ummagumma, para Virginia Astley, sobretudo em From Gardens Where We Feel Secure, ou a Sétima Legião em A Um Deus Desconhecido, até Nuno Canavarro de Plux Quba — Música para 70 serpentes

Já estou a divagar. Gosto de álbuns que também nos metem a vida dentro. E Ruins é um desses discos. À época, estávamos em 2014, Vítor Belanciano escreveu no Ípsilon um texto admirável que me fez ir ouvir a obra de Grouper, imaginada e composta na costa de Aljezur, e na primeira audição (de muitas, que se repetiram) descobri as vozes que Liz Harris, que dá pelo nome de Grouper, respigou da natureza na sua residência artística na Costa Vicentina, com rãs, chuva a cair, o restolho do campo e da praia, e aquela trovoada que se imagina de chumbo.

Nestes tempos fechados sobre nós próprios, como Liz e o seu piano, voltei de novo a Ruins, para melhor perceber como podemos construir esta nossa casa. "I hear you calling and I wanna go/ Run straight into the valleys of your arms", ouve-se na voz tímida. A vida toda aqui dentro.

[foto de Tanja Engelberts]

Maio 06, 2020

Coliseu dos Recreios, estação de energia

Miguel Marujo

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Na morte de Florian Schneider (1947-2020), fundador dos Kraftwerk, recupero um texto sobre a passagem dos alemães por Lisboa, em 2015, apesar de Florian já não estar no palco.

 

Há um disco voador que aterra no Rossio lisboeta, depois de ter sobrevoado o Coliseu dos Recreios ali perto, provocando o espanto dos muitos que esgotam a sala de espetáculos. Como num filme dentro do filme, o público de óculos 3D postos acompanha a viagem que os Kraftwerk trazem do seu espaço para Lisboa, na primeira apresentação em Portugal do seu concerto em três dimensões (que repete esta segunda-feira na Casa da Música, no Porto).

O tempo do quarteto alemão é deste tempo, feito de sinais que todos identificam - e a média de idades do público é de quem foi acompanhando o trabalho dos Kraftwerk - mas num registo clássico: o computador de Computer World é um Atari; em Autobahn, o Mercedes Benz é de 1974, como o "carocha" e a carrinha "pão de forma" da Volkswagen; as modelos de The Models saíram de um catálogo de moda dos anos 1950; e mesmo a nave espacial de Spacelab parece saída do Caminho das Estrelas.

A energia nuclear continua a ser uma preocupação na (rara) agenda política da música dos Kraftwerk: Chernobyl já faz parte da letra de Radio Activity há muito, mas a voz de Ralf Hütter agora acrescenta Fukushima a Hiroxima, Sellafield e Harrisburg. Os medos dos anos 1970 não desapareceram, reciclaram-se.

O Coliseu transforma-se numa contínua barragem minimalista de sons em movimento e de imagens sonoras, com os músicos aparentemente reduzidos a mera figuração de uma projeção maior, quase sem se mexerem e vestidos de fatos que são reflexo das formas e luzes que saltam do ecrã. Só que os quatro artesãos das máquinas magnetizam os corpos da multidão presente na sala, mostrando à saciedade que a pop electrónica bebe nesta fonte criada na Alemanha dos anos 70, permanecendo em forma mais de 40 anos depois.

A estação de energia que é a música dos Kraftwerk alimenta-se dos sentidos - e na vertigem das descidas e dos sprints dos ciclistas que alimentam as imagens dos vários temas apresentados de Tour de France Soundtracks (o último álbum de originais, de 2003), o corpo do público parece acompanhar o movimento em cima das bicicletas, uma dança magnética, que se insinua a cada síncope e a cada aceleração de ritmo. Antes do encoreTrans Europe Express retoma as linhas melódicas dos homens-máquina que anteciparam o techno ou o hip-hop.

Cai o pano, literalmente uma cortina que se fecha como se de um filme se tratasse (e não falta a referência ao "estúdio" de realização do que acabou de se ver), para se voltar a abrir para a representação de quatro bonecos mecânicos, The Robots, a máquina sozinha em palco.

Depois de nova pausa, para retirar os robôs de cena, Ralf Hütter, Fritz Hilpert, Henning Schmitz e Falk Grieffenhagen regressam para uma celebração final dos corpos em movimento: Aero DynamicPlanet of Visions (o tema que compuseram para a Expo 2000) e a tríade sagrada de Boing Boom TschakTechno Pop e Musique Non Stop. É com estas palavras que, um a um, os artesãos dos Kraftwerk vão deixando o palco, sob um manto de aplausos. A música não para, a estação de energia continua em funcionamento. Magnético concerto, este, no ano 2015 da era atómica.

[originalmente publicado no DN em 20 de abril de 2015]

Abril 30, 2020

Dez discos que influenciaram o meu gosto musical. 10

Miguel Marujo

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Pediram-me para escolher 10 álbuns que influenciaram o meu gosto musical. Um álbum por dia, 10 dias consecutivos. Pediram-me sem ordem cronológica, sem explicações, sem críticas, apenas as capas de álbuns. Mas não consigo deixar de contar um pouco da (minha) história de cada um deles. E à boleia acrescentar outras influências que nasceram daqui.

The Smiths: The Queen Is Dead

Ao contrário de tantos outros, é difusa a minha memória sobre a primeira epifania com os Smiths, com edições constantes naqueles anos da nossa adolescência em que trocávamos cassetes, discos e cd, sedentos de novidades. 

The Queen Is Dead é de junho de 1986, a coletânea The World Won’t Listen é de março de 1987 e, logo em setembro desse ano, saía esse espanto que é Strangeways, Here We Come. E talvez para melhor responder ao desafio dos discos que influenciaram o meu gosto musical devesse incluir esta trilogia de descoberta e paixão.

Este The Queen Is Dead é o que é, um conjunto de canções sem mácula, daquelas que cantámos em coro, a sós, com mais ou menos álcool no sangue, no meio da pista de dança de uma matiné numa discoteca e à volta da fogueira, ao ouvido de alguém ou afundados no sofá a chorar mais uma tampa da miúda gira da turma do lado. Basta dizer que este álbum abre com The Queen Is Dead, tem I Know It’s Over, Bigmouth Strikes Again, The Boy With The Torn In His Side, Some Girls Are Bigger Than Others e, para sempre, a luminosidade incandescente de There Is A Light That Never Goes Out. 

Um verdadeiro banquete que completava-se com lados B como Asleep, provavelmente uma das minhas três canções favoritas de sempre de Morrissey, Marr e companhia. Não admira que, com tanto para nos contar em tão curto espaço de tempo, The Smiths tenham sido a banda maior da nossa adolescência. Dos amores que ficam para a vida.

Abril 29, 2020

Dez discos que influenciaram o meu gosto musical. 9

Miguel Marujo

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Pediram-me para escolher 10 álbuns que influenciaram o meu gosto musical. Um álbum por dia, 10 dias consecutivos. Pediram-me sem ordem cronológica, sem explicações, sem críticas, apenas as capas de álbuns. Mas não consigo deixar de contar um pouco da (minha) história de cada um deles. E à boleia acrescentar outras influências que nasceram daqui.

Radiohead: OK Computer

Gosto de Creep, daquelas guitarras sujas e da voz que cresce, gosto de pegar nos auscultadores numa loja de discos e ouvir a canção, como no filme, gosto deste britpop que não ficou fechado aos quatro cantos das ilhas e se abriu, curioso, a sonoridades distintas e distantes.

Por causa de Creep (e de Pablo Honey e The Bends) cheguei, claro, a OK Computer e tudo fez sentido: em 1997, quando vinha aí a correr o século XXI, os Radiohead anteciparam-se ao milénio para nos cantarem logo como ele era – OK Computer, nascido entre 1996 e 1997, fechou-nos em casa, dias a fio assim, a ouvir o álbum que profetizava a idade digital que vivemos sem o adivinharmos, uma revolução em forma de disco, uma das suas obras maiores (e a mais icónica).

Thom Yorke dizia que andava a preparar um álbum “positivo”, mas faltou em otimismo o que sobrou em claustrofobia e nem as suspeitas guitarras que abrem Airbag, no início do disco, disfarçam o que logo se ouve: este álbum seria diferente, romperia com a britpop em que já estavam arrumados estes rapazes de Oxford. Se dúvidas houvesse, Paranoid Android, a segunda canção, desfazia-as numa assentada, com a voz sempre aparentemente frágil e perdida de Thom Yorke a deambular por entre personagens que nos assustam; ou como Karma Police, outra canção que entrou num panteão onde o difícil é indicar alguma que fique de fora. This is what you'll get, When you mess with us, canta Thom.

Este disco é, já se percebeu, a porta de embarque para uma viagem ancorada no que melhor se fez da britpop e mais além: mais do que aquele benfica-sporting que se alimentava nas páginas dos jornais britânicos, ao que parece por conta de uma rapariga, foi pelos Blur (e derivados como Gorillaz, The Good, the Bad and the Queen ou Damon Albarn a solo), Pulp e Suede que mais naveguei, e depois os Oasis. Mas no final do dérbi, regressei sempre aos Radiohead.

Abril 28, 2020

Dez discos que influenciaram o meu gosto musical. 8

Miguel Marujo

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Pediram-me para escolher 10 álbuns que influenciaram o meu gosto musical. Um álbum por dia, 10 dias consecutivos. Pediram-me sem ordem cronológica, sem explicações, sem críticas, apenas as capas de álbuns. Mas não consigo deixar de contar um pouco da (minha) história de cada um deles. E à boleia acrescentar outras influências que nasceram daqui.

U2: The Joshua Tree

No tempo dos telediscos, em que a música também se via, aqueles rapazes divertiram-me em cima de um prédio até serem chamados pela polícia. Já disse que se ganha quando se é o irmão mais novo – e se ouvem coisas que os mais velhos trazem para casa. Foi o caso com os U2: Sunday Bloody Sunday e Bad já eram hinos para mim quando chegou novo álbum, The Joshua Tree.

É o álbum da América, depois de The Unforgettable Fire, é a descoberta de uma América que os U2 nos apresentaram há 33 anos, quando a 9 de março de 1987 chegou às lojas esta carta de amor pelos Estados Unidos e que nos fez também apaixonar pela América.

É também para muitos o derradeiro disco que vale a pena ouvir dos irlandeses, esquecendo esses muitos que a banda se soube reinventar como poucos em Achtung Baby e Zooropa, o genial díptico berlinense, do início dos 90, e que nunca baixou a guarda, fosse no extraordinário Original Soundtracks 1, com Brian Eno, em Pop ou No Line on the Horizon, ou no modo como souberam transportar cada um dos álbuns, incluindo os menos conseguidos e mais fustigados pela crítica, para os palcos, como as derradeiras digressões de Songs of Experience e Songs of Innocence o demonstram.

Bono, The Edge, Adam Clayton e Larry Mullen Jr. já nos contaram a sua história em 14 discos originais e muitas outras obras ao vivo ou em participações especiais e deixaram uma marca de génio que tanto moldou o meu gosto musical.

Foi a partir deles – e isto soará a sacrilégio para muitos! – que descobri os universos sonoros de Brian Eno e Daniel Lanois, que me embrenhei mais na América de Bruce Springsteen e Bob Dylan ou na poesia de Leonard Cohen (os irmãos também já tinham ajudado, mas os U2 convenceram-me), que me apaixonei pela voz de Johnny Cash e que me rendi a Lou Reed e a Siouxsie and the Banshees. Foi no deserto que encontrámos o amor.

Abril 27, 2020

Dez discos que influenciaram o meu gosto musical. 7

Miguel Marujo

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Pediram-me para escolher 10 álbuns que influenciaram o meu gosto musical. Um álbum por dia, 10 dias consecutivos. Pediram-me sem ordem cronológica, sem explicações, sem críticas, apenas as capas de álbuns. Mas não consigo deixar de contar um pouco da (minha) história de cada um deles. E à boleia acrescentar outras influências que nasceram daqui.

Marcel Cellier apresenta: Le Mystère des Voix Bulgares

Nos álbuns que influenciaram o meu gosto musical constam obrigatoriamente uns quantos de geografias muito diferentes, arrumados sob uma etiqueta tão genérica como surpreendente: músicas do mundo, a world music, que para os anglos-saxónicos inclui também o fado ou a bossa nova. Essas geografias arrumo-as de outro modo.

À cabeça há um disco absolutamente extraordinário, que nos chega da Bulgária, foi revelado ao mundo, antes da queda da cortina de ferro, por um produtor suíço, Marcel Cellier, e que a britânica 4AD Records (de que falámos no post anterior) resgataria do nicho onde vivia amplificando para todos estas “vozes que falam com Deus” (nome de um disco de produção portuguesa, sobre os Segredos da Música da Bulgária, registado em 1988).

O título dado à primeira recolha de Cellier impregnou-se de tal modo que Le Mystère des Voix Bulgares se tornou uma marca indelével e única e que, como todas as receitas de sucesso, foi copiada e multiplicada em muitas derivações, umas mais conseguidas que outras, com guerras em tribunal para registo do nome.

Neste caso trago-vos aqui o primeiro volume, como podia trazer ainda o segundo (há ainda mais dois a merecerem o nome e a atenção). Pilentze Pee é o tema de abertura que define o registo: vozes que nos sussurram como logo se elevam, numa dança de sons deste coros femininos que, para mim, se entranharam na forma como a música se foi moldando na minha vida.

(Não é de espantar que estas vozes se encontrem depois em discos de Kate Bush – outro nome incontornável no meu gosto – ou que nos arrepiem numa versão de Chamateia de António Zambujo.)

Nas músicas do mundo, eu viajo do sufista Nusrat Fateh Ali Khan, do Paquistão, às Nouvelles Poliphonies Corses, que Hector Zazou resgatou da Córsega, do transe dos congoleses Konono n.º 1 à sensualidade do Instanbul Oriental Ensemble, dos voos da indo-britânica Sheila Chandra aos ritmos da terra dos Drummers of Burundi, com passagens pelos campos da Irlanda, pelas estepes de tundra da Sibéria, pelas margens do rio Nilo ou pela floresta densa da Amazónia.

Podia juntar aqui o álbum Passion Sources, onde Peter Gabriel revelou a sua inspiração para a banda sonora do filme A Última Tentação de Cristo, ou esse monumental documento etnomusical que é Voices of Forgotten WorldsTraditional Music Of Indigenous People, e tantas outras coletâneas (já vos disse que gosto deste tipo de discos que nos abre uma polifonia de descobertas?), mas optei pelas vozes encantatórias da Bulgária. Há muito mundo para viajar, já se percebeu.

Abril 26, 2020

Dez discos que influenciaram o meu gosto musical. 6

Miguel Marujo

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Pediram-me para escolher 10 álbuns que influenciaram o meu gosto musical. Um álbum por dia, 10 dias consecutivos. Pediram-me sem ordem cronológica, sem explicações, sem críticas, apenas as capas de álbuns. Mas não consigo deixar de contar um pouco da (minha) história de cada um deles. E à boleia acrescentar outras influências que nasceram daqui.

Various Artists: Lonely Is An Eyesore

Houve um tempo em que o selo de uma editora era garantia de que se podia ouvir (e comprar) um disco quase cegamente. Pelo menos para mim. Les Disques du Crépuscule, Real World, a marca Made To Measure, da Crammed Discs, eram (são) algumas das labels em que praticamente nem pestanejava na hora de picar um disco. 

Depois havia a 4AD, a editora que Ivo Watts-Russell criou para durar a década de 1980 (mas que, felizmente, apesar de ter perdido a importância desses tempos, mantém a sua atividade), e na qual fui descobrir alguma da melhor música que ainda hoje ouço. Foi aqui que gravaram os Birthday Party, Matt Johnson dos The The, os Pixies ou os Bauhaus, os Xmal Deutschland ou His Name Is Alive…

Apesar de todos estes nomes, de que já ouvia algumas coisas, à 4AD cheguei por causa de um programa de música na TV, o Music Box with Simon Potter, que passava no espaço da Europa TV, na RTP2. 

O tal do Simon dedicou uma emissão a passar os vídeos de uma coletânea (e sempre gostei muito de boas coletâneas) chamada Lonely Is An Eyesore (nome retirado de um verso da canção dos Throwing Muses incluída no álbum), que juntava alguns dos principais nomes da editora: Cocteau Twins, de que já andava a ouvir o genial Victorialand, Dead Can Dance, The Wolfgang Press, Clan of Xymox, Dif Juz, This Mortal Coil, com Acid, Bitter and Sad, ou as já referidas muses de Kristin Hersh e Tanya Donnely.

Tudo somado, apaixonei-me pelos ritmos encantatórios e hipnóticos dos Dead Can Dance, sobretudo em The Serpent's Egg (1988) e Aion (1990), pelos lirismos que voam de Elizabeth Fraser nos Cocteau Twins, pelas guitarras e vozes de Throwing Muses, e mais ainda pela diversidade misteriosa do coletivo This Mortal Coil, que juntava músicos de bandas da editora, apercebendo-me então que aquela belíssima Song To The Siren que já tinha ouvido, na interpretação de Fraser e Robin Guthrie, era de um dos mais espantosos discos da 4AD (melhor dito, da música em geral): It'll End in Tears.

Tudo somado: thank you, Simon Potter!

Abril 25, 2020

Dez discos que influenciaram o meu gosto musical. 5

Miguel Marujo

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Pediram-me para escolher 10 álbuns que influenciaram o meu gosto musical. Um álbum por dia, 10 dias consecutivos. Pediram-me sem ordem cronológica, sem explicações, sem críticas, apenas as capas de álbuns. Mas não consigo deixar de contar um pouco da (minha) história de cada um deles. E à boleia acrescentar outras influências que nasceram daqui.

José Mário Branco: FMI

Este disco está aqui por culpa do Olímpio. Ele que tratou de nos ensinar a olhar as coisas de modo diferente, quando nos demorávamos em noites longas a ler livros, maliciosos e deliciosos, ou a ouvir discos quase clandestinos (e este era-o, à época), houve uma geração do MCE que lhe deve este FMI, de José Mário Branco, trauteado como senha e contra-senha em tantos outros encontros e contextos. Por causa disso, o meu gosto musical moldou-se também entre a intervenção e a palavra. 

É verdade que já ouvia Zeca Afonso das baladas ao mato, que Sérgio Godinho fazia o nosso salão de festas, que Fausto nos levava rio acima, mas FMI transportou-me também para descobrir em profundidade outras canções de intervenção (Luís Cília, Adriano Correia de Oliveira…) e o que era a obra de José Mário Branco, incluindo o coletivo do GAC, os trabalhos como produtor-compositor, as obras para cinema e teatro, e mais tarde, já nestas últimas décadas, a viagem pelo fado — de Camané a Kátia Guerreiro. E assim se tecem outros gostos que fui compondo na minha viagem musical.

A visceralidade de José Mário Branco em FMI será recuperada em 1996 com a reedição de Ser Solid(t)ário, que inclui o máxi editado originalmente em 1982, deixando a clandestinidade com que o ouvíamos anos antes. E essa visceralidade estará sempre presente na sua obra original, até Resistir é vencer, de 2004, um extraordinário disco de palavras e sons que nos mostram que a intervenção não se arrumou nos anos da Revolução. E tudo começou com aquele "pedaço" da "vida" de José Mário Branco, "um pedaço um pouco especial, trata-se de um texto que foi escrito, assim, de um só jorro", que o Olímpio nos mostrou.

Abril 23, 2020

Dez discos que influenciaram o meu gosto musical. 4

Miguel Marujo

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Pediram-me para escolher 10 álbuns que influenciaram o meu gosto musical. Um álbum por dia, 10 dias consecutivos. Pediram-me sem ordem cronológica, sem explicações, sem críticas, apenas as capas de álbuns. Mas não consigo deixar de contar um pouco da (minha) história de cada um deles. E à boleia acrescentar outras influências que nasceram daqui.

Nick Cave and The Bad Seeds: The Good Son

Foi num filme que o ouvi, quando o rapaz no palco se entrega a The Carny, ainda não conhecíamos esta canção, e pensa para si que só “mais uma canção e acabou, mas não lhes vou falar de uma rapariga, não lhes vou falar”, mas ao microfone diz o contrário: “Vou falar-vos de uma rapariga” – e a banda começa a tocar.

É Nick Cave and The Bad Seeds num palco em Berlim, no filme Der Himmel über Berlin/As Asas do Desejo (1987), de Wim Wenders, a tocarem The Carny e From Her To Eternity. E é por causa desta cena que fui à procura deste australiano, que se mostrou ao mundo nos Birthday Party, que há muito vive no Reino Unido.

Descobri Your Funeral… My Trial (1986), fui até From Her To Eternity (o primeiro álbum, de 1984), mas é com The Good Son (1990) que tudo mais fez sentido: é neste disco que inicia uma inflexão, depois da visceralidade dos cinco primeiros discos, para um lirismo hipnotizante que o foi acompanhando, com mais ou menos intensidade, com mais ou menos arroubos carnais.

Podia nomear ainda Murder Ballads (1996) ou The Boatman's Call (1997), outros marcos na construção do meu gosto pessoal, até às três últimas obras-primas (Push The Sky Away, Skeleton Tree e Ghosteen), mas foi com The Good Son que percebi que Nick Cave era verdadeiramente um filho pródigo.

Abril 22, 2020

Dez discos que influenciaram o meu gosto musical. 3

Miguel Marujo

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Pediram-me para escolher 10 álbuns que influenciaram o meu gosto musical. Um álbum por dia, 10 dias consecutivos. Pediram-me sem ordem cronológica, sem explicações, sem críticas, apenas as capas de álbuns. Mas não consigo deixar de contar um pouco da (minha) história de cada um deles. E à boleia acrescentar outras influências que nasceram daqui.

Virginia Astley: Hope In a Darkened Heart

Não me recordo o que me fez comprar este que foi o primeiro disco que comprei com dinheiro amealhado por mim. Talvez uma crítica lida num jornal, talvez a breve audição na rádio ou mesmo na loja de Some Small Hope, a canção que Virginia Astley canta com David Sylvian, envoltos em teclas que nos soam a sinos. 

Sei que ouvi Hope In a Darkened Heart intensamente e o vinil revela hoje as marcas desses tempos de escuta extasiada — e que este álbum me levaria à descoberta da escassa discografia da britânica, sobretudo dessa obra-prima que é From Gardens Where We Feel Secure. 

O dueto com Sylvian transportou-me para outra descoberta absolutamente fundamental que é o universo do antigo frontman dos Japan e que influenciaria em absoluto o meu gosto musical. Por isso, o superlativo Secrets of the Beehive é um dos discos da minha vida, sempre ouvido com renovado prazer, mas também por isso me deixo sempre fascinar pelas sonoridades e texturas mais ou menos experimentais de quem arrisca uma Pop Song que é uma “antipopsong” ou nos conduz pelas Forbidden Colors com Ryuichi Sakamoto — e o japonês, que esteve na produção do disco de Virginia Astley, é também ele uma descoberta desta época. Santíssima trindade!

Abril 21, 2020

Dez discos que influenciaram o meu gosto musical. 2

Miguel Marujo

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Pediram-me para escolher 10 álbuns que influenciaram o meu gosto musical. Um álbum por dia, 10 dias consecutivos. Pediram-me sem ordem cronológica, sem explicações, sem críticas, apenas as capas de álbuns. Mas não consigo deixar de contar um pouco da (minha) história de cada um deles.

Madredeus: Os Dias da MadreDeus

Um texto no Blitz (quando ainda era um jornal semanário em papel) de Miguel Esteves Cardoso (quando MEC bastava para o apresentar), provavelmente lido algures em 1987, introduziu-me a um mundo mágico. Falava das gravações e ensaios de um grupo de músicos numa antiga igreja em Xabregas, em Lisboa, acompanhados de uma voz que fazia sonhar (não sei se eram estes os termos, mas foi isto que me ficou gravado na memória) – e gostei do grupo só pelas palavras do MEC.

Para alguém que vivia numa cidade pequena, com duas discotecas (quando as lojas de discos se chamavam assim), e um acesso curto na carteira para discos e imprensa, a prenda daquele Natal foi um sonho: o LP duplo de Os Dias da MadreDeus (quando o grupo ainda não se apresentava como Madredeus, e me fez insistir naquele nome longo e bonito durante muito tempo) confirmou todas as minhas expectativas, da voz que nos fazia sonhar, de instrumentos impregnados de beleza, de músicas tão ingénuas quanto fantásticas. Meses depois, confirmaria tudo isto num concerto único, daqueles que nos marcam para a vida, no Teatro Aveirense, a meia casa, ainda longe do reconhecimento que muitos dariam aos Madredeus e onde esgotaram as canções ensaiadas nos encores e cantaram O Brasil a pedido da plateia (e eu fui um deles, claro).

A descoberta deste disco enquadrou-se nas várias descobertas que tive então, na música portuguesa, incluindo a Sétima Legião, de Mar D'Outubro, que me levou mais para trás ao genial A Um Deus Desconhecido, e que porventura também podiam estar no lugar deste Os Dias da MadreDeus – não fosse um certo texto de jornal me ter transportado para aquela antiga igreja às voltas com uma coisa velha.

Abril 20, 2020

Dez discos que influenciaram o meu gosto musical. 1

Miguel Marujo

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Pediram-me para escolher 10 álbuns que influenciaram o meu gosto musical. Um álbum por dia, 10 dias consecutivos. Pediram-me sem ordem cronológica, sem explicações, sem críticas, apenas as capas de álbuns. Mas não consigo deixar de contar um pouco da (minha) história de cada um deles.

Genesis: The Lamb Lies Down On Broadway

Quem tem irmãos mais velhos, com diferenças significativas e em idades que definem o gosto, é-se necessariamente influenciado por esse seu gosto. É o caso. Ouvi até à exaustão os Genesis, sem grande distinção entre as fações Peter Gabriel vs Phil Collins, mas é este duplo LP (que marcou o fim de Gabriel no grupo britânico) que sempre mais e melhor me ajudou a definir o gosto por um certo rock operático, progressivo e conceptual.

Nos anos 80 e 90, os Genesis foram muito maltratados, mas hoje, apesar dos amores e ódios que ainda provocam, têm um lugar reconhecido na música — e este álbum é o seu melhor cartão-de-visita. E por causa desta influência fraternal, cresci a ouvir tantos e tantos outros prog rock, dos Pink Floyd aos Jethro Tull, dos Tantra a José Cid, sim, ele, em 10 000 Anos Depois Entre Vénus e Marte.

 

Abril 01, 2020

Nick Cave e o espanto de Maria Madalena defronte do túmulo

Miguel Marujo

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É um assombro que espanta Nick Cave, aquele em que Maria Madalena e Maria permanecem junto à sepultura. Para o músico australiano, este é provavelmente o seu momento preferido da Bíblia. Jesus tinha sido retirado da cruz, o seu corpo depositado num túmulo novo, mandado talhar na rocha, e uma pesada pedra rolou para fazer a porta da sepultura. Os doze discípulos fugiram, só Maria Madalena e “a outra Maria” ali ficaram diante do túmulo.

Em Mateus 27, 61 (e não 51, como aponta Nick, numa provável gralha), sintetiza-se esse instante. “Maria de Madalena e a outra Maria permaneceram em frente à sepultura.”

“Eu acho que esta frase única e assombrada é provavelmente o meu momento favorito da Bíblia”, comenta Nick Cave, no seu site The Red Hand Files que já vai nas 90 atualizações, onde o músico, cantor e compositor se dedica a responder a perguntas de leitores sobre o seu processo criativo, a poesia que lê ou a música que ouve e faz, a sua vida e os animais lá de casa, a morte do filho adolescente e a sua fé e espiritualidade ou os sonhos de que não se lembra, e sobre temas que assombram as canções e a sua escrita, como o amor e a morte, o sexo e a religião, muitas vezes a religião.

É o próprio quem o reconhece, também a propósito da pandemia que se espalha pelo mundo. Radicado na Grã-Bretanha, Nick Cave regista-o, modesta e ironicamente, num dos mais recentes textos: “Os Red Hand Files sempre foram um espaço no qual eu pude oferecer noções existenciais duvidosas, meditações religiosas, conselhos infundados, senilidades milenares e aborrecimentos gerais, e, ao mesmo tempo, espero estender um pouco de bondade e compaixão humanas. No entanto, esse tipo de ruminações veio de uma época mais privilegiada e feliz, quando tínhamos oxigénio para refletir e tocar. As coisas mudaram, estamos diante de um inimigo comum — imparcial, insensível e de uma magnitude incomensurável — e não é mais o tempo de abstrações. Agora é a hora de ser cauteloso com as nossas palavras e as nossas opiniões.”

Dias antes tinha publicado, também neste site, o anúncio do adiamento da sua digressão europeia, que se iniciaria em 19 de abril em Lisboa — como tantas outras atividades que foram suspensas, canceladas ou adiadas em cidades cada vez mais desertas. “Densas trevas cobriram as nossas praças, ruas e cidades”, descreveu agora o Papa Francisco. Estas trevas “apoderaram-se das nossas vidas, enchendo tudo dum silêncio ensurdecedor e um vazio desolador, que paralisa tudo à sua passagem: pressente-se no ar, nota-se nos gestos, dizem-no os olhares”.

Quando da morte do filho de 16 anos, o processo criativo de Nick Cave ficou suspenso. Talvez agora como então, o australiano sofra com isto. “As pessoas criativas em geral têm uma propensão aguda para a maravilha. Um grande trauma pode roubar-nos isso, a capacidade de ficar impressionado com as coisas. Tudo perde o brilho”, sintetizou.

Antes destas sombras, Nick Cave preferia o brilho de Maria Madalena, defronte do túmulo. Afinal, aquela mulher foi “mal julgada pela história e a sua importância fundamental na história cristã minada pelo patriarcado religioso”. Mas ele vê nela um papel central nos textos evangélicos. “Maria Madalena continua a ser o núcleo subversivo em torno do qual a história do Evangelho gira.”

Para Cave, “Maria Madalena é o símbolo mais comovente do amor verdadeiro e resiliente, tanto terrestre quanto espiritual. Ela ‘permanece’ na entrada da sepultura, a principal testemunha entre dois eventos monumentais — a crucificação e a ressurreição — que se imprimiram na história e moldaram não apenas o pensamento ocidental, mas também a essência do que somos, gostemos ou não disso”.

“Maria Madalena, para sempre parada na porta do túmulo numa vigília fiel, contemplando para lá da história, está embutida no nosso subconsciente. Ela é o verdadeiro ícone do luto feminino — complexo, elementar, paciente, empático e cheio de tristeza, e uma manifestação de amor físico e transcendente — o verdadeiro herói humano da história cristã”, conclui.

Agora que a pandemia de covid-19 levou Nick Cave a adiar a sua digressão europeia, é com as palavras que o australiano continua presente — e com a música de qualquer um dos seus álbuns. Uma amiga sua comparou este “nosso novo mundo” a um “navio fantasma” — “e talvez ela esteja certa”, admitiu. “Recentemente, ela perdeu alguém querido e reconhece agudamente o sentimento premonitório de um mundo prestes a ser destruído — e que precisaremos nos recompor novamente, não apenas pessoalmente, mas socialmente.” Com o espanto daquela mulher defronte do túmulo, a contemplar para lá da história.

[texto ligeiramente adaptado de uma publicação original no Sete Margens, de 30 de março de 2020; foto: a personagem de Maria Madalena, interpretada por Monica Bellucci, no filme A Paixão de Cristo, de Mel Gibson]

Março 23, 2020

— música para estes tempos incertos (breves registos)

Miguel Marujo

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Senhora de uma voz peculiar, entre o sussurro e a garra que se colam à vez a guitarras viscerais, que a acompanham desde os Throwing Muses (que nos prometem um novo disco, já com canção nova, para maio próximo), Kristin Hersh é um porto seguro para acostar nestes tempos incertos. 

Crooked, o seu último trabalho, é de 20 de setembro de 2018, e recupera uma primeira edição de um livro multimédia de 2009. E, antes, tínhamos tido Possible Dust Clouds (em 5 de outubro de 2017) e foi neste disco que tropeçámos ao sétimo dia de "quarentena social" — e a partir dele voltámos a navegar nestas águas turbulentas mas também envolventes. Ouça-se, por exemplo, o espanto dialogado de violoncelo e guitarra de Flooding, em Crooked, com uma extraordinária interpretação vocal de Kristin.

Com uma já longa carreira a solo (desde Hips and Makers, de 1994, um breve tratado de excelentes canções), que se traduz em 11 álbuns, Kristin respira cada sílaba, pontuada por riffs e cordas dedilhadas de forma assertiva, como as que nos canta em Breathe In, do álbum de 2017: "Breathe in/ 'Cause breathing is what you do/ You're rawer than you were/ You punctured your cocoon." Respiremos, pois.

[foto: James O'Keefe/Wikimedia Commons]

Março 07, 2020

São Pessoas. Histórias com gente dentro

Miguel Marujo

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Há um tanque de lavar roupa. Há uma cozinha. Há o poço e as mãos que lançam um balde. Há uma sombra que foge. Há o poste de eletricidade que ilumina as casas frágeis. Há o quadro pendurado em que um coração pede “Deus te ajude”. Há a campa e a eterna saudade. E há uns tapetes gastos. Em cada uma destas fotos só se adivinham os rostos, os olhos, as rugas, as mãos rugosas, as bocas, as pessoas que habitam estes lugares.

Este é um livro de lugares habitados, um livro cheio de pessoas, mesmo nas páginas em que apenas adivinhamos a presença dessas pessoas. Por vezes, há legendas que nos ajudam, como naquela página de um quarto que se adivinha desconfortável. “Às 8:30 recebo o RSI e às 9 pago o quarto. Fico logo sem dinheiro para o resto do mês.”

São Pessoas, assim se chama a proposta dos fotógrafos Adriano Miranda e Paulo Pimenta, jornalistas do Público, que regista em livro a exposição que esteve no Porto (e seguirá para outros lugares) e nos transporta para o quotidiano de Monteiro, Tiago, Francisco, Maria, Bento, Isabel, Arlinda, Laurinda, Ângela, Conceição, Neide, Higínio, Bráulio, Natália, Sara, Ismael – e outros 27 nomes, pessoas concretas com nome.

Os autores retratam um Portugal que resiste na pobreza e sobrevive numa luta diária. “Sabes o que é abrir o frigorífico e não ter nada lá dentro? Não sair de casa porque não tenho dinheiro para um café? Ir ao supermercado comprar um litro de leite e um pão, pois não tenho dinheiro para mais?”, questiona-se uma destas pessoas.

Num dos textos que acompanha as imagens, o também jornalista Camilo Soldado situa o tempo e o modo do projeto de Adriano Miranda e Paulo Pimenta. “O dito país profundo, que começa à porta dessas mesmas cidades, encolheu, viu sair serviços e vê sumir gentes, sem que pareça haver solução para tão estranho problema em tão pequeno país. Se o pior parece já ter passado, sabemos também que dificilmente vamos recuperar o que perdemos naqueles turvos anos.”

O país que se turvou é o dos anos da troika. Sobraram vidas perdidas, destroçadas, agarradas a uma pobreza resiliente, que resiste a uma economia melhor, gente que “não conseguiu voltar a levantar-se” ou que “nunca conheceu outra vida que não de privação”, como descreve Camilo Soldado. É esta privação que se prova neste livro, que serve “para dar força a todos esses rostos através da fotografia de alguns, para os resgatar da sombra para onde foram empurrados e para nos lembrarmos de que o caminho a percorrer ainda é longo, neste país de 10 milhões com mais de 2 milhões de pobres dentro”.

Adriano Miranda e Paulo Pimenta trazem-nos estas pessoas, numa composição espantosa que resgata a fotografia como um poderoso olhar para este país e as suas gentes. São pessoas, pois. E estas histórias merecem ser vistas.

São Pessoas
Autores: Adriano Miranda e Paulo Pimenta

160 páginas; o livro inclui códigos QR para aceder aos ficheiros áudio e vídeo com os testemunhos
saopessoas2020@gmail.com

[publicado originalmente no jornal online Sete Margens, em 17 de fevereiro de 2020; Foto © São Pessoas, Maria Graça Afonso. Foto © Adriano Miranda, cedida pelo autor ao Sete Margens]

Janeiro 04, 2020

A casa que perdeu o chão

Miguel Marujo

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É uma casa que já perdeu o chão. O mar veio e galgou areias e pedras e a casa lá ficou, suspensa no ar, inclinada enquanto resiste à queda definitiva. Quem ali vivia já desistiu mas há alguns que resistem, em casas nas dunas, algumas de pescadores - que esses são cada vez menos e a faina já não rende - outras de habitação de veraneio, do tempo em que se permitiam todos os devaneios. E há restaurantes na beira da estrada mas o mar já se abeira deles em dias alterados.

Chega-se à casa sem chão na praia da Apúlia e no horizonte a norte, em direção a Esposende, há mais casas com o mar a fustigar as dunas que são os seus alicerces. Anda por ali muita gente, uns políticos de Lisboa vieram ver o que se passa naquela língua de areia que se prolonga até à restinga da foz do Cávado e, sem que ninguém lhes pergunte, falam das alterações climáticas. Aquela gente que vê o mar vir para terra não lê certamente ensaios falhados de antigos humoristas encartados no ceticismo militante contra estas mudanças, mesmo que na hora de defender os seus argumentos garanta - a pés juntos, como se o chão não lhes fugisse - que o mar não avança.

Todos têm uma ideia de como resolver a coisa, entre o sonho de repetir os diques que impedem o oceano de avançar nos Países Baixos aos homens que já se resignaram à força do mar. "Vamos ter de desocupar o litoral", dizia um, antecipando o pior dos cenários. "Se o essencial for retirar da costa, que se retire da costa", disse outro. "A comunidade científica mundial diz que o melhor é retirar, gaste-se a proteger bens e pessoas", completou. Outro deixou um pedido angustiado. "Façam qualquer coisa para defender a costa e não venham para cima dos desgraçados." Um dos políticos concluiu salomonicamente que "contrariar as alterações climáticas é como travar o vento com as mãos" mas as populações também não podem ser deslocalizadas. A casa sem chão já mostrou que o mar quer ter uma palavra.

[artigo originalmente publicado no DN/1864, em 12 de março de 2019; foto MM, na Apúlia, em 18 de fevereiro de 2019]

Janeiro 03, 2020

Às malvas com as convenções

Miguel Marujo

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Quando Salvatore recebe a notícia da morte de Alfredo, o projecionista do pequeno cinema da sua aldeia natal, a sua vida passa-nos no grande ecrã: desde os tempos da infância, quando o pequeno Totó, como chamavam a Salvatore, se apaixonou pela magia do cinema, à adolescência em que se enamora de Elena. Mas a melhor síntese da sua vida está num pequeno filme que Alfredo lhe deixou e que não é mais do que uma extraordinária montagem de cenas cortadas dos filmes que eram exibidos no Cinema Paradiso e o padre mandava censurar ao som de um sino.

São beijos e beijos e beijos, e alguns nus, que não passavam no crivo do senhor de batina. É um dos mais belos hinos à história do cinema - e ao beijo!

Às malvas com as convenções, quando aqueles beijos se mostram naquelas películas enxertadas. O cinema sempre nos deu um beijo chamado desejo: quando nos lembramos de Burt Lancaster e Deborah Kerr, deitados na praia, em From Here to Eternity; quando o Homem-Aranha de cabeça para baixo beija Mary Jane; ou quando a misteriosa Rita toca nos lábios da inocente Betty em Mulholland Drive; e ficávamos aqui a ocupar páginas e páginas com exemplos destes. É esse também o sonho do cinema.

Há tratados sobre isto, páginas de filosofia, o beijo contado ao longo da história, fotografias, pinturas, livros, mas nada nos prepara para o momento em que mandamos um recado à professora da nossa filha e ela nos explica o que devemos escrever. "E depois terminas com beijinhos." Não, filha, não se mandam beijinhos à professora. Talvez no cinema.

[texto originalmente publicado no DN/1864, em 16 de abril de 2019]

Dezembro 26, 2019

Uma zona morta. Como uma série de TV fez crescer um turismo de risco

Miguel Marujo

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Em finais de abril de 1986, os céus da Europa cobriram-se de pequenas partículas poeirentas e radioativas. Na central nuclear sueca de Forsmark, os trabalhadores notaram a acumulação dessas pequenas partículas nas suas roupas e lançaram o alerta para eventuais fugas no local - mas a fonte do mal estava a 1100 km, em Chernobyl, uma central nuclear na cidade de Pripyat, na Ucrânia, então uma república soviética.

Hoje, 33 anos depois, Chernobyl é o que os ucranianos chamam de "uma zona morta", mas é também uma excelente série de televisão (com uma banda sonora a condizer na qualidade), que relata aqueles dias que carregaram mais medo e terror na atmosfera de uma Europa rasgada a meio.

A série, uma produção da HBO, conta uma história conhecida: na noite de 25 para 26 de abril de 1986, um teste de segurança correu mal e o reator nuclear n.º 4 explodiu - era 1.23 da manhã. É por aqui que começa a série, por aquela onda que se propaga, um incêndio que se instala, e as pessoas ao longe que despertam nas suas casas e saem à rua, homens, mulheres e crianças a verem ao longe as tonalidades hipnóticas que se desenham vindas da central. E as tais partículas que enchem o ar, como se fossem pequenos flocos de neve, quando na verdade eram confetis de morte.

Gente como nós

É este rigor estético - sublinhado pelos cenários, guarda-roupa e os espaços físicos quase ascéticos e asséticos -, que prende o olhar do telespectador desde o primeiro instante, somado a uma tensão de quem descobre os bastidores e pormenores deste acidente.

O realizador Johan Renck (autor de outra minissérie, Os Últimos Panteras, ou dos telediscos de David Bowie, Lazarus e Blackstar) faz-se acompanhar de um elenco que inclui Jared Harris, Stellan Skarsgård, Emily Watson e Jessie Buckley, para nos contarem uma tragédia tantas vezes dita, mas tão pouco conhecida. Se conhecemos a história, a série reaviva a memória e conta-nos mais, mostra-nos o dia-a-dia de gente como nós, que trabalhavam e iam para a escola todos os dias sem desconfiar que viviam encostados a uma potencial "zona de morte".

"Um mundo justo é um mundo são e não há nada são em Chernobyl", diz-nos a voz que nos introduz na série, a de Valery Legasov (Jared Harris), cientista russo, que chefiou a comissão de inquérito ao acidente, e se suicidou dois anos depois do acidente, na véspera de publicar os resultados do inquérito.

Paradoxo: sem nada saudável em Chernobyl, como nos avisa Legasov, o sucesso desta minissérie fez disparar o turismo nesta "zona morta", uma fantasmagórica cidade de Pripyat, que foi evacuada 36 horas depois do acidente. E na série, há um rapaz que vê um homem a vomitar num relvado, enquanto um soldado de máscara manda seguir um dos muitos autocarros que transportaram cerca de 49 mil pessoas para fora de um perímetro de dez quilómetros.

Em duas reportagens fotográficas, uma da Reuters publicada no dia 4 [de junho], e outra da agência EPA partilhada este sábado [8 de junho], veem-se visitantes a passearem pela cidade abandonada de Pripyat: como qualquer turista destes dias, há uma mulher que tira uma selfie junto a um autocarro abandonado e outras duas que se fotografam numa ponte (talvez a "ponte da morte" que se vê no primeiro episódio da série), há um homem que observa um camião e pneus deixados para trás, há quem se passeie por prédios que o tempo tratou de ir degradando ou quem fotografe um pequeno dosímetro, que regista os valores de radiação, e uma sala destruída de um jardim-de-infância.