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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Janeiro 16, 2023

Sebastião está morto, o sebastianismo nem por isso

Miguel Marujo

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Marrocos celebra vitória contra Portugal, no Mundial: “Usar a memória de uma batalha como metáfora para um jogo de bola só serve para o lado da bola, não para o lado da batalha.” Foto via Twitter da Embaixada de Marrocos em Portugal.

 

Por estes dias, Alcácer Quibir voltou ao imaginário coletivo, por conta de um jogo de futebol, que acabou com (nova) derrota portuguesa às mãos de Marrocos, em terras das arábias. No jargão dos dias, houve quem lembrasse uma suposta vingança da “reconquista cristã” (Marrocos tinha antes eliminado a Espanha), quem aclamasse uma alegada vitória anticolonialista, ignorando o carácter autocrático do regime de Rabat ou a ocupação do território do Sara Ocidental às mãos dos interesses económicos e políticos do reino magrebino. O futebol serve (para) a política, mesmo que a coerência rapidamente tropece nos princípios. 

Resgatou-se Alcácer Quibir e o “rei encoberto”, Sebastião que morreu nas terras do Norte de África, mas que tantos esperavam aparecer numa manhã de nevoeiro (desta vez, vestidos de jogadores da bola). E de novo a História tropeçou nos mitos. 

André Belo serviu-nos nas páginas do jornal Público (ligação exclusiva para assinantes), em 12 de dezembro de 2022, a sua leitura deste Marrocos-Portugal, ao som dos tambores da guerra, num texto sobre Alcácer Quibir, onde aponta que “o problema de usar a memória histórica de uma batalha como metáfora para um jogo de bola entre Portugal e Marrocos é que a metáfora só serve para o lado da bola, não para o lado da batalha”.

Também a Folha de São Paulo, numa prosa notável – antes do jogo de Portugal e já depois do Brasil ter sido também eliminado do Mundial de futebol, no Qatar – dizia-nos que “Marrocos x Portugal já fazia Brasil dançar bem antes de Vinicius Junior existir”. Vinicius é jogador da bola e, nas quatro linhas, parece um dançarino no sambódromo. E tudo isto por causa de Sebastião.

Descrevia a Folha que “a derrota” do rei “teve consequências fundas – até no fundo do mar, pelo que consta – na história do Brasil, então colónia portuguesa. Abatido Sebastião em Quibir, Portugal ficou eventualmente sem rei e acabou sendo dominado pela Espanha. O que fez o próprio Brasil espanhol. (…) Já Portugal ficou órfão, aguardando a volta do rei para recuperar sua soberania.”

“O que é Sebastião no Brasil não cabe neste texto”, acrescenta o articulista do diário brasileiro. “O sebastianismo – ou seja, a espera pelo retorno do rei encantado – percorre a história do país [Brasil] de maneira tão ampla que tem papel verdadeiramente relevante em movimentos como o de Canudos, do sebastianista Antônio Conselheiro. E também ajudou a eleger Jair Bolsonaro.”

Estas citações longas permitem-nos lançar a bola para o campo da literatura e da História, e para terrenos bem mais próximos. Se “Dom Sebastião deixou de ser um mito prioritário para Portugal, novamente independente [e] ganhou novas cores em além-mar, onde até hoje exerce notável e inegável influência cultural”, há todo um manto de ficções criadas deste lado do mar que mantêm viva a influência do sebastianismo.

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Morte e Ficção do Rei Dom Sebastião, de André Belo, ajuda-nos, e o nome diz ao que vem, nesta viagem por esses sebastianismos que se esticam até aos dias de hoje, num final de outono em que a bola rolou no Qatar e Bolsonaro continuava entrincheirado no Planalto a digerir a derrota nas presidenciais brasileiras para Lula da Silva. 

O livro parte de uma certeza – de que muitos desconfiam (ou até desconhecem): os restos mortais do monarca português estão bem arrumados no Mosteiro dos Jerónimos, depois de trasladações e inumações, sempre devidamente testemunhadas e confirmadas por autoridades, que fixaram para o rei D. Sebastião a sua última morada nesta igreja de Lisboa. Mas, e há um “mas” gigante nesta história, na hora de escrever na pedra o epitáfio do rei morto em Alcácer Quibir, alguém resolveu carregar a dúvida, que já vinha sendo alimentada por interesses políticos. “Este túmulo encerra – se é verdadeira a fama – Sebastião/ Que uma morte precoce levou nos areais de África/ Não digas que se engana quem acredita que o rei vive/ Extinto pela lei, foi-lhe a morte quase uma vida.”

Nestas breves linhas, o autor do epitáfio não coloca em causa a morte do rei (“morte precoce levou nos areais”), mas lança a dúvida sobre se o corpo está ali depositado, ao transformar “em rumor” aquilo “que foi oficialmente certificado nas sucessivas inumações do rei, gravando tal inversão na pedra”, com o uso da expressão “se é verdadeira a fama”. Poderemos sempre aceitar a interpretação cristã, na crença da vida para além da morte, mas foram bem terrenas as dúvidas suscitadas.

Em 1582, Filipe I (II de Espanha) mandara colocar em Belém os restos mortais de Sebastião, procurando assim “inculcar na memória a morte do rei, desmentindo os rumores em circulação sobre a sua sobrevivência”. A trasladação filipina tinha um objetivo político, que o epitáfio de 1682, escrito 100 anos depois, e guias turísticos dos dias de hoje ignoram. Num guia italiano, de 2005, citado pelo historiador, lê-se: “O túmulo de Dom Sebastião está vazio até hoje. O jovem rei nunca voltou da batalha de 1578.”

A seu modo, a obra de André Belo é desconcertante: a sua certeza continua a ser uma dúvida alimentada por anos de descuidada historiografia, necessidades políticas, arroubos nacionalistas e muita ficção.

Logo na primeira parte de Morte e Ficção do Rei Dom Sebastião, o historiador conduz-nos pelas suas perplexidades, incluindo um pingue-pongue com a atualidade que contextualiza a forma tantas vezes ignorante como se trata este episódio da nossa História, num tom que surpreende o mais empedernido dos académicos e resgata a essa mesma História de um qualquer lugar chato em que a queiram engavetar. A epígrafe desta parte I é o excerto de uma canção de Miguel Araújo, Fizz Limão: “Não ficamos à espera, não sustemos a respiração/ À espera que o D. Sebastião nos traga a redenção/ O povo não desespera, a gente sabe que ainda há solução/ Porque o Fizz Limão, ai o Fizz Limão, há-de voltar/ Num dia de sol o Fizz Limão há-de voltar.” Um rei pop.

Este livro de História, com o rigor da investigação da disciplina, veste as suas páginas e palavras de uma forma desempoeirada e livre de preconceitos, na linguagem e na forma como nos narra os acontecimentos que se seguiram à morte do rei português em terras marroquinas. (Sim, já se sabe, morreu mesmo.)

Rei morto, rumor posto, a solução sucessória do cardeal Dom Henrique foi apenas um breve compasso de espera antes da subida ao trono do rei espanhol, Filipe II, I de Portugal. E é neste quadro político que germinam as teses sebastianistas. “O primeiro sebastianismo constitui expressão de resistência de parte dos seguidores do prior do Crato no exílio”, e assim passa pelo combate ao domínio filipino, aponta André Belo.

O livro é, de forma fundamentada e documentada, uma viagem por um Portugal sebastianista, onde se mata o rei mas se salva o sebastianismo, “uma lenda maravilhosa”, nas palavras de Afonso Lopes Vieira, “poeta nacionalista e sebastianista”. Aponta André Belo que, “tal como é possível ter ‘lapsos’ reveladores de um impensado sebastianista sem se ser forçosamente nacionalista, é possível reconhecer a morte do rei e ao mesmo tempo querer salvar o seu valor ideológico. Trata-se de ‘matar’ o rei salvando ao mesmo tempo uma ideologia extremamente fértil no campo do nacionalismo português”. 

Esse tempo fértil é o Estado Novo, em que a oposição também se faz de combate ao sebastianismo, como na poesia de Manuel Alegre, que proclama que “é preciso enterrar D. Sebastião”, ou a peça de teatro de Natália Correia, O Encoberto, proibida pela Censura, exemplifica André Belo. Com o 25 de Abril e o fim da ditadura, o sebastianismo permanece arrumado em círculos tradicionalistas ou “apenas os aspetos anedóticos ou o impensado de um mistério sobre a morte do rei”, com os historiadores portugueses a virarem-lhe as costas, esgotada “a função ideológica do sebastianismo”. “Este afastamento relativamente à pesada memória de um passado mítico permite também explicar o retorno cíclico de uma forma de amnésia relativamente aos acontecimentos que estiveram na origem da lenda”, anota Belo, para melhor nos antecipar o que vem depois.

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Enquadrado pois o desinteresse democrático pelo sebastianismo, saúda-se esta investigação que nos conta também das ficções, que floresceram à volta do rei morto, em particular a impostura de Veneza, que viveria muitos anos depois da “batalha dos Três Reis” (como é conhecida noutras línguas europeias, por terem morrido três reis em Alcácer Quibir). 

Por Veneza, durante cinco anos (1598‑1603), passou um “rei” Sebastião que era na verdade um “calabrês obscuro” e cuja “vida itinerante será suspensa nos calabouços venezianos”. Nesse tempo, como se descreve sobre o livro, “Marco Tullio Catizone alimentou paixões anticastelhanas, gerou facções e complexas manobras diplomáticas. E levou a sacrifícios duríssimos, ou não tivesse culminado com a condenação à morte do impostor.”

Este é um outro aspeto interessante: descobrir que estes impostores sebastianistas andaram pelas italianas Veneza e Nápoles, ou em panfletos em cidades francesas e alemãs. “Terminado o caso, porém, o tempo continuou a alimentar a ficção.” Mas não desvelemos ou antecipemos em demasia o que este livro de André Belo descreve tão bem. “A dificuldade de assimilação de uma derrota catastrófica na cultura nacional” impregnou a memória nacional, aponta-nos o autor. E, como se viu no Qatar, até o futebol insistiu em o demonstrar.

 

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Morte e Ficção do Rei Dom Sebastião, de André Belo 
Edição: Tinta da China
Setembro de 2021, 344 págs.

[Texto originalmente publicado no 7MARGENS, em 8 de janeiro de 2023. Imagens inseridas no texto: Túmulo de D. Sebastião nos Jerónimos, foto © Palickap, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons; Pormenor da ilustração da capa do livro © Vera Tavares/Tinta-da-china.]

Janeiro 12, 2023

Perder, ganhar, viver

Miguel Marujo

Morreu-nos Pelé, e por causa dele também me recordei de Sócrates, o doutor que espalhava magia nos relvados, e da tal tarde quente do verão de 1982, e por entre pesquisas por aqui nesta casa, que chegará aos 20 anos este ano, redescobri um texto espantoso de Drummond de Andrade, que o Ivan Nunes tinha publicado na sua Praia (por recomendação de Pedro Lomba). E resolvi resgatá-lo a um blogue já inativo, para este onde ainda se publicam coisas, daquelas que me interessam. Como aquele jogo de futebol, aqui tão bem contado.

 

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Perder, ganhar, viver

por Carlos Drummond de Andrade

Vi gente chorando na rua, quando o juiz apitou o final do jogo perdido; vi homens e mulheres pisando com ódio os plásticos verde-amarelos que até minutos antes eram sagrados; vi bêbados inconsoláveis que já não sabiam por que não achavam consolo na bebida; vi rapazes e moças festejando a derrota para não deixarem de festejar qualquer coisa, pois seus corações estavam programados para a alegria; vi o técnico incansável e teimoso da Seleção xingado de bandido e queimado vivo sob a aparência de um boneco, enquanto o jogador que errara muitas vezes ao chutar em gol era declarado o último dos traidores da Pátria; vi a notícia do suicida do Ceará e dos mortos do coração por motivo do fracasso esportivo; vi a dor dissolvida em uísque escocês da classe média alta e o surdo clamor de desespero dos pequeninos, pela mesma causa; vi o garotão mudar o gênero das palavras, acusando a mina de pé-fria; vi a decepção controlada do Presidente, que se preparava, como torcedor número um do país, para viver o seu grande momento de euforia pessoal e nacional, depois de curtir tantas desilusões de governo; vi os candidatos do partido da situação aturdidos por um malogro que lhes roubava um trunfo poderoso para a campanha eleitoral; vi as oposições divididas, unificadas na mesma perplexidade diante da catástrofe que levará talvez o povo a se desencantar de tudo, inclusive das eleições; vi a aflição dos produtores e vendedores de bandeirinhas, flâmulas e símbolos diversos do esperado e exigido título de campeões do mundo pela quarta vez, e já agora destinados à ironia do lixo; vi a tristeza dos varredores da limpeza pública e dos faxineiros de edifícios, removendo os destroços da esperança; vi tanta coisa, senti tanta coisa nas almas...
Chego à conclusão de que a derrota, para a qual nunca estamos preparados, de tanto não a desejarmos nem a admitirmos previamente, é afinal instrumento de renovação da vida. Tanto quanto a vitória, estabelece o jogo dialético que constitui o próprio modo de estar no mundo. Se uma sucessão de derrotas é arrasadora, também a sucessão constante de vitórias traz consigo o germe de apodrecimento das vontades, a languidez dos estados pós-voluptuosos, que inutiliza o indivíduo e a comunidade atuantes. Perder implica remoção de detritos: começar de novo.
Certamente, fizemos tudo para ganhar esta caprichosa Copa do Mundo. Mas será suficiente fazer tudo, e exigir da sorte um resultado infalível? Não é mais sensato atribuir ao acaso, ao imponderável, até mesmo ao absurdo, um poder de transformação das coisas, capaz de anular os cálculos mais científicos? Se a Seleção fosse à Espanha, terra de castelos míticos, apenas para pegar o caneco e trazê-lo na mala, como propriedade exclusiva e inalienável do Brasil, que mérito haveria nisso? Na realidade, nós fomos lá pelo gosto do incerto, do difícil, da fantasia e do risco, e não para recolher um objeto roubado. A verdade é que não voltamos de mãos vazias porque não trouxemos a taça. Trouxemos alguma coisa boa e palpável, conquista do espírito de competição. Suplantamos quatro seleções igualmente ambiciosas e perdemos para a quinta. A Itália não tinha obrigação de perder para o nosso gênio futebolístico. Em peleja de igual para igual, a sorte não nos contemplou. Paciência, não vamos transformar em desastre nacional o que foi apenas uma experiência, como tantas outras, da volubilidade das coisas.
Perdendo, após o emocionalismo das lágrimas, readquirimos (ou adquirimos, na maioria das cabeças) o senso da moderação, do real contraditório, mas rico de possibilidades, a verdadeira dimensão da vida. Não somos invencíveis. Também não somos uns pobres diabos que jamais atingirão a grandeza, este valor tão relativo, com tendência a evaporar-se.
Eu gostaria de passar a mão na cabeça de Telê Santana e de seus jogadores, reservas e reservas de reservas, como Roberto Dinamite, o viajante não utilizado, e dizer-lhes, com esse gesto, o que em palavras seria enfático e meio bobo. Mas o gesto vale por tudo, e bem o compreendemos em sua doçura solidária. Ora, o Telê! Ora, os atletas! Ora, a sorte! A Copa do Mundo de 82 acabou para nós, mas o mundo não acabou. Nem o Brasil, com suas dores e bens. E há um lindo sol lá fora, o sol de nós todos.
E agora, amigos torcedores, que tal a gente começar a trabalhar, que o ano já está na segunda metade?



[Crónica publicada no Jornal do Brasil na sequência da derrota futebolística mais dolorosa da vida de milhões de pessoas, incluindo a minha. Esse fatídico Brasil-Itália de 5 de Julho de 1982, em Barcelona, pode ser hoje integralmente visto aquiPublico este texto por sugestão do Pedro Lomba, que mo mostrou.]

— foto: Menino chorando retratou o sentimento dos brasileiros naquele instante, de Reginaldo Manente.

Dezembro 31, 2022

Bento XVI, 1927-2022

Miguel Marujo

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Foi um homem de contradições, ortodoxo cardeal que abriu caminhos inesperados como papa, tendo um gesto raro ao renunciar ao pontificado, sem forças para enfrentar o mais grave escândalo de uma Igreja que precisa de ser renovada. Foi um homem usado por ultraconservadores, quando já retirado, como papa de arremesso contra o magistério de Francisco, o homem que veio do fim do mundo para abanar os alicerces da Igreja. Ratzinger morre e deixa um legado, que só o tempo ajudará a avaliar na sua totalidade.

[texto originalmente publicado na minha página do Facebook; Bento XVI fotografado no jardim do mosteiro onde viveu retirado no Vaticano © Fondazione Vaticana Joseph Ratzinger-Benedetto XVI]

Dezembro 31, 2022

Os (meus) discos ouvidos em 2022

Miguel Marujo

Esta não é a lista dos melhores do ano de 2022 (ainda me faltou muito e muita música). É (continua a ser) uma lista em atualização, nestas semanas, do que mais tenho ouvido e mais tenho gostado ao longo do ano passado, e que pode até ser de outros anos — como é o caso da nova atualização, sons antigos muito ouvidos em 2022. Discos, canções, que por algum motivo passaram pelo meu radar. Para ler e ouvir.

 

Kate Bush, Running Up That Hill (A Deal With God) e Aerial

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E também eu regressei a Kate Bush, em 2022, não tanto por causa de Stranger Things (falta-me ver esta temporada, sim), mas porque regresso muitas vezes a Kate Bush. Apesar da genialidade de canções como Running Up That Hill (A Deal With God), a canção que se ouviu de novo por conta da série da Netflix, Cloudbusting ou do tema-título de Hounds of Love (1985) – opus maior desta britânica que, de repente, foi descoberta por gerações de ouvidos novos – é o álbum Aerial (2005) que mais me acompanha nestes últimos anos, e a que regressei muitas vezes em 2022.

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A delicadeza de An Architect’s Dream, o divertimento de Pi (sim, o número matemático cantado tal e qual) ou a voluptuosidade de Aerial são três exemplos do prodígio que é a voz de Kate, mas também das palavras e das composições de Bush, que parecem tecer uma complexa filigrana entre poesia e sonoridade.

Foi uma coisa estranha, esta, ver Kate Bush nos tops (uma coisa tão eighties) com uma canção desses anos 1980, mas abençoada Stranger Things: gosto muito, quando os outros descobrem as coisas fantásticas que me acompanham. 

[30/12/2022]

 

 

The Gift, Coral

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Este Coral arrisca muito. As polifonias não são coisa estranha à obra dos Gift — de que gosto desde a primeiríssima hora, com Vinyl (1998). A banda de Sónia Tavares e Nuno Gonçalves já tinha ensaiado algumas belas abordagens corais, como em Open Window de Primavera (2012). É um risco este disco: a pop viciante de um grupo que sempre se manifestou pela linguagem da dança como cartão de visita, apresenta-se aqui com um conjunto de temas orquestrados e corais — e a abertura com Noir - Adagio Doloroso é um breve arroubo, a antecipar o belíssimo Noir, um tema a incluir (aposto) no cânone giftiano. A eletrónica continua lá, e Cancun, por exemplo, parece talhada para as pistas, mas deixa-se envolver, sem qualquer pudor, fazendo respirar estas polifonias contemporâneas e de registo clássico. (E antes que alguém mais desatento ou apenas maledicente se lembre, não, não há sombra dos Enigma dos anos 1990 nesta aventura.)

A voz de Sónia e as composições dos Gift encontram conforto e amparo num diálogo que é tudo menos cómodo e instalado. Ouça-se Única, um espanto de quase cinco minutos e meio: às vozes masculinas que se impõem no final (já vos falei de Primavera, não já?), por entre os Pauliteiros de Miranda, há sempre o coro de 48 vozes que nos ajuda a construir imagens de uma cinefilia imaginária (e eles também gravaram um disco chamado Film, em 2001). Ouça-se Adagio (outra para o cânone), 7 Vezes ou Passa-se o Tempo, e estamos perante um disco com lugar cativo nos álbuns do ano de 2022. 

Para lá dos seus sons de sempre, os The Gift arriscaram muito, mas ouvindo bem há uma beleza sempre presente — e isso é muito deles, de sempre.

* *

Tal como fiz nos álbuns de que já falei, aqui em baixo, sem qualquer obrigação jornalística de contar quase tudo sobre um disco, só depois de escrito este texto, vertido em página quase de rajada depois de audições intensas, fui saber um pouco mais: 

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fichas técnicas, para descobrir a presença de três vozes dos Gaiteiros de Lisboa (provavelmente o mais revolucionário projeto folk da música atual portuguesa), José Manuel David, Carlos Guerreiro e Rui Vaz; um coro clássico de 48 vozes; os Pauliteiros de Miranda; e o compositor Bernat Vivancos e o produtor Bogdan Raczynski, colaborador de Björk; 

declarações dos membros do grupo: “O disco saiu sem aviso. Saiu-nos de dentro. Não estávamos à espera. O músico de hoje tem de seguir instintos, mas sobretudo respeitar os impulsos. Nada se organiza com tempo. As coisas saem. Ou se aproveitam, ou não.” E falam de uma folha em branco, e da busca do som. Tudo isso… já se ouviu.
[22/11/2022]

 

 

Lambchop, The Bible

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Há discos assim: na aparência, muito certinhos e arrumadinhos, a prometerem uma música de câmara com uma voz grave, bem postos ao pôr-do-sol enquanto se beberica um gin tónico, mas logo tudo se desarruma, um instrumento a puxar para ali, outro a dizer-nos um novo caminho, com sopros e piano e eletrónicas e coros (quase gospel, muito soul) a comporem uma belíssima salada pop, sem concessões. 

Há discos assim: os Lambchop, de Kurt Wagner, trazem-nos com este The Bible o seu livro dos livros, um cântico dos cânticos — e a morte a beber nas palavras (Wagner está nos 64 anos), e os sons a desconstruírem ideias preconcebidas. 

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E apesar da solenidade que se ouve nos 50 minutos do disco (em A Major Minor Drag, por exemplo), há tudo menos aprumo na forma como se arrumam as sonoridades deste XX álbum de originais dos rapazes (e basta nomear Little Black Boxes e Police Dog Blues para romper com essa solenidade).

Na Pitchfork invoca-se Grouper ou Angelo Badalamenti, na procura de referências para um disco como este, mas quando ouço Wagner a cantar-nos “We are clumsy and may trample too much/ Turn my face to the words/ Were always better, not so sad as foolish”, a fechar a belíssima Every Child Begins the World Again, não preciso de mais nada. O inverno já pode vir: esta Bíblia vai confortar-nos nas noites longas deste hemisfério.
[12/11/2022]

 

 

The Unthanks, Sorrows Away (2022)

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As irmãs Unthanks são uma pedra preciosa que, há quase 20 anos, vêm polindo alguma da melhor música vinda das ilhas de sua majestade. Navegando nas águas da tradição, frequentemente coladas à folk britânica, The Unthanks é antes um projeto em que a palavra ganha uma especial expressão numa musicalidade que, bebendo muito no dito som tradicional, é resgatada para uma modernidade tão cativante como arrebatadora. 

Sorrows Away — publicado já neste mês de outubro — volta a ser uma gema rara, de vozes que nos contam histórias mágicas, sopros que enchem os espaços entre a inspiração e a expiração, uma sonoridade tão delicada quanto cuidada, mãos que tecem as redes para lançar ao mar, um amor que é tão apaixonante como à primeira audição. 

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Nascidas para a música como Rachel Unthank and the Winterset, uma banda exclusivamente feminina ao início, e que teve com Cruel Sister (2005) uma estreia de ouro (melhor Folk Album do ano, para a Mojo), foi com a terceira (excelente) obra, Here's the Tender Coming, de 2009, que as irmãs e companhia (agora não apenas feminina) passaram a publicar como The Unthanks. Atuando ao vivo como uma banda de cinco ou 11 elementos, The Unthanks já nos trouxeram discos dedicados a composições de Molly Drake, a mãe de Nick Drake, ou a canções de Robert Wyatt e Antony & The Johnsons (dois dos cinco álbuns que compõem a série Diversions, com interpretações de diferentes cancioneiros, em estúdio e ao vivo); uma trilogia com canções inspiradas em três perspetivas femininas ao longo do tempo: a escritora Emily Brontë, poetas da Primeira Guerra Mundial e uma pescadora de Hull, Lillian Bilocca. 

E este 2022 ficou bem mais bonito com Sorrows Away.
[24/10/2022]

Dezembro 30, 2022

O Rei. Num parágrafo e cinco capas

Miguel Marujo

Morreu Pelé.

"Examino a ficha de Pelé e tomo um susto: dezassete anos! Há certas idades que são aberrantes, inverosímeis. Uma delas é a de Pelé. Eu, com mais de quarenta, custo a crer que alguém possa ter dezassete anos, jamais. Pois bem: verdadeiro garoto, o meu personagem anda em campo com uma dessas autoridades irresistíveis e fatais. Dir-se-ia um rei, não sei se Lear, se imperador Jones, se etíope. Racialmente perfeito, do seu peito parecem pender mantos invisíveis. Em suma: ponham-no em qualquer rancho e a sua majestade dinástica há de ofuscar toda a corte em derredor. O que nós chamamos de realeza é, acima de tudo, um estado de alma. E Pelé leva sobre os demais jogadores uma vantagem considerável: — a de se sentir rei, da cabeça aos pés."  (Nélson Rodrigues, citado por Rui Frias, no DN)

 

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Dezembro 28, 2022

Linda de Suza. E, entretanto, crescemos

Miguel Marujo

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Linda de Suza, 1948-2022

 

Em 1995, numa viagem pela Costa do Marfim, fiquei alojado numa instituição que acolhia crianças e jovens deficientes abandonados pelas famílias. Estávamos em Bouaké, bem no interior do país. Ao pequeno-almoço, no primeiro contacto com os que lá moravam, aquela mulher cega, que nunca tinha saído dali (era a única "deficiente" adulta, deixada na rua quando bebé, por ter nascido cega), de riso expressivo e conversa desenvolta, soltou uma gargalhada quando ouviu de onde eu vinha. "Ah, Portugal! Lindá de Suzá! Ouço muito na rádio" — e começou a cantarolar uma canção da portuguesa da "valise en carton". Há malas de cartão que nos deixam marcas, mesmo que na nossa adolescência fossem apenas um nome para piadas fáceis. Entretanto, crescemos.

[texto originalmente publicado na minha página do Facebook]

Dezembro 08, 2022

45 anos

Miguel Marujo

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O Avô Albertino deixou-nos a sua nogueira e, mais do que nozes, a árvore traz-nos memórias — e estas são difusas, ténues: não me lembro da voz, mas dos olhos azuis água, do cabelo branco e de um bigode tão clássico como fora de uso, dos rebuçados que pareciam brotar dos bolsos para os seis netos, do chapéu sempre impecável sobre o cabelo branco. Nasceu na monarquia, morreu na democracia, viveu sobretudo sob a ditadura. O Avô Albertino era homem com ar sério, mas também seria um homem triste, que a esta distância não lhe sei decifrar os olhos azuis água nem os sentimentos, um pai que perdeu dois filhos, num tempo em que essas notícias eram comuns, e ficou viúvo cedo — e os dois tão soturnos no retrato. Aguentou-se no ofício de mestre-de-obras e carpinteiro, e aquela oficina cheia de ferramentas eram uma delícia para olhos miúdos. Há 45 anos, feriado da Imaculada, ouviam-se os sinos da capela da Senhora da Conceição, talvez três badaladas, há sempre um código para o número de badaladas que os da terra sabem, e a Teresa exclamou “morreu alguém”, era o Avô, e na confusão desse dia só me lembro do choro da minha Mãe. E nunca mais tivemos rebuçados vindos daqueles bolsos.

Novembro 26, 2022

Urnas, mortos e mau cheiro. "É altura de acabar com isso", avisou a Censura

Miguel Marujo

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Por telegrama, a Censura avisava as redações: "É conveniente ir atenuando a história. Urnas e coisas semelhantes não adianta nada e é chocante" © Arquivo DN

 

Há 55 anos, na noite de 25 para 26 de novembro, ocorreu uma das maiores tragédias no país, com cheias a provocarem uns 700 mortos, segundo estimativas — os números oficiais foram sempre bem menores. O Portugal de 1967 era uma ditadura onde coronéis riscavam títulos, textos e fotografias dos jornais. A Censura queria limitar a dimensão de uma tragédia de que nunca se conheceu a verdadeira realidade. No terreno, os jornalistas também recebiam instruções sobre o que escrever. "Evita coisas macabras, que o coronel já telefonou." Os textos eram ditados ao telefone, as fotos iam de moto.

 

A mensagem é curta e chega por telegrama: "Não falar no mau cheiro dos cadáveres." A 29 de novembro de 1967, as páginas dos jornais ainda se enchem de reportagens e notícias sobre as "chuvas diluvianas" da noite de 25 para 26 em Lisboa e nos arredores e a Censura aplica outras instruções aos jornais. "Inundações: os títulos não podem exceder a largura de 1/2 página e vão à CENSURA." O "Dr. Ornelas", capataz do lápis azul, avisa ainda a redação do Jornal de Notícias no mesmo telegrama: "Actividades beneméritas de estudantes - CORTAR." As maiúsculas gritam a ordem.

No Portugal cinzento da ditadura de Salazar, a tragédia tinha de ser limitada e amaciada. "É conveniente ir atenuando a história. Urnas e coisas semelhantes não adianta nada e é chocante. É altura de acabar com isso. É altura de pôr os títulos mais pequenos", escreve o "Tenente Teixeira", logo a 27 de novembro.

Novembro 11, 2022

Dos gostos tardios. Ou um pretexto para falar de Gal

Miguel Marujo

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Gal Costa (1945-2022), aqui com Gilberto Gil, Maria Bethânia e Caetano Veloso, como Doces Bárbaros.



Gal Costa é um gosto tardio, aprendido aos 20 já por Lisboa – apesar de exceções que já começavam a estar no radar: Milton, Chico, Caetano e Gil. Mas Gal nem por isso. Algures na adolescência, embirrava muito com uma certa mpb, que se tornou saco para meter tudo, um pouco como a secção de música portuguesa onde se mete tudo e um par de jarras. Por esses anos, um disco de Gal encheu-me pouco as medidas e afastou-me por tempo demasiado das suas obras. Depois, fui compondo a descoberta, que começou na inevitável Gabriela, a modinha que (já na minha infância) nos colava a todos ao ecrã a preto e branco. A adolescência tem as suas coisas parvas, já sabemos. Mas depois crescemos - e felizmente ouvimos Gal Costa.

 

E aqui, comovente, Caetano a chorar a sua morte:

"Minha voz, minha vida
Meu segredo e minha revelação
Minha luz escondida
Minha bússola e minha desorientação
Se o amor escraviza
Mas é a única libertação
Minha voz é precisa
Vida que não é menos minha que da canção".

Novembro 08, 2022

Lou desceu à terra. E nasceu Loaded dos Velvet Underground 

Miguel Marujo

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Loaded vai fazer 52 anos, a 15 de novembro — mas este texto foi publicado à passagem dos 45 anos, daí o arranque e o final datados do texto, que aqui recupero. Foi o último álbum de Lou Reed nos seus Velvet Underground. A editora pediu-lhes um disco carregado de sucessos e a banda respondeu com Sweet Jane e Rock & Roll. Sorte a nossa.

 

 

Quarenta e cinco não é número redondo de que se faça grande festa, sobretudo quando aquilo que se celebra começou por ser uma grande dor de cabeça. 

Nos tempos do streaming, em que a música nos chega às fatias no telemóvel ou pelo computador, a edição especial com que se assinala o 45.º aniversário da edição original de Loaded, o quarto álbum dos Velvet Underground publicado em novembro de 1970, é um acontecimento. Não por causa da dor de cabeça que foi para Lou Reed, Sterling Morrison e Doug Yule, mas sim pelo que esta edição nos poderá desvendar mais deste que seria o álbum que marcaria a saída de Reed. 

A caixa de seis discos — e é com estes luxos que se renova o interesse pela edição discográfica — inclui o álbum original remasterizado na versão estéreo e na versão mono, uma seleção de demos e remisturas, um DVD áudio com três remisturas do álbum, uma nova remasterização do LP ao vivo Live at Max’s Kansas City (gravado em agosto de 1970, dias antes de Lou Reed deixar a banda, e editado em maio de 1972) e a gravação inédita de outro concerto de maio de 1970, no Second Fret de Filadélfia, onde a banda se apresenta em formato de trio — a baterista Moe Tucker estava grávida e Yule dividiu o seu tempo entre as baquetas e o baixo. 

Já sem John Cale, o grupo assinaria logo no início desse ano de 1970 pela Atlantic, deixando a Verve (etiqueta que já então apostava no jazz que faria dela uma editora conceituada) onde os Velvet Underground tinham editado os três primeiros álbuns, The Velvet Underground & Nico (1967), White Light/White Heat (1968) e The Velvet Underground (1969), com grande reconhecimento crítico e vendas pouco entusiasmantes. 

Entre este terceiro álbum e aquele que seria o seu quarto trabalho, os Velvet Underground ainda entraram em estúdio, em maio de 1969, mas em agosto o responsável da MGM dispensava-os por querer uma direção mais saudável para a editora. Em novembro, o álbum, ou pelo menos o que havia dele, desaparecia. 

Em 1970, já na Atlantic, conta a história que lhes foi pedido um álbum carregado de sucessos — “loaded with hits”, o loaded que o grupo fixou como título — e que o editor Ahmet Ertegun terá exigido a Reed canções livres de sexo e drogas. Acabaram cheias de rock’n’roll, com uma produção mais macia que lhes trouxe desta vez fama e proveito. Foi Sterling quem desabafou, anos depois, que Loaded mostrou que podiam “ter feito, naquele tempo todo, discos com um registo genuinamente comercial”. 

É Lenny Kaye quem escreve, a 14 de dezembro de 1970, nas páginas da Rolling Stone, com o disco acabadinho de sair, que “a coisa mais surpreendente sobre a mudança no grupo é que não houve de facto nenhuma mudança”. “Loaded é apenas um refinamento da música dos Velvet Underground, que tem crescido ao longo do percurso dos seus três últimos álbuns, e se desta vez eles parecem ser uma versão próxima dos seus vizinhos roqueiros do bairro, só tem que voltar para o seu primeiro álbum e ouvir coisas como I’m Waiting for the Man e There She Goes Again para qualquer resposta”, escreve o crítico musical da Rolling Stone. 

A canção de abertura, Who Loves the Sun, com as suas várias camadas vocais, parece de facto afastar os Velvet Underground dos seus “muitos seguidores avant-garde”, como descreve Kaye, mas Sweet Jane ou Rock & Roll, os temas que se seguem e que se transformaram em autênticos hinos do grupo (e também da carreira a solo de Lou Reed), abalam a produção mais limpa que o álbum denuncia desde a primeira hora. A cedência comercial, que a editora lhes terá pedido, parece ser apenas frase feita dos responsáveis discográficos — o génio de Reed não admite concessões, não facilita nos acordes e nas palavras, e apesar da interferência de Doug, é a Lou que se atribui hoje a composição dos temas (depois de uma batalha legal). 

Sterling Morrison reconheceu em tempos, numa entrevista, que tinha “fortes sentimentos” sobre a presença cada vez mais evidente de Doug Yule, deixando escapar um (quase eterno) lamento sobre Reed. “O álbum saiu bem, e ao nível da produção é o melhor, mas podia ter sido ainda melhor se tivesse tido boas vocalizações de Lou em todas as canções”, apontou Sterling, citado por Michael Bonner na revista britânica Uncut. 

Yule canta em quatro temas e Morrison continuava às avessas com Reed. “Eu mal falei com o Lou durante meses”, admitiria Sterling ao New Musical Express, em 1981, também citado por Bonner. “Acho que nunca lhe perdoei o facto de querer pôr o Cale fora da banda. Estava tão zangado com ele, por ofensas reais e imaginárias, que eu apenas não queria falar”, contou. Para acrescentar que também não foi de grande ajuda psicológica para Lou. 

Eram dias pouco meigos entre todos. As sessões de abril a julho de 1970, nos estúdios da Atlantic, em Nova Iorque, iam compondo o alinhamento das canções mas também, escreveria o jornalista da Uncut, quando os Velvet Underground decidiram gravar Loaded, não seria de estranhar que alguém se perguntasse “se eles realmente terminariam o álbum ou se entrariam simplesmente em combustão no estúdio”.

Essa combustão resultou na música e nas letras — felizmente para os nossos ouvidos, felizmente para a história da música, com mais esta obra fundamental. Lou Reed pode ter evitado o sexo e as drogas nas suas letras mas desceu as escadas do metro nova-iorquino, como se vê na ilustração original da capa, para descobrir os sons e as histórias dos habitantes da sua cidade (que, muitos anos depois, elogiaria de forma brilhante no seu opus a solo New York). 

Lenny Kaye notava que a música de Lou se tinha preocupado “sempre” com o “problema da salvação”, mas em Loaded descia à terra. “É como se ele tivesse decidido regressar onde ele mais pertence”, e em sua defesa traz-nos os versos de Sweet Jane: “Standing on the corner,/ Suitcase in my hand,/ Jack is in his corset, Jane is in her vest/ And me, I’m in a rock ‘n’ roll band.” 

Em Rock & Roll, parece ser Lou Reed que sintoniza aquela frequência de rádio, na pele de Jenny, 5 anos. “Then one fine mornin’, she puts on a New York station/ You know she couldn’t believe what she heard at all/ She started singin’ to that fine, fine music/ You know her life was saved by Rock ‘n’ Roll”. Lou foi salvo pelo rock’n’roll. Nós também — e Loaded é uma das provas materiais. Tem 45 anos. Belo número redondo! 

 

[artigo originalmente publicado no Diário de Notícias, a 24 de outubro de 2015]

Outubro 27, 2022

O deputado que salvou a vida a 260 pessoas e outros dois que morreram em combate

Miguel Marujo

Em 2019, o PS queria homenagear os três deputados que morreram na I Guerra Mundial. Na altura, escrevi este artigo para o DN, viajando pelos arquivos e pela memória para lhe contar os dias em que estes homens perderam a vida.

 

Militares portugueses a embarcarem para I Guerra Mundial. Arquivo DN,

 

A 14 de outubro de 1918, o paquete a vapor São Miguel, com mais de 200 pessoas a bordo, já navegava entre o Funchal e Ponta Delgada. Como os submarinos alemães, os temidos U-Boot, eram uma ameaça permanente para barcos que cruzavam o oceano Atlântico, o caça-minas NRP Augusto de Castilho zarpou do porto da Madeira para fazer escolta ao paquete.

Ao caminho do paquete saiu um submarino alemão, o U-139, comandado por um dos mais eficazes militares alemães na tarefa de afundar navios hostis: Lothar von Arnauld de la Perière. Apesar do "poder de fogo muitíssimo inferior ao do inimigo", como recorda um texto da Assembleia da República, o comandante da embarcação de defesa portuguesa, José Botelho de Carvalho Araújo, decidiu interpor-se entre o S. Miguel e o submarino alemão, para dar tempo ao paquete de se afastar ileso com os seus 206 passageiros e 54 tripulantes.

Primeiro foram lançadas caixas de fumo que procuravam cobrir o vapor. Quando se acabaram estas caixas, o barco - que antes da guerra tinha sido um arrastão de pesca, o Elite, da empresa de Lisboa Parceria Geral de Pescarias, Lda. (propriedade da Bensaúde & Cia), e seria depois requisitado pela Marinha portuguesa em junho de 1916 e adaptado a caça-minas - avançou em direção ao submarino, tornando-se alvo da artilharia alemã durante pelo menos duas horas. Seis homens morreram durante o combate e um último tiro disparado do U-Boot acaba por matar também Carvalho Araújo.

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Com o navio parado, sem máquinas nem telégrafo para comunicar, com a artilharia danificada e as munições no fim, é dada ordem para abandonar a embarcação pelo imediato, o guarda-marinha Armando Ferraz, num salva-vidas com 36 homens, que chegou à ilha de Santa Maria ao fim de 48 horas, com menos um marujo a bordo (não resistiu a ferimentos e foi atirado borda fora). Outros 12 sobreviventes conseguiram meter-se num bote e atingiram a ponta do Arnel, em São Miguel, a 20 de outubro.

O NRP Augusto de Castilho terá sido saqueado pelos alemães, que o afundaram depois com cargas de demolição. No navio estavam os marinheiros portugueses mortos, como Carvalho Araújo.

Será um relatório do comandante alemão, publicado em 1920, com elogios ao primeiro-tenente da Marinha portuguesa, que levará o Parlamento a reconhecer o sacrifício de Carvalho Araújo e a conceder uma pensão à sua viúva.

Aliás, é esse mesmo Parlamento que reconheceu, em 14 de outubro [de 2018], nos 100 anos da morte do militar, o ato "heroico" de "um dos heróis mais consensuais do nosso século XX" e agora quer-lhe dar honras de evocação parlamentar no próprio edifício da Assembleia da República. Afinal, José Botelho de Carvalho Araújo era também deputado eleito em 1915 no Congresso da República.

Na primeira página do DN de 17 de outubro de 1918 uma única foto ao centro da densa mancha de texto (que eram as capas do jornal nesses anos) mostra o "comandante do caça-minas Augusto de Castilho". Na notícia - que termina abruptamente com um espaço em branco, que denunciará uma parte de texto censurada (vivia-se a presidência de Sidónio Pais) - escreve-se que "com respeito ao ataque dos submarinos inimigos ao vapor S. Miguel, nas estações competentes pouco mais se sabe do que o que já foi noticiado".

A informação de facto era ainda imprecisa, falando de um ataque de duas embarcações inimigas, quando se sabe hoje que era só uma. "Consta que dois submarinos inimigos de grande tonelagem, com peças de 16 centímetros, atacaram o vapor S. Miguel, interpondo-se a seguir entre este e os dois submarinos, o caça-minas Augusto de Castilho, do comando do 1.º tenente sr. João Botelho de Carvalho Araújo, antigo deputado democrático, oficial que regressara havia pouco da África Oriental, onde exercera o cargo de governador do distrito de Inhambane [Moçambique], dando-lhe combate."

E acrescenta-se que "logo que se soube do ocorrido no porto próximo, partiram para o ponto onde se travara o combate vários navios de guerra aliados, com o intuito de perseguirem os submarinos". Depois, várias linhas em branco. Hoje sabe-se que o recontro se deu a 35°35'N, 22°10'W.

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No voto de saudação a Carvalho Araújo, de 14 de outubro de 2018, assinado por deputados do PS, a que se associou um social-democrata, defende-se que "o seu ato é heroico e de algum modo vitorioso e porque alcançou o seu objetivo que, de certa forma, reparava Portugal do trauma de La Lys, acontecido uns meses antes".

Para os [então] atuais deputados, "a confirmação deste consenso é o facto de terem sido promovidas, ao longo destes 100 anos, por diversas vezes e com pretextos vários, homenagens a Carvalho Araújo", incluindo a "prova não menos concludente" que "é a de 45 localidades, de 34 municípios portugueses, terem consagrado o nome do marinheiro nas respetivas toponímias".

Numa nova iniciativa parlamentar, a bancada do PS quer evocar este marinheiro e outros dois militares que morreram ao serviço de Portugal na I Guerra Mundial: João Francisco de Sousa era capitão de infantaria e José Afonso Palla major de artilharia, quando perderam a vida na sequência de combates em Mongua (também grafada como Môngua), no sul de Angola: o primeiro no campo de batalha, o segundo semanas depois por causa dos ferimentos sofridos.

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Como se conta no site Portugal 14-18 (uma iniciativa do Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, dedicada à "memória da participação portuguesa no conflito de 1914-1918"), nos dias 18, 19 e 20 de agosto de 1915, "as forças expedicionárias comandadas pelo general Pereira d'Eça dispersam um ataque contra os depósitos de água de Mongua, que haviam sido ocupadas no dia 17 de agosto".

No DN de 21 de agosto desse ano relata-se, ao fundo da primeira página sob o título "As operações militares em África", que "o sr. ministro das colónias leu [na véspera] na Câmara dos Deputados" um telegrama do governador geral de Angola dando conta que "foi atacado com muita violência pela gente do Cuanhama, na Mongua, a 45 quilómetros de N'Xiva e a 60 quilómetros do Huambo, pelas 9.30 de 18, durando o fogo duas horas e meia, sendo o inimigo repelido e perseguido pela cavalaria".

DN de 21 de agosto de 1915 © Arquivo DN

Ao contrário da notícia do ataque do submarino alemão, as baixas foram contabilizadas nesta notícia do DN três anos antes daquela. "Tivemos 30 feridos dos quais 6 oficiais, 6 praças europeias mortas e outras tantas indígenas mortas [sic]. A muita violência do fogo originou um grande consumo de munições que devido à falta de água e à dificuldade de abastecimento me coloca em situação grave, exigindo demora na Mongua para prosseguir." E o governador deixa um apelo: "Urgentíssimo venha tudo quanto tenho pedido para automóveis sob pena de a situação ser desesperada."

Entre os oficiais mortos estava então o capitão de infantaria e senador eleito da República em 1915 pelo círculo de Ponta Delgada, João Francisco de Sousa. Morreu em 19 de agosto de 1915, naquela que o historiador Filipe Ribeiro de Menezes descreveu como "uma das maiores batalhas campais entre tropas africanas e europeias" e que o historiador francês René Pélissier descreveu como "a única vitória franca e decisiva do Exército Português metropolitano em África".

Já José Afonso Palla era um "ilustre republicano e herói do movimento revolucionário de 5 de outubro de 1910", como explica o PS na sua nota evocativa, e deputado à Assembleia Nacional Constituinte em 1911 e reeleito deputado em 1915 por Lisboa. Morreu em 8 de setembro de 1915, depois de ter sido gravemente ferido na batalha de Mongua.

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[artigo originalmente publicado no DN, a 14 de janeiro de 2019; fotos reproduzidas a partir do artigo]

Setembro 29, 2022

Sigur Rós. Da ordem do espanto

Miguel Marujo

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Quando o espanto se apresenta à nossa frente, nem sempre estamos preparados. Quando o belo se passeia aos nossos olhos e ouvidos, podemos ficar muito tempo pasmados, sem saber articular o que sentimos, o que acabámos de viver – e ficamos pasmados. Talvez por isso, horas depois de termos visto os Sigur Rós em palco (no sofrível Campo Pequeno, que tanta luta terá dado aos técnicos de som dos islandeses) ainda nos faltem as palavras e sobrem as emoções para descrever o que foram aquelas quase três horas de concerto.

Podíamos enumerar vulcões e geiseres, uma natureza que irrompe por entre a lava, como a voz de Jónsi se eleva para lá de todas as notas e explosões, de todos os tecidos sonoros que tecem planícies e montanhas, que arrepia no som mais grave ou no tom mais agudo, entre o rouco e o sussurrado, entre o dito e o que ficou por dizer.

Cada uma das 21 canções (aos primeiros dez temas, mais intimistas, seguiu-se um hlé, intervalo, para novo set de 11 músicas sob a luz de um solstício de verão) mostrou um público ávido, mesmo que ali não se acompanhe cada um dos versos, e em comunhão com os quatro islandeses. Por trás da exaltação de cada espectador, desconfiamos que todos estavam entre o espanto e o pasmo. E a melhor forma de ir contando a história da noite de 28 de setembro é mergulhar uma e outra vez na discografia mágica destes druidas dos tempos novos.

 

[foto MM]

Setembro 25, 2022

A dança é um lugar estranho

Miguel Marujo

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A dança é uma linguagem que me é estranha — talvez pela inabilidade muito pessoal em dar sentido e ritmo a este corpo. E também por isso a dança fascina-me, mesmo que no dia a dia não a absorva (ou consuma) como com outras artes. Paro por vezes, aos sábados à noite na RTP2, a ver bailados contemporâneos ou clássicos, entre o fascinado e o intrigado: que me dizem aqueles movimentos, os ritmos, os corpos? Sei que, como em todas as artes, o gosto não se impõe, antes discute-se e aprende-se, e estes programas ou alguns (poucos) espetáculos vistos vão ajudando a formar o meu próprio gosto pela dança. Nem sempre incondicional, nem sempre fácil.

Esta noite, Olga Roriz apresentou no CCB um espetáculo que criou com a Companhia Nacional do Bailado (e que repete este domingo), integrado no centenário de Saramago — e o arrebatamento aconteceu(-me). Dos corpos presos na engrenagem, fechados, inquietos e carnais, do amor refletido de Blimunda e Baltazar, dos braços erguidos de punho cerrado, dos risos que soltam os gestos, Deste Mundo e do Outro é um espanto feito espetáculo. E devia ter guia de marcha para todos os palcos do país.

 

[foto CNB]

Setembro 09, 2022

Sete salmos de terra

Miguel Marujo

 

Nick Cave cantou um dia que não acredita num Deus intervencionista, que põe e dispõe do nosso destino e finta-o de uma maneira que deixa sempre um rasto de insatisfação. Em Into My Arms, canção de 1997, os versos iniciais dizem-no assertivamente: I dont believe in an interventionist God.

Depois disso, o tempo pregou-lhe uma partida: em 2015 morreu-lhe um filho, em maio deste ano um segundo. A tudo isto, Nick Cave, músico, cantor, escritor, poeta, nascido na Austrália e a viver em Inglaterra, sobreviveu respirando (just breathe, just breathe, repetia Nick no seu concerto no Porto, em junho). E criando: álbum após álbum, de Skeleton Tree (2016) a Carnage (2021), o seu sopro deu-nos absolutas obras-primas, onde a dor, a morte e Deus respiram em cada verso e em cada estria. (Fica de fora Push the Sky Away, de 2013, outra obra maior, por ser anterior à tragédia de 2015.) “Assumi, por razões de sobrevivência, um compromisso com a natureza incerta do mundo. É aqui que o meu coração está”, dizia-nos em agosto de 2019, sobre a morte de Arthur.

Agora há este novo trabalho, Seven Psalms, objeto inclassificável, um disco de spoken word, no qual os versos dos textos são lidos sobre uma camada sonora construída por Nick Cave e Warren Ellis. São sete salmos destes tempos, escritos pelo australiano, numa prosa tão poética quanto reveladora de quem tem pressa em dialogar com Deus. É mais uma peça a juntar à prolixa produção de Cave, nas suas diferentes roupagens, nestes últimos anos: Ghosteen (2019), Idiot Prayer — Nick Cave Alone at Alexandra Palace (2020), Carnage (2021), B-Sides & Rarities Part II (2021), La Panthère Des Neiges (2021) e este Seven Psalms (2022). Sem esquecer Litanies (2021), um conjunto de 12 litanias que Cave escreveu para o compositor belga Nicholas Lens.

Para fãs de longa data, menos atentos às referências bíblicas que sempre compuseram a já longa discografia de Cave, este é um exercício que não pedirá um segundo de escuta (serão “tretas”, senhores). Para os outros, eventualmente os que foram descobrindo Nick Cave e os seus Bad Seeds desde The Boatman’s Call (1997), esta é uma obra a pedir tempo — e tempo para respirar. É um disco que pede disponibilidade, que se demore nele, a ouvir as palavras e a respiração por entre os versos, uma pausa para escutar. E respirar.

Quando anunciou este disco, em novembro de 2021, Cave antecipou a estrutura dos poemas e a dificuldade que seria para muitos dos seus fãs ouvir este trabalho: “Cada salmo é composto de três versículos de quatro linhas e aborda uma preocupação espiritual diferente — alegria, culpa, maldade, adulação, etc. Os sete [poemas] são registados como uma peça longa. Não [será] para todos, com certeza, mas é uma coisa adorável ao mesmo tempo.”

Nick Cave refere a alegria, mas estes sete salmos descem à terra, com o australiano a contar-nos as suas angústias e ansiedades perante a morte. No primeiro salmo, How Long Have I Waited?, é direto: Lord, I cannot wait a single moment more (“Senhor, eu não posso esperar nem mais um momento.”).

Em Have Mercy On Me, o segundo salmo, encontra-se uma súplica: Havе mercy on me, Lord, and bring me home (Tem misericórdia de mim, Senhor, e traz-me para casa). Ou, logo depois, em I Have Trembled My Way Deep, em que nos diz: My heart, my love, my Lord, my one true bride/ Sanctuary where the eternal yearning rest (Meu coração, meu amor, meu Senhor, minha verdadeira noiva/ Santuário onde a saudade eterna descansa).

 

Os textos não facilitam, impregnados de uma forte espiritualidade, não são para todos, como avisou Cave, mas neles encontramos também um pai que perscruta a tragédia que lhe tocou. Em I Have Wandered All My Unending Days, fala de uma mansão no céu, para onde todos irão, um a um, e em I Come Alone And To You revela que não tem para onde ir, a não ser para junto do Senhor (Deep calls to deep, I have nowhere left to go/ But to you, Lord, breathless, but to you). É um salmo de um profeta quase resignado, que só a melodia que acompanha os diferentes salmos procura sacudir.

As palavras de Nick são sempre ilustradas por delicados tecidos sonoros escritos pelo próprio Cave e por Warren Ellis, o bad seed que é cada vez mais o maestro que o acompanha nas suas diferentes roupas. E o lado B do vinil é uma composição instrumental que junta todos os sete salmos.

Na altura em que anunciou este novo trabalho, sem certezas do que faria com ele, Nick Cave foi desafiado a mostrar algo que andasse a escrever e rematou então a carta com um dos salmos, o sexto, de novo com a morte a pesar nas palavras: “Há coisas que nunca deveriam acontecer”, escreve. “Such things should never happen but we die” — mas nós morremos.

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Nick Cave, Seven Psalms
Kobalt – Goliath Records (maxi vinil)


[artigo originalmente publicado no 7Margens, em 2 de setembro de 2022. Foto © Nikolay Nersesov/ .]

Setembro 06, 2022

"Lá em casa ninguém se zanga com a política. A cozinha não é má"

Miguel Marujo

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Esta entrevista nasceu com um pretexto: um novo livro de crónicas do DN, que ia ser publicado à época, em 2016. Na altura, o mote era só o livro, mas a direção do DN pediu-me, depois da primeira conversa, que alargasse o âmbito e estendesse para um retrato de vida. Assim foi: a dois tempos, a conversa fluiu como se de um só momento se tratasse. E o registo de uma manhã e de uma tarde sairia em junho desse ano, percorrendo o seu percurso político, cívico e académico, recordando quando esteve detido no Aljube (um episódio que o próprio desvalorizou, por saber do que outros tinham sofrido às mãos da ditadura naquela cadeia), onde conheceu Mário Soares e que ia jantar nessa noite a sua casa, de quando foi ministro do Ultramar no início dos anos 1960, do ressentimento que nunca teve pelo exílio no Brasil, ou do caminho democrático do país. Pelo meio, um homem de cultura e com um saber que nunca soa presunçoso, que questiona, que interpela, mesmo que não concordemos. E para lá da conversa publicada, os longos momentos de diálogo que não foram para a entrevista - e que navegaram à volta do ISCSP, dos filhos, da Academia das Ciências e da sua bela bliblioteca... Adriano Moreira faz hoje 100 anos. 

 

No seu gabinete de todas as manhãs, na Academia das Ciências de Lisboa, Adriano Moreira recebeu o DN, numa conversa que se prolongou a dois tempos, para desfiar histórias e nomes, numa memória que raramente se atrapalhou. O professor universitário jubilado tem um livro novo que reúne as crónicas do DN e outro na calha. Da janela do gabinete vê-se o Passos Manuel, onde fez o liceu e para onde ia a pé desde Campolide. Foi por onde começou a entrevista...

Veio "criança de colo para a cidade grande", mas ao mesmo tempo sentia-se um transmontano a viver em Campolide. Esses dois mundos completavam-se, ou havia grandes diferenças?

Nesse tempo, Campolide era uma espécie de aldeia anexa a Lisboa, eu por exemplo andei neste liceu e eu vinha a pé de Campolide até aqui [e aponta pela janela].

Com um grupo de colegas.

Sim, eram dois. Depois voltávamos ao fim das aulas, eram quilómetros de caminho. Era um meio que também tinha alguma coisa de aldeia. Acontece que os transmontanos eram, e são, muito solidários. Todos os amigos do meu pai e da minha mãe eram transmontanos que estavam em Lisboa, e eu sempre fui passar as férias grandes com o meu avô para a aldeia. Eram três meses, três meses de liberdade, isso fez de mim muito mais transmontano do que lisboeta - não só a gente com quem nos dávamos. Aqui tem como é que eu fiquei transmontano. Uma coisa curiosa: quando tive de ter funções públicas, a qualquer um dos sítios onde eu chegava havia logo transmontanos, vinham logo ter comigo.

Ainda vai a Grijó de Vale do Infante, a aldeia onde nasceu?

Vou. Sabe o que significa Grijó? Quer dizer igrejinha, por isso há vários em Portugal. Eu vou lá de vez em quando por várias razões - primeiro porque estão lá enterrados o meu pai e a minha mãe. Eu tenho sempre um afeto permanente pelos meus pais. Um pai que é filho de um empregado de um moinho, vem para Lisboa e faz serviço militar e, como era costume da migração lá de cima, eles tinham oportunidade na polícia, na Guarda Republicana e nos elétricos. O meu pai acabou a vida como subchefe da polícia do Porto de Lisboa. Este homem, com estas dificuldades, resolveu que tinha um filho e uma filha e que os dois tinham de ter um curso superior - imagina o sacrifício? A minha irmã é médica e eu sou esta pessoa, licenciado em Direito e sou doutor em não sei quantas coisas.

Falava da ligação com o seu pai.

Tenho sempre uma fotografia do meu pai comigo [puxa da carteira para a mostrar] e no meu escritório. Em casa também, na sala de estar, um retrato que um amigo meu, que é pintor, pintou e fez-me uma surpresa.

A sua mãe?

A minha mãe também era da aldeia, ficava em casa mas fazia trabalhos de costureira. Aquela gente era especial porque o pai da minha mãe já era assim uma pessoa que tinha estado no Brasil, dois anos (teve uma zaragata com a administração pública em Macedo de Cavaleiros e depois teve de emigrar). Depois voltou para a aldeia. Era um homem muito lido, recebia jornais, como O Século, que lia todos os dias num banco de pedra.

É esse avô de quem diz que só por o ter conhecido valeu a pena já ter vivido?

É. Era um homem extraordinário, sensato, muito lúcido e muito inteligente, aliás, a minha mãe ficou com a inteligência dele. A vida na aldeia era terrível, ele teve oito filhos e enterrou cinco com tuberculose, mas nunca o ouvi queixar-se. Era rijo, com carácter, nada de se queixar. É uma coisa simples. Eu tive uma vida muito simples, fiz o curso secundário a ir a pé, depois fiz o curso universitário a ir a pé para o Campo de Santana e a voltar para Campolide sempre.

O seu mundo, na juventude, é também o mundo da Segunda Guerra Mundial. Aquilo que chegava da Europa até cá ajuda-o a moldar-se politicamente?

Eu devo dizer que, na altura, a política não me interessava.

Mas junta-se em 1945 a uma lista do MUD (Movimento de Unidade Democrática, de oposição).

Não. Isso foi porque no escritório onde estava a fazer o estágio toda a gente assinou essa lista - e eu também. Eram eleições livres e eram o que pediam. Eu formei-me com 21 anos e estava naquele escritório e toda a gente assinou.

Não é a Segunda Guerra Mundial que o muda politicamente?

Eu entrei na Faculdade de Direito com 16 anos. A grande inquietação que nós tínhamos eram as notícias sobre o avanço das tropas alemãs que já estavam nos Pirenéus, e a invasão da península era uma coisa possível. O sentimento da população em geral era contra os alemães. Não é que o povo soubesse o que era o nacional-socialismo, mas o homem estava a destruir a Europa, isso era bastante para ter medo e até a nível moral ser contra. Como eu tive toda a minha juventude com necessidade e esforço físico, a política não me interessava realmente. Só muito tardiamente é que comecei a interessar-me, sobretudo quando enveredei pela vida universitária. Houve duas coisas - a que eu chamo as minhas quedas no mundo - que me levaram a interessar a sério pelas coisas: fui convidado para ser professor da Escola Superior Colonial. E [o ministro do Ultramar] Sarmento Rodrigues pediu-me para estudar o problema prisional do Ultramar. Fui a todas as colónias de África e escrevi um livro, que foi a minha tese de concurso, sobre O Problema Prisional do Ultramar. Ganhou um prémio da Academia das Ciências, que nesse tempo era nem mais nem menos do que 80 contos, e dei-o todo à minha mãe para reconstruir a capela da aldeia.

A pedido da sua mãe?

Não, ela não pediu, não foi preciso, eu sabia da capela, foi um gosto muito grande para mim, a minha mãe era muito crente e vi que era uma coisa que poderia fazer, de maneira que, com esse prémio, paguei.

Voltando à tese...

Eu fiz isso e inspirou a "reforma Sarmento Rodrigues" no regime prisional. Ainda hoje acho que a reforma foi boa. A minha inspiração principal veio de um médico que havia no Congo, que era um homem que além de médico era teólogo e músico e resolveu adaptar o hospital à cultura nativa. O que interessava eram as populações nativas, eu disse que só podia haver campos de trabalho para que tivessem uma atividade em que fizessem a sua agricultura e com bom comportamento podia significar juntar a família. Comecei a interessar-me por aquilo e digo que foi a minha primeira queda do mundo porque conhecia o Direito, era o que eu ensinava, mas vi que não era o Direito que estava em vigor. Depois vem o problema de Portugal entrar nas Nações Unidas: o chefe da delegação foi o Dr. Paulo Cunha, que era um grande professor, tocava violino, era alegre, e foi-me buscar à Escola [Superior Colonial]. Fui com ele, era gente muito nova e todos de grande categoria, como Franco Nogueira, ainda jovem conselheiro.

Estamos em 1957.

Por aí. É a minha segunda queda no mundo. Eu sabia muito bem o que era a Carta das Nações Unidas e a Declaração de Direitos Humanos, tudo do Direito, mais uma vez, feitas por ocidentais, mas foi a primeira vez na história da humanidade que ouvimos representantes de áreas culturais diferentes, que tinham sido colonizados, a falar ao mundo em função dos seus valores. O Raul Ventura, que era o ministro que se seguiu a Sarmento, organizou um centro de estudos do Ultramar e eu é que fiquei diretor. Fizemos uma data de missões de investigação e é aí que eu começo a defender as teses de que o estatuto do indigenato tem de acabar.

Teses que vai aplicar quando chega a ministro do Ultramar.

Apliquei tudo. Eu mandava um relatório meu para o Ministério do Ultramar e vim a verificar que eles o liam porque dois anos depois o Dr. Salazar manda-me chamar para falar comigo. Quando lá cheguei o Dr. Salazar disse-me: "O senhor escreveu um relatório para o Ministério do Ultramar e disse que em 1961, mais ou menos, haveria revolta, como é que adivinhou isso?" E eu respondi: "Porque tive uma professora na primária que me ensinou a fazer contas", "então como é isso?", "é simples, Portugal não seria condenado enquanto tivesse um terço dos votos das Nações Unidas e eu fiz as contas à entrada dos países e verifiquei que se perdia o terço nessa data, éramos condenados, eles tinham o apoio internacional de todos os lados e a previsão era essa", e então ele disse-me: "O senhor tem razão para dizer que não ao que eu lhe vou perguntar, mas quer vir pôr essas reformas em vigor?", e eu disse "não posso responder assim porque não pertenço a nenhuma política nem sequer fui da Mocidade Portuguesa e, para me meter numa coisa dessas, quem é que me apoia?", e diz ele "apoio eu", e eu disse "não chega, preciso de gente técnica". Depois ele ainda disse: "Eu sei que o senhor tem razões para me dizer que não por causa da questão do Santos Costa", e eu disse-lhe "senhor presidente, desculpe, mas não é o único português que põe os interesses do país acima das suas discordâncias". E aqui tem como é que eu entrei.

Esse episódio é de 1948, quando defende a família de um general num processo de homicídio voluntário, que faz um pedido de habeas corpus, o primeiro de todos, e acaba preso no Aljube.

Essa história nunca a abordo muito porque já morreram as pessoas, mas sim, fui preso. António Ribeiro, que era advogado da Standard Elétrica - que foi onde eu comecei a trabalhar -, ele é que me encarregou de tratar desse assunto. Um dia chamaram-me à PIDE, o inspetor conhecia-me de miúdo porque o meu pai era subchefe da polícia, quando eu entrei, disse: "Tu é que meteste aquela velhota num sarilho?" e eu disse "qual velhota?", "a viúva do general Mouzinho", e eu disse "não a conheço", "mas ela fez a queixa em nome dela e disse que falou contigo", "não", "então quem é que falou contigo?", e eu disse "isso é segredo profissional, não posso dizer". Ele foi ao telefone e depois voltou e disse: "Olhe, eu falei com o ministro da Justiça, que foi teu professor, não foi?", e eu disse "foi", "ele disse que não podia esperar outra resposta tua mas que te prendesse", "tudo bem, cumpra as ordens".

Esteve ainda dois meses detido?

Quase. Salazar mandou pedir o processo que metia o Santos Costa e arquivou o processo e disse "ponha o rapaz em liberdade, que é o único que se portou com dignidade". Quem interveio logo a seguir foi a Ordem dos Advogados, naquele tempo ser advogado era uma coisa a sério. O ambiente da advocacia era muito diferente de hoje, eu conheci advogados espantosos nesse tempo, ainda fiz tribunal, defesas, e não correram mal. O poder da palavra pode vencer a palavra do poder, era o conceito desse tempo.

Foi um mês e meio complicado para si?

Não, os que estavam presos eram todos comunistas, de maneira que eu era uma pessoa à parte.

Conheceu Mário Soares no Aljube?

Sim, e ficávamos amigos. Ainda hoje [no dia da entrevista] vou jantar a casa dele. Ele é um ano mais novo do que eu, eu tinha lá ao meu lado, na minha camarata, a História da Filosofia do Hegel e tinha O Príncipe [de Maquiavel], que é um livro muito célebre. Ele chega ao pé de mim, diz que se chama Mário Soares e diz "você lê uma literatura toda reacionária" e eu: "Estou a fazer estudos para miguelista" - e ficámos amigos até hoje.

Esteve preso por quase suspeitas?

Sim, "quase suspeitas", e por isso é que Salazar me disse "o senhor tem razões para me dizer que não", que é quando lhe digo "o senhor não é o único português que mete os interesse do país acima das discordâncias".

Acabar com o indigenato significava exatamente o quê?

A relação dos colonizadores, quando começa no século XVI, é de senhores para escravos. Quem acaba primeiro com a escravatura nesta metrópole chama-se Marquês de Pombal, depois no Ultramar é o Sá da Bandeira, mas logo a seguir veio o estatuto do indígena, que era a negação da cidadania, que permitia abusos do ponto de vista selváticos. Além de revogar o indigenato, fiz um código de trabalho rural que foi considerado o mais avançado de África. Depois, é claro, instalei o ensino superior e foi uma luta. Fiz o que pude naquele período todo, mas para isto foi uma fadiga muito grande.

Oliveira Salazar pede-lhe então para mudar de política.

Em determinado momento. Isto, como calcula, atingiu interesses brutais, mudou-se uma estrutura. Eu tenho um filho que é advogado, o João, que esteve em Moçambique, e tinha um colega africano que um dia lhe perguntou se era filho do Adriano Moreira, e ele disse que sim, e ele disse "então vou dizer-te uma coisa: o meu pai africano disse que só teve o primeiro dia de felicidade na vida, já tinha 70 anos, quando lhe deram o bilhete de identidade por causa do decreto do teu pai", portanto veja o que representava para eles. O próprio Salazar começou a sentir reações das bases de apoio dele. Ele chamou-me e disse-me: "Quando o chamei disse-lhe que apoiava as suas reformas, tenho cumprido ou não?", e eu não fazia ideia para que era a conversa, disse "sim, até agora tem cumprido". E disse ainda: "Mas devo dizer-lhe o seguinte, as reações são de tal ordem que eu próprio não estou seguro de poder continuar chefe do governo, temos de mudar de política", e eu com convicção disse assim: "Vossa excelência acaba de mudar de ministro", e ele disse "eu já estava à espera que me respondesse isso", e vim-me embora. Foi sempre atenciosíssimo comigo e, daí por diante, nunca mais tive qualquer atividade política, como não tinha tido antes. Até que veio a Revolução e fui saneado como toda agente.

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Nem essas divergências manifestadas com as estruturas do regime o livraram de saneamentos, na empresa e na universidade.

Na universidade até devo dizer que foi onde tive as reações mais inesperadas, mas eu não estava cá, estava no Brasil em serviço. Quem me disse que não voltasse foi o almirante Pinheiro de Azevedo, que tinha sido meu aluno, e eu disse "então mas como não volto se tenho aí a minha mulher e três filhos?", e ele disse "eu trato disso, eles vão ter consigo". Mas não tratava era da minha vida - passei dois meses difíceis. Conhecia muita gente no Brasil, mas nunca fui de andar a pedir coisas. Um dia veio um professor da Católica, que me encontrou, foi a minha casa, estava numa casa bastante humilde, enfim não chovia lá dentro, e disse-me "ando há dois meses à sua procura para o convidar para catedrático da Universidade Católica do Rio de Janeiro". Quem me mandou reintegrar foi o Eanes, com efeito retroativo, no Instituto Superior Naval de Guerra e na Universidade. Ainda hoje tenho gratidão e respeito pelo general Eanes.

Esse tempo viveu-o com ressentimento no Brasil?

Não, eu não sou de ressentimentos.

No fundo, aquilo que lhe estava a acontecer era explicado pelo contexto da história?

Sim. Depois voltei, fui professor da Marinha, ainda outro dia me fizeram uma festa e disseram que eu entrei para a Marinha há 60 anos, todos os chefes do Estado-Maior que estão reformados foram meus alunos, portanto esta coisa do Eanes comoveu-me muito.

Quando regressa, é convidado por Freitas do Amaral, Adelino Amaro da Costa e Narana Coissoró...

Sim, o Narana que tinha sido meu assistente na Universidade.

E é convidado para o CDS?

Sim. Eu achei que esse momento era muito difícil para o país. [Antes do 25 de Abril] é a tropa que vai avisando que a guerra não se ganha. Segunda coisa: o grande suporte do regime eram as Forças Armadas, e houve avisos de que era preciso mudar. Depois aparece um grupo de Margão, que pede uma constituição federal porque não quer ser invadido pela União Indiana, ninguém aceitou, e houve um movimento para Cabo Verde serem ilhas adjacentes... Eu aí não tinha intervenção nenhuma, mas sei que isso era assim e alguma projeção que eu mantive é porque eles sabiam as coisas que eu tinha escrito. Quando vem o 25 de Abril, a primeira fase chama-se golpe de Estado (que, tecnicamente é quando um elemento da estrutura se afasta), a revolução começa depois. Há [então] um debate e devemos muito ao general Eanes nesse aspeto - a constitucionalização do regime - que ou se tem uma via revolucionária de extrema-esquerda ou se tem uma constitucionalização europeia, que é o que o general Eanes consegue orientar, e também o Freitas do Amaral e o Jorge Miranda. Eles vão ter comigo e convidam-me pelas coisas anteriores que eu tinha feito e que tinha dito e eu, mais uma vez, aceito pelo interesse nacional. Agora era interessante que, tendo a Europa sido feita pelas democracias cristãs, o país onde a democracia cristã não vingou era o país mais católico - é interessante.

São tempos de trincheira. Ou acha que, apesar de todas as diferenças ideológicas que eram fortes naquela época, eram tempos em que o diálogo era possível?

Na Universidade, foi sempre possível, e se você foi estudante ali [no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas], encontrou esse espírito, a pessoa fala livremente.

A democracia foi uma aprendizagem para todos?

É evidente que mudar de regime tem de mudar as pessoas, tem de mudar os hábitos. Mas não se teria feito isso se não houvesse homens lúcidos, e o principal, a meu ver, foi o Eanes e o Jorge Miranda e essa gente, que conduziram isto em termos de constitucionalizar o país no modelo europeu. Foi uma grande batalha que eles ganharam.

A ideia de aderir à União Europeia, a CEE de então, por Mário Soares, também ajuda a consolidar a democracia?

Tudo isso. O Partido Socialista teve um papel fundamental nisso: o comício da Fonte Luminosa [a 19 de junho de 1975] é um facto histórico fundamental. A linha constitucionalista europeísta ganhou mas foi uma batalha. Devo dizer que gostei de estar no Parlamento durante todo aquele tempo, e acho que a cerimónia da saída não foi má [e sorri].

Depois da sua liderança no CDS, num tempo difícil em que o partido estava reduzido a uma dimensão mínima...

Até com uma ação de despejo no Caldas [sede do partido].

Depois disso, e depois da sua primeira experiência política ainda no Estado Novo enquanto ministro, refugiou-se na universidade. Esta era um refúgio importante para si?

Não era um refúgio, para mim é uma vocação.

E a política foi uma desilusão?

Não neste sentido. Eu achei que fazia aquilo que em consciência devia ao país. Agora, foi um esforço que não resultou. Mas eu tenho algumas provas, depois disto tudo. Por exemplo, há uma universidade em São Vicente [Cabo Verde] e eu devo ser o primeiro doutor honoris causa depois da independência. Aqui há tempos ajudei a fazer aquele tratado de Cabo Verde com a União Europeia porque o embaixador que estava cá veio pedir-me, a mim e ao Mário Soares. Fizemos isso, passado algum tempo foi a minha casa a ministra dos Negócios Estrangeiros de São Tomé e disse-me: "Olhe, eu vinha pedir a sua ajuda porque o senhor ajudou a fazer uma coisa para Cabo Verde que nós também precisávamos." Eu disse-lhe: "Ajudo, mas primeiro tem de tomar um compromisso comigo, não mudam o nome da rua que lá têm." Sabe qual é o nome da rua? Rua Ex-Adriano Moreira" [risos]. Ela, coitada, é que depois mudou, passado pouco tempo deixou de ser ministra.

Esperava ver uma das suas filhas, Isabel, chegar à política? Foi uma coisa que cultivou em casa?

Não, isso é uma decisão dela. Eu procurei educar os meus filhos com um certo sentido de liberdade e responsabilidade - e a mim também ninguém me encaminhou. Segui muito o meu pai e os exemplos dele. Esta filha tem comigo uns cuidados e um afeto que é uma coisa... Uma vez um jornalista perguntou-lhe "faz estas coisas e então e o seu pai?", "o meu pai é o homem da minha vida" [sorriso largo].

Conversam muito sobre política lá em casa?

Então não?! À vontade. Ninguém se zanga com a política. A cozinha não é má [risos]. Sabe quantos netos tenho? Tenho 14. De vez em quando, quando se juntam todos, é uma festa.

 



[Entrevista originalmente publicada no Diário de Notícias, em 18 de junho de 2016. Fotos © Orlando Almeida/Global Imagens]

Setembro 04, 2022

Fucking, Nick

Miguel Marujo

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O gajo insiste em semear as melhores bad seeds deste mundo — de fato negro, camisa branca, fucking obrigado e uma noite visceral, apocalíptica e cheia de raiva e amor, há contradições maiores, e sobe ao palco à hora certa e logo nos pede que nos preparemos, get ready for love, e nem o alinhamento igual ao da véspera em Málaga, que vamos antecipando no pequeno ecrã, retira uma linha à surpresa de uma interpretação emotiva, que se sente na voz, no humor, nos parabéns à Paula, nos olhos que se emocionam, I need you, 'Cause nothing really matters, I need you, Just breathe, just breathe, no coração que bate, motherfucker, bum-bum-bum, é um tiro e outro e outro, e é sangue que bombeia o coração, sentes o coração bater, pergunta-nos, e há a história que ele nos conta de uma rapariga, como se fosse a primeira vez, e uma e outra vez que ele respira, ao piano, Come sail your ships around me, And burn your bridges down, sempre esta proximidade, abraços e regressos, That she will keep returning, Always and evermore, Into my arms, olhares e ficar a seu lado, I am beside you, I am beside you, Look for me, look for me, esperando sempre o regresso, talvez de um filho pródigo, And it's bringing my baby right back to me, Well there are some things too hard to explain, e depois os olhos marejados, e o obrigado, Lisboa, para sacudir o piano, a tristeza, para logo abrir os braços como o profeta bem acolhido nesta casa, o pastor que exorciza demónios e vergonhas, Tupelo's shame, O God help Tupelo!, um culto em que se sabe ao que se vai e mesmo assim se surpreende, e a banda que é um bando de amigos acólitos e o coro saído daquela igreja que dança, bate palmas, grita aleluia, faz a festa, é uma festa, e é uma fé enorme esta, entre as descargas das sementes ruins e a voz que vocifera just breathe, just breathe, e todos respiramos, bebemos deste sangue e deste cálice. 

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Não me peçam que saiba descrever com palavras precisas a emoção maior que foi (que é) este concerto de Nick Cave & The Bad Seeds — no seu regresso a Lisboa. Foi o último desta fucking digressão de três meses pela Europa. Nunca sairá da nossa memória. Fucking, Nick, bem nos divertimos.

 

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[Fotos de João Amaro Correia]

Agosto 09, 2022

Bebê-las louras, com gravata, que é como os homens e as mulheres gostam

Miguel Marujo

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O calor pede que seja servida fresquinha. E peça-a com espuma, aquela gravatinha irresistível. Este é também o roteiro possível de uma escolha difícil - onde beber boas imperiais ou finos. Uma escolha muito parcial. [Esta reportagem é de 25 de julho de 2012. Talvez haja sítios que já não existam, mas o essencial permanece visível ao palato.]

 

Este é o relato de uma tarefa impossível – e injusta. Indicar ao leitor onde se bebem as boas imperiais, os melhores finos. Impossível porque o redator não provou todas, nem nada que se pareça. Valeu-se de inquéritos instantâneos, de memórias mais ou menos recentes, de guias insuficientes. E da ideia de uma página continuamente em construção (mas podem entupir a caixa de correio do redator com sugestões para o verão que aí está).

Faltam os roteiros que ajudem à tarefa, as revistas especializadas, as páginas de entendidos. Em tempos, o atual secretário de Estado da Cultura alimentou uma página na extinta Grande Reportagem sobre cervejas – e daí resultou um livrinho de Francisco José Viegas feito guia para "não morrer de sede no inferno". Podem tragá-lo.

Depois há os afetos e as companhias, que tornam aquele fino memorável ou obrigam a esconder aquela imperial no recanto mais escondido da nossa memória. 

Mais: esta é uma tarefa injusta porque aqui se vão omitir muitas cervejarias, cafés, tascas, bares ou restaurantes onde ela sai da torneira como mandam as regras.

As regras, já se sabe, variam consoante as circunstâncias e os palatos, mas Jorge Sousa – chefe de turno da histórica Cervejaria Trindade, em Lisboa, que guiou o DN num curso intensivo sobre a arte – explica-nos que o copo se quer seco, bem seco (perde-se na história, a história de tasqueiros que não lavavam os copos), e inclinado, qualquer coisa como uns 30º, nem muito próximo do tirador nem muito afastado. Faz diferença o tempo que se leva do tirador à mesa ou ao balcão, por isso se deve ter atenção.

Quando está quase cheio, endireita-se o copo, dois dedos de espuma, uma gravatinha, a bebida ali na marca dos 20 cl se for imperial, ou 40/50 cl, se nos atrevermos à caneca. É tudo um jogo de equilíbrios.

Os homens e as mulheres preferem-nas louras. É a clássica lager que domina o mercado, a Sagres e a Super Bock, num Benfica-Porto das cervejas, onde as outras tentam a bravata de jogar de igual para igual. Mas a variedade já se faz ao balcão de uma qualquer boa cervejaria, com louras, ruivas, escuras, mais ou menos adocicadas, ou de travo amargo.

A porter escura e densa que dá pelo nome de Guinness, por exemplo, vive nos bares irlandeses (o Hennessy's ou O'Gilins) do Cais do Sodré, em Lisboa, mas também já se bebe ao balcão da Trindade.

Dizem, porque o redator não teve a possibilidade de ir testar ao vivo e no paladar, que a melhor imperial do País é tirada no Lebrinha, em Serpa. Ninguém sabe explicar o segredo, que é a alma do negócio, mas na Net encontram-se relatos de nortenhos a dar o copo à palmatória, por se tratar de um fino saído com a chancela da Sagres.

Recanto improvável para ir beber a que será a melhor imperial do País, como são outros que se pôde recolher na preparação deste roteiro: no Álvaro, na aldeia da Urra, às portas de Portalegre; no Horácio, em Linda-a-Velha, ou no Eduardo das Conquilhas, na Parede; no Augusto e no Tico-Tico, em Aveiro, ou no Café do Farol, na praia da Barra, ali próximo; no Chez Maurice, com o mar e a praia da Aguda (Gaia), aos nossos pés; no Bar Amarelo, da Praia do Homem do Leme, do Porto, como cantam Os Azeitonas; nas tascas das arcadas da Praça Velha da Guarda; na Praxis, que na Coimbra dos estudantes produz as suas próprias cervejas; ou no Bar Bonaparte, o pub de tipo irlandês que um alemão mantém no Porto, e que vem a ser (palavra de Viegas) "o lugar português mais apropriado para beber a Erdinger".

Em Lisboa, multiplicam-se as cervejarias clássicas, como a histórica Trindade ou a Portugália, a Ramiro ou a Lusitana. Há ainda, no Mercado de Alvalade, a Sem Palavras, ou a Bota Velha, em Campo de Ourique.

É uma amostra modesta, parcial e parcelar. E seca. Há horas que o redator só sonha em sair da redação e poder gozar a companhia de uma loura. Este sol de verão está a pedi-las.

[artigo originalmente publicado no Diário de Notícias, em 25 de julho de 2012; informações sobre os locais podem estar desatualizadas]

Agosto 07, 2022

As praias que pedem paciência

Miguel Marujo

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As praias da minha infância pedem paciência, pedem que sejamos pacientes, não se consomem facilmente, pedem tempo, que nos demoremos nelas.

A Barra e a Costa Nova, mas também São Jacinto, Torreira, Vagueira, Areão e Mira, vivem-se sem pressas: há nevoeiro pela manhã, mesmo que já não haja a ronca do farol a dizê-lo, mas sabemos que vai abrir mais tarde, e abre; há ondas altas e um mar bravo de bandeira amarela ou vermelha, faz-se o passadiço ao longo das dunas e a Barra promete águas mais calmas (e se não, vai-se até junto da Meia Laranja, na Praia Velha); a água está mais fria, mas os ossos sabem que tudo se suporta — e ser paciente é ir entrando no mar dentro devagarinho. Nem sempre é assim, sim, mas nas outras praias também nem sempre é assim.

As praias da minha infância são pacientes, e é sempre um gosto mergulhar nelas, nas suas areias, no mar que as faz, nas pessoas que as habitam. Já tenho saudades.

 

[a fotografia, captada com uma grande angular, foi tirada na zona da antiga Rua 5, à entrada da Barra, a meio caminho entre a Costa e o Farol, no dia 24 de julho de 2022, pelas 18h10 — © Miguel Marujo]

Agosto 06, 2022

“Enough!”. O fã que se fartou das “tretas” de Nick Cave sobre Deus

Miguel Marujo

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A mensagem é curta e grossa: “For fucks sake, enough of the God and Jesus bullshit!” – a tradução pode ser suavizada, ou carregada nas tintas. Dada a ira do leitor de Nick Cave, o tom será mais o calão forte que a interjeição zangada. “Caramba! Chega desta treta de Deus e Jesus!” (traduzamos assim).

O cantor, músico e compositor australiano, há muito radicado na Grã-Bretanha, não responde logo a Jason, de Londres. À pergunta irada, Nick Cave junta outras questões, feitas por Lorraine, de Berlim, Alemanha: “Quais são os seus pensamentos sobre a liberdade de expressão? Acha que é um direito?” – e é por aí que ele vai na sua resposta, a dissertar sobre a liberdade de expressão…

Já aqui falámos sobre este site de conversa que Nick Cave criou e alimenta: em The Red Hand Files, o australiano responde a questões dos seus fãs e leitores, e estas vão das mais prosaicas sobre a música e os discos, até às que aprofundam questões complexas e filosóficas.

A 9 de junho, Sue, de Paris, França, perguntou-lhe: “Na tua opinião, o que é Deus?” – tema recorrente, já se sabe, na discografia e na correspondência de Nick Cave. A resposta do australiano é assertiva: “Deus é amor”, e explica que é por isso que sente “dificuldade” em relacionar-se “com a posição ateísta”. A explicação é demorada: “Cada um de nós, mesmo os mais resistentes espiritualmente, anseia por amor, quer percebamos ou não. E esse anseio chama-nos para sempre em direção ao seu objetivo — que devemos amarmo-nos uns aos outros. Devemos amarmo-nos uns aos outros. E principalmente acho que o fazemos — ou vivemos muito próximos da ideia, porque quase não há distância entre um sentimento de neutralidade em relação ao mundo e um amor crucial por ele, quase nenhuma distância de todo. Tudo o que é necessário para passar da indiferença ao amor é ter os nossos corações partidos. O coração parte-se e o mundo explode diante de nós como uma revelação.”

 

Talvez valha a pena recordar, neste ponto, que muito recentemente, em maio, Nick Cave perdeu mais um filho, Jethro, de 31 anos, depois de em 2015 ter morrido, com 15 anos, Arthur — e esta primeira morte marcou de forma indelével os trabalhos do músico nos últimos anos.

Com esta reflexão sobre Deus, Cave disserta sobre o bem e o mal, e no fundo está a revelar as inquietações de um pai que perdeu dois filhos. “Não há um problema do mal. Há apenas um problema do bem. Por que é que um mundo tantas vezes cruel insiste em ser belo, em ser bom? Por que é que é preciso uma devastação para o mundo revelar a sua verdadeira natureza espiritual? Não sei a resposta para isto, mas sei que existe um tipo de potencialidade para além do trauma. Suspeito que o trauma seja o fogo purificador através do qual realmente encontramos o bem do mundo.”

Na resposta aos seus fãs, Nick Cave confessa-se — com uma oração, descobrimos nós. “Todos os dias eu rezo para o silêncio. Eu rezo a todos eles. Todos eles que não estão aqui. Nesse vazio, eu despejo todo o meu desejo, desejo e necessidade, e com o tempo essa ausência torna-se potente, viva e ativada com uma promessa. Essa promessa que fica dentro do silêncio é beleza o suficiente. Esta promessa, neste momento, já é espanto suficiente. Esta promessa, agora mesmo, é Deus suficiente. Esta promessa, agora, é o máximo que podemos suportar.”

A liberdade de criar

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Esta carta a Sue terá levado o londrino Jason a dizer que estava farto das “tretas” sobre Deus e Jesus. (Num jornal português, também por causa disto, um crítico de música desdenhou de um dos discos mais recentes de Nick.) E a resposta serve-se com diplomacia: Cave começa por falar da liberdade de expressão — e sendo ele autor, pode dizer-se que ele nos fala sobre a liberdade de criação.

Assumindo que os seres humanos são “criaturas subtis e caóticas, cheias de ambiguidades e contradições”, “total e necessariamente diferentes uns dos outros”, apesar de reduzidos a categorias “arbitrárias de identidade”, como são a raça, a religião ou o género, Nick Cave defende ainda a “amálgama” de que é feito cada indivíduo. “Cada um de nós é um amálgama de tudo o que amamos, perdemos e aprendemos, os nossos sucessos e fracassos pessoais, os nossos arrependimentos particulares e as nossas alegrias singulares – e parte dessa singularidade é o que pensamos de maneiras diferentes.”

Nick Cave defende que a liberdade de expressão “é uma conquista social ou cultural, algo que nós, como comunidade, podemos usar para animar, encorajar e liberar a alma do nosso mundo, desde que tenhamos a sorte de viver numa sociedade que permita tal coisa”. Trata-se de uma questão que ajuda a aferir da qualidade de uma democracia – das sociedades. “Poder falar livremente não é apenas um benefício para si mesmo, fazendo com que nos sintamos menos sozinhos, é também um barómetro da saúde da nossa sociedade, assim como a intolerância a ideias opostas indica uma fraqueza ou falta de confiança em seus próprios pensamentos e as ideias da nossa sociedade”, argumenta.

Percebe-se porque é que Cave começa por falar sobre a liberdade de expressão, contra “a intolerância a ideias opostas”. Para melhor dizer que falar de Deus e de Jesus, para ele, só é possível numa comunidade na qual se pode falar livremente. E o músico situa Jesus como alguém que viveu num tempo em que falar era arriscado: “Jesus percorria a terra expressando o que eram, na época, ideias consideradas perigosas e heréticas.” Por isso, argumenta, Jesus “foi seguido por um círculo nervoso de escribas e saduceus a resmungarem, cujo objetivo era apanhá-lo – expor não apenas as Suas ideias perigosas, mas desnudar e perseguir a sua singularidade”.

Sabemo-lo, “eles tiveram sucesso, e Cristo foi cancelado na Cruz”, descreve Nick, usando uma curiosa formulação adequada a estes tempos ditos de “cancelamentos”. As ideias de Jesus eram “impossíveis e perigosas – amar o inimigo, amar os pobres, perdoar os outros – [e] eram aterrorizantes, inconcebíveis e proibidas na Sua época, mas tornaram-se, com o tempo, as melhores ideias que sustentam a sociedade em que muitos de nós temos a sorte suficiente para viver hoje. Vale a pena lembrar isto.”

Este discurso, também político, é aquilo que permite a Cave voltar à questão da tolerância necessária para viver em comunidade. “Acho que devemos ter cuidado com as nossas suposições sobre quais as ideias que achamos certas e quais as ideias que achamos erradas, e o que fazemos com essas ideias, porque é a ideia aterrorizante – a ideia chocante, ofensiva e única – que exatamente pode salvar o mundo.”

 

[artigo originalmente no 7Margens, em 26 de junho de 2002; a primeira imagem é Der Gaukler (c. 1502), de Hieronymus Bosch, reproduzida a partir do site de Nick Cave; a segunda imagem é The Love of God, detalhe (c.1861–1869), de Georgiana Houghton, também reproduzida do mesmo site.]

Agosto 03, 2022

Uma lápide em gaélico foi proibida num cemitério inglês — e nós ganhámos uma bela canção

Miguel Marujo

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A Igreja de Inglaterra proibiu uma inscrição em irlandês numa lápide fúnebre, em Coventry, argumentando que a frase teria de ser traduzida para inglês para que as pessoas não a confundissem com uma declaração política. A família de Margaret Keane foi para tribunal e ganhou – e os irlandeses Fontaines D.C. fizeram desta história uma (belíssima) canção do seu mais recente disco, que apresentaram em Lisboa no festival Alive, a 6 de julho.

Em julho de 2018, quando da morte de Margaret aos 73 anos, os seus familiares quiseram inscrever, na pedra do túmulo no cemitério da Igreja de St Giles, em Exhall (Coventry, centro de Inglaterra, perto de Birmingham), a saudade que tinham: “In ár gcroíthe go deo”, que se traduz por “Para sempre nos nossos corações”. Não puderam.

Dois anos depois, em 2020, o juiz Stephen Eyre QC, de um tribunal eclesiástico – o Tribunal Consistório da diocese de Coventry, da Igreja da Inglaterra (Comunhão Anglicana) – argumentou que aquelas palavras tinham de ter tradução simultânea. “Dadas as paixões e os sentimentos ligados ao uso do gaélico irlandês, existe um triste risco de que a frase seja considerada uma forma de slogan ou que a sua inclusão sem tradução seja vista como uma declaração política”, começou por apontar o juiz, citado pelo jornal The Irish Times. “Isso não é adequado, pelo que a frase ‘In ár gcroíthe go deo’ deve ser acompanhada de tradução.”

A Igreja da Inglaterra disse na época, num comentário solicitado pela BBC, que a decisão “não reflete” a sua política nacional, acrescentando em comunicado que “a língua irlandesa é uma parte importante do património” da organização.

O pedido para não haver qualquer tradução tinha partido da filha de Margaret, Caroline Newey. Segundo a decisão do juiz, a filha argumentou que não havia necessidade dessa tradução, uma vez que “a língua irlandesa é considerada não apenas um meio de comunicação, mas [também] um veículo de valor simbólico”. Para Caroline Newey, “o uso dessa língua sem tradução não é uma declaração política, mas [antes] o reconhecimento da identidade da sra. Keane e é para honrar… [a sua] língua nativa”. O juiz não acolheria a argumentação da família: a inscrição seria “incompreensível” para a maioria dos que a leriam e decidiu-se pela necessidade de traduzir a frase.

Esta decisão acabou posteriormente por ser anulada, por discriminação racial, em fevereiro de 2021, culminando uma batalha de quase três anos para que o local de repouso final de Margaret Keane pudesse ficar assinalado com palavras da sua terra natal, como desejava a família. 


Dos jornais para o disco

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Neste tempo, Grian Chatten, vocalista e letrista dos Fontaines D.C., leu a história nos jornais e escreveu aquela que é a canção de abertura do mais recente trabalho destes irlandeses, Skinty Fia, lançado a 22 de abril. O título do tema é bebido na inscrição gaélica desejada pela família: In ár gcroíthe go deo.

Na BBC, Bernadette Martin, outra das filhas de Margaret, descreveu a canção como “um final adequado para a jornada que vivemos em família”. “Era a última coisa que esperávamos”, contou. “Quando ouvimos, a primeira coisa que fizemos, eu e as minhas irmãs, foi ficar no túmulo da minha mãe, tocá-la para ela e ouvi-la pela primeira vez naquele lugar especial.”

A família acabou por entrar em contacto com a banda, depois de terem visto a lista das canções do álbum, contou a BBC. O vocalista e letrista, Grian Chatten, diz que, nesse contacto, a família de Keane manifestou a sua aprovação e isso foi “uma das coisas mais incríveis que já aconteceram”. “Isso significa muito mais para mim do que qualquer nomeação para os Grammy”, atirou Chatten à BBC. E acrescentou o seu contentamento por terem sido capazes de dizer algo sobre uma história assim”, sem desrespeitar ou ofender ou de qualquer forma apropriar-se “do que era essencialmente uma história de família.”


O problema do irlandês

Inspirada na história de Keane, esta canção vive também da história pessoal de Chatten. Este novo disco dos Fontaines D.C. é um retrato sobre ser-se irlandês não vivendo na Irlanda, e sentir-se por vezes indesejado. Como o gaélico da lápide de Margaret. Foi isto que inspirou Chatten, que agora mora com a namorada em Londres. “Esta história saiu muito antes de eu me mudar definitivamente para Londres”, disse na conversa com a BBC. “Para ser honesto, deixou-me nervoso com a mudança”, confessou. “A ideia de que uma língua em si é inerentemente política é profundamente crítica, errada e retrógrada. Porque essa língua é a mesma que é usada para dizer: ‘Aproveita o teu primeiro dia na escola, filho’”, argumentou. Para concluir: “Há mais para desinspirar as pessoas do que um conflito.” 

Numa outra declaração, o tom de Grian Chatten é ainda mais mordaz, sobretudo em relação à posição da Igreja anglicana. Com a recusa daquela frase, “a Igreja de Inglaterra decretou que [o gaélico] seria potencialmente visto como um slogan político”. A língua irlandesa – que se tornou minoritária durante o domínio britânico da ilha e é uma arma na disputa entre os dois países – acaba por ser vista como algo que incendeia as emoções, “o que é um nível muito básico de xenofobia”.

A revolta está nas palavras, mais do que na canção. “Considerar o irlandês e perceber o irlandês como algo inerentemente ligado ao IRA ou ao terrorismo ou qualquer coisa assim, é profundamente perturbador. Eu senti-me como se estivesse a olhar para o cano da arma, ao ir viver para este país, que realmente não recebe bem as pessoas irlandesas. Ainda considera as pessoas da Irlanda como algo não confiável e ameaçador.”

Chatten revelou que tudo isto o fez pensar na sua “própria família no oeste da Irlanda”, tocando os seus instrumentos tradicionais (e ele próprio toca acordeão no novo álbum, recorda a BBC) e cantando músicas na véspera de Ano Novo. “Penso que eles fazem parte deste [corpo] que estava a ser julgado desta maneira, e isso deixa-me muito chateado pessoalmente.” Ao ouvir In ár gcroíthe go deo, há aborrecimentos que se podem aplaudir.

Já o baixista do grupo, Conor Deegan III, disse a Chatten que houve uma coisa positiva, que foi a de não terem conhecido o desfecho do caso a favor da família, antes de concluírem a música. Só assim, argumentou Conor, o refrão da canção pode ser repetido com “o mesmo sentimento de lamento”, como se ouve nos coros quase fúnebres de In ár gcroíthe go deo, num registo que remete também para a tradição musical irlandesa dos laments (goltraí, em gaélico), canções tristes muitas vezes cantadas em velórios ou que lembram tragédias locais. 

Não há tristeza neste epílogo: Margaret pôde ser homenageada como a família desejava e os Fontaines D.C. deram-nos mais uma bela canção neste seu terceiro disco, que merece ser escutado de fio a pavio.

 

[artigo originalmente publicado no 7Margens, a 30 de junho de 2022]