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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Maio 06, 2022

"O MRPP é uma seita." O partido que está a mando de um homem que não é seu dirigente

Miguel Marujo

25 de Abril em pandemia.jpeg

 

Esta reportagem foi publicada em novembro de 2016, um ano depois da demissão de Garcia Pereira do partido, por entre um clima tenso de acusações a ex-militantes. Hoje, o PCTP é cada vez mais um grupúsculo, reduzido a uma expressão eleitoral mínima. Depois de ter perdido a subvenção pública em 2019, os resultados de 2022 foram ainda piores. O espaço que foi ocupado por Arnaldo Matos e seus compagnons de route na Avenida do Brasil já não tem qualquer marca de ali se terem discutido "sociais-fascistas" e "vermes da caneta" (resta saber como estará a sede nacional do partido). O jornal online mantém a truculência costumeira, mas já sem a pena do fundador, e ali se anuncia a realização do II Congresso Extraordinário, para o 1.º de Maio deste ano. Ninguém deu conta, nem o jornal do partido. Regressemos por momentos a 2016.

 

"É favor manter a porta sempre fechada." E está mesmo fechada. Toca-se à campainha, sem resposta. Telefona-se para o número indicado como sendo o da sede nacional, na Rua da Palma, 159, já mesmo junto ao Martim Moniz, em Lisboa, e surge uma mensagem de voz a informar-nos de que "o número não está disponível". A placa dourada com letras bem vermelhas, ao lado da porta, diz que estamos no local certo: "PCTP MRPP Sede Nacional 2º Dto."

Olhando para cima, as quatro janelas estão também identificadas, com quatro bandeiras que se enrolam nos mastros num dia em que não há vento que as desfralde e só a chuva as molha. Há portadas de janelas entreabertas no 2.º direito, mas nada mais. Uma senhora apanha a roupa do seu estendal no 3.º.

Na porta ao lado, a agência vende "excursões" e viagens a Talin, Riga, Dubrovnik e Praga, cidades que outrora estavam para lá da cortina de ferro. Em frente, enquanto um camião é esvaziado de mercadoria no meio da rua, proliferam lojas, armazéns de "revenda de malhas", uma sapataria que acumula tantos sapatos como caixas fechadas, todas elas com caracteres chineses. O partido maoista podia sentir-se em casa — estivesse alguém em casa.

É 5,6 km para cima, no Pote de Água — na bem mais inóspita Avenida do Brasil, onde os carros passam apressados em direção à Rotunda do Relógio —, onde o PCTP/MRPP tem outro espaço, arrendado por 1825 euros ao mês, que se notam sinais de vida. Em duas montras, imagens com a reconhecida estética do partido ilustram diferentes painéis: uns reproduzem textos do Luta Popular (o jornal oficial do MRPP fundado em 1971) e outros relatam a história do movimento.

Arnaldo Matos foi um dos quatro fundadores do Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado (MRPP). Advogado, 77 anos, é ele quem alimenta hoje o Luta Popular Online (e que no papel não passa de folhas A4 policopiadas), com editoriais inflamados, que pede o voto no PCTP/MRPP — "isto é, ao meu Partido" — e que se dedica todos os dias a insultar em nome desta força partidária aqueles que eram os seus rostos até há um ano: Garcia Pereira, Domingos Bulhão e Luís Franco.

O homem que quer, pode e manda hoje no PCTP carrega apenas o título de fundador. Não faz parte do Comité Central do partido, o órgão dirigente do partido sempre que não se reúne o Conselho Nacional (que é, por sua vez, o órgão máximo entre congressos), nem é o seu secretário-geral.

Arnaldo Matos renunciou em 1982

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A 2 de maio de 2004, em entrevista ao DN, revelou que abandonou o MRPP em 1982 porque "a contrarrevolução tinha ganho". Antigos militantes do partido confirmam esta data ao DN.

No processo do partido depositado no Tribunal Constitucional (TC), que o DN consultou, há uma informação assinada por Garcia Pereira, datada de 3 de dezembro de 1985, em que se regista que "o Comité Central do PCTP informa o TC que tomou conhecimento da renúncia por parte do camarada Arnaldo Matias de Matos aos cargos de secretário-geral do partido e de membro do Comité Central [CC], com efeitos desde 13 de novembro de 1982, e ainda que as funções de secretário-geral [então Arnaldo Matos] serão asseguradas pelo CC do partido até à realização do próximo Congresso Nacional".

O partido demorou três anos a digerir a saída de Arnaldo Matos, para a tornar oficial junto do Palácio Ratton. E demorou ainda mais a convocar um Congresso Nacional (CN): o II CN realizou-se de 13 a 15 de junho de 1980, o III só 20 anos depois, a 15 e 16 de abril de 2000.

Há um ano, assinalou-se ontem [18 de novembro de 2016], António Pestana Garcia Pereira comunicou [a sua demissão] ao TC por carta, que deu entrada a 25 de novembro de 2015, [e] apresentou no dia 18 desse mês, "a sua decisão com efeitos imediatos", requerendo que "sejam o respetivo registo e lista de membros do Comité Central devidamente retificados em conformidade".

Depois das eleições legislativas de 6 de outubro de 2015, o Luta Popular fez de Garcia Pereira, Domingos Bulhão e Luís Franco alvos a abater e a responsabilizar pelos maus resultados. Sem eleger qualquer deputado (nunca aconteceu), o PCTP passou a fasquia dos 50 mil votos que lhe dá uma subvenção estatal (como já tinha acontecido em 2011), mas desceu em votos. "Mário", "Jaime" e "Conceição" (os nomes de código pelos quais aqueles dirigentes eram tratados no partido) tiveram de fazer uma autocrítica, numa reunião convocada por "Marta", Manuela Parreira.

O partido foi tomado por Arnaldo Matos, que assina também Espártaco e Viriato, como apontaram ex-dirigentes. "O MRPP acabou, tornou-se uma seita", desabafou ao DN Domingos Bulhão, um dos que se desfiliou do partido.

Na quinta-feira passada, o DN contactou o escritório de advocacia de Arnaldo Matos, pelas 16h37. Quando questionada a voz masculina que atendeu pelo nome do fundador do MRPP, ao breve silêncio do outro lado da linha, ouviu-se o desligar do telefone. Um minuto depois, a segunda chamada não obteve qualquer resposta.

Na quinta-feira também, o DN fez seguir por e-mail um conjunto de questões para Arnaldo Matos, sobre as funções que ocupa no partido e quando voltou ao PCTP, no pressuposto do abandono referido na entrevista de 2004. E sobre as críticas violentas que há um ano dirige a Garcia Pereira. Sem resposta.

Ninguém atendeu ontem as chamadas para esse escritório, para a sede nacional e para Carlos Paisana, membro do CC do PCTP e representante do partido junto do TC, cujos números foram dados pelo funcionário da Avenida do Brasil.

 

[artigo originalmente publicado no Diário de Notícias, a 19 de novembro de 2016; foto de Miguel Marujo, sobre foto original de José Sena Goulão, na exposição coletiva de fotografia sobre a pandemia "everydaycovid — diários fotográficos em estado de emergência"; foto do encontro do PCTP, com Arnaldo Matos, de pé, e Garcia Pereira, ao lado, com a cara tapada pelo microfone, numa ação de campanha no início dos anos 1980: © Rui Homem/Arquivo DN]

Abril 13, 2022

Há algoritmos que não perco por nada

Miguel Marujo

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Há algoritmos que contaminam os nossos dias com prazer, já escrevi em tempos. E estes dias com mais tempo permitem-me deixar o algoritmo ir navegando por ele, alinhavando canções e vozes que aqui e ali me surpreendem. Falta tempo é para parar em cada uma das propostas e ir ouvir tudo o mais que ali mora — e o Spotify, no caso, multiplica-se por mil, desvelando um oceano de música que nunca estaria ao nosso alcance de outro modo (sim, não ignoro como pagam mal aos autores que lhes valem todo o tráfego do mundo, mas esta montra já me levou a vários sites de artistas e a lojas para comprar aquele disco em que tropecei).

Estes dias têm-se feito sobretudo no feminino, a partir de uma canção que me era proposta nas “descobertas da semana” — e não há classificação mais enganadora, porque não se trata necessariamente de música recente: por exemplo, a tal canção de que falo é de um álbum de 2020, e depois apanhei-me viciado numa outra cantora, Tiny Vipers, cujos discos disponíveis vêm de 2007 e 2010 (mas já fui à sua conta no Bandcamp, na qual ouvi as coisas mais recentes e mais antigas…). 

 

Dizia: a partir de Monk’s Robes, de Deradoorian, do álbum Find The Sun, vi-me a navegar num mar muitas vezes enganadoramente calmo. Volto a Tiny Vipers (na foto), ou melhor, Jesy Fortino, por exemplo, e descubro na sua biografia disponibilizada no Spotify que colaborou com Grouper (um projeto de Liz Harris), outra favorita recente. Daí já ouvi em loop nomes atrás de nomes, alguns já bem familiares — como Marissa Nadler ou Brendan Perry —, a maioria completas novidades, sem que alguma vez me tenha visto a carregar para a canção seguinte, e várias vezes tenha ido espreitar quem canta, e ouvir discos inteiros. Falta-me vida e tempo para isto. Talvez alguém queira financiar este meu trabalho de prospeção. 

 

Tomem nota, numa amostra breve e apressada: Deradoorian, Tiny Vipers, Emily Jane White, Heather Woods Broderick, Yowler, Gyða Valtýsdóttir, Hilary Woods, Gareth Dickson, Sarah Davachi (e a lista vai crescer certamente). Há algoritmos que não perco por nada. Não têm de quê.

Abril 12, 2022

Jorge Sampaio não se arrepende de nada. Santana fica sem resposta

Miguel Marujo

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Chegou-me esta foto de uma página de um livro muito recente, Os Presidentes, a Política e os Media  — Uma história do 25 de Abril, de Francisco Rui Cádima (ed. Dom Quixote, 2022), no qual se cita um artigo meu no DN, em março de 2017, e resolvi recuperar o texto aí mencionado. A peça é uma notícia, mas com Sampaio nunca saía uma mera notícia. O último parágrafo do artigo é disso exemplo — e, assim, também se ajuda a fazer história.

 

Já estava à espera da pergunta, inevitável por estes dias, em que se conheceu parte do conteúdo do segundo volume da sua biografia que chega hoje às livrarias. Com o título Jorge Sampaio — Uma Biografia. Volume II — O Presidente (ed. Porto Editora), percebe-se logo a pergunta de que o antigo Presidente da República já estava à espera. "Não consigo libertar-me de 2004", atirou entre risos da plateia à jornalista Anabela Mota Ribeiro, perante a questão sobre a crise que levou à dissolução da Assembleia da República e à queda do governo de Santana Lopes.

Admitindo que "houve vários erros na explicação" do que se passou, Jorge Sampaio recordou que dois anos antes já tinha escrito — no prefácio do livro que compilava as suas intervenções como Chefe do Estado, "a que ninguém prestou atenção" — que "as dissoluções podem ser momentos graves em que pode ser preciso consultar a vontade popular". "Não tive hesitação nenhuma", defendeu-se sobre 2004.

Em abono da sua tese, Sampaio recordou que "havia sinais maiores que apontavam para a vontade de uma relegitimação popular". No livro, o ex-Presidente da República disse ao autor, o jornalista José Pedro Castanheira, que estava "farto" de Santana Lopes como primeiro-ministro, que este estava a deixar o país à deriva. "O que é para mim importante hoje, independentemente do estilo, das frases, das palavras, dos desabafos", reconheceu, "é que a uma dada altura me convenci que só a dissolução podia servir" o país.

Para Sampaio, a sua decisão "foi difícil na altura", "mas foi compreendida por uma larga maioria", pelo que, passados estes anos, sente que contribuiu "para outra vez" o país regressar à estabilidade, um esforço seu que tentava desde 1996 (quando da sua eleição para Belém). E recusou qualquer combinação prévia para empossar Santana em julho de 2004 e largar a "bomba atómica" da dissolução em novembro seguinte. "Tem havido uma ideia de que é tudo uma coisa sinistra, combinada, é tudo absolutamente mentira", atirou ontem na conversa no Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém, em Lisboa.

Por responder ficou o desafio do então primeiro-ministro para Sampaio discutir esse episódio com ele na televisão, ou as críticas que o atual provedor da Santa Casa de Lisboa tem feito ao antigo Presidente da República, de que a sua queda se deveu a um pedido de empresários e banqueiros e não do povo.

Sentado num grande cadeirão preto, no meio do palco, com a sala a meia-luz, o registo da conversa quase esquecia a parte de que trata a obra hoje lançada. Da infância em Sintra, da importância do pai e da mãe, da estada em Baltimore, nos EUA, Sampaio foi desfiando um longo livro de memórias. Foi a sua passagem por terras americanas que lhe deixou o gosto por hambúrgueres. Estávamos em 1948. "Vinha da escola, descia o parque e sentava-me na drugstore a comer um hambúrguer e um chocolate sundae, dias a fio, meses a fio", contou.

Com a crise académica de 1962, que se iniciou com a proibição de celebrar o Dia do Estudante, o pai de Jorge, o médico Arnaldo Sampaio, disse-lhe: "Queres ser político, já percebi. Mas primeiro tem uma profissão." A advocacia foi a sua enxada e a política "foi acontecendo" por uma coisa que o Cenoura (alcunha que lhe deram) deve aos seus pais: "Seriedade e dedicação ao serviço público."

Sem arrependimentos, garantiu. "Já me arrependi, já não tenho idade para mais arrependimentos", disse a dada altura. Mais à frente citou uma canção de Edith Piaf, "Non, rien de rien, non, je ne regrette rien." E completou, provocando mais risos na plateia: "Eu não regreto nada." Santana bem pode esperar.

[artigo originalmente publicado no DN, em 20 de março de 2017, ligeiramente revisto]

Abril 05, 2022

Viagens à Lua? Isso é tudo falso, dizem eles

Miguel Marujo

Viagem-à-Lua.jpegO filme de 1902, Viagem à Lua, inspirou muitos na primeira vez que o homem foi à Lua.
Contudo, cerca de 6 por cento dos americanos acreditam que é uma mentira.


Ainda há quem não acredite que "aquele pequeno passo para a humanidade" tenha sido mesmo dado. E nos EUA, o país que pôs um homem na Lua, há mesmo quem se dedique a tentar desmontar a façanha. Há teorias da conspiração para todos os gostos.

Num mundo que elegeu Donald Trump e Jair Bolsonaro, que tantas vezes põem em causa as mais óbvias e sensatas evidências científicas, não admira que, meio século depois, ainda persistam teses conspirativas de que o homem nunca chegou na Lua. É um dos feitos maiores da humanidade, mas para alguns o pequeno passo de Neil Armstrong foi um "gigantesco salto de falsidade".

Nos EUA, de onde partiu a missão, há homens que se empenham em desmontar o que dizem ser o filme mais caro de sempre, montado pela NASA, para enganar todo o mundo. Literalmente: o mundo todo.

Em 1957, a União Soviética colocou no espaço com êxito o primeiro satélite. Num tempo em que se vivia a Guerra Fria, com a ameaça do nuclear bem presente, os russos eram inimigos, e o lançamento do Sputnik 1 abriu porta aos maiores receios. É neste contexto que os EUA se lançam também na corrida espacial. Quem chegará primeiro à Lua passa a ser um desafio não só tecnológico como também político.

É neste caldo que emergem também os céticos, como Bill Kaysing. Este analista e engenheiro de Rocketdyne, a companhia que projetou os foguetes Apollo, surge num programa de televisão de 2001, transmitido pela Fox, assertivamente chamado Teoria da Conspiracão: Nós Pousámos mesmo na Lua?, convencido "de que nunca enviámos homens à Lua".

"Acho que foi uma intuição", "aquilo tudo pareceu-me falso", explicou-se no referido programa. Kaysing "ficou chocado com inconsistências", porque "não havia estrelas no céu lunar", a bandeira americana tremulou, "sabendo que não existe ar na Lua", e "não havia nenhuma cratera debaixo do módulo, que deveria ser provocada pelo forte motor" no momento em que a nave pousou.

Bart Sibrel é outro profeta das mirabolantes teses que garante, com os pés bem assentes na Terra, que o homem não chegou à Lua. Diz que faz "jornalismo de investigação", tem um site no qual pede ao visitante que "apoie a verdade" e dedica-se a apregoar o engodo que terá sido a viagem ao satélite.

Os ingredientes estão todos servidos: num filme de série B, escrito pelos piores argumentistas de Hollywood, Kaysing e Sibrel alinham meia dúzia de dúvidas retóricas com base em "suponhamos", sem qualquer rigor científico. E está lançada a teoria de conspiração.

Como foi então montada a farsa? "O lançamento do foguete Saturno 5 com a Apollo foi real", diz Kaysing no documentário. Mas não levou astronautas para a Lua. Eles ficaram oito dias em órbita "e ao oitavo dia a cápsula separou-se e voltou à Terra".

Os EUA têm o local ideal para alimentar a mais tosca imaginação: a Área 51, uma base supersecreta na extensa região desértica do Nevada, onde tudo pode acontecer.

Para ajudar, os EUA têm o local ideal para alimentar a mais tosca imaginação: a Área 51, uma base supersecreta na extensa região desértica do Nevada, onde tudo pode acontecer. Para os autores do programa, foi nesta zona restrita — com uma superfície quase lunar — que se filmaram os passos dos astronautas que pisaram a Lua e as pegadas de Armstrong. E foi onde cravaram a bandeira dos EUA, a tal que esvoaçou. "Significa que existia vento na Área 51 quando filmaram", descrevem os descrentes. Ou os "crentes em falsidades", como lhes chamam cientistas e astronautas que responderam com minúcia ao programa de TV de 2001.

Nada foi deixado ao acaso nesta "teoria da conspiração": Mitch Pileggi, que conhecemos como o diretor do FBI, Walter Skinner, em Ficheiros Secretos, é o narrador deste documentário. E todos nos lembramos do lema desta série de ficção: "Não confie em ninguém."

"Teorias grotescas"

Tudo é dito e mostrado para instalar a dúvida no mais empedernido fiel da chegada à Lua, decompondo em 50 minutos aquilo que um porta-voz da NASA, Brian Welch, classifica de "teorias grotescas". Às teorias juntam-se dados falsos: "20% dos americanos acreditam que nunca se foi à Lua", diz o narrador. Serão 6%, nas sondagens feitas. E juntam-se vozes supostamente credíveis para dar gás a teses que não têm (elas sim) qualquer evidência. Brian O'Leary é um ex-astronauta e cientista consultor das missões Apollo. Diz ele no programa que "não pode garantir que estes homens tenham andado na Lua".

E ao bom estilo americano não faltam mortes. O astronauta Gus Grissom, da missão Apollo 1, morreu num acidente da nave. A família acredita que não foi acidente porque ele terá dito que alguém iria morrer. "Foram silenciados porque sabiam demasiado?", pergunta o narrador.

Também Thomas Ronald Baron, inspetor de segurança da Apollo 1, testemunhou no Congresso que o programa tinha tantos problemas que os americanos nunca chegariam à Lua. Uma semana depois, Baron morre num acidente quando o carro é colhido por um comboio. "Foi assassinado", sentencia Kaysing. "Entre 1964 e 1967, dez astronautas morreram em acidentes estranhos", diz-nos o narrador. Nunca lhes ocorreu que o treino e as viagens espaciais não eram propriamente um passeio no parque.

O porta-voz da NASA responde com números: o programa Apollo envolveu diretamente 250 mil pessoas e indiretamente outras 500 mil. Era muita gente. Mas os profetas da conspiração não deixam que a verdade lhes estrague uma boa história, como afirma Sibrel: "Era tudo dividido, não sabiam deste engodo." E só acreditarão como São Tomé: "Se a NASA pousou mesmo na Lua, os restos das seis missões estão lá." Trump, o homem que gosta de teorias da conspiração, já pediu à NASA para voltar à Lua.

 

[texto originalmente publicado na revista 1864 do DN, em 13 de julho de 2019 e replicado no site do jornal a 15 de julho de 2019]

Abril 03, 2022

"Revolução de Outubro foi o maior acontecimento libertador da história da humanidade"

Miguel Marujo

Albano Nunes © Leonardo Negrão:Global Imagens.jp

 

O PCP celebrou o centenário da revolução de Outubro (que teve lugar a 8 de novembro, no nosso calendário), em 2017. Numa conversa com o DN, o militante comunista Albano Nunes, durante anos responsável da secção internacional do partido, falou sobre a importância destes 100 anos, não fugindo ao que chamou de "erros" e "deformações", mas também exaltando as conquistas da revolução e do que foi a União Soviética — uma primeira tentativa para chegar ao comunismo.

 

Há 100 anos [em 1917] começou de facto "uma nova era para a humanidade"?

Estamos profundamente convencidos que sim, que começou uma nova era, que nós consideramos ser a época da passagem do capitalismo para o socialismo.

E essa "nova era" como é que se traduziu? Como é que traduziria para as gerações mais novas aquilo que há 100 anos aconteceu?

O que aconteceu há 100 anos foi que na primeira vez na história da humanidade se deu uma revolução, não apenas política mas social profunda em que, ao contrário de revoluções anteriores, incluindo revoluções profundas como a Revolução Francesa de 1879, pela primeira vez uma classe exploradora não é substituída por outra classe exploradora. Pela primeira vez foram os trabalhadores que acederam ao poder com um objetivo que concretizaram de criar uma nova sociedade sem exploradores nem explorados. Foi a primeira vez na história que isto aconteceu.

E acha que essa sociedade foi criada?

É uma pergunta que coloca questões de fundo. A primeira é o tempo histórico que diz-nos que o capitalismo, para chegar onde chegou, precisou de vários séculos e o socialismo iniciou-se apenas há 100 anos numa primeira tentativa que teve êxito em aspetos fundamentais, mas que acabou por fracassar na viragem dos anos 1980 para os anos 90, na União Soviética e noutros países de leste da Europa. A nosso ver não põe em causa nem que tenham sido realizadas profundas transformações, nem o significado histórico universal da revolução de Outubro.

Lenine sempre considerou que a edificação de uma nova sociedade completamente livre da exploração do homem pelo homem e da opressão de uma classe por outra classe exigiria várias tentativas. O que aconteceu ao longo destes anos é que os sucessos em determinados aspetos foram tão grandes, nomeadamente na sequência da II Guerra Mundial, que no movimento comunista e no nosso próprio partido se criou a ideia de que a evolução para o socialismo seria mais fácil, mais rápida do que aquela que efetivamente se veio a verificar. O facto de ter soçobrado a primeira tentativa não põe a nosso ver em causa a dimensão histórica desta primeira revolução, desta primeira conquista do poder pelos trabalhadores.

Que êxitos se verificaram?

Em tudo quanto se tem escrito e dito na comunicação social, sobre a revolução de Outubro e sobre o empreendimento socialista a que deu lugar a União Soviética, omitem-se realizações e conquistas. Esta revolução deu-se num país que era uma ditadura, a mais reacionária da Europa, que era considerada a prisão dos povos, na medida em que era um império que oprimia um conjunto grande de nacionalidades, algumas das quais nem alfabeto tinham e esta revolução o que conseguiu fazer, para além da liberdade, das questões fundamentais, foi resolver os problemas essenciais do desemprego, analfabetismo, num tempo histórico particularmente curto, foi dotar a sociedade soviética de direitos, regalias sociais de nova geração, as oito horas [de trabalho], a segurança social; foi resolver o problema nacional numa escala extraordinariamente profunda; foi transformar um país atrasado numa grande potência industrial dotada de conquistas na ciência e na técnica de primeiro plano que são reconhecidas, como a primeira central atómica para fins pacíficos e o primeiro homem no espaço.

A União Soviética conseguiu êxitos extraordinários. Há um, para terminar, que deve ser sublinhado, foi ter conseguido defender o poder digamos de uma hostilidade imensa desde o primeiro momento em que se realizou a revolução. Churchill dizia que era necessário matar o menino comunista no berço. Houve uma invasão de 14 potências, houve uma guerra civil tremenda e destruidora mas, no meio de isto tudo, a União Soviética conseguiu êxitos extraordinários e deu uma contribuição decisiva para libertar a humanidade do flagelo do nazismo-fascismo. Uma guerra que só foi possível ser vencida porque efetivamente houve uma grande identificação do povo soviético, em tempos extremamente difíceis, com o seu governo e o seu partido dirigente.

Nestes 100 anos podemos falar em mais avanços do que recuos?

Eu só vejo avanços. E vejo caminhos que levaram a recuos, em certa medida insucessos, na sequência de um braço de ferro terrível que foi a guerra fria. Com a corrida aos armamentos, obrigando a União Soviética a despesas colossais, que foram desviadas do seu desenvolvimento, enquanto o capitalismo precisa da guerra para se desenvolver, para alimentar o seu complexo militar e industrial como está a acontecer agora de uma maneira terrível. Acontece que neste contexto a União Soviética acabou por perder este braço de ferro da guerra fria, cometendo atrasos, cometendo erros, havendo deformações estranhas ao ideal comunista. Globalmente nós consideramos e pomos o acento nas potencialidades e nas realizações do socialismo neste período.

Entre esses erros, entre essas deformações, imagino que o PCP também reconheça os desvios autoritários do regime soviético e os muitos mortos que pereceram sob a ação do regime?

A primeira coisa que queria dizer é que isto tem que ser visto no contexto de uma terrível e agudíssima luta de classes. O novo não nasce sem grandes lutas e grandes conflitos: pensemos no que aconteceu aos escravos da velha Roma quando tentaram revoltar-se, foram milhares os crucificados na Via Ápia; lembremos o que aconteceu com a Comuna de Paris, que acabou num dos mais terríveis banhos de sangue; em relação à União Soviética, a hostilidade foi permanente desde o primeiro momento. Este contexto tem de ser levado em consideração.

Acha que o "inimigo externo" justificou esse autoritarismo interno?

Não, o que digo é que o desenvolvimento de fenómenos negativos na União Soviética e noutros países socialistas, o desenvolvimento de fenómenos de desnascença, certos erros muito graves, o afrontamento mesmo da própria legalidade do partido e da própria legalidade socialista, e mesmo crimes que existiram, têm que ser vistos neste contexto, não para os justificar mas para os compreender.

Há muito isto de escrever a história da revolução de Outubro e da União Soviética como uma sucessão de erros de faltas, de fracassos e de crimes. Existiram sem dúvida, nós não discutimos, não nos pomos a discutir se foram dois milhões [de mortos] se foram dez, se foram 20. Não nos pomos a discutir no detalhe o que aconteceu efetivamente: o que foram na Sibéria prisões efetivas de delito comum, o que foram campos de trabalho e o que foram prisões onde sofreram inclusivamente comunistas dedicados. Nós não entramos na discussão desses números, isso é para os nosso adversários.

Não é importante para a História?

Sem dúvida que é importante para a História mas a História tem que ser escrita em todos os seus aspetos. Estaline — a quem são atribuídos com razão erros, elementos de culto da personalidade e abusos em relação ao poder, infrações à legalidade socialista — não tem só aspetos negativos, tem aspetos positivos: leia-se o que disseram os dirigentes, mesmo dos países capitalistas da altura.

Nós reconhecemos este problema, nós não nos alegramos com isso e reconhecemos particularmente na viragem dos anos 1980 quando fizemos o nosso XIII congresso extraordinário [em maio de 1990] e depois no XIV e no XVIII reconhecemos que efetivamente houve no desenvolvimento da União Soviética o afastamento dos ideais e dos valores do socialismo em aspetos fundamentais, no plano político, económico, ideológico, no próprio funcionamento do Estado. Houve um afastamento das massas populares que pôs em causa todo o processo porque foi essa profunda ligação às massas populares, à classe operária, que permitiu justamente a Lenine e ao partido bolchevique dirigir em condições extremamente difíceis todo o processo revolucionário da velha Rússia e esse é o alfa e ómega da política dos comunistas.

Hoje o mundo parece muito pouco disponível para celebrar a revolução 100 anos depois?

A maneira como a revolução de Outubro está a ser predominantemente retratada... Eu queria abrir um parêntesis para dizer que, mesmo no nosso país, neste centenário, tem havido muitas iniciativas não só do nosso partido, de outras estruturas, da associação Iúri Gagárin, debates em escolas, exposições, etc.

A posição dominante é uma posição de crítica, de hostilidade e de ódio à revolução de Outubro, do que ela efetivamente significou e isso resulta de quê? Resulta de uma situação original que foi como disse, desde o berço da revolução, é o facto de a Rússia ter sido derrotada e a história está a ser escrita em larga medida pela classe dominante, à medida do interesse da classe dominante. Portanto que naturalmente quer apagar da consciência dos trabalhadores a importância desta data histórica para dificultar a sua organização e a sua luta por uma sociedade nova, particularmente derrubando o capitalismo e construindo uma sociedade socialista. O objetivo é esse. Nós lutaremos incansavelmente, com todas as nossas forças para que isso aconteça.

Pode ser-se comunista assumindo os erros do comunismo.

Mas nós assumimos! Houve atrasos, erros, deformações, aspetos em que se entrou mesmo em contradição com características fundamentais de uma sociedade socialista, reconhecemos tudo isso. Reconhecemos que nesta primeira tentativa de edificação desta nova sociedade isto se verificou mas temos de reconhecer toda a outra realidade, que é caracterizada essencialmente por realizações, por êxitos, por conquistas. A União Soviética, e não falo apenas da vitória na II Guerra Mundial, teve um papel determinante em toda a evolução do século XX, não é possível desconhecer isso. Mesmo em relação ao nosso próprio partido que para além da sua criação estar ligada também à revolução de Outubro, é uma criação da classe operária portuguesa à nossa revolução de Abril. 

A nossa revolução de Abril é fruto da luta do nosso povo. Os comunistas têm uma parte que toda gente reconhece como decisiva, é resultado da crise que se criou no próprio regime, é resultado da guerra colonial e da aliança do povo português com os povos coloniais irmãos. Sem essa guerra e sem essa aliança certamente tinha sido mais difícil derrubar o fascismo, mas no enquadramento internacional da nossa revolução é um elemento fundamental explicar o isolamento internacional do fascismo e as razões porque o imperialismo norte-americano e a NATO não tiveram nenhumas condições para intervir em Portugal, para abafar e liquidar na raiz a revolução portuguesa. Intervieram de mil e uma maneiras através da Europa. 

O verão quente é um momento particular mas não tiveram condições para desembarcar forças e liquidar a revolução portuguesa. Porquê? Porque a União Soviética praticava uma linha de paz, de desanuviamento, de coexistência pacífica e nessa altura, é bom recordar, vivia-se o clima da Ata Final de Helsínquia, conferência que teve lugar em 1975, na qual participou o marechal Costa Gomes que dificultava a ação do próprio imperialismo. Nós nunca esqueceremos isto, como nunca esqueceremos a solidariedade da União Soviética e do Partido Comunista da União Soviética com os antifascistas portugueses, connosco em particular, acolhendo doentes, filhos de funcionários do partido, propiciando descanso e tudo aquilo que sabemos, para não falar da contribuição que deu para o reconhecimento da revolução de Abril e com a ajuda que deu nomeadamente na reforma agrária.

Quarenta anos depois, o PCP também olha para trás e fala em perdas daquilo que foram as conquistas de Abril para usar uma expressão vossa.

Sim, naturalmente. Há revoluções e há contrarrevoluções. Isto não significa que a história não avance numa determinada direção, veja-se desde o esclavagismo até hoje os avanços que se deram e esses avanços deram-se com revoluções e contrarrevoluções. Nós podemos falar na chamada primavera dos povos, nas revoluções na Europa de 1948-49, nos massacres que se verificaram por exemplo em Paris, em junho, quando a classe operária e os trabalhadores procuraram reagir às tendências negativas que se verificavam desde fevereiro e conquistar o poder. Já lhe falei dos escravos crucificados na Via Ápia, já lhe falei na Comuna de Paris, mas isso não impediu que a história avançasse e que o marxismo e as teorias de Marx, o socialismo científico, fosse construído na assimilação dessas experiências revolucionárias e contrarrevolucionárias.

Em Portugal deu-se uma revolução, não tivemos no nosso povo a força suficiente para consolidar essa revolução e uma das razões, três dessas razões — mas falemos de duas que são muito claras — não se conseguiu construir um estado digamos democrático dirigido por forças revolucionárias, o poder foi sempre repartido com a direita, sempre, e não se conseguiu libertar o nosso país da influencia do imperialismo, influência que se agravou particularmente a partir de 1985 com a entrada de Portugal na CEE [Comunidade Económica Europeia, hoje União Europeia] e mais tarde na moeda única, situação gravíssima que hoje estamos a viver e que está a impedir que o nosso país possa resolver os seus problemas económicos fundamentais.

E essa é a segunda razão? A entrada na União Europeia?

É um elemento fundamental, a entrada na União Europeia foi conseguida, não apenas como a solução para problemas económicos, numa perspetiva da direita e da social-democracia, mas como um instrumento visando influenciar e condicionar o processo de desenvolvimento da revolução portuguesa, que estava ainda numa fase de grande resistência e onde muitas das conquistas ainda não estavam destruídas. Hoje, muitas delas estão destruídas, outras estão feridas, mas nós dizemos que a revolução de Abril sendo uma revolução inacabada não foi uma revolução destruída e derrotada e que os seus valores vivem, as sua experiências e ainda as suas realizações. A liberdade, o fim das guerras coloniais e muitas outras coisas são realizações que já não voltam para trás.

E, apesar de tudo, o desenvolvimento do país.

E apesar de tudo o desenvolvimento do país, naturalmente com a reconstituição dos monopólios, com a reconstituição do latifúndio, com profundas injustiças e desigualdades sociais, mas sim, estamos numa situação que certamente não é pior do que era no tempo negro do fascismo. Mas não se ligue à participação de Portugal na União Europeia, na divisão internacional de trabalho capitalista, não se ligue aquilo que há de positivo a essa integração, pelo contrário, isso tem sido um travão.

É possível imaginar o caminho para uma sociedade socialista no atual quadro português?

Naturalmente — no português, europeu e mundial. Enquanto existir a exploração capitalista, enquanto existirem tão profundas injustiças e desigualdades sociais, tanta opressão, tanta degradação moral, tanto militarismo, tanta guerra, tanta invasão e agressão a estados e a países soberanos será necessário encontrar soluções. Os povos vão necessariamente encontrá-las.

Repare que o capitalismo vive uma crise estrutural profunda, que não há hoje ninguém mesmo na classe dirigente que esteja contente com a situação que se vive no mundo capitalista e que não esteja preocupado. Podemos falar da União Europeia e do quadro em que se encontra e não é apenas do Brexit, não é apenas do avanço da direita e da extrema-direita. Os problemas e as contradições agudizam-se e precisam de uma solução. Ela pode tardar mais ou menos, as forças comunistas e revolucionárias em geral enfraqueceram sem dúvida nos últimos anos. A vida mostra que o avanço se faz de uma maneira muito irregular com avanços, com recuos.

Enquanto existir exploração, a necessidade de acabar com a exploração e de acabar com estas taras e contradições do capitalismo é indispensável também por uma razão fundamental que é salvaguardar a vida na terra, salvaguardar a humanidade: nós estamos à beira, perante o perigo efetivo de guerras de catastróficas dimensões, nem falo sequer já da questão ambiental, estou a falar da questão militar que está em desenvolvimento de uma maneira terrivelmente acelerada com ameaças reais de uso da própria arma nuclear.

Nós temos de olhar para isto como qualquer coisa que cria grandes responsabilidades aos comunistas e a todas as forças do progresso social e amantes da paz, não tenhamos duvidas que as grandes alianças e as grandes coligações para defender a paz, para conseguir o desarmamento, para salvar a vida humana sobre a terra vão aparecer e se vão realizar, nós não desistimos, nunca desistimos.

Há aquela canção que diz que mesmo nas noites mais tristes, em tempos de escuridão, de solidão há sempre uma voz que resiste, há sempre alguém que diz não. Nós dizemos não ao capitalismo e dizemo-lo não apenas em termos de uma resistência, em termos de confiança da possibilidade de avanço reais que a classe dirigente teme e é por isso que está a reforçar as medidas de segurança e está a limitar liberdades e direitos fundamentais, incluindo na França das liberdades... É por isso que está a generalizar a coordenação das polícias, que está a erguer barreiras de todo tipo quando digamos gritavam pela liberdade de viagem, quando se tratou de derrotar os países da Europa de Leste, e é por isso que o imperialismo se está a armar até aos dentes com as decisões dos Estados Unidos, o maior orçamento militar da sua história, com o aumento de 2% assumido pela União Europeia no quadro da NATO, com as decisões do Japão a pretexto dos acontecimentos na Coreia de acabar com a sua constituição democrática e pacifista, para poder intervir militarmente fora do seu próprio território — é este o quadro que temos, não nos enganemos sobre isso.

Na Europa temos partidos comunistas que perderam a expressão relevante que tinham, como em Itália, Espanha e França. Como é que olha, como é que interpreta essa perda?

Com tristeza.

Acha que é uma incapacidade de os partidos comunistas nesses países de fazerem passar a mensagem ou foi a tentativa de refundarem a sua linguagem e a sua forma de estar? O que é que falhou?

Ao contrário da generalidade dos partidos comunistas, compreendemos que o que estava em causa na viragem dos anos 1980 era de uma gravidade tal que exigia que se efetuasse uma discussão profunda sobre as causas dessa situação, sobre as suas consequências e definir com rigor a posição do próprio partido. Nós não atirámos às malvas a nossa história, não renegámos a história do movimento comunista internacional, com os seus imensos méritos e também com as suas sombras e os seus erros. Fomos dos poucos partidos que o fizeram. Outros partidos embrulharam-se em grandes discussões, abandonaram a sua ideologia e uma posição solidária internacionalista, social-democratizaram-se. Naturalmente que há partidos com influência, há partidos que estão no governo em vários países, que governam estados inteiros na Índia, na África do Sul e outros países. Há partidos comunistas no poder, processos que têm uma grande importância, mas pensemos na China, no papel que tem na vida internacional. Podem dizer que o desenvolvimento e o papel que tem está ligado a certas medidas de carácter mais capitalista do que socialista mas a reflexão tem que ir muito mais longe. Vejam-se as afirmações e as definições ideológicas do último congresso do Partido Comunista da China, mas eu não quero antecipar análises que o meu partido ainda não fez.

É possível olhar para esses países como olha o PCP nas suas Teses, dizendo que, ao seu modo, são "resistentes" daquilo que é a "ordem dominante"?

Sim, essa é a maior convicção que temos. Podemos ter dúvidas sobre tais ou tais medidas que tomam no seu processo interno, podemos ter dúvidas e interrogações e há países então que temos discordâncias profundas. Se há coisa em que não hesitamos é do papel que efetivamente desempenham no plano internacional, um papel positivo.

De contrabalanço com aquilo que é o Ocidente.

Sim, não estará ao nível da política internacionalista da União Soviética e do campo socialista, poderá não estar, mas joga um papel positivo no quadro de uma arrumação de forças que está a impedir os Estados Unidos e os seus principais aliados de impor a ordem mundial que quiseram impor a partir da guerra do Golfo, em 1990, essa nova ordem mundial.

A partir da queda do Muro?

Sim, por essa altura porque a guerra do Golfo vem na sequência da queda do Muro, tal como [o tratado de] Maastricht [em 1992], em relação à União Europeia e o salto em frente federalista, vem na sequência da queda do Muro, é aquilo que nós chamamos a contra-ofensiva do imperialismo para reganhar as posições perdidas ao longo do século — e essa ofensiva continua em marcha, portanto nós lutamos para a combater.

O PCP entende que há algum estado que estará mais próximo daquilo que seria o regime socialista?

Não há regimes socialistas — Cuba é um país socialista. Claro que nós temos uma tese: é que o socialismo não é qualquer coisa que sai de um manual, não é um arquétipo, não há um modelo único de socialismo. O socialismo é uma fase transitória do caminho para o comunismo e que demora, pelos vistos, muito mais tempo do que pensávamos.

O socialismo é construído na base da situação concreta de cada país, de acordo com as suas tradições, da sua cultura, do peso relativo do partido, com tudo isso. A situação de Portugal não é a de Cuba, a de Cuba não é a do Vietname, a do Vietname não é a da China e o que nós vemos nestes países é o esforço para resolver os problemas dos povos respetivos. É um esforço num contexto internacional extremamente difícil. Olhemos para Cuba e pensemos no bloqueio, pensemos na base de Guantánamo, pensemos num dos seus aliados da região que é a Venezuela, que o imperialismo decidiu que tem que ser destruído para alterar a proporção de forças na América Latina e cercar ainda mais Cuba. Pensemos na China que está a ser rodeada pelo imperialismo de bases militares por todos lados e mais um e ameaçado pelo sistema antimíssil que está a ser instalado na Coreia do Sul.

Mas a Coreia do Norte preocupa...

Naturalmente que há aqui assim uma escalada que dificulta a própria compreensão do que de essencial está em jogo na Coreia do Sul, na Coreia e o que de essencial está em jogo na Coreia é o imperialismo a alimentar um foco de tensão para justificar a corrida aos armamentos, para justificar o cerco à China, para justificar o que agora se viu no Japão, que apesar de ter uma opinião pública que defende a constituição, que está contra a política reacionária do atual governo do Abe, acabou por dar uma maioria a este governo com o pretexto de que há uma ameaça terrível de um determinado país. São questões que nós temos que ter em conta, não há modelos, há tentativas, há processos.

No posfácio do livro Dez dias que abalaram o mundo, de John Reed (ed. Avante), refere-se que o PCP deseja uma sociedade socialista em Portugal que tenha em atenção as características portuguesas. Como é que isso se pode antecipar?

É a nossa política desde sempre: nós nunca tivemos outra política que não fosse a de levar em conta aquilo que damos por adquirido na ciência marxista-leninista, que damos por adquirido com a experiência da revolução de Outubro. Pensamos que esta revolução não é para lançar no caixote do lixo como dizem certos articulistas publicados, mas nem sequer é para colocar no museu da história. Nós pensamos que na revolução de Outubro há lições e ensinamentos de uma grande atualidade.

Nós temos exemplos disso, nós somos internacionalistas, não somos nacionalistas estreitos, somos patriotas internacionalistas e ao dizer isto estamos a dizer que a revolução portuguesa, levando tudo isto em consideração, tem de levar em primeiro lugar em consideração a concreta realidade sócio económica e política portuguesa e a cultura e a vontade política das massas populares em Portugal. É isso que dizemos e é isso que, a nosso ver, vai permitir que venha a ser confirmado o nosso programa atual redigido em consequência do avanço do processo contrarrevolucionário em Portugal e dos constrangimentos colocados pela União Europeia e do imperialismo em geral.

O nosso programa de uma democracia avançada nos valores de Abril no futuro de Portugal será concretizado e deste programa fazem parte direitos, liberdades, garantias fundamentais, existência de partidos políticos que não existiam na União Soviética e que não existem atualmente em Cuba porque são processos históricos particulares que se desenvolveram desta maneira, sem obedecer a esquemas rígidos que o capitalismo pretende impor a estes países: o seu sistema liberal burguês representativo que depois de representação real não tem nada como se vê com tudo que se está a passar, é outra coisa. Cada país tem a suas tradições e as suas características e o nosso programa responde do nosso ponto de vista aos interesses do povo português.

Recusa a ideia de que o comunismo morreu com a queda do Muro?

Recuso. Apetece-me sorrir. Nós temos uma tese muita clara sobre isso: o comunismo não morreu, vê-se que existe em partidos enfraquecidos sem dúvida, existe na ideologia, existe na própria necessidade de transformar esta sociedade. Uma coisa que não existe de facto é o fim da História. O socialismo foi posto no banco do réus em 1989, 90, 91, houve uma imensa campanha sobre a morte do comunismo, o declínio irreversível do PCP. Toda gente se admira ainda porque é que o PCP existe, toda gente se vai continuar a admirar porque mesmo em sítios onde há partidos fracos ou diminuídos momentaneamente existem lutas, existem potencialidades de transformação real.

Falta ainda sentar o capitalismo no banco dos réus?

Nós acreditamos no comunismo científico, temos este defeito - não morreu. O partido comunista não está condenado à derrota e ao declínio irreversível, cá está agindo, trabalhando, uns considerando que estamos a impor ao governo políticas, outros considerando que estamos a seguir na penumbra a política do governo, mas todos incomodados com este partido.

Mas falta colocar o capitalismo no banco dos réus?

Não, o capitalismo já está no banco dos réus, no banco dos réus da História, para nós está muito claro. Não vemos hoje quem defenda a situação tal qual existe, não há, leia o que ler. A apologia de [Francis] Fukuyama desapareceu.

Como é que perante um jovem o chamaria para o comunismo?

Vamos ver: eu tenho de ir a uma escola nestes dias na Marinha Grande e estou a pensar o que é que vou dizer. Creio que vou dizer muito pouco, sobretudo vou pôr os catraios a falar, perceber o que é que vai naquelas cabeças porque, sabe, nós temos uma posição muito crítica em relação ao sistema de ensino nestas matérias e então sobre a revolução de Outubro nem imagino o que seja dito nos manuais. Estou muito interessado.

Se calhar não há tempo para ensinar no ano letivo.

Não há tempo. Tenho que pensar mas estou convencido que encontrarei exemplos, argumentos, sem pintar a história do comunismo e do socialismo, da revolução de Outubro de cor de rosa, não o podemos fazer. Mas estou convencido que dizendo a verdade, mostrando as contradições que há no desenvolvimento da história do movimento social conseguirei se não encantar, convencer muita gente. A nossa experiência é essa, quando vamos a uma escola e falamos da revolução de Abril parece que se abre um horizonte novo, como quando temos ido falar da revolução de Outubro. Despertar o espírito crítico, combater a irracionalidade que se procura inculcar nas massas em geral, defender a verdade histórica, portanto é isto que eu pretendo fazer, não pretendo fazer nada mais.

Numa única palavra, como é que define a revolução de Outubro?

É impossível explicar com uma palavra só. É o maior acontecimento da história da humanidade, o maior acontecimento libertador da história da humanidade. É isto: o maior acontecimento libertador da história da humanidade — escreva isso, sem falta.

Está gravado. E ficou escrito.

 

[entrevista originalmente publicada no DN, em 5 de novembro de 2017, revista e editada; foto de Albano Nunes, defronte da sede do PCP, em Lisboa, por Leonardo Negrão/Global Media]

Março 15, 2022

a gosto [in memoriam Jorge Silva Melo]

Miguel Marujo

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algures num verão de Lisboa, apaixonei-me por estas histórias de agosto, na Arrábida, filmadas por Jorge Silva Melo, a quem cheguei por causa do Olímpio, sempre ele, nestas coisas — o teatro, os filmes, os livros, os textos nos jornais... na morte abrupta do Olímpio, Jorge Silva Melo escreveu um belíssimo texto sobre este nosso grande amigo, e (como bem recordou, na noite de ontem, a Mariana Pinto Dos Santos) terminava dizendo "não seremos jamais órfãos, sempre seremos herdeiros"... sorte a nossa, esta de sermos herdeiros de Jorge Silva Melo.

 

 

 

 

Março 06, 2022

Não há mais sublime sedução

Miguel Marujo

 

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Não há mais sublime sedução do que saber esperar alguém.
Compor o corpo, os objectos em sua função, sejam eles
A boca, os olhos, ou os lábios. Treinar-se a respirar
Florescentemente. Sorrir pelo ângulo da malícia.
Aspergir de solução libidinal os corredores e a porta.
Velar as janelas com um suspiro próprio. Conceder
Às cortinas o dom de sombrear. Pegar então num
Objecto contundente e amaciá-lo com a cor. Rasgar
Num livro uma página estrategicamente aberta.
Entregar-se a espaços vacilantes. Ficar na dureza
Firme. Conter. Arrancar ao meu sexo de ler a palavra
Que te quer. Soprá-la para dentro de ti
até que a dor alegre recomece.
 
Maria Gabriela Llansol (24 de novembro de 1931 - 3 de março de 2008), O começo de um livro é precioso
(imagem do filme Ma Nuit chez Maud, de Éric Rohmer)

Março 04, 2022

Da profunda falta de empatia

Miguel Marujo

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O que mais me espanta e choca na posição de muitos (amigos ou conhecidos, sem nomear a afiliação) é a profunda falta de empatia. Nos primeiros dias, justificaram tudo, desde 2014 ou o que fosse, depois, perante a óbvia invasão (e não "intervenção militar"), começaram a criticar erros e falhas de jornalistas no terreno, acrescentaram queixas sobre a censura de canais ditos de informação, e agora criticam votos parlamentares a favor da NATO, ignorando o motivo principal, ou apontam para a frente, mas alinhando (sim, alinhando) compreensão por uma ocupação de facto e argumentos para a manter.

Dizia, falta-lhes empatia. Falta olharem para esta mulher, Yelena, e terem empatia. Não, preferem gozar com o facto de ser apresentada como "sobrevivente de Leninegrado", preferem antes duvidar da idade (quando salta à vista que é bem mais velha que, ó inclemência, um erro!, os 76/77 anos que lhe deram), do que terem empatia por alguém que viu demasiado ao longo da vida e pede o fim da guerra provocada pelo seu país.

Preferem gozar, questionar, ou chacotear, com tudo, menos ter empatia... Escrevem muito, contra coisas que as democracias europeias fazem, protestam muito, com decisões tomadas pelas democracias europeias, mas nunca, nunca, com empatia com a velha que protestou e foi presa, ou com os bebés metidos em caves de hospitais, ou com as mulheres e homens que fogem para o estrangeiro, ou que ficam, escondidos ou a lutar. A falta dessa empatia é quase racista: afinal, aquilo é tudo uma cambada de nazis, que merece ser apagada da face da Terra. Só que não. Nestes tempos, podemos pensar a cores mas há que decidir a preto e branco (como bem apontou Pacheco Pereira). A liberdade está ameaçada por Putin e sequazes, não pelas democracias europeias. Por isso, a minha empatia é para quem foi invadido, e protesta e luta contra a invasão.

Fevereiro 27, 2022

A quarta morte da geringonça

Miguel Marujo

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Tomo de empréstimo, para título deste texto, uma expressão de Ana Sá Lopes, num post-scriptum a uma opinião sua no Público sobre a guerra na Ucrânia, para melhor interpretar o que tem sido a intervenção do PCP e seus militantes e simpatizantes no espaço público, por causa da sua posição neste conflito.

Escreveu Ana Sá Lopes: “A aliança que levou António Costa ao poder em 2015 morreu várias vezes — em 2019, quando o PCP não quis acordos escritos, no chumbo do Orçamento do Estado, com a maioria absoluta do PS nas legislativas. Estamos a viver a quarta morte: a resistência do PCP em condenar a invasão da Ucrânia é um momento incompreensível para muitos dos antigos apoiantes da solução.”

Concordando com esta leitura, suspeito que — ao contrário do que muitos à direita apontam, de que Costa estendeu a mão a quem nunca acreditou na democracia — o PCP teria tido uma posição bem mais moderada, se estivéssemos entre 2015 e 2019, nas suas críticas à NATO e EUA, e na sua contemporização com as justificações russas para a invasão.

Agora, é mais difícil aos comunistas disfarçarem claramente como estão perdidos, depois de muitos à esquerda — e muito do seu “povo” de sempre — lhes ter virado as costas nas eleições de janeiro deste ano. O povo de esquerda (sim, esse mesmo) zangou-se com o PCP e o BE por terem estendido a mão à extrema-direita e à direita, ao chumbarem todos juntos um orçamento de esquerda, atirando o país para umas eleições em que tudo lhes saiu mal: a extrema-direita e a direita neoliberal subiram muito, o PS alcançou uma maioria parlamentar e os dois partidos perderam qualquer influência no quadro da Assembleia da República. Alguém lhes ouviu um mea culpa? Não. A culpa foi da chantagem do PS, como se tivessem sido os socialistas a chumbarem o Orçamento do Estado de mão dada com a extrema-direita e a direita.

Com a bravata russa das últimas semanas, PCP e BE preferiram navegar a onda de um discurso mais antiamericano e contra a NATO (com chalaças sobre a que horas começava a guerra) do que apontar o dedo à única verdadeira ameaça desta história: Putin e a Rússia. No dia da invasão, os bloquistas corrigiram o erro, os comunistas persistiram numa mensagem que atacava mais a NATO, os EUA e a UE do que o gesto de Putin. Aliás, a condenação a Putin faz-se por palavras em defesa da paz. Um pavio curto.

Já depois do primeiro comunicado do PCP, com os russos no terreno a mostrarem ao que iam, no Twitter João Ferreira escreveu mais uma justificação do ato de guerra de Putin: “Quem quiser olhar a Ucrânia ignorando os efeitos do golpe de estado de 2014, a natureza do regime que tomou o poder e a estratégia de alargamento e de confrontação da NATO/EUA, pois que o faça. Mas só ignorância ou má fé justificam as acusações feitas a quem opta por não o fazer.” 

Respondi-lhe com uma comparação histórica: “‘Quem quiser olhar Portugal ignorando os efeitos do golpe de estado de 1974, a natureza do regime que tomou o poder e a estratégia da NATO/EUA…’ Foi mais ou menos isto que a direitalha pensou do 25 de Abril, mas felizmente não fomos invadidos.” 

O dirigente comunista resolveu criticar-me por “ler, com a lente do preconceito, aquilo que, não por acaso, não foi escrito, nem se pode seriamente deduzir do que foi escrito”. Seriamente, pode deduzir-se tudo dali, menos a condenação de Putin. E quando lhe perguntei diretamente: “Condena a invasão efetiva da Ucrânia? Condena a guerra lançada pela Rússia?”, João Ferreira respondeu com o silêncio.

A generais e propagandistas ligo pouco. A mim, para mim, o que me importa é a invasão de um Estado soberano, independente, por outro, com justificações mal paridas. Acaso o PCP acredita que Putin entrou só para punir os “bombardeadores” do Donbass?! Sabemos que não foi por isso que Putin entrou pela Ucrânia dentro. Lamento: o PCP só podia ter dito uma coisa: somos contra a invasão, condenamos Putin. Só o fez à 25ª hora, e sempre mal, com as referências à NATO e aos EUA a virem antes de Putin. 

A afirmação da futura líder parlamentar do PCP, Paula Santos, é, por exemplo, a todos os títulos lamentável — e, por isso, não, não posso aceitar que é a outra esquerda que colabora em “atear a fogueira do anti-comunismo”, como se escreveu, porque quem o fez, da forma mais lamentável, foi o PCP. Ninguém ajudou a isso, foi o PCP quem se deixou mais uma vez levar por um discurso antiamericano primário, retirado das piores cartilhas de 1989 — para desespero de quem, desde há muito, e em particular desde 2015, à esquerda, defendeu uma outra forma de fazer política, e que só pôde sentir-se muito desiludido, como foi evidente nestes dias.

[imagem do filme Raiva de Sérgio Tréfaut]

Fevereiro 26, 2022

Na guerra, a escolha é só uma: contra o agressor

Miguel Marujo

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Dizer não à guerra, não significa aceitar uma invasão ou, numa forma mais contida, encontrar uma justificação para essa invasão.

Questionar a (pertença à) NATO, como acho que se deve fazer, não significa colocar no mesmo patamar esta organização e um autocrata-agressor-invasor.

Entender que os EUA têm um comportamento demasiadas vezes questionável e criticável, como foi na guerra do Iraque (e na falácia montada das armas de destruição massiva), não nos pode levar a aceitar que uma democracia — a quem exigimos sempre mais — seja moralmente equiparada a uma autocracia e ditadura. 

Querer a paz, não é a mesma coisa que aceitar que a culpa da invasão não é do agressor. 

 

Encontrei no Twitter uma reflexão extensa (thread) de alguém que assina bonjour tristesse, e com a qual concordo em muitos pontos. É de alguém de esquerda, e que valia a pena ser lido por muitos nessa esquerda, PS, PCP, BE et all. Deixo-a para memória futura:

 

Não tenho nada de interessante a dizer sobre o conflito. De qualquer maneira ninguém quereria ler um hot take sobre geopolítica de uma conta que é 75% shitposting, autocarros e Eurovisão. Mas tenho alguma coisa a dizer sobre o PCP, até para ver se paro de falar no assunto:

Tenho nesta rede alguns mutuals que são apoiantes/militantes do PCP, que gosto sempre de ler, e que não faço ideia se me leem (liam?) ou deixarão de seguir. Para mim, ler posições de alguém da mesma área política com quem não se concorda é fundamental para informar a perspetiva.

As discussões sobre o PCP são sempre, inevitavelmente, contaminadas por anticomunismo, o que é trágico. Temos aliás assistido ao aumento deste problema com o surgimento do partido-religião libertário/neoliberal, de inspiração americana.

Votei várias vezes na CDU, duvido que o volte a fazer no futuro (veremos). Já dei, com orgulho, centenas de euros ao partido. Participei em várias ações do PCP e da CGTP. Não é exatamente uma relação próxima, mas é mais do que simpatia, é identificação.

No ano passado, a propósito do centenário, todo o país decente prestou homenagem ao partido pelo seu papel histórico. E assistimos também a um pico de anticomunismo imbecil, o que até me deu oportunidade para um longo shitpost que muito me divertiu.

E aqui chegados, em 2022, eis-nos perante a irreversível evanescência do partido (OPINIÃO™). O PCP não é nem nunca foi um partido conservador, aliás esse é um dos maiores equívocos ao discutir algumas das suas posições políticas.

E no entanto, é albergue de políticos preconceituosos e desinformados. O partido escolhe regularmente colocar-se de fora de lutas de emancipação de minorias ou de evolução de direitos humanos.

Todos os partidos de esquerda são filhos da análise marxista. Nenhum partido de esquerda, nem sequer o PS, rejeita que as contingências de modelo económico e consequente organização social são a dimensão principal de uma sociedade. E, contudo, não são as únicas.

O PCP, ao não integrar outras dimensões, alheia-se da realidade do século XXI. Não tem nada a oferecer (OPINIÃO™) em política ambiental, como aliás foi claríssimo durante as autárquicas. E depois...a política internacional 🙄.

Em fevereiro de 2022 era fácil, óbvio e obrigatório para qualquer partido decente (principalmente de esquerda) colocar-se ao lado do oprimido. Sem "mas", sem "e o contexto?". Porra, empatia. É apenas o básico de comunicação política (...).

Isto não é negar a complexidade das interações que são produtoras de história. Isso é válido para qualquer conflito seja o agressor a Rússia, Israel ou os EUA. O problema é que para o partido *tudo* é contingente em blocos como era na Guerra Fria. Isto é uma prisão argumentativa.

Por exemplo, até eu sou a favor da dissolução da NATO, mas porque sou eurofederalista e acho que a desamericanização europeia é a única forma de termos futuro. Mas isso é uma conversa para agora? Não -- ainda não.

De facto a escola de quem se politizou durante a guerra fria era a dos blocos e da escolha de lados, e esta condicionou mentalmente até hoje quem passou pelo PCP, daí a compreensão russófila que até há pouco tempo víamos em pessoas como o @danielolivalx (OPINIÃO™).

Com um mundo multipolar/pulverizado, insistir neste género de comunicação é absurdo porque não diz nada a quem nasceu sem gerra fria. A agenda da empatia devia ser óbvia. Infelizmente o pecado mortal (pun intended) do PCP é a do "inimigo do meu inimigo é meu amigo" - idiota útil.

O Brexit não foi um triunfo contra o neoliberalismo da UE (que existe e é grave). Pelo contrário, é um triunfo do conservadorismo. E no entanto, vimo-lo celebrado por comunistas. A visão de estratégias contingentes é a negação da utopia — ou seja, uma traição ao Comunismo.

Os exercícios de hermenêutica militante que os apoiantes do PCP têm feito nesta rede sobre a posição pouco clara do partido (que oferece uma falsa equivalência do agressor com outros atores) — com algumas exceções interessantes — são de uma desesperança atroz.

Pode ser que isto seja tudo equívoco meu e que o PCP na verdade tenha uma adesão popular que não imagino. Infelizmente os dados que temos não apoiam essa ideia.

Espero que após a ruína do PCP o seu eleitorado adira a quem não faz concessões estratégicas a autocracias. O @LIVREpt parece ser o único partido suficientemente descomplexado para já. Oxalá outros surjam ou evoluam. Mas o fim do PCP, por escolha própria, dói muito.

Aqui fica a análise política low-cost deste sábado. Não há bibliografia anexa. Desculpem a poluição da vossa timeline. Os tuítes sobre grafitos em paredes ou veículos com e sem motor voltam dentro de momentos." [fim.]

 
[imagem do filme Raiva, de Sérgio Tréfaut]

Fevereiro 14, 2022

As bandas sonoras imaginárias. Músicas de filmes que estão por fazer

Miguel Marujo

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Agora que Rodrigo Leão anda em digressão a mostrar o seu novo trabalho e Manuel Paulo regressa com o segundo tomo de um disco de 2004, recuperamos as nossas impressões de 2004 sobre esse disco, outro de Rodrigo, e um terceiro de A Naifa, como pretextos para uma viagem cinematográfica. Fechem-se as portas, baixem-se as persianas e poupe-se nas pipocas. Os cigarros são admitidos – embarque-se numa aventura com banda sonora imaginária.

 

Há um livro de Italo Calvino – Se numa noite de Inverno um viajante – que nos apresenta, nas suas primeiras páginas, conselhos para uma leitura concentrada: “Descontrai-te. Recolhe-te. Afasta de ti todos os outros pensamentos. (…) Arranja a posição mais cómoda: sentado, estendido, enroscado, deitado. Deitado de costas, de lado, de barriga. Na poltrona, no sofá, na cadeira de baloiço, na cadeira de praia, no pufe. Numa cama de rede, se tiveres alguma cama de rede. Em cima da cama, naturalmente, ou dentro da cama. Até podes pôr-te de cabeça para baixo, em posição de yoga.” Depois adequa-se a luz, não se permita que nada ou ninguém nos incomode e acerte-se os últimos detalhes: “Os cigarros ao alcance da mão, se fumares, e o cinzeiro. Que mais é que falta? Tens de ir fazer chichi? Bem, tu é que sabes.”

Falta-nos o saber da escrita de Calvino. Apenas podemos torná-lo companheiro das viagens que aqui se propõem. Ou pelo menos fazê-lo narrador de bandas sonoras imaginárias. Aqui, é de música que se trata e não se pretende alinhavar presumíveis conselhos para uma audição apurada do que se segue. Mas, porque de música para filmes imaginários se fala, convém fechar as portas, baixar as persianas e poupar nas pipocas. Os cigarros são admitidos – porque John Wayne e Rita Hayworth espreitam por entre as frestas dos estores.

Rodrigo Leão reconhece que a sua música é cinematográfica. Liberto dos Madredeus e solto do latim que marcou o arranque da sua aventura a solo, com o seu último trabalho, Cinema (Sony, 2004), o compositor dança por entre o glamour do cabaret em Jeux d´Amour ou as longas planícies de Uma História Simples. Há novidade nesta aventura de Rodrigo Leão, que aprofunda as propostas de Alma Mater (2000). A maior de todas será a explícita universalidade da linguagem musical dos temas de Cinema. Primeiro, pelas línguas em que se canta: inglês, francês ou o português do Brasil. Depois, pelos acompanhantes de viagem – a inglesa Beth Gibbons (vocalista dos Portishead), Sónia Tavares (a voz dos Gift, com álbum novo na calha), o músico japonês Ryuichi Sakamoto e as surpresas das vozes de Rosa Passos e Helena Noguerra. E é possível, a cada audição que se repete com prazer, pensar num filme para cada música: Roberto Begnini ou Jacques Tati, David Lynch ou Woody Allen.

Absoluta surpresa é O Assobio da Cobra (EMI, 2004), o álbum de Manuel Paulo, que tem por subtítulo «a banda sonora de um filme por fazer». Calha bem. Com letras de João Monge, este disco junta amigos do membro da Ala dos Namorados na realização de um filme quase caseiro, com inesperados encontros: Arto Lindsay e Rui Veloso (no tema-título), Vitorino e Tim (Letra de Mulher) ou Filipa Pais e Zeca Baleiro (Variações de Humor). E ainda há Manel Cruz (dos Ornatos Violeta/Pluto), Camané, Sérgio Godinho, Arnaldo Antunes, Jorge Palma, Manuela Azevedo, entre outros. O registo é de cumplicidades que se projectam num ecrã, com inevitável final feliz. E o álbum é feliz - porque fala de amor, onde se volta sempre. Como nos filmes.

Nas Canções Subterrâneas (Sony, 2004) de A Naifa entra-se no submundo do cinema negro, por entre nuvens de fumo, tilintar de copos de whisky e uma banda no palco – mas, neste filme, o jazz dá lugar ao fado. Sentido e pecador. Verte-se poesia de intervenção vestida de música que rompe géneros e (pre)conceitos. A Naifa ameaça ouvidos instalados e conformados. João Aguardela, outrora conhecido como vocalista dos Sitiados, e Luís Varatojo, que já foi dos Peste & Sida e Despe & Siga, associam-se a Vasco Vaz, na bateria, e apresentam a público a voz poderosa de Maria Antónia Mendes. O resultado é um feliz encontro da palavra e da música. Ouça-se Música, por exemplo, que pega nas palavras de José Luís Peixoto, para dar a volta ao texto – e ao fado. O pano cai sobre o ecrã. E sobre a noite: “É melhor fechares os olhos, meu amor, antes que o mundo inteiro seja um incêndio.”

[artigo originalmente publicado no PortugalDiário de 15 de novembro de 2004; imagem da capa da edição da Dom Quixote do livro de Italo Calvino, Se numa noite de Inverno um viajante]

Fevereiro 01, 2022

O meu voto de esquerda

Miguel Marujo

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A esquerda que no domingo perdeu votos e deputados continua a acusar os outros votos da esquerda de não serem de esquerda, ou puros, como serão os deles. Para eles, o meu voto, o voto de 2.246.483 portugueses, carrega dois pecados: não são votos de "esquerda a sério" ou são, apenas, votos úteis. É de uma grande arrogância quererem definir assim o que são as minhas convicções e o significado que dou ao meu voto.

É de uma cegueira pequena desdenhar de um partido fundador e definidor da nossa democracia – que criou o Serviço Nacional de Saúde, que construiu os alicerces da escola pública, que montou a medida mais estrutural e radicalmente de esquerda que é o rendimento mínimo garantido, que avançou nas energias renováveis, que soube derrubar o muro do chamado “arco da governabilidade” e que enfrentou uma inédita pandemia – como sendo “de direita”.

Nem tudo é perfeito na governação, que é tantas vezes a arte do possível, como também sabem o PCP e o BE, quando experimentam a governação nas autarquias. Sabemos como o PCP teve de mandar abaixo um bairro ilegal em Loures ou como a autarquia comunista de Grândola se deixa enlevar nos cantos de sereia imobiliários na costa alentejana. Sabemos como o BE teve os seus pecadilhos imobiliários de um vereador acidental em Lisboa ou uma presidência banal em Salvaterra de Magos, que perdeu nas eleições seguintes.

Faltou autocrítica na noite de domingo (por causa de outubro, claro). O Livre cresceu, sem hostilizar o PS. E, lamento, António Costa não é Sócrates. Os dados eleitorais mostram que Sócrates cresceu até à maioria à custa do eleitorado do PSD, enquanto Costa segurou o voto da esquerda. Porque o PS é de esquerda. E o meu voto útil é de uma convicção profunda na esquerda.

[ilustração de Marta Nunes, na sua conta de Instagram]
texto escrito na manhã de 31 de janeiro de 2022, ligeiramente editado nesta publicação

Janeiro 25, 2022

As causas que sobrevivem às coisas

Miguel Marujo

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O Portugal de A Causa das Coisas e de Os Meus Problemas, publicados nos anos 80, fazem sentido neste século XXI? Miguel Esteves Cardoso ainda nos diz quem e o que somos nós? Haverá coisas que hoje se estranham, nomes fora de tempo, outras que já desapareceram ou caíram em desuso. Já as causas permanecem. Pretexto para uma revisitação a crónicas imperdíveis, agora reeditadas. Um texto originalmente publicado no 7Margens, no passado dia 15 de janeiro.

 

“O chá Noite Suave é o chá de quem abandonou a promiscuidade a favor do carinho” e quem lê o Almanaque Borda d’Água sabe que “por trinta e cinco escudos não é possível pedir mais, ou receber tanto”. Estas são coisas antigas de um Portugal recente, de há 35, 40 anos, nas quais descobrimos prazeres perdidos. “É um prazer anual que quase sempre esquecemos: a nova edição da lista telefónica anual”, aquele que era “o livro mais consultado, utilizado e difundido de todo o panorama editorial português”. Onde já vai isso.

Por outro lado, como não bastava o tédio, a melancolia, o fastio ou o spleen, o português juntou todas estas “mágoas internacionais” a “especialidades caseiras”, como a saudade e o sebastianismo, para criar um “coquetelho implosivo” a que deu o nome de “neura”.

É através de todas estas coisas e causas que Miguel Esteves Cardoso traça um retrato de Portugal, numa coluna semanal do jornal Expresso, nos idos de 1980. O país tinha entrado na União Europeia, Cavaco Silva começava a sua longa governação, que se prolongaria por uma década, Mário Soares chegava a Belém para ser o presidente de todos os portugueses, mas também para fazer oposição aberta ao cavaquismo que se tornou doutrina de um certo modo de vida.

Miguel Esteves Cardoso, lisboeta nascido em 25 de julho de 1955, filho de pai com ascendência judia e mãe inglesa, era um jovem cronista, colunista, crítico, um estrangeirado, licenciado e doutorado em Inglaterra. Nos começos dos 80, fumegavam o punk e a new wave, as suas críticas musicais – no Se7e e O Jornal (que deu origem à Visão) ou na revista Música & Som – despertaram atenção suficiente para assinar na Revista do Expresso uma coluna que muitos classificam de satírica. Nascia assim A Causa das Coisas. MEC seria mais tarde fundador e diretor de O Independente e político ocasional, numa candidatura às eleições europeias de 1987 – e também escritor.

 

O ouriço e a raposa

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No prefácio que acompanha a reedição de A Causa das Coisas (reunidas pela primeira vez em 1986, regressaram agora em 2021 pela mão da Bertrand), José Tolentino Mendonça, hoje cardeal e investido de um forte consenso transversal na sociedade portuguesa, lê nestas crónicas uma fábula da raposa e do ouriço, a partir de um verso do “poeta grego mais antigo de que nos chegou notícia”, Arquíloco: “A raposa sabe muitas coisas, mas o ouriço sabe uma grande.”

Diz-nos então Tolentino que “Miguel Esteves Cardoso disfarça bem” porque “a aparência de raposa esconde afinal um sólido e obstinado ouriço” e este livro é apenas a investigação da “causa de uma coisa: Portugal”. Afinal, “como que a brincar, como se não quisesse”, este é “um dos ensaios mais sérios, mais originais sobre o que somos”.

E este Portugal de A Causa das Coisas, publicado em 1986, faz sentido lido nos anos 20 deste século XXI? Ainda diz quem e o que somos nós, como define Tolentino Mendonça? Haverá coisas que hoje se estranham, nomes fora de tempo, outras que já desapareceram ou caíram em desuso. Já as causas permanecem, ou são antecipadas por MEC, o anagrama que se tornou cartão-de-visita do autor destas crónicas feitas livro.

Neste livro, MEC, ou seja, o ouriço disfarçado de raposa, distingue causa, “tudo o que determina a existência de uma coisa ou acontecimento”, de coisa, “tudo o que existe ou pode existir real ou abstractamente”. E, para a raposa, “tudo é mesmo tudo”, constata Tolentino Mendonça, com exemplos de coisas de que fala o cronista: “Dom Afonso Henriques e o Totoloto, o mata-bicho nacional e Joyce, a neura e o sebastianismo, a farinha Predilecta e Lévi-Strauss, a maledicência e o mimo, o verbo «haver» e as couves, a Cartilha Escolar de Domingos Cerqueira e Strindberg, o chá e o papel selado, a lista telefónica e o luto.”

 

Um jogo de reconhecimento

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Este livro é também um jogo de reconhecimento, para o leitor mais ou menos velho, que tenha lido ou não estas crónicas, que tenha vivido naqueles anos de 1980. Logo a abrir, o autor discorre sobre alcatifas e fala-nos da pomada Encerite. Como disse? Isso. Mas também nos fala, virada a página, do Borda d’Água, um almanaque antigo, que vem de 1929, mas que ainda hoje se vende (a edição para 2022 custa 2,50 euros; então custava os tais 35 escudos, que seriam hoje 17 cêntimos), e é “uma instituição portuguesa que se autodescreve, legitimamente, como «repertório útil a toda a gente»”. E MEC esclarece que são “páginas cheias de informações sem as quais não se imagina ser possível sobreviver”.

Também as páginas destas suas crónicas estão cheias de informações sem as quais não se imagina ser possível sobreviver — basta seguir o alfabeto: “A” é de alcatifa, em boa hora contestada por MEC, para quem as carpetes são um dos “grandes equívocos” deste país na segunda metade do século XX. Hoje, escreve o cronista, “felizmente, tem-se vindo a esboçar um movimento de reação ao dogma da alcatifa”, e atrevemo-nos a pensar que, tirando hotéis que insistem em atapetar os seus corredores, o dogma foi vencido.

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Miguel Esteves Cardoso bem o sentenciava: “Estamos a sair da longa noite fascista do regime do matte, das fotografias baças, dos filmes com demasiado grão, dos sapatos inengraxáveis e dos móveis de pinho sem verniz.” Que é como quem diz, do Portugal cinzento, sem graça, herdeiro da ditadura que ditou também um gosto conservador, velho e gasto, sem ousadia nem imaginação, o que é próprio das ditaduras. Tudo acompanhado de Encerite, a cera para soalhos cintilantes.

(Sim, também existe ainda, em determinados circuitos. Em 2007 foi criada uma casa que se especializou neste mercado de nostalgia, muito depois destas crónicas, e que assegura no seu site que “desde 1927 que a cera Encerite garante «a beleza e a saúde das madeiras»”, desafiando o eventual comprador, num registo poético-publicitário que MEC não desdenharia: “Escolha entre uma bela paleta de tons, que vai do convencional castanho ao poético alfazema.”)

 

As coisas que se estranham

Já se disse. São as coisas descritas por Esteves Cardoso que mais se estranham. Ainda reconhecemos a Pasta Medicinal Couto (apesar de já não ser “medicinal”, por causa das regras de boa convivência europeia), ou as Pastilhas Valda, que aclaram a voz para “poder desconversar-se com clareza”, ou a Água Castello — que “atingiu a raríssima fama de vir a significar todas as águas minerais gaseificadas que se servem com whisky”. No entanto, já serão muito poucos os que sabem o que é um “anis escarchado”, nomeadamente o Creme de Anis Escarchado da firma Henriques & Henriques, ou a Araruta do Brazil, farinha alimentícia tão antiga quanto o z de Brasil e que, para MEC, é “uma forma aceitável de ingerência cultural brasileira na vida portuguesa”. Foi-se a farinha, chegou o guaraná e o rodízio e outras manifestações culturais, que dividem sempre o paladar e as opiniões.

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A nostalgia percorre as páginas destas coisas, seja a do Chá Li-Cungo, que Miguel já antecipava perder para “a concorrência dos chás comercializados” (e consta que desapareceu de vez das casas da especialidade), seja a do Emplastro Exclavil, que era “claramente futurista”, na sua publicidade exclamativa (“Sem dor e sem derrame de sangue!”, “Penetra até ao osso!”, “Extra Forte!”), mas finou-se algures com o peso da modernidade da CEE, a União Europeia de hoje. Fiquemo-nos por aqui nos exemplos.

 

Os problemas de MEC

Em Os Meus Problemas – que reuniu, em 1988, as crónicas que se lhe seguiram, também no Expresso, e que foram agora também reeditadas – o labor de olhar os portugueses é idêntico. Num prefácio bem mais comezinho que o de A Causa das Coisas, Maria Filomena Mónica acaba a olhar mais para si do que para a obra que tem em mãos. E estes textos voltam-nos a devolver o que de mais cáustico e revelador tem o espelho quando nos olhamos.

Quando se lê a crónica sobre “As classes automóveis” percebemos como há coisas que pouco mudaram: “Os motoristas de táxi (pelo menos, os de Lisboa) são invariavelmente fanáticos de uma espécie ou de outra. Ao contrário dos barbeiros, que observam o devido respeito e silêncio, os «choferes de praça» utilizam os clientes que transportam como tempo de antena para as opiniões mais estrambólico-radicais que há.”

Só a evolução das coisas pode mudar a perceção. Afinal, quem ainda escreverá cartas? E será que, em 2022, MEC ainda receberá cartas? Os portugueses são “bastante bons” nesta “via epistolográfica”, sentencia o cronista. “Ao contrário dos outros povos latinos, os portugueses, quando a mostarda lhes sobe ao nariz, não explodem in loco. Mordem o lábio, pegam num papel e numa caneta e deitam a raiva toda para a tinta”, aponta. Para mais à frente concluir que, “no silêncio ensimesmado da escrita, usam as linhas do papel como rastilhos curtos para bombas grandes”. Talvez hoje estes rastilhos incendeiem as caixas de comentários dos jornais online ou as redes sociais. Só se terá perdido a qualidade da veia epistolar.

Quem não perde a veia é MEC, que neste seu segundo tomo de crónicas regista dez páginas sobre “Nomes da nossa terra”, uma das mais notáveis prosas que cartografam lugares, aldeias, vilas e cidades portugueses. Vale cada uma das suas linhas, seguir o mapa por Deixa o Resto, Monte da Má Coisa, Margalha, Vergão Fundeiro, Filha Boa, Fonte do Bebe e Vai-te, Ferido de Água, Cima de Pele, Cuide de Vila Verde e… sim, tudo terras portugueses esmiuçadas com saber, sabor e humor.

 
A pandemia desafiada

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Nestes tempos de pandemia em que aprendemos a fechar-nos, confinados, e a abster-nos de quase saudar as pessoas, com distanciamentos físicos, sabe bem voltar à Causa das Coisas com que há quase 40 anos se cosiam as crónicas de Miguel Esteves Cardoso.

Em “Beijinhos”, MEC defende que “há uma latinidade para respeitar, um sangue quente para circular, um património cultural para transmitir”. E desafia: “Olhemos à nossa volta. Há centenas de pessoas por abraçar, mas abraçar a sério, e não à Moçambique”, atira, referindo-se a uma campanha humanitária da época. "Há bochechas por toda a parte, excelentes na sua generalidade, a passear por aí em pessoas vivas. Urge desatar a beijá-las à mínima oportunidade. E há milhões de palmas de mãos, e bons costados, braços e lombos, todos eles de boa estirpe lusitana, ideais para bacalhaus e xi-corações. Que nem um nos possa doravante escapar!” É só deixar passar a ómicron e tal.

Em “Zero”, há “uma pergunta que há muito preocupa quem ainda se preocupa em fazer perguntas sobre Portugal” e “é: porque será que, em Portugal, as nulidades são as maiores sumidades?” MEC não sabia, mas o Big Brother iria ser inventado, influencers e youtubers seriam profissões, e aqui chegados é impossível não pensarmos em aventesmas e venturas.

Portugal deslumbrou-se com um ouriço, prefacia Tolentino Mendonça. “Um caso de amor correspondido que dura até hoje.”

 

 

A Causa das Coisas, de Miguel Esteves Cardoso
Ed. Bertrand Editora
432 pág., 18,80 €

Os Meus Problemas, de Miguel Esteves Cardoso
Ed. Bertrand Editora
216 pág., 16,60 €

 

Janeiro 19, 2022

Da extrema-esquerda de 1976 já só resta o PCTP/MRPP

Miguel Marujo

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Era válido em 2019, data deste artigo, continua válido em 2022 para estas eleições legislativas. Neste artigo, só não se contava como Paisana e Cidália (que ontem participou no debate dos partidos sem assento parlamentar para estas eleições) receberam o jornalista à porta com a exclamação "é preciso ter lata!", entre vernáculo que se evita publicar. Aquela sede foi também abandonada. O fim da subvenção pública, de partido com mais de 50 mil votos, a isso obrigou.

 

O PCTP/MRPP é o último partido da extrema-esquerda dos anos 1970 que sobrevive no boletim de voto, depois de o POUS ter desaparecido nas eleições legislativas de 2015 e nas europeias deste ano [de 2019]. Em 2014, para o Parlamento Europeu, foi o partido menos votado.

A 6 de outubro, o Partido Comunista dos Trabalhadores Portugueses (PCTP/MRPP), apresenta listas em todos os círculos eleitorais, com Maria Cidália Guerreiro em Lisboa e João Morais no Porto. Agora órfão do seu fundador Arnaldo Matos, que morreu em 22 de fevereiro, e sem aquele que foi o seu rosto nas últimas duas décadas até 2015, Garcia Pereira, o discurso é o de desconfiar das "eleições burguesas".

Como "partido comunista", o PCTP "nunca alimentou nem alimenta quaisquer ilusões nas eleições burguesas como forma de resolver os problemas essenciais do povo trabalhador português e, quando concorre, fá-lo para aproveitar este período para fazer propaganda do programa dos comunistas e com vista a reforçar a sua organização", lê-se no jornal oficial do partido Luta Popular.

Ao Pote de Água, em Lisboa, as montras da sede são o espelho do partido que se prepara para as eleições legislativas: livros de Lenine, como O Que É o Marxismo, ou o Manifesto do Partido Comunista, de Marx e Engels, e as Teses da Urgeiriça, que Arnaldo Matos escreveu em 2016, e cópias de textos do jornal que hoje é exclusivamente online.


Nos vidros há um poema de homenagem ao fundador e um tweet seu em que se lê: "A classe operária portuguesa deve organizar-se sob a teoria do marxismo, a ideologia do comunismo internacionalista, para conduzir a revolução portuguesa à vitória contra o capitalismo e o imperialismo." Em frente, do outro lado da Avenida do Brasil, um mural pede o "FMI fora de Portugal", com o desafio "Não pagamos! Por um governo democrático e patriótico".

Ao toque da campainha, identificado o jornal e o jornalista, o dirigente do partido Carlos Paisana recusou-se a prestar declarações, no que foi acompanhado por Cidália Guerreiro. Na montra, num dos textos fotocopiados, queixam-se dos jornalistas que terão "ignorado" a sua presença no tribunal onde foi entregue a lista de Lisboa.


O partido conta desde 2009 com a subvenção pública para os partidos que, não elegendo deputados, consigam mais de 50 mil votos. Foram 14 800 euros mensais entre 2011 e 2015, e um pouco menos desde 2015 (14 300 euros). Este financiamento está em risco
: depois da saída de Garcia Pereira, que se demitiu em 18 de novembro de 2015, depois de críticas violentas de Arnaldo Matos à prestação eleitoral do PCTP, o partido viu a sua votação dar um trambolhão nas europeias de maio, com menos de metade dos votos de cinco anos antes: 27 222 (0,82%). Em 2014, o PCTP chegou a 54 622 votos (1,66%) para o Parlamento Europeu e, no ano seguinte, nas legislativas teve 59 955 votos (1,11%).

Nas europeias de 2014 participou o outro partido da extrema-esquerda que resistia desde os anos 1970: o POUS de Carmelinda Pereira e Aires Rodrigues, expulsos do PS em 1977, formaram este "partido da 4.ª Internacional". Hoje, à porta da sede não há nada que identifique o partido. Só espreitando pelo vidro se vê "POUS" na caixa de correio. Resiste na net, publicando um blogue. Não foi possível qualquer contacto com o POUS: o telefone já não existe e ninguém respondeu ao e-mail enviado.

[artigo originalmente publicado no Diário de Notícias, a 13 de setembro de 2019; foram mantidos os links originais do artigo, foto: Arnaldo Matos, de pé, e Garcia Pereira, ao lado, com a cara tapada pelo microfone, numa ação de campanha em 1983. © Rui Homem/Arquivo DN]

Janeiro 10, 2022

Patti Smith. "Não sou música. Sou uma cantora e uma performer"

Miguel Marujo

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Em 2015, a cantora americana voltou a Portugal para um concerto que, como no Porto em maio desse ano, celebrava os 40 anos do lançamento do seu primeiro álbum, Horses. É uma digressão que já estava na reta final e que foi o mote para uma conversa ao telefone, a partir de Nova Iorque, onde regressou nos anos 90, depois da morte do marido, para se dedicar de novo à música, à escrita e à fotografia. Uma mulher de múltiplos talentos. A começar pela voz

 

Quinze minutos, não mais, a meio da tarde em Lisboa, manhã em Nova Iorque. As indicações eram claras: depois da breve saudação, a entrevista devia começar logo depois. Não era preciso de facto mais nada. Patti Smith tem uma disponibilidade na voz e no ritmo pausado com que fala, longe das guitarras com que ilustra a poesia de Gloria, que por momentos o mundo se suspende nas suas palavras.

Quando veio ao Porto, em maio, disse que estava a acabar um livro. Já está finalizado?

Sim, está acabado.

É sobre o quê?

O livro chama-se M Train. Quis escrever um livro muito diferente do meu último (Just Kids) porque nesse livro tinha uma coisa específica que tinha de escrever. O Robert [Mapplethorpe] pediu-me, antes de morrer, que escrevesse o livro sobre a nossa vida em comum e a nossa juventude, sobre a sua morte e arte, era muito específico. Decidi que este livro não teria guião, desenho ou agenda, apenas me sentava e escrevia. Sentava-me num café, bebia o meu café, e escrevia. E assim fiz, escrevi. M Train é como mind train, o comboio da mente, como um comboio de pensamentos, e escrevi sobre café, viajar, o meu último marido, a pessoa que eu amava.

Uma espécie de ensaio ou mais autobiográfico?

É mais autobiográfico. Ao mesmo tempo partilho com o leitor a vida como ela é para mim, o que faço, como eu a guio. Os livros que ando a ler, as coisas que me preocupam, os meus pensamentos, a minha meditação. É um pouco divertido – e tem muito café dentro. É difícil explicar o livro, foi-se desdobrando em tempo real, mas regressa ao reino da memória. À memória de quando o meu marido [Fred "Sonic" Smith] estava vivo e um pouco de como era a nossa vida.

Foi uma tragédia a sua perda.

Sim, eu amava-o. Era o pai dos meus filhos. Eu tive uma sucessão de mortes, o Robert Mapplethorpe morreu em 1989 e depois o meu pianista, que só tinha 37 anos, morreu dois anos depois, depois o meu marido e um mês depois o meu irmão. Foi forte... (pausa) Mas o livro foca-se mais na minha vida atual, com memórias do Fred.

Essas perdas levaram-na de novo à música, nessa altura.

Eu gravei e toquei os meus primeiros discos nos anos 70, gravei o meu primeiro álbum em 1975, Horses, esse foi o meu primeiro álbum, mas eu deixei a vida pública em 1979 para me casar e ter filhos. Quando o meu marido morreu, em 1994, regressei à vida pública em 1996. Foi a sua morte que obrigou a fazer-me à vida, para tomar conta dos meus filhos. Trouxe-os para Nova Iorque e voltei a tocar e a gravar de novo. Mas não tínhamos um horário escolar. Hoje, os meus filhos cresceram, estou a fazer o meu trabalho, estou a escrever, a fotografar – e estamos a fazer uma digressão para comemorar Horses.

Escreveu poesia, publica livros, escreve música, anda em digressão. Passados estes anos, o que é que é mais relevante para si. Há anos falou sobre o seu trabalho como um processo muito orgânico. Continua a ser assim?

Sim, o meu trabalho é orgânico e a forma como flui de uma para outra é orgânica, mas a coisa mais consistente que fiz, desde que era uma jovem rapariga, foi escrever. A escrita é o coração das coisas que fiz, e até como performer comecei como poeta, a misturar a poesia com o rock’n’roll, comecei como escritora, não como música. Eu não sou uma música. Eu sou uma cantora e uma performer, mas nunca estudei música nem toco música. Sou mais uma intérprete, mas penso que escrever é mais essencial para mim.

Horses apareceu nesse processo?

Horses apareceu como poesia. “Jesus died for somebody’s sins but not mine” ["Jesus morreu pelos pecados de alguém, mas não pelos meus", no início de Gloria] começa como um poema que escrevi em 1970 e que costumava interpretar em sessões de leitura de poesia. Muita da improvisação que fiz como poeta filtraram-se deste modo para as canções de Horses. Eu comecei simplesmente, primeiro com Lenny Kaye, a ler poesia, enquanto ele me dava um ritmo sonoro, depois o meu pianista Richard Sohl que trouxe a estrutura de Horses. De 1971 a 1974, nós evoluímos, e quando fizemos Horses já tinha evoluído de fazer leituras de poesia para ter uma banda de rock’n’roll. Mas continuávamos a basearmo-nos na poesia.

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Jesus died for somebody’s sins but not mine.” Esta afirmação continua a fazer sentido para si?

Faz sentido no contexto em que a escrevi, como uma jovem rapariga, não contra Jesus, porque sempre admirei Jesus, mas contra a religião organizada. A minha visão de Jesus é de alguém que foi revolucionário, que espalhou a ideia de amor, cujo ensinamento era amarmo-nos uns aos outros, mas senti que a religião organizada confina as minhas ideias e liberdade. A canção opõe-se mais à religião organizada, mas era a afirmação de uma jovem rapariga. Escrevi isto há 48 anos, quase meio século atrás, como uma declaração de independência e de existência. Sim, faz sentido para mim em termos de “onde é que eu estava” e no que é que eu acreditava. Mas, como lhe disse, admiro os ensinamentos de Cristo. Por isso, estou capaz de negociar esse cisma muito facilmente [risos].

Porque é que acha que é importante celebrar agora os 40 anos de Horses?

40 anos! Estou orgulhosa de que o álbum continue a ser relevante 40 anos depois. Estou orgulhosa. E ainda estou fisicamente forte, saudável o suficiente para apresentar com sucesso o álbum às pessoas. É um marco e como senti que no 50.º aniversário terei 78 anos, pensei que o 40.º aniversário era a melhor altura para mim para apresentar uma forte interpretação do álbum. E estou muito confiante em fazê-lo. Não me sinto diminuída, se estou ou não estou a replicar o álbum. Nós vivemo-lo todas as noites, o que interpretamos é importante no momento, não é teatro. Tocamo-lo com o mesmo fervor com que o fizemos há 40 anos. E por isso sinto que temos algo a oferecer às pessoas.

Por isso ainda sente que o álbum bombeia sangue para o coração do rock’n’roll, como disse em tempos?

[risos] Eu não sinto medo, isso de certeza. Não tenho medo. O álbum continua a ser um marco para muitos na música. Michael Stipe, dos R.E.M., está sempre a dizer isso, foi Horses que o trouxe para a música. Sinto-me lisonjeada. Michael Stipe é meu amigo e sinto-me muito orgulhosa de que ele se tenha inspirado. O Michael também é uma inspiração para mim, é verdadeiramente um dos grandes letristas na música popular, por isso fico muito feliz de que tenha sido capaz de o inspirar.

Numa entrevista afirmou que o rock era a voz política da sua geração. Nestes tempos com alguém como Donald Trump a ocupar o palco, o rock continua a ser uma forma de passar uma mensagem?

Penso que na nossa cultura, onde podemos comunicar com as pessoas através da tecnologia, há muitas maneiras de comunicar e muitas maneiras importantes de inspirar as pessoas. Penso que o rock, como todas as artes, são importantes catalisadores. No fim são as pessoas que têm de fazer a mudança. Nos anos 60, havia Bob Dylan, Neil Young, qualquer cantor de protesto ajudou a criar a nossa voz cultural, foram uma grande inspiração, mas foram as pessoas que tiveram de fazer as mudanças, que tiveram de ir para as ruas e protestar contra [a Guerra do] Vietname, para engrandecer o movimento dos direitos civis. Sim, acredito que a música pode ser inspiradora e ser um guia ou dar força às pessoas... Mas são elas que têm de fazer a mudança.

People still have the power?

Sim, têm, mas têm de o usar. [risos]

O que podemos esperar do concerto de Lisboa? Será diferente dos concertos do Porto?

É sempre diferente. Para começar estaremos em Lisboa, e seremos arrastados pela energia da cidade. Gosto muito de Lisboa e não toco aí há muito tempo, por isso estou muito ansiosa por chegar. Todas as noites são diferentes. Há coisas que acontecerão em Lisboa que não acontecem em mais nenhum lado. É como trabalhamos: gosto de me ligar às pessoas no momento, falar com elas, discutir com elas. Horses é o principal tema, apresentaremos o álbum e depois logo veremos como segue a noite. Trazemos o que trazemos, mas a nossa porta está aberta, por isso as pessoas vão ajudar-nos a engrandecer a noite. Estamos a fechar a celebração de Horses e estou mesmo feliz por irmos atuar em Lisboa. É um sítio onde gosto de perder tempo e fotografar. Ver que tipo de energia mútua podemos tirar da nossa noite.

Gosta da luz de Lisboa?

É linda. Sempre gostei de escrever em Lisboa. Mas também é uma linda cidade para fotografar. Ou apenas caminhar à noite. A atmosfera é especial, tem uma energia especial. Estou muito entusiasmada por regressar.

Um livro no outono e disco na primavera

M Train é o novo livro de Patti Smith, a lançar em outubro nos Estados Unidos, depois do sucesso – de crítica e público – que acolheu Just Kids. É um livro com muito “café dentro”, como confessou a própria na entrevista destas páginas, escrito ao ritmo de uma esplanada. Em inglês, dito em inglês, soa diferente: Patti sentava-se no cafe a beber o seu coffee, enquanto observava quem passava e tomava notas. Depois do livro, chegará um novo álbum. “Sim, vou fazer um novo álbum, não sei ainda bem quando, provavelmente na primavera”, disse ao DN. E não vai parar, admitiu. “Vou ajudar a escrever o argumento para uma minissérie de televisão baseada em Just Kids”, o livro de 2010. “Tenho muitos projetos. Para já vou fazer uma mão-cheia mais de concertos: uns dez mais.” E fica fechada a celebração de Horses.

[artigo originalmente publicado no Diário de Notícias, em 19 de setembro de 2015; fotos: sem autoria, Patti Smith Group in New York 1975Robert Mapplethorpe (1946-1989) - Patti Smith, Horses 1975]

Janeiro 07, 2022

Peter Bogdanovich, a última sessão

Miguel Marujo

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Peter Bogdanovich morreu aos 82 anos. É dele The Last Picture Show (A Última Sessão, em Portugal)filme magnético — com Cybill Shepherd — e que escolhi entre os dez que mais impacto tiveram em mim, naqueles exercícios sem explicações e de mera vaidade no Facebook. Ou como recordou Francis Ford CoppolaI’ll never forgot attending a premiere for The Last Picture Show. I remember at its end, the audience leaped up all around me bursting into applause lasting easily 15 minutes. I’ll never forget although I felt I had never myself experienced a reaction like that, that Peter and his film deserved it. May he sleep in bliss for eternity, enjoying the thrill of our applause forever.”
De Texasville para a históriawith the touch of restless young genius, he seemed to reinvent pulp crime, the western, the road movie and the screwball comedy – in short order.


Na foto: Cybill Shepherd and Peter Bogdanovich photographed outside the Plaza Hotel in New York City, circa 1974 Photograph: Images Press/Getty Images, publicada no The Guardian.

Dezembro 21, 2021

Cuidado com o beijo

Miguel Marujo

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Muitos anos antes da covid-19, já havia preocupações com determinadas tradições natalícias, como a do "beijo ao menino". No Natal de 2000, o então bispo de Leiria-Fátima pedia cautelas neste tradicional ritual das missas de Natal, por causa do «recrudescimento da tuberculose». 

 
Um simples beijo no “menino”, um gesto quase mecanizado, repetido em todos os natais, nas igrejas portuguesas de Norte a Sul. Bastou um alerta sobre possíveis perigos relacionados com este beijo e logo se inflamaram alguns ânimos. 
 
O bispo de Leiria-Fátima, D. Serafim Ferreira e Silva, sugeriu aos padres da diocese que encontrassem alternativas ao tradicional beijo na imagem do Menino Jesus, uma tradição nas missas desta época natalícia, para «acautelar os riscos», quando se assiste ao «recrudescimento da tuberculose», mas rejeitando qualquer proibição e alarmismos. Apesar das cautelas do responsável eclesiástico, a iniciativa mereceu críticas do director da Associação Nacional de Tuberculose e Doenças Respiratórias, António Romão, em declarações ao jornal «Público», esta sexta-feira. 
 
Para este médico pneumologista, «a eficácia dessa proibição é praticamente nula», acrescentando que «só se a pessoa mandasse uma expectoração é que haveria algum perigo». E remata que «as pessoas que vão beijar o Menino Jesus nem sequer pertencem aos grupos de risco», como migrantes clandestinos ou toxicodependentes. 
 
A proposta inédita é «um sinal simbólico e pedagógico» às comunidades, explicou o prelado de Leiria ao PortugalDiário. «Alertado por uma médica» e apoiado por um grupo de médicos do Hospital de Leiria, D. Serafim quis sensibilizar a população. Afinal, diz, «a Igreja tem sido paladina dos direitos da saúde», com uma «caminhada social notabilíssima». 
 
Na sua mensagem de Natal [de 2000], o bispo de Leiria dirige um apelo aos padres diocesanos para que, «apesar das tradições e dos sentimentos», procurem «encontrar alternativas, que respeitem a dignidade do gesto e a preservação da saúde». Uma vénia, um gesto de carícia na imagem ou uma genuflexão são algumas das possibilidades. Que os padres de Leiria, contactados pelo PortugalDiário, não rejeitam. «Estou disponível para outro tipo de gestos que as pessoas assumam», diz Abílio Lisboa, padre em Pousos. Para o pároco da Sé de Leiria, Joaquim Almeida Baptista, os fiéis poderão fazer «o gesto que quiserem, aquilo que as sensibiliza mais», uma recomendação que António Pereira Faria, prior da Barreira, outra freguesia do concelho de Leiria, também fará aos seus paroquianos. 
 
«Sem alarmismos», os sacerdotes referem que este «é um assunto menor», na expressão de Pereira Faria, e que esta não «é uma questão fundamental do cristianismo», como acrescenta Almeida Baptista. Mas, reconhecem, a atenção à saúde pública é um aspecto necessário. Por isso, o prior da Sé não fará «tábua rasa da recomendação». Por enquanto, e porque a «sensibilidade vai-se apurando lentamente», D. Serafim Ferreira e Silva mantém a tradição: «No dia de Natal, eu próprio darei a imagem a beijar a quem quiser». 
 
Esta advertência sobre o beijo no “menino” levantou a questão da distribuição da comunhão na boca, «muito mais importante», na expressão de todos aqueles que foram ouvidos pelo PortugalDiário. D. António Marcelino, bispo de Aveiro e vice-presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, refere que na próxima assembleia do clero da sua diocese, a 28 de dezembro [de 2000], este será um assunto na mesa. E diz que insistirá com os sacerdotes para adoptarem a comunhão na mão, «mas sem forçar ninguém». 
 
D. Manuel Falcão, bispo resignatário de Beja e presidente da Comissão Episcopal da Liturgia, diz que se «deve caminhar» cada vez mais para a distribuição das hóstias na mão. E, referindo as palavras de Jesus na última ceia, diz que «“tomai e comei” não é meter na boca; tomar na mão é muito mais fiel à ordem de Cristo». Por tudo isto, em Pousos, «como prática, as crianças são educadas a receber a comunhão na mão», conta Abílio Lisboa. Se ainda «há um caminho a percorrer», como diz este padre, porque «há maneiras arreigadas que tem de ser respeitadas, o respeito pela inovação também é importante». 
 
[artigo publicado originalmente a 23 de dezembro de 2000, no Portugal Diário, reproduzido a partir do blogue LxRepórter
 

Dezembro 03, 2021

Vidas de histórias mínimas: viver com quase nada

Miguel Marujo

Agora que vem aí nova campanha eleitoral, regressará o argumento falso de quem vive do "rendimento mínimo", como se viver com quase nada fosse desejo. O CDS abusou desse pretexto para tentar destruir uma das medidas socialmente mais justas alguma vez concretizada, e hoje há um partido antidemocrático que ataca de forma primitiva e troglodita quem beneficia desta medida, enquanto ignora os desmandos de muitos que o financiam. Já em 2002, com o debate feito de falsos dados, fui ouvir quem trabalhava no terreno, para contar sobre estas vidas mínimas.

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Sérgio, 22 anos, seropositivo, casado, mulher também toxicodependente, um filho. Bateu à porta do rendimento mínimo, que o apoiou. Na altura, não lhe davam mais de um mês de vida. Dois anos depois, a doença permanece, mas a miséria não.

Até aqui chegar, o processo daquele jovem de Braga passou por passos simples, uma montanha quase intransponível para muitos dos beneficiários do Rendimento Mínimo Garantido (RMG), agora transformado em Rendimento Social de Inserção (RSI) pelo Governo.

“Ninguém tem acesso ao RMG de um momento para outro”, contrapõe o assistente social João Paulo Freitas à ‘vox populi’ que condena os eventuais facilitismos da medida. Só quem vive em “condições precárias” pode aceder à medida, explica quem já trabalhou no terreno com utentes do programa. “E têm de fazer prova dessas condições precárias.”

Mas afinal quem são os beneficiários do rendimento mínimo? Têm entre 25 e 44 anos, pertencem a famílias nucleares com filhos e têm uma baixa escolaridade. A miséria reproduz miséria: “Quando falamos de RMG estamos a falar do bas-fond da sociedade. Não há nada mais abaixo”, resume Ricardo Maximiano, psicólogo social, que acompanhou o programa até há meses. O PortugalDiário procurou vidas de histórias mínimas – aqueles que vivem com quase nada.

“Já sou alguém!”

Os técnicos deparam-se no terreno com casos de marginalização extrema. “Não se pode projetar uma solução para estes casos a partir do padrão de vida que temos”, defende João Paulo Freitas. “A um toxicodependente ressacado não se marca uma ida ao gabinete às 10 horas da manhã”, diz. Para este assistente social, a secretária foi muitas vezes a rua. E sublinha: “Não podemos dar respostas clássicas” a problemas que não o são.

O RMG (ou o seu substituto RSI) obriga qualquer beneficiário a “contrapartidas”. Afinal, esta é “uma medida de inserção, não de subsidiação”, justifica Ricardo Maximiano. Os desempregados têm de se inscrever num centro de emprego, as crianças das famílias beneficiárias têm de se matricular na escola e entrar no programa de vacinação. Os doentes iniciam tratamentos, os toxicodependentes procuram a desintoxicação.

As dificuldades começam aqui. Adultos sem qualquer tipo de documentação, crianças que nunca foram vacinadas ou observadas por profissionais de saúde. E romper este ciclo não é simples, conta João Paulo Freitas, que trabalhou no Casal Ventoso, em Lisboa, e mais recentemente na cidade de Braga. Entrar no registo civil, por exemplo, “é uma prova para eles”. No fim, lembra, muitos exclamavam com o bilhete de identidade na mão: “Já sou alguém!”

Ser alguém também é ter autonomia económica. A prestação para um adulto ronda os 135 euros (qualquer coisa como 27 contos), um valor equivalente à pensão de sobrevivência. Cada criança, se as houver, recebe 50 por cento do adulto beneficiário. Por isto, Ricardo Maximiano rejeita que haja “quem viva do rendimento mínimo e não queira trabalhar”. O que está em causa, em situações de fraude detetadas, “é a ‘chico-espertice’ de alguns, que até trabalham, e ‘sacam’ mais uns vinte contos [100 euros]”, acrescenta. Mas, defende, “estas fraudes são quase inevitáveis, como também as há no IRS, por exemplo”.

Do outro lado da moeda, “há situações complicadas de resolver”. Como o caso da mulher de 30 anos, divorciada, com dois filhos menores. De prestação do RMG recebia 52.400$00 (cerca de 261 euros), 26.200$00 (pouco menos de 131 euros), da mãe, mais 26.200$00, dos dois filhos. Foi-lhe proposto um emprego, com um salário de 65 mil escudos (não mais de 324 euros). Com uma diferença: a mulher precisaria de arranjar quem lhe cuidasse das crianças e necessitava de comprar o passe para os transportes. Feitas as contas, a situação deteriorava-se. “Em consciência, não é lícito recusar este emprego?”, questiona Ricardo Maximiano. Na verdade, são pobres, mas não são mal-agradecidos.

 

“Não há mais nada abaixo na sociedade”: quem recebe o Rendimento Mínimo

O perfil das famílias beneficiárias ao Rendimento Mínimo Garantido (RMG) parece ir ao encontro da caracterização de Ricardo Maximiano, psicólogo: “Não há mais nada abaixo na sociedade.”

Vejamos. Nos projetos urbanos concorreram principalmente “famílias precarizadas”, aquelas que vivem “em situações de pobreza extrema, sem rendimentos ou com rendimentos muito escassos, com dificuldades de sobrevivência”, e “famílias instáveis”, com uma “situação de pobreza determinada pela existência de rendimentos incertos provenientes de biscates e empregos ocasionais, situação de emprego instável nos adultos ativos”.

Nos projetos de zonas rurais ou semiurbanas predominam “famílias pobres-remediadas”, ou seja, famílias com rendimentos certos, mas escassos, vivendo com dificuldades.

A caracterização é de estudos de acompanhamento e avaliação, nos anos de 1997 e 1998, do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia (CIES) do ISCTE, encomendados pelo (então) Ministério do Trabalho e da Solidariedade. Hoje, ao fim de seis anos de Rendimento Mínimo Garantido, quase 800 mil pessoas passaram por esta medida. Atualmente são 118 mil famílias abrangidas pelo programa, num total de 344 263 pessoas.

Outro dado significativo, segundo números do Instituto para o Desenvolvimento Social: os “motivos da cessação a nível nacional” do programa revelam a importância da medida: 64,3 por cento dos beneficiários terminaram a sua ligação ao RMG por “alteração de rendimentos”. O “não cumprimento do programa de inserção” e a “não subscrição do programa de inserção” levou à cessação de 18,8 por cento dos benefícios.

No estudo do CIES de 1998, coordenado pelo sociólogo Luís Capucha*, refere-se que “os efeitos do RMG não podem ser medidos pelos acordos de inserção associados ou implementados”. O facto de existir para as famílias “uma fonte previsível e regular de receitas provoca por si só efeitos – por exemplo na capacidade de projetar o futuro – que não podem ser menosprezados”.

 

 

Artigos originalmente publicados a 7 de julho de 2002, em duas partes no PortugalDiário (jornal online do portal IOL, depois TVI24 online, hoje CNN Portugal). Os dados são dessa data. Foto: Victor, CC BY 2.0, via Wikimedia Commons.

* – Luís Manuel Capucha (coord.), Rendimento Mínimo Garantido: Avaliação da Fase Experimental, Ministério do Trabalho e da Solidariedade/Comissão Nacional do Rendimento Mínimo e Centro de Investigação e Estudos de Sociologia (ISCTE), Lisboa, 1998.

 

 

Novembro 24, 2021

O amor é cego. Como Berlim salvou os U2 e todos ganhámos

Miguel Marujo

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A 18 de novembro de 1991, quando aquele comboio entrou na estação de Berlin Zoologischer Garten, que todos resumem à Bahnhof Zoo, a história aconteceu. Há 30 anos, o mundo vivia uma estranha euforia, com uma Europa que tinha rasgado de par em par a Cortina de Ferro, a pesada fronteira que partia o continente entre Ocidente e Leste. As velhas utopias perdidas nas burocracias e ditaduras de Leste tinham soçobrado e o capitalismo sonhava cantar amanhãs — outra ilusão. Há 30 anos, já o Muro de Berlim tinha sido desmantelado dois anos antes, numa alegria contagiante, e outros muros invisíveis começavam a ser levantados.

É neste tempo que se ouvem os primeiros acordes de Achtung Baby, a provocação sonora que os U2 lançaram no seu regresso à Europa, com paragens em Berlim e Dublin. Naquele dia, ao sair na Zoo Station, o cartão de visita fez-se de guitarras eletrizantes e percussões pesadas, vozes distorcidas, insuspeitas e viciantes tonalidades eletrónicas, I’m ready, I'm ready for what’s next, e eles diziam-se prontos para o que aí vinha.

A surpresa morava logo a abrir o álbum. Num texto incluído na edição de luxo com que os irlandeses assinalaram os 20 anos de Achtung Baby, o jornalista Andrew Mueller, autor de vários livros “que vendem suficientemente mal para continuar no jornalismo”, reconheceu o preconceito que se esboroa aos primeiros segundos de audição do primeiro single, The Fly: “Um rockabilly claustrofóbico e barulhento, vagamente reconhecível como U2.” E acrescentou à paleta de sons ouvidos: “É difícil exagerar o quão surpreendente foi o contacto inicial com Achtung Baby — especialmente para aqueles que, como este correspondente e a maioria dos seus então colegas da imprensa musical da moda, há muito tempo haviam classificado os U2 como uns chatos pomposos e piedosos.”

Não admira a confissão. Os U2 vinham de um período de excessos, do salto para os estádios em digressões gigantes, depois da obra-prima The Joshua Tree (1987) e de uma viagem pelos Estados Unidos em Rattle and Hum (1988), um disco e filme feito como um épico americano que acabou mal recebido pela crítica. Em From The Sky Down - a documentary (2011) são os próprios que descrevem aquela travessia da América como algo penoso e triste. “Ele gravou quilómetros e quilómetros de takes, e não há alegria nenhuma”, diz Edge, referindo-se a Phil Joanou, o realizador de Rattle and Hum. “Aquilo não nos assentava, aquilo em que nos tínhamos tornado”, admitia, neste documentário.

Este final da década de 1980 acabou por desgastar o grupo de quatro amigos irlandeses — Bono, The Edge, Adam Clayton e Larry Mullen Jr. — ao ponto de quase pôr um fim à banda. A história é conhecida, e repetida como mantra: “Fazer Achtung Baby é a razão porque ainda aqui estamos”, diria mais tarde Bono.

“Isto soa demasiado a U2”

Aterrar em Berlim não foi fácil. O outono e inverno são muito frios e cinzentos na cidade. No livro que acompanha Achtung Baby Deluxe Edition, o autor americano Bill Flanagan (que escreveu U2 at the End of the World) descreve as tensões vividas nos estúdios Hansa, local que já tinha visto nascer algumas obras míticas de notáveis como David Bowie, Iggy Pop, David Sylvian, Nick Cave and The Bad Seeds, Siouxsie and The Banshees, Depeche Mode, Tangerine Dream ou Pixies. “O Hansa Studios podia estar cheio de história, mas era um estúdio desatualizado e desconfortável para gravar”, sintetiza Flanagan.

Para Larry Mullen e Adam Clayton, o pouco material que Bono e The Edge tinham escrito não era bom suficiente para fazer a banda mudar de direção. O grupo seguia o seu esquema habitual de encontrar novas ideias em conjunto para as canções, numa jam session, “mas eles continuaram a discordar, musical e filosoficamente”, descreve Bill Flanagan. “Se eles vinham com alguma coisa que soasse como uma grande canção dos U2, Bono e Edge protestavam que soava demasiado a U2. Larry e Adam objetavam: ‘Nós somos os U2!’”

Os quatro miúdos que se fizeram amigos e músicos na banda, não conseguiam agora falar a mesma linguagem. Enquanto Larry ouvia Led Zeppelin e Jimi Hendrix, The Edge explorava música como Einsturzende Neubauten, KMFDM ou os Young Gods. “É música industrial. Tem a ver com a utilização de repetição e com retirar a humanidade das coisas, até um certo nível, para que a humanidade que pomos tenha mais significado”, explicava-se Edge em From The Sky Down.

A ponte surgiu com One, que se tornou também uma das canções mais universais dos U2, como recordou Flanagan. Enquanto Edge, Adam e Larry tentavam acertar as notas de uma canção, Bono começou a improvisar no microfone sobre a tensão na sala, as discussões entre os membros do grupo: “We’re one but we’re not the same, we get to carry each other.” De todos aqueles momentos de tensão em Berlim, nasceu One, quando “os quatro baixaram os braços e começaram a colaborar”.

“Uma dádiva”, chamou-lhe Edge. “No instante em que estávamos a gravar, tive uma sensação muito forte do seu poder. Estávamos todos a tocar juntos na grande sala de gravação, um enorme e misterioso salão de baile cheio de fantasmas da guerra, e tudo se encaixou. Foi um momento reconfortante, quando todos finalmente disseram, ‘oh ótimo, este álbum começou’. É a razão pela qual estás numa banda — quando o espírito desce sobre ti e crias algo realmente comovente. One é uma peça incrivelmente comovente. Ela atinge o coração", confessou o guitarrista a Neil McCormick, em U2 by U2 (2006, ed. HarperCollins).

No seu U2 Songs + Experience (2018, ed. Carlton Books), Niall Stokes acrescenta Sonic Youth e My Bloody Valentine à lista de influências "mais pesadas" que se ouvia nas sessões de Achtung Baby. Mas este jornalista irlandês refere que, em simultâneo, os seus conterrâneos de Dublin desenvolveram um interesse por Roy Orbinson, Scott Walker e Jacques Brel, compositores de “torch songs”, canções de amores não correspondidos. Nas letras era este o caminho a seguir, defendia Edge, tornando-as mais pessoais. One é, de novo, um exemplo.

 

Brian Eno, que produziu o disco com Daniel Lanois, sintetizaria (na revista Rolling Stone, de 28 de novembro de 1991) o som que ali se começou a forjar. “Os termos da moda neste álbum eram trashy, descartável, dark, sexy e industrial (todos bons) e sérios, educados, doces, justos, rockistas e lineares (todos maus). Era bom se uma música te levasse numa viagem ou te fizesse achar que a tua aparelhagem estava avariada, seria mau se lembrasse estúdios de gravação ou os U2. Sly Stone, T. Rex, Scott Walker, My Bloody Valentine, KMFDM, The Young Gods, Alan Vega, Al Green e Insekt eram todos a favor. E Berlim... tornou-se um pano de fundo conceptual para o registo. A Berlim dos anos 30 — decadente, sexual e sombria — ressoando contra a Berlim dos anos 90 — renascida, caótica e otimista…”

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“Foi o momento em que a rock culture se encontrou com a club culture. Berlim significava textura, Manchester significava ritmo, ritmo que só podia ser criado usando computadores e máquinas”, argumentava Edge, enquanto Bono recordava a influência da música alemã, citando os Kraftwerk. “Aos 16, um dos primeiros álbuns que comprei para a [namorada] Ali foi o Man Machine. Isto é a música soul para a Europa. É a invenção da música eletrónica.”

É este choque que marca a diferença do disco, com pitadas de ironia.“A abertura de Zoo Station faz uma declaração poderosa: no seu uso deliberado de sons ‘industriais’, que não nos lembram de forma alguma os instrumentos convencionais; no primeiro plano da tecnologia, no início da música — na verdade, em tornar isso a afirmação de abertura do álbum — não há dúvidas de que os U2 adotaram recursos sonoros novos para eles. Mas o facto de ser um gesto deliberadamente hesitante coloca-o claramente no reino da sátira. Talvez satirize a própria tecnologia ou a novidade dos U2 abraçarem a tecnologia”, interpreta Susan Fast num ensaio intitulado “Music, Contexts, and Meaning in U2”, incluído na coletânea de textos Expression in Pop-Rock Music: A Collection of Critical and Analytical Essays (Studies in Contemporary Music and Culture), de 2000 (ed. Garland Publishing).

As pistas para a dança
A dance music, que Bono e Edge referem no filme-documentário sobre Achtung Baby, acaba por marcar o trabalho do grupo de forma evidente nos singles que vão sendo publicados, com remisturas das canções mais orelhudas para as pistas de dança, como Even Better Than The Real Thing ou Mysterious Ways, The Fly ou Who’s Gonna Ride Your Wild Horses, ou em lados B como The Lady With the Spinning Head ou Salomé. Mas também nos dois álbuns seguintes: Zooropa (1993), outra obra-prima, e que é um segundo capítulo de Achtung Baby (foi, aliás, publicado como um dos discos na já referida edição dos 20 anos, que incluía outros dois com remisturas, Über Remixes e Unter Remixes); e Pop (1997), que arriscava três canções a abrir (Discothèque, Do You Feel Loved, Mofo) que pareciam deixar para trás o rock — e os seus fãs dos anos 80.

Ouvindo hoje Achtung Baby, todas estas músicas-mais-pop-que-rock integram sem qualquer mácula o cancioneiro dos U2. “No seu novo habitat, os U2 apropriaram-se de novos sons e novas batidas, aparentemente sentindo-se tão confortáveis em saquear os reluzentes legados da vanguarda dos Kraftwerk, Can e Neu! em Berlim, como tinham feito com os blues empoeirados em Memphis”, regista Andrew Mueller. A própria herança do grupo é uma vantagem, acrescenta o jornalista, lembrando a Irlanda natal, uma rocha cravada entre a Europa e a América.

 

O alinhamento do disco regista esse caminho, com Zoo Station e Even Better Than The Real Thing a apontarem logo a abrir novas pistas para os sons do álbum. Se One fez tiro ao alvo dos clássicos da banda, Until the End of the World retomou os riffs de guitarra que se deixam enlevar numa percussão que pede corpos dolentes a dançarem. O realizador alemão Wim Wenders tinha-lhes pedido uma canção, a banda respondeu com este tema, dizendo-lhe que o queriam usar no disco e que lhe roubavam também o nome do filme. Em U2 Songs + Experience, Niall Stokes pergunta quais são os temas das canções dos U2 e The Edge responde: “Traição, amor, moralidade, espiritualidade e fé.” Stokes regista: “Traição veio primeiro.”

Who’s Gonna Ride Your Wild Horses e So Cruel, que se seguem, mantêm o registo da nova sonoridade experimentada nos Hansa Studios, antecipando The Fly, o single de apresentação do disco e que, já vimos, deixou todos baralhados.

U2-Achtung-Baby-Kv.jpgÉ Brian Eno quem melhor descreve o processo de composição do disco, num longo parágrafo, publicado em Achtung Baby Deluxe Edition. “Alguém chega com uma velha mistura em bruto que acabou de redescobrir e que, apesar de todas as suas deficiências, tem alguma coisa. O que é? Podemos conseguir sem abandonar tudo o que aconteceu desde então? Podemos obter o melhor de ambos? Quando falha, o resultado é diluído, comprometido, homogeneizado. Quando corre bem, passa a existir um híbrido, há uma sinergia de sentimentos e nuances que ninguém antecipou. Se isso acontecer, é novidade. Há muitas novidades deste tipo neste álbum: So Cruel é épica e íntima, apaixonada e tranquila, Zoo Station, de uma alegria maníaca e industrialmente jovial, Ultra Violet (Light My Way) tem uma melancolia envolvente, Mysterious Ways é pesado e leve. Encontrar um único adjetivo para qualquer canção mostra-se difícil: é um álbum de oximoros musicais, de sentimentos que não deveriam existir juntos, mas que de alguma forma são verosímeis.”

Para além das já citadas, toda a segunda metade de Achtung Baby é uma sucessão de outros oximoros musicais: Tryin' to Throw Your Arms Around the World, Acrobat e Love Is Blindness.

O amor é cego, bem se vê. “Por um momento, à medida que a velha ordem ia passando, os U2 exploraram a possibilidade de reconciliar muitas ideias aparentemente contraditórias e fazer tudo soar. Eles escaparam do canto em que eles próprios se tinham metido, no final dos anos 80, fazendo explodir a casa. Foi uma explosão linda. Podia ver-se o fogo de artifício a milhas. E ainda se podem ouvir os ecos”, concluiu Bill Flanagan.

Ícones pop

 

“Os U2 chegaram a Berlim do final do século XX em busca de uma musa e de uma metáfora, e partiram com o início de um álbum que pareceu surpreendê-los tanto quanto a todos. Era uma boa época para ser um iconoclasta — até mesmo para os ícones”, define Mueller.

“Apesar das ironias mordazes ouvidas ao longo de Achtung Baby — ou, talvez, por causa delas —, os U2 parecem que nunca se divertiram tanto nas suas vidas”, sublinha Andrew Mueller, apesar do batismo de fogo que significou Berlim. E esse divertimento foi transposto para o palco na Zoo Tv Tour.

Para a imagem de Achtung Baby, o fotógrafo e cineasta Anton Corbijn resgatou os Trabant, velhos carros de fabrico da Alemanha de Leste, para cortar com a imagem de quatro rapazes encasacados junto às árvores de Joshua (são também dele, Corbijn, as icónicas — lá está — imagens de Joshua Tree). “Da noite para o dia, o carro deixou de ser um símbolo de status muito desejado e tornou-se uma lembrança do passado”, escreveu Corbijn, que com as suas fotos ajudaria a transformar aqueles automóveis da RDA em ícones pop.

Como recorda o jornalista alemão Martin Scholz (também na Deluxe Edition), os U2 viajaram de avião para Berlim a 3 de outubro de 1990, apanhando o último voo da British Airways que pousaria oficialmente no território da República Democrática Alemã, a RDA, no lado oriental da cidade. Mas já aterraram no futuro, no dia em que a Alemanha foi oficialmente reunificada e a RDA deixou de existir. É a imagem perfeita para Achtung Baby: um disco que aterrou no futuro. E o Muro caiu de vez naquele 18 de novembro de 1991.

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[artigo originalmente publicado no 7Margens; fotos © Anton Corbijn, da sessão de fotografias para a promoção de Achtung Baby.]