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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Junho 04, 2019

2003

Miguel Marujo

Este blogue faz hoje 16 anos. Não é número que arredonde a celebração mas, na sua serena quietude de uma casa que serve hoje como memória de afetos e trabalhos, é número que se festeja pela resiliência. Se nunca nenhum blogue nos salvou, já as palavras continuarão por aqui.

Maio 03, 2019

Gaiteiros abrem livro de bestas quadradas, diabos e baleeiros. "É uma outra coisa"

Miguel Marujo

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Bestiário marca o regresso dos Gaiteiros de Lisboa, ao fim de sete anos. Com nova formação e a mesma vontade de sempre de experimentar sons e um humor cáustico. Entrevista com Carlos Guerreiro e Paulo T. Marinho.

Há diabos que se agradam de hidromel, essa bebida de anjos, há a gaita do diabo que soa endiabrada, há baleeiros que vão vencer marés e assombração, há uma padeira que foi guerreira sem saber e nas horas vagas ou há aquela besta quadrada que se põe na alheta, um aldrabão, fazedor de vilezas e canalheira até mais não, que desfia um cardápio de nomes feios prontos a usar: aventesma, abécula, cavalgadura, energúmeno, estafermo, morcão, verdugo, trampolineiro, foge cão que já és barão, vai com os porcos, para te ires catar...

Senhoras e senhores, eis Bestiário, o novo álbum dos Gaiteiros de Lisboa, um regresso que tem tanto de inesperado como de familiar, que nos serve uma sonoridade que, quase 25 anos depois da estreia com Invasões Bárbaras (1994), continua a surpreender-nos pela ironia, pelo humor cáustico, pela alegria dos sons, em que não cabem instrumentos harmónicos.

Quando surgiram, estes Gaiteiros eram "uma outra coisa". E hoje ainda se reconhecem nessa definição, confessam Carlos Guerreiro e Paulo T. Marinho, em entrevista ao DN. "Quem é outra coisa nunca deixa de ser outra coisa", ri-se Carlos, o homem dos sete instrumentos, como lhe chamava Sérgio Godinho. "Há uma coisa que é fundamental que faz que sejamos outra coisa" - e Guerreiro ensaia uma explicação: "Quando começámos, foi na ressaca de todo um movimento reinterpretativo da música tradicional, que já vinha de trás, do GAC, da Brigada Victor Jara. Foi um caminho que já tinha sido percorrido e que já estava de certa forma esgotado e precisava de ideias."

Os projetos que surgiam, às vezes, "era juntando mais coisas". Os Gaiteiros preferiram tirar. "O grande segredo do som deste grupo, o que fez que este grupo fosse outra coisa, foi nunca abandonarmos a gaita-de-foles como o instrumento central do grupo. Como tínhamos tocado muitas polifonias tradicionais da Beira, do Alentejo, do Minho, fazíamos harmonias sem termos instrumentos harmónicos - e isso foi outro segredo. Se nós metêssemos uma guitarra ou um piano, a coisa era redutora", sintetiza Carlos Guerreiro.

Esta aparente desarmonia transformou-se numa sonoridade, num som característico, a tal "outra coisa", que vive também de um registo polifónico muito próprio. "Juntar um clarinete com uma gaita-de-foles com uma sanfona e pôr isso tudo a harmonizar, a dar um timbre. O que mais nos caracterizou começou por ser o som, o som ser diferente, ser outra coisa, lá está", aponta Carlos.

"O primeiro disco, por exemplo, foi gravado num ambiente praticamente laboratorial: tínhamos um estúdio à disposição, íamos para lá, compúnhamos, gravávamos, ouvíamos, gravávamos, ouvíamos, que é um método usado por tantas bandas internacionais... E, quando se chega ao fim de uma série de ensaios, depois é só misturar, que o disco está feito. A coisa foi muito, muito laboratorial... E isso foi a construção dos alicerces daquilo que o grupo é hoje", explica Carlos Guerreiro.

Nem sempre isto foi bom. "Houve uma dinâmica que se instalou, que funcionava, mas que também não era o grande motor do grupo - nos últimos dez anos, antes destes elementos mais radicalmente terem saído, o grupo andou em águas mornas: tínhamos vida, fazíamos concertos, fazíamos coisas, mas a certa altura entrou em velocidade de cruzeiro e essa velocidade era baixa porque nós estávamos no panorama musical português, mas não fazíamos nada por conquistar um lugar especial. Por isso é que agora estou um bocado surpreendido por ver que de repente estamos a renascer, provocando a mesma curiosidade que provocámos no princípio."

O percurso distinto de cada um - havia gente que vinha da música tradicional, outros do jazz ou do rock - ajuda a compor este grupo que abala as tradições da música tradicional portuguesa. Paulo Marinho, que muitos recordarão da Sétima Legião, diz que essa foi uma "experiência pop importantíssima", que lhe permitiu ter "uma visão alargada do que era estar em palco, de ter um certo conceito de espetáculo e do que era a música de raiz". E de repente o rapaz, que era fã do GAC ou de José Mário Branco, vê-se a trabalhar com os seus ídolos. Paulo põe aspas na expressão e brinca com Carlos Guerreiro: "Depois fiquei desiludido." Os dois riem-se.

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"Somos fãs do Quim Barreiros"

O humor das letras, que parece colar-se ao humor da sonoridade que emprestam às músicas, "não é pensado, é natural", defende Guerreiro. A tradição ainda é o que era, garantem os dois músicos, que invocam os exemplos mais inesperados em defesa desta tese. "Esta parte cómica, cáustica", como define Paulo, tem muito que ver com "as desgarradas, os segundos sentidos, os despiques". O gaiteiro concretiza: Leite de Vasconcelos, linguista, filólogo, arqueólogo e etnógrafo, "fala de recolhas que fez, porque eram muito importantes para a cultura, fazem parte da nossa cultura, mas não podia publicá-las por causa da linguagem, muitas vezes explícita". Como Bocage, que "não terá inventado um estilo, tem uma forma mais cuidada, mas há coisas da tradição que passavam muito por aí". "Nós não fomos a esse nível tão explícito", defende-se Marinho, para logo deixar cair um exemplo inesperado entre risos: "Nós somos fãs do Quim Barreiros!"

"As pessoas ficam um bocado escandalizadas, isso é música pimba", acrescenta Carlos Guerreiro, que se socorre do espetáculo de Bruno Nogueira e de Manuela Azevedo para pedir "deixem o pimba em paz". E completa: "Quim Barreiros é o herdeiro legítimo e direto de uma tradição do Alto Minho, das desgarradas nos casamentos, nos batizados, nas festas, em que o pessoal se embebeda e canta." "Era uma forma de resolver problemas sem ser à tareia", replica Paulo, para Carlos entrar no despique, recordando as festas de Santo Cristo, nos Açores, onde "o canto tradicional tem muita importância" e as pessoas se juntam para cantar ao desafio. "É uma coisa que existe pelo país... Quase todas as culturas têm isso, na Córsega é o chiama è rispondi. A gente quer é rir-se."

O riso também vive de um imaginário muito próprio dos Gaiteiros: bestas, monstros, sátiros, macaréus, uma galeria muito própria de monstros e animais. "Se perguntares porque é que é assim, não sei dizer", ri-se Carlos Guerreiro.

O humor cáustico também se veste de "crítica social", defende Paulo Marinho. Em Brites de Almeida, uma canção sobre a padeira de Aljubarrota, como o nome indica, o remate é desconcertante, puxando para a atualidade, brincando com uma padeira que não sabia marcar golos e falhou o Panteão.

Guerreiro pega na forma e molda as canções: "Uma das características dos nossos temas é que acho que nenhum é inócuo, estão todos de certa forma armadilhados. Todos têm uma história para contar, todos têm alguém de quem falar, todos são dedicados a alguém, todos têm um qualquer convidado, não é um debitar de coisas. Há quem faça isso muito bem... Aliás, essa é a forma mais normal até de fazer as coisas, uma coletânea de temas, as coisas não têm de ter sempre um objetivo comum ou conceptual." Com os Gaiteiros não é assim, já se percebeu.

Este sexto disco de originais, Bestiário, rompe com um silêncio prolongado. Avis Rara, o anterior disco de originais, data de 2012. "Nunca fiz essas contas. Sete anos, já?!", espanta-se Carlos Guerreiro. Com a saída dos seus elementos anteriores há uns três anos, Carlos e Paulo equacionaram o que fazer. "Acabamos? Nem pensar, disse o Paulo." Decidiram continuar, fizeram castings, começaram "a juntar gente aos poucos". E Guerreiro completa: "Foi assim uma almofada muito importante para o renascimento do grupo. Este renascimento nunca se daria com maus músicos, seria impossível porque nunca teria pachorra para começar do princípio outra vez. Houve elementos que entraram e voltaram a sair... Andámos a moer muito no início, quando tudo começou, não íamos voltar a moer."

Para desmoer melhor, os Gaiteiros de Lisboa rodeiam-se de amigos e velhos conhecidos. "Fazemos questão de não estar sozinhos", explica Carlos Guerreiro, num disco que conta entre os convidados com Filipa Pais, João Afonso, José Medeiros, Pedro Oliveira, Rui Veloso ou o coletivo feminino Segue-me à Capela.

Há dois anos fizeram a síntese do percurso anterior com a compilação A História, de que recuperam o tema então inédito Roncos do Diabo. "Isso", a tal coletânea, "foi graças a uma cumplicidade com a Uguru, que neste momento é quem distribui o nosso disco. Eles resolveram apoiar-nos, não nos deixar cair, sobretudo quando eu e o Paulo ficámos sozinhos a olhar um para o outro [risos]."

Mesmo em versões mais tradicionais como Canto do Coração, Flecha ou Chamateia, o original de Luís Bettencourt, aqui nas vozes de Filipa Pais e de João Afonso, quem conhecer os trabalhos para trás vai reconhecer este Bestiário como só podendo sair deste coletivo. "Talvez porque eu fosse um dos elementos mais ativos em termos de composição, talvez porque houvesse alguma simbiose, pelo menos no princípio, entre mim e o José David, houve coisas que se calhar se tomaram como definitivas em relação ao som do grupo, como o uso da gaita e de instrumentos de palheta", admite Carlos Guerreiro.

O realejo que é um mamarracho

"Só aí há logo uma definição sonora, continuar a usar gaitas e aerofones de palheta, e não usar instrumentos harmónicos, faz logo a diferença." E inventando também instrumentos, algo que aconteceu por curiosidade. "Nós não inventamos instrumentos para ser interessante, precisávamos de algumas sonoridades e lá dizíamos "deixa lá ver o que isto dá, se eu juntar um tubo não sei quê com uma palheta não sei que mais e fizer os buracos, como é que isto soa?"."

"Muitas vezes fiz temas para os instrumentos, também fiz instrumentos para os temas... Todas as combinações são possíveis." Como neste álbum, em que Guerreiro foi buscar "um realejo de cartões, de manivelas", que lhe apeteceu "fazer há uns anos". "Estava lá em casa para um canto, nunca tinha pensado em usá-lo fosse para o que fosse. Aliás também não vou andar com aquilo na estrada, é um mamarracho enorme..." E riem-se.

Senhoras e senhores, este é um belo e divertido monumento da música portuguesa.

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A padeira que não marcava golos e não foi para o Panteão

Há uma imensa ironia, um humor tremendo e um experimentalismo sonoro incessante nos Gaiteiros de Lisboa, que trazem agora, 25 anos depois da sua estreia em disco, o sexto álbum de originais, Bestiário. Prova disso é Brites de Almeida - a canção que é um hino à padeira de Aljubarrota com que antecipam o novo disco - de um humor delicioso que nos prende nas palavras como na música.

Este é o grupo que experimenta, em cada novo trabalho, resgatar a música tradicional portuguesa com uma releitura contemporânea que nunca abastarda a sonoridade popular de cada canção.

A exigência de Carlos Guerreiro, Miguel Quitério, Miguel Veríssimo, Paulo Tato Marinho, Paulo Charneca e Sebastião Antunes, é singular: já criaram instrumentos não convencionais, como túbaros de Orpheu, o cabeçadecompressorofone, clarinetes acabaçados, o orgaz, o espátulofone, a serafina ou mesmo um tubo estriado com búzio e um balde de gelo chinês.

Do tradicional mantêm uma atenção aos tempos de hoje, de "língua afiada", como descreve Carlos Seixas no prefácio a Bestiário. Basta lembrar Avejão, de Avis Rara (o anterior álbum de originais de 2012), sobre a terra dos patos bravos, que mais parece um vespeiro em que andam todos à bicada para chegar ao poleiro. Ou Proparóxitonias do mesmo álbum, onde "também os frades canónicos exploram recursos hídricos".

Ou esta nova canção que, entre os tradicionais sopros, percussões e cordas, nos recorda que "Brites de Almeida/ seja história ou seja lenda/ revelou-se na contenda/ modelo de liberdade/ fazia pão, broa de milho e bolos/ não sabia marcar golos/ não foi para o Panteão".

[entrevista e texto sobre single publicados em 26 e 2 de abril, respetivamente, no DN; fotos de António Brázio]

Maio 02, 2019

Com tanta estrada para andar, Jorge Palma conta-se de novo

Miguel Marujo

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O Jorge Palma que se pôde descobrir, ver e ouvir, num documentário na RTP1, é muito do que o cantor, compositor e músico quis contar na primeira pessoa, confidenciou ao DN um dos autores do programa, o jornalista Nuno Galopim. É uma marca da própria série Vejam Bem.

"A linha narrativa procura seguir o modelo que temos usado ao longo desta série, embora cada episódio acabe sempre por refletir muito da personalidade e obra do entrevistado", contou Nuno Galopim. "Ou seja, o ritmo, o discurso, a própria condução da narrativa, é definida pela figura, o seu percurso e, claro, o seu modo de falar, já que as histórias de vida e obra que procuramos retratar na série Vejam Bem têm como o maior denominador comum o facto de ser o próprio protagonista a partilhar ideias e memórias pelas suas palavras."

Para o documentário sobre Jorge Palma, a entrevista foi filmada "num fim de tarde" no Grande Auditório do CCB, onde ele mesmo já atuou ao vivo. E o resultado é também obra de Palma. "Tendo o Jorge visto o episódio dedicado a José Mário Branco, tinha já a noção de como podia alinhavar as memórias que ali ia evocar. Seguimos então as pistas que o discurso sugeriu, caminhando entre histórias pessoais e vivenciais e o modo como estas acabaram por se refletir na sua própria música", explicou Galopim, que já foi jornalista no DN.

Ainda que haja muita estrada para andar, como o próprio canta em A Gente Vai Continuar, Palma aqui conta-se de novo. "Mais do que procurar histórias nunca antes contadas - e do Jorge Palma há já uma boa biografia publicada em livro - observámos o seu modo de nos contar as narrativas. E a força da voz, o seu ritmo, é quase como o de uma canção falada em que, ao contrário de outras em que ficciona, afinal ali é a de quem olha para si", notou o coautor. "E fá-lo com gosto de partilhar connosco, e com franqueza, aquilo por que passou e quem é...", completou.

Este episódio de Vejam Bem tem como título Jorge Palma - Quem és Tu, de Novo, uma escolha que Nuno Galopim justificou pelo facto de, "no fundo", o título sugerir "um reencontro com histórias", mas que, neste caso, "são contadas de outra maneira". Os títulos "partem sempre de uma canção do protagonista", notou. A escolha recaiu num dos temas menos óbvio da obra de Palma, que se pode encontrar, lembrou Galopim, no álbum de 2001 Jorge Palma, "aquele tantas vezes referido como Prohibido Fumar, sim, com o 'h', como se vê na foto da capa".

A construção do episódio passou também pelo "recurso a uma série de imagens de arquivo, na sua maioria verdadeiros tesouros da nossa memória que encontramos no arquivo da RTP". E insistiu o jornalista: "A ideia desta série é a de alinhavar histórias narradas na primeira pessoa. E criar assim um coro que nos pode ajudar a fixar, através de memórias de figuras marcantes na história da música portuguesa cujo tempo de vida e obra se cruza com a história da própria televisão, um olhar panorâmico sobre a história da música portuguesa dos últimos 60 anos."

Sem exclusão de géneros e feitios: os anteriores episódios desta série da RTP Memória para a RTP1 foram dedicados a Simone de Oliveira, José Mário Branco e José Cid. "São histórias de música, algo que se ouve... Mas são todas elas histórias para ver. Porque nos fazem olhar para quem as conta e abrem janelas, através das imagens de arquivo, para os lugares, os factos, as canções, as atuações, os outros nomes, que cada um vai evocando", defendeu ao DN Nuno Galopim.

"Em cada episódio deixamos claro que estas histórias são como um retrovisor, ou seja, que ajudam a ver para trás, mas connosco a olhar em frente. Tenho dividido a construção de cada episódio um parceiro criativo diferente, o que ajuda também a vincar esta vontade de, sobre uma matriz comum, podermos sugerir nuances diferentes", contou. Neste caso, acrescentou, "o trabalho (que é sempre uma produção da Inovação RTP) foi partilhado com o Daniel Mota, que tinha já coassinado o episódio dedicado a Simone de Oliveira.

 

Jorge Palma: Quem és Tu, de Novo
de Daniel Mota e Nuno Galopim
[estreou a 1 de março, 23.30, na RTP1, publicado originalmente no DN nesse dia, com foto de Orlando Almeida / Global Imagens]

Abril 30, 2019

Dois álbuns entre os melhores do ano-que-ainda-não-tinha-acabado

Miguel Marujo

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The Goon Sax e Spiritualized trouxeram-nos no tempo frio dois álbuns que acabaram por entrar nas listas dos melhores do ano. Percebe-se porquê. Basta ouvir.

 

Com o ano de 2018 a fechar somaram-se os balanços do ano, preencheram-se páginas de listas com os melhores do ano, uma tradição que os anglo-saxónicos levam tão a peito que no final de novembro já há resumos e sentenças. E é sempre uma boa oportunidade para redescobrir o que já tínhamos arrumado na prateleira da memória, recuperar algo que só ouvimos de fugida ou espantarmo-nos com alguma descoberta de fim de ano que, por vezes, arriscam entrar nos melhores do ano-que-ainda-não-acabou.

A tempo do Natal*, o que aqui se deixa é antes breves apontamentos sobre dois álbuns que fomos ouvindo nos últimos tempos, e que inevitavelmente surgem nas listas do ano de várias publicações da especialidade. Para podermos fazer a nossa, é melhor deixar acabar o ano.

 

The Goon Sax, We're Not Talking

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Setembro foi o mês de recomeços, em que se arrumaram os amores de verão, pegou-se na mochila e regressou-se à escola ou à universidade para embarcar em novas aventuras, agora mais frescas, em dias que vão ficando mais curtos.

Nesse mês de setembro, de Brisbane, na longínqua Austrália, chegaram as canções de dois rapazes e uma rapariga, James Harrison, Louis Forster e Riley Jones, que fizeram estes dias curtos voltar aos tempos adolescentes de quando se regressava às aulas.

Para nos alegrar basta ouvir, logo na abertura do novo e segundo álbum, We're Not Talking, a pop deliciosa de Make Time 4 Love: "I felt happy when you said you don't need me", cantam-nos eles na primeira linha sobre um manto de guitarras e percussões - e estamos conquistados.

E se o leitor fizer o favor de continuar, e for ouvindo Losing Myself, We Can't Win ou Til The End, ficará tão conquistado quanto nós, entranhando e estranhando tamanha familiaridade com alguma coisa que teremos ouvido algures lá atrás no tempo, noutros tempos adolescentes. Sim, o rapaz Forster é filho de Robert Forster, um dos fundadores dos Go-Betweens, sim, os mesmos de Streets of Your Town, que nos deram tantas alegrias pop. E quem sai aos seus...

 

Spiritualized, And Nothing Hurt

Também da fornada de setembro, o regresso dos Spiritualized surpreendeu pela capacidade de nos voltar a espantar e encantar com o novo And Nothing Hurt, seis anos depois de Sweet Heart, Sweet Light.

Talvez tenha ajudado o tom caseiro (ou íntimo) que Jason Pierce imprimiu ao trabalho de gravação, mesmo quando as canções se transformam em opulentas sinfonias. Sem dinheiro para grandes estúdios, o frontman britânico tocou tudo num computador e também as cordas foram sampladas.

É inevitável não alinharmos nos elogios que couberam a este And Nothing Hurt, onde Pierce prossegue o seu caminho a flutuar por sobre todas as coisas, com estas nove canções a pairarem num espaço de afetos e ternos, como em A Perfect Miracle e Damaged, ou quando parecemos voar numa chuva de asteróides em On the Sunshine.

Não admira pois que este oitavo álbum dos Spiritualized — que nos chega 21 anos depois desse clássico que é Ladies and Gentlemen We Are Floating In Space (e A Perfect Miracle estabelece uma ponte galática para a canção homónima desse álbum de 1997) — esteja agora incluído em algumas listas dos melhores do ano.

[* — texto originalmente publicado no DN de 15/12/2018]

Abril 14, 2019

A íntima partida

Miguel Marujo

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É o mais belo indicativo da rádio: aquela guitarra dedilhada, a flauta assobiada, um Mar d'Outubro que nos abre a porta para o programa de rádio que mais vezes terei ouvido, não sei bem desde quando, e que a internet resgatou ao silêncio que entretanto lhe tinham imposto. E estava de novo "no ar", na Radar. Francisco Amaral alimentou durante 35 anos a mais bela íntima fracção que nos trazia palavras e sons na justa medida dos desejos e dos sentidos.

Um dia, o facebook permitiu-me dizer-lhe o quanto gostava do programa, ser seu "amigo", segui-lo, receber de prenda vários ficheiros disponibilizados de emissões antigas. Na noite de ontem, no carro, ouvi a voz da Radar a anunciar as horas do programa, e pensei que gostava de voltar a ouvi-lo na rádio como antes fazia: deitado, às escuras e aquelas notas a invadirem o sonho. A morte de Francisco é prematura. Na emissão dos 35 anos do programa, ele disse-nos: "Só se possuem eternamente os amigos de quem nos separamos." Obrigado.

Fevereiro 04, 2019

É bom ter de novo um caderno cheio de palavras — a criação de Nick Cave por ele próprio

Miguel Marujo

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É num corpo de letra courier, uma fonte tipográfica que imita a batida de uma máquina de escrever (e que replicamos neste post), que Nick Cave escreve as cartas de resposta aos fãs que lhe deixam perguntas sobre a sua criação, a poesia ou a música, a sua vida, a morte do filho e a sua fé ou os sonhos de que não se lembra — retomando os temas que percorrem o seu longo percurso criativo de 40 anos, em que o amor, a morte, o sexo e a religião se cruzam de forma quase omnipresente. 

Cada uma destas cartas tem sempre com a mesma assinatura de despedida, “love, Nick”. E é um gesto de amor aquele que o escritor de canções australiano, radicado na Grã-Bretanha, nos apresenta em The Red Hand Files, o site que já vai em 11* capítulos, com uma atualização regular, e que nos desvela os segredos de Nick Cave em ficheiros nada secretos — e desconcertantes, como também é Nick.

Depois do lançamento do seu álbum Skeleton Tree, em 2016, cuja gravação ficou marcada pela morte de Arthur, no verão de 2015, Nick Cave arrumou a cabeça e expiou o luto também numa digressão que, ao longo de 2017 e 2018, o levou aos palcos da América, Oceânia e Europa. E escrevendo, escrevendo muito.

A primeira questão de todas, escolhida por Nick, foi colocada pelo polaco Jakub, e e relaciona diretamente o luto com o processo criativo. Jakub recorda-lhe que em One More Time with Feeling, o documentário que acompanhou as sessões de gravação de Skeleton Tree, Nick admitia que tinha perdido o controlo sobre a escrita durante algum tempo e pergunta-lhe se estaria mudar como compositor. O cantor australiano admite que sim, que durante “um ano foi difícil descobrir como escrever” — tudo tinha desmoronado, o centro da sua vida e da vida de Susie, a mulher, tinha morrido. Susie e Nick sentiam-se “uma espécie de estrangeiros flutuando num espaço profundo”.

“A boa notícia”, respondeu Cave a Jakub, “é que no ano passado senti-me intensamente ligado à minha escrita”. E acrescentou: “Algo definitivamente mudou e escrevi muitas coisas novas. Não posso dizer-te o alívio que foi. Eu estou a escrever muito mais e é algo forte e focado, na minha opinião.” 

O desmoronamento na vida de Nick Cave não foi apenas o da perda física de um dos seus filhos. Aquilo que está no centro da sua vida é ainda, “no caso de um artista”, “um sentimento de espanto”. “Talvez seja o mesmo para todos”, admite o músico. “As pessoas criativas em geral têm uma propensão aguda para a maravilha. Um grande trauma pode roubar-nos isso, a capacidade de ficar impressionado com as coisas. Tudo perde o brilho.”

Ouvindo Skeleton Tree, composto durante esse tempo de dor, sabemos que há um espanto permanente em cada uma das suas canções, um sobressalto indizível e um arrebatamento por uma polifonia de afetos. O brilho está lá. Nick Cave revê-se nas palavras de S., uma fã que lhe escreve de Londres, sobre o processo criativo, de que é sempre algo que se vê de forma imperfeita ou apenas pelo canto do olho.

“Eu gosto muito da sua descrição do processo criativo: ver algo imperfeito ou pelo canto do olho. É isso mesmo. Uma boa ideia de música nunca se aproxima de ti, nunca te olha nos olhos, nunca se anuncia — pelo menos não na minha experiência. Ideias líricas são tão ilusórias quanto pirilampos: eles são espíritos que voam entre as árvores. No momento em que lhes dás atenção, eles foram-se.”

Na Califórnia a gravar novo álbum

Nick Cave vai além do que lhe perguntam, dá notícias do que está a fazer ou do que poderá acontecer, parece deixar cair a armadura de quem desafia a natureza quando sobe a um palco. 

Em setembro passado, na segunda carta, Jenn, de Boston (EUA), pergunta-lhe se tem animais em casa — tem dois cães: “Um cão lunático gentil de olhos tristes e com cancro chamado Otis e um pequeno salsicha psicótico chamado Nosferatu, cujo único grande empreendimento na vida é morder-me.”

Antes de falar dos cães, Cave começa por dar uma novidade. “Enquanto escrevo isto, estou sentado num estúdio com Warren na Califórnia a trabalhar no novo disco.” E desvela um pouco do que está a acontecer: “É uma coisa estranha e maravilhosa e muito diferente do que aconteceu antes. Estamos sob o seu feitiço.”

Em tempos em que as mediações tradicionais são postas em causa todos os dias, através das redes sociais — com atores e atrizes, músicos, modelos, um sem mundo de famosos e antes intocáveis a interagirem com os seus admiradores e detratores, Nick Cave surpreende-se com a reação que o site teve logo no primeiro instante. “Tenho sido inundado com perguntas. A adesão a The Red Hand Files apanhou-me completamente desprevenido. Por isso, muito obrigado a todas e a todos.”

O australiano sempre foi um magnífico contador de histórias, como provam também as suas canções (e os romances a que já deu vida) ou as prosas breves deste site. Como quando Irina, de Londres, questiona se no “bloco-notas cheio de palavras” de Nick grava peças do seu subconsciente e atreve-se a perguntar como serão os sonhos e como influenciam eles a escrita do australiano.

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A resposta é desconcertante: “Assassinos cruéis sequestraram o Warren. Os sequestradores enviaram-me uma lista de exigências. Eu tive que escrever uma carta de volta concordando com essas exigências. A carta que eu estava a compor tinha exatamente o mesmo formato de uma edição do Red Hand Files, com a mesma fonte cambria de vermelho sangue, o mesmo fundo de cor creme. O problema era que eu estava a ter um problema técnico em formatar a carta. As letras continuaram a lutar. A fonte continuou a mudar. O pequeno logotipo da mão vermelha não ficava de pé. O tempo estava a esgotar-se. E eu acordei, a tremer.” Era um sonho, bem se vê, mas pelo sim pelo não Nick telefonou a Warren. “Parece-me que ele está bem.”

Warren Ellis, que foi o responsável pela direção musical de Skeleton Tree, começou a colaborar com Nick Cave na gravação de Murder Ballads, e desde então tem ganho preponderância na definição do som do australiano e da sua banda. E tornou-se um amigo, concorda Cave, em resposta a vários fãs que o questionaram sobre… Ellis. “Há uma certa santidade nessa amizade, na medida em que ela atravessou todos os tipos de problemas nos últimos vinte e poucos anos, mas permanece resiliente como sempre. A nível profissional, desenvolvemos um estilo de composição baseado quase exclusivamente num tipo de intuição e improvisação espiritual que, como diz Henry Miller, parece calmo, alegre e imprudente.”

Foi com o texto em que falou explicitamente da morte do filho que estes Red Hand Files se projetaram no espaço mediático. A americana Cynthia conta-lhe que experimentou a morte do pai, da irmã e de seu primeiro amor nos últimos anos e que sente que, “de algum modo, mantém a comunicação com eles através de sonhos”. E Nick e Susie vivem o mesmo?, pergunta-lhe então. 

“Sinto a presença do meu filho, por todo o lado”, diz-lhe Nick Cave. “Parece-me que se amamos, sofremos. É esse o pacto. O amor e o luto estarão para sempre ligados”, escreve o músico. “O luto é o lembrete terrível das profundezas do nosso amor e, tal como este, não é negociável.”

A dor, conta-nos ainda, “ocupa o núcleo do nosso ser e estende-se dos nossos dedos até aos limites do universo. Dentro dessa volta existem todo o tipo de loucuras: fantasmas, espíritos, sonhos, tudo o que na nossa angústia desejarmos existir.”

Há uma espiritualidade que atravessa música e a poesia de Nick Cave e quando questionado sobre Deus — por um ateu, por exemplo, que lhe pede que explique a sua fé —, o australiano prolonga a resposta para lá do óbvio. “Há décadas que ando às voltas da ideia de Deus. Tem sido um lento arrastar pela periferia de Sua Majestade, com a caneta na mão, tentando escrever ao Deus vivo. Às vezes, acho que quase consegui. Quanto mais me torno disposto a abrir a minha mente para o desconhecido, a minha imaginação para o impossível e o meu coração para a noção do divino, mais Deus se torna aparente. Acho que temos aquilo que estamos dispostos a acreditar e que a nossa experiência do mundo se estende exatamente aos limites de nosso interesse e credibilidade. Estou interessado na ideia de possibilidade e incerteza. A possibilidade, pela sua própria natureza, estende-se além dos factos prováveis, e a incerteza impulsiona-nos para a frente. Eu tento encontrar o mundo com uma mente aberta e curiosa, insistindo em nada mais do que a liberdade do olhar para lá do que achamos que sabemos.”

E perante outra questão, sobre se Deus existe, a resposta dada é aquela que ouvimos nas suas canções. “Eu não tenho nenhuma evidência, mas não tenho a certeza de que essa seja a pergunta certa. Para mim, a questão é o que significa acreditar.” E acrescenta: “Acho impossível não acreditar, ou pelo menos não estar envolvido na procura disso, o que de certa forma é a mesma coisa. A minha vida é dominada pela noção de Deus, seja a Sua presença ou ausência. Eu sou um crente — na presença de Deus e na Sua ausência. Acredito na procura em si, mais do que no resultado dessa procura. Como extensão dessa crença, as minhas músicas são perguntas, raramente respostas.”

[Artigo publicado originalmente no DN, em 10 de dezembro de 2018, ligeiramente revisto; * — à data da publicação do artigo original, agora já são 23 capítulos]

Dezembro 18, 2018

Este outono que se ouve no feminino

Miguel Marujo

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Há novos álbuns no feminino que nos apontam três direções substantivamente diferentes mas dos quais retiramos idêntico prazer no posto de escuta. O outono ganha mais calor com as novas edições de Marianne Faithfull, Cat Power e Julia Holter. Abrimos o apetite.

Marianne Faithfull. Coração aberto na mesa de operações

Ainda miúda, com 17 anos, Marianne Faithfull revelou que seria mais fã dos Beatles do que dos Stones, um Benfica-Porto como tantos com que a música anglo-saxónica gosta de alimentar os nossos ouvidos. Ao 21.º álbum, com 71 anos, Marianne parece desdizer aquilo que confessava em 1964, ano em que cantou uma canção de Mick Jagger e Keith Richards, As Tear Go By, que a projetou para a fama e para a carreira.

Basta ouvir As Tear Go By, de novo, agora na sua voz envelhecida, rouca e sofrida. "Este é o disco mais honesto que já fiz. É uma cirurgia de coração aberto, querido", confidenciou à jornalista do Guardian, em setembro passado, no seu apartamento de Paris.

A voz rugosa de Marianne que ouvimos em Negative Capability, assim se chama este álbum, apresenta-nos uma viagem que nos fala de dor, tristeza e solidão, como aquela perda imensa que perscrutamos nos últimos álbuns de Johnny Cash, mas também de forma nítida noutro man in blackque canta com Marianne neste disco: Nick Cave. (E também há Warren Ellis, o homem que ajuda a dar textura às sombras de Cave em Skeleton Tree, que produz este disco com Rod Ellis, parceiro de PJ Harvey, e Head.)

Se o single que nos trouxe este longa duração, The Gypsy Faerie Queen, com Nick Cave na segunda voz, era já um excelente cartão de visita para o que agora nos é revelado (com toques muito próximos do cancioneiro do australiano), há canções que não enganam o envelhecimento, num diálogo pessoalíssimo sobre solidão e amor, como admitiu na entrevista ao jornal britânico. A canção de abertura, Misunderstanding, diz-nos isso mesmo: "Then you find yourself alone/ No explanation you can give... such a shame, no way to live."

Podemos voltar a As Tears Go By, nos versos que nos falam do ocaso do dia, e ver como aos 71 anos esta canção é diferente daquela que lhe ouvimos com 17: "It is the evening of the day/ I sit and watch the children play/ Doing things I used to do/ They think are new/ I sit and watch as tears go by". O coração está aberto na mesa de operações.

Marianne Faithfull, Negative Capability (Panta Rei)

 

Cat Power. Bendita nega

A americana Cat Power também abriu o seu coração em Wanderer, um disco em que Chan Marshall, o seu nome de batismo, respira serenidade em cada poro e a cada sopro, seis anos depois de Sun. Este disco nasceu de uma nega: a sua editora de há muito, a Matador, não gostou do que Cat lhes mostrou e recusou a sua edição. E também nasceu de uma revelação: Chan descobriu-se com uma doença, logo depois da edição de Sun, e logo depois ficou grávida.

Era impossível que este álbum fosse indiferente a estes acontecimentos tão antagónicos - e não é. Wanderer é terno, seduz pela voz, que ganha uma centralidade que não havia na pop que flirtava com a eletrónica no disco anterior.

Para ajudar mais ainda, outra femme terrible, Lana del Rey (que este ano já nos trouxe dois temas num registo muito seu) junta-se a Cat Power no excelente dueto que é Woman, um manifesto pessoal e libertador - e que se tornou um grande sucesso a fazer roer de inveja os executivos da Matador. E há também Stay, uma versão do tema de Rihanna que se despe para só contar a voz de Cat. Na medida exata, como é todo o álbum.

Cat Power, Wanderer (Domino Records)

 

Julia Holter. Estranha-se e entranha-se

Quem for ouvir Aviary à espera de algo como Sea Calls Me Home ou Feel You, canções maiores que nos apresentaram Have You in My Wilderness, de 2015, desengane-se: três anos depois, Julia Holter eleva a sua pop, que se equilibrava até aqui entre o lo-fi e a eletrónica, a um experimentalismo que pede uma audição atenta e demorada. Sem concessões.

Turn The Light On, o tema de abertura, é um excelente exemplo de como este é um disco a pedir tempo: há uma voz que plana por cima de sons que se prolongam, há fragmentos que se interrompem, procuram outras direções.

É impossível, nesses fragmentos, não ouvir ecos de Kate Bush ou Tori Amos, mas também a magia de Julianna Barwick e, sobretudo, uma voz a arriscar algumas amplitudes polifónicas de Meredith Monk. Arrisque-se o cliché: primeiro estranha-se, depois entranha-se.

Julia Holter, Aviary (Domino Records)
[Publicado originalmente no DN, em 23 de novembro de 2018]

Dezembro 17, 2018

Uma festa verdadeiramente dionisíaca

Miguel Marujo

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O regresso dos Dead Can Dance faz-se da forma dionisíaca a que nos habituaram Brendan Perry e Lisa Gerrard, por entre ritmos encantatórios, percussões hipnóticas e a beleza de sons recolhidos na Natureza.

Neste seu nono álbum de estúdio, Dionysus, o primeiro em seis anos desde Anastasis, os australianos voltam a transportar-nos por entre experiências folclóricas, onde ouvimos o mistério das vozes búlgaras, o transe lânguido oriental ou um canto que nos remete para polifonias corsas.

A sua sonoridade continua a fazer a ponte entre a antiguidade e a modernidade sem qualquer dificuldade - e que já há muito reconhecemos na obra dos Dead Can Dance, sobretudo desde os espantosos The Serpent's Egg (1988) e Aion (1990).

Dionysus, que mostra na capa uma máscara nativa mexicana, divide-se em dois "atos" e sete "movimentos". Há uma solenidade na sua música que já arriscou mais, ao longo de um percurso de 37 anos (Brendan e Lisa juntaram-se em Melbourne em 1981), mas este Dionysus, que parte dos mitos do deus grego Dionísio, mantém intactas a aura misteriosa e a voluptuosidade com que o dueto vai desenhando as suas composições, como se ouve em Dance of the Bacchantes ou The Moutain.

Convocados os espíritos (o álbum foi lançado a 2 de novembro), os sete temas de Dionysusincorporam sons de colmeias da Nova Zelândia, o chamamento de pássaros de florestas da América Latina ou de um pastor dos Alpes suíços e do seu rebanho, passeiam-se por entre berimbaus brasileiros, flautas aztecas ou as cordas de uma gadulka búlgara e de uma balalaica russa.

Na sublime The Invocation, por entre ritmos que remetem para haréns de impérios otomanos ou persas, Gerrard é acompanhada pelas cantoras búlgaras (que também se fazem ouvir noutros temas), com quem tem andado em digressão - depois da edição de BooCheeMish, álbum do grupo Le Mystère Des Voix Bulgares com Lisa, num mantra de dafs iranianos ou tambores davul turcos.

Toda esta amálgama de ritmos pode deixar o ouvinte mais desatento de pé atrás, mas nestes quase 40 anos de percurso (e que Lisboa poderá comprovar em dois concertos já esgotados em maio de 2019), a maestria dos Dead Can Dance tem sido exatamente a de construir um som que se revela coerente, equilibrado, grandioso, eloquente e sempre misterioso. A transcendência mora aqui.

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[Publicado originalmente no DN, em 18 de novembro de 2018]

Dezembro 14, 2018

Seis discos do frio que ainda vamos a tempo de ouvir

Miguel Marujo

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Com uma primavera que andou frouxa e um verão que se viveu entre o tímido e o calor mais fogoso, podemos sempre olhar para a primeira metade do ano e recuperar música desses dias mais frios, que nos pode ajudar a ultrapassar a indecisão dos elementos, a canícula e o nevoeiro, o vento frio ou as chuvas que irrompem entre o sol.

Recuperamos seis discos do inverno e da primavera, todos já editados em 2018, para melhor nos refrescar nestes dias de calor. A ordem é estritamente aleatória, a música é para todos os sentidos e gostos.

 

Beach House, 7

Ao sétimo álbum de originais, Victoria Legrand e Alex Scally limitaram-se a nomeá-lo como 7. Mas não há qualquer crise de criatividade numa obra que ousa seguir novas direções no desenho das composições dos Beach House. Depois dos álbuns editados em 2015, Depression Cherry e Thank Your Lucky Stars, e de uma compilação de lados B no ano passado, este 7 enuncia logo nos primeiros acordes a vontade de mudar, onde só aparentemente se resiste à mudança. Entranha-se de tão viciante.

Bella Union, 17,90€ (CD), 27,90€ (LP)

 

Ash, Islands

Cinco anos depois de um regresso que já parecia improvável, os Ash regressam à casa onde se sentem mais à vontade para se divertirem com muitas malhas, na fórmula clássica de guitarra, baixo e bateria, numa linguagem que lhes valeu um culto relativo lá para as Ilhas Britânicas, incluindo a sua Irlanda do Norte natal. Com este Islands há muita adrenalina, que nos fazem bater o pé, como se voltássemos a dias de juventude, e há canções, como It's a Trap ou Incoming Waves, que apetecem ouvir em repeat — mas não é por aqui que viajaremos para o futuro.

Infectious/BMG, 14,30€ (CD)

 

Eels, The Deconstruction

De um dos autores mais desconcertantes nas poesias que canta e autor do sucesso improvável de Shrek, com My Beloved Monster, Mr. E. (senha para Mark Oliver Everett) volta a imprimir o seu cunho muito próprio neste The Deconstruction. Basta ouvir os primeiros versos do tema-título ("The deconstruction has begun/ Time for me to fall apart/ And if you think that it was rough/ I tell you nothing changes/ Till you start to break it down"), ou logo depois Bone Dry, onde E. canta candidamente "Bone dry/ You drank all the blood/ My heart is bone dry/ Can't give you more 'cause you took all of it", rematado com um Sha la la absolutamente desarmante. Como desconcertante é este álbum dos Eels, pintado de pequenas pérolas, como Sweet Scorched Earth e In Our Cathedral.

E Works Records, 14,95€ (CD), 35,10 (2LP)

 

TIPO, Novas Ocupações

O tipo que se esconde atrás deste projeto é Salvador Menezes, que já conhecíamos dos You Can't Win Charlie Brown — e isso já é um ótimo cartão-de-visita. Português de Lisboa, TIPO (grafa-se em maiúsculas) arrasta-nos com este Novas Ocupações para um delicioso torpor melancólico que pede uma cerveja ao fim de tarde, enquanto nos canta um "deixa a mama e tenta". Salvador deixou-se pois, tentou e conseguiu, neste disco produzido com Benjamim (que parece ter um toque de Midas em tudo o que faz) e Afonso Cabral, companheiro na aventura dos You Can't Win... Fazem o nosso tipo estas dez canções.

Pataca Discos, 12,60€ (CD)

 

The Breeders, All Nerve

É tudo nervo neste quinto álbum em 28 anos das manas Deal, que assinam para já um dos melhores álbuns rock do ano. Kim e Kelley juntaram-se a velhos colegas de estúdio e estrada para assinar All Nerve, um regresso que bebe na melhor fonte da inspiração: os próprios Breeders. Em fórmula que ganhou no passado não se mexe no presente, e se, por isso mesmo, tudo nos parece soar a algo que já foi ouvido, há também uma sensação de frescura que se renova a cada faixa, com a maturidade de quem toca e canta há muito. Obrigatórias estas 11 novas canções.

4AD, 13,90€ (CD)

 

Car Seat Headrest, Twin Fantasy

É um projeto inusitado este com que Will Toledo nos presenteou em 2018. Pegando num álbum de 2011, gravado ainda a solo e então disponibilizado na sua página do Bandcamp, o rosto dos Car Seat Headrest voltou às canções de Twin Fantasy para as reler com a companhia de uma banda. Este duplo álbum é a frente e o verso (de um lado Mirror to Mirror, de 2011, do outro, Face to Face) de um músico cheio de talento e ambição, que não receou baralhar e dar de novo canções escritas ainda na sua adolescência. Com uma maturidade a toda a prova.

Matador Records, 19,90€ (2CD), 31,90€ (2LP)


Publicado originalmente no DN, em 13 de setembro de 2018, com o título "Seis discos do frio que ainda vamos a tempo de ouvir no verão"