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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Outubro 18, 2021

Salazar e Aristides. Da repressão à liberdade em apenas 22 km

Miguel Marujo

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Esta terça-feira, 19 de outubro de 2021, o Estado português faz (um bocadinho mais de) justiça a Aristides de Sousa Mendes, conferindo-lhe honras de Panteão Nacional. Em agosto de 2019, há dois anos, andei por estradas da Beira por conta do debate que um "museu Salazar" lançara, quando 22 kms ao lado, a casa que foi do cônsul aguardava por obras. Então, no Vimieiro e em Cabanas de Viriato avançavam projetos para a construção de um "centro interpretativo" e de uma casa-museu para recuperar a memória de António Oliveira Salazar e de Aristides de Sousa Mendes. Mundos opostos que se cruzam, da repressão do ditador à liberdade escrita pela vida do cônsul.


"Eis o mus" e só se adivinham as outras duas letras, "eu", muito apagadas, com uma seta a apontar para a porta verde da casa branca, um piso térreo com a marca do tempo, uma janela partida, a caliça caída, que só a placa escura resgata do esquecimento - para curiosos e devotos. "Aqui nasceu em 28-4-1889 Dr. Oliveira Salazar um Senhor que governou e nada roubou" e a bandeira portuguesa inscrita. Há ideias feitas que perduram. Como a ideia de um museu, que não será museualimentando a polémica há semanas e cujo projeto será apresentado na próxima quarta-feira, 4 de setembro [de 2019].

"A polémica só acontece porque vivemos em democracia", atira em jeito de saudação Rui Oliveira, 66 anos, presidente da Junta de Freguesia de Óvoa e Vimieiro. "A controvérsia é saudável, se vivêssemos em ditadura seria diferente." Nesse tempo, no tempo de quem ali nasceu, naquele lugar de Vimieiro, concelho de Santa Comba Dão, "quem estivesse contra ia para o Tarrafal", recorda, referindo-se ao campo de concentração em Cabo Verde para opositores políticos à ditadura do Estado Novo.

A democracia tem esta virtude: as opiniões diferentes são acolhidas, ninguém é preso nem morre por as defender. Para Rui Oliveira, o futuro Centro Interpretativo do Estado Novo, que a Câmara Municipal de Santa Comba Dão quer instalar na antiga Escola-Cantina Salazar no Vimieiro, "devia ter à entrada uma foto de Salazar ou de uma das suas obras e ao lado a foto de Humberto Delgado a dizer que foi morto por Salazar". "O homem não era um santo", completa o autarca socialista sobre o antigo presidente do Conselho, enterrado no cemitério da aldeia, para defender que "um homem só não faz um regime, toda a máquina funcionava". Mas, garante Rui Oliveira, esse centro "nunca será um oratório de Salazar".

Nem lhe chamem museu. O presidente da câmara, Leonel Gouveia, ausente de Santa Comba Dão, não quer falar mais, com a funcionária da autarquia que atende o DN a remeter para o comunicado emitido a 24 de agosto sobre o assunto e a corrigir o jornalista quando se fala em "museu".

No comunicado, Leonel Gouveia, também socialista, sublinhou que "conscientes das notícias, muitas delas descontextualizadas, que recentemente davam como certa a criação, em Santa Comba Dão, de um museu dedicado a António de Oliveira Salazar, vem a Câmara Municipal de Santa Comba Dão, em nome da verdade, informar o seguinte: jamais esta autarquia teve intenção de promover a criação do denominado "Museu Salazar"".

Na avenida com nome de ditador, Rui Oliveira conduz o DN até à escola que será o futuro centro interpretativo, registando que os "saudosistas" que ali vêm "são minorias insignificantes". E recorda um evento recente em que estiveram "não mais de 40 pessoas saudosistas".

O cemitério como romaria

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Os saudosistas não precisam de mais um local de romaria, já têm o cemitério do Vimieiro.

 

Estes não precisam de mais um local de romaria: o cemitério, no alto da aldeia, junto ao Santuário de Santa Cruz, já é esse sítio. "Mantenha a porta fechada" - e indiferentes à caveira no cimo, vão entrando curiosos e devotos, cumprindo o pedido do aviso. Logo à esquerda, uns metros à frente, lá estão as lápides que veneram o ditador, mostrando o que quase estava escondido: a sepultura rasa, com as iniciais AOS e o ano 1970, num dos lados, era pouco. Por isso, os veneradores salpicaram a parede de palavras e flores - já secas ou de plástico. "O homem mais poderoso de Portugal do século XX e modesto sem igual. Nasceu humilde e humilde cresceu, viveu humilde e humilde morreu." As loas são as habituais, a azia de quem escreveu pela democracia instalada também: "Medíocre é o povo que com ele nada aprendeu."

São essas palavras que Manuel Abrantes, 26 anos, bebe para justificar a sua presença ali. "Podia ler palavra a palavra o que ali está, eu não diria melhor." É de Lisboa, está na região e veio de propósito com dois amigos para visitar a sepultura de Salazar. "Viemos rezar pela sua alma", completa Margarida Paccetti, 31 anos. Não é figura de estilo: os três inclinam a cabeça enquanto leem no telemóvel uma oração pelos fiéis defuntos. "Dai-lhe, Senhor, o eterno descanso." E rezam o pai-nosso, antes de completarem: "Acolhei com bondade o vosso servo António."

Adeptos de um museu para Salazar, os três jovens defendem o projeto. "Não percebo porque é que não foi feito antes", atira Manuel Abrantes, com a concordância de Margarida Paccetti e Manuel Tovar, de 22 anos. "Depende é de qual é o partido" a fazer o espaço, aponta Margarida. "É difícil que seja isento. O problema é esse."

A casa de Aristides que será museu

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A Casa do Passal, onde viveu Aristides e a família.

 

Agosto, o sol bate os 28 graus, não se vê quase ninguém nas ruas do Vimieiro, o Dão ali ao lado a rasgar uma fronteira com Santa Comba. Quem passa, passa de carro. Como em Cabanas de Viriato, 22 quilómetros a norte, já no concelho de Carregal do Sal. Ali também há projetos para um museu, na Casa do Passal, onde viveu Aristides de Sousa Mendes, um grande solar que acomodava a família do diplomata com 14 filhos e os empregados. A casa tinha capela e biblioteca - hoje, o seu interior é uma ruína, de paredes e soalhos escorados à espera da intervenção que permita a reabilitação para a instalação de um museu.

Nuno Seabra, 45 anos, presidente da Junta de Freguesia de Cabanas de Viriato, lamenta que ainda não haja porta aberta na Casa do Passal. "Está ainda na fase de projeto e candidaturas", depois da recuperação de fachada e telhado. "Nós sentimos muito, em Cabanas e no concelho, a não finalização das obras. Recebemos dezenas de pessoas por dia e chegam e não veem ainda a casa completamente requalificada."

Há uma corrente que mantém o portão fechado. Passa um carro com um casal, os dois observam de dentro da viatura e depois seguem. "Não têm mais para ver", aponta ao DN Pedro Matos, funcionário da junta.

Falta algo mais, lamenta-se Nuno Seabra, que faça as pessoas parar mais. Por isso, enquanto não há casa-museu, o autarca, independente eleito pelo PS, quer criar uma sala de visitas no edifício da junta, mesmo em frente ao palacete, "para poder receber essas pessoas". Como aquelas que chegaram num autocarro, com turistas franceses e ingleses. Isso e construir um memorial de homenagem, que está há anos numa gaveta da junta. É uma das metas que tem para 2020, quando passam 80 anos do "ato de consciência" do diplomata que fez frente a Salazar.

"Antes com Deus contra os homens"

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Interior da Casa do Passal (2019). "Era uma casa em que não faltava nada. Depois é que foi o diabo!" 

 

Com a II Guerra Mundial a alastrar pela Europa e as tropas nazis a entrarem por França dentro, a cidade de Bordéus encheu-se de refugiados, sobretudo judeus, desesperados por um visto para fugir ao terror do Holocausto. O cônsul português na cidade, Sousa Mendes, resolve ignorar a instrução que Salazar tinha dado, através da Circular n.º 14 para todos os diplomatas, determinando a proibição da concessão de vistos a refugiados judeus, exilados políticos e cidadãos do Leste Europeu.

Na manhã de 17 de junho de 1940, o cônsul decide passar vistos sem olhar a quem. "Antes com Deus contra os homens do que com os homens contra Deus", exclama, antes de iniciar uma maratona de três dias e três noites a assinar vistos, salvo-condutos para a liberdade. Salazar não gostou e aplicou-lhe um processo disciplinar, que resultou na suspensão da sua atividade por um ano e na aposentação forçada. Aristides também foi proibido de exercer advocacia. A sua condição económica degradou-se, conseguiu que alguns filhos partissem para os Estados Unidos e morreu pobre, em Lisboa, em 3 de abril de 1954. Só a democracia reabilitaria a título póstumo o cônsul. O que ainda não fez na totalidade para a sua casa, que também se foi degradando e acabou vendida em hasta pública. A casa foi aviário, serviu para um simulacro de bombeiros, foi ruína.

"Era uma casa em que não faltava nada. Depois é que foi o diabo!", descreve Olímpio Dias Tavares, de 90 anos e quatro meses, como faz questão de se apresentar ao DN, que convive de perto com filhos mais novos de Aristides, o João Paulo e o Luís Filipe, com quem anda na escola, no edifício que hoje é a junta.

As memórias desses tempos, dele e da vila, começou a registá-las num caderno A4 preto, onde se fala também de César de Sousa Mendes, o irmão gémeo de Aristides, que foi ministro dos Negócios Estrangeiros de Salazar e intercedeu junto do ditador pelo irmão sem sucesso. "Eu bem tenho dito cá na terra que também temos de recordar o irmão, César", explica Olímpio, numa torrente de histórias nunca atraiçoadas pela memória.

Lembra-se de nomes, recorda episódios, recupera datas, do casamento da D. Clotilde, uma das filhas de Aristides, "com pompa", em que a filarmónica foi convidada para um concerto, da carrinha Ford, grande, para levar a família toda e os empregados, uns 28/30 lugares, e lá vinha o cônsul "com rebuçados para todos os miúdos". "Tratavam muito bem toda esta gentinha", diz, genuinamente, de Aristides e Angelina, a prima com quem o diplomata se casou.

O bom samaritano de tantos judeus

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Não há quem reze no jazigo da família de Sousa Mendes, no cemitério de Cabanas.

 

O cônsul acolhe na sua casa refugiados judeus e os seus gestos motivam o epíteto de "justo entre as nações", título atribuído pelo Yad Vaschem, um centro israelita para lembrar as vítimas judaicas do Holocausto e aqueles que salvaram judeus. O católico que trouxe de Antuérpia em três peças, porque eram muito grandes e pesadas, um Cristo-Rei, que encima a colina onde está a Casa do Passal, e que no canto do jardim fronteiro do palacete tem um crucifixo enorme, foi o bom samaritano de tantos judeus - e a quem Salazar não perdoou o incumprimento de uma circular burocrática.

Nos 22 quilómetros que separam as duas localidades, sonha-se com a construção de dois museus. À entrada de Cabanas, atrás do balcão da Pastelaria Viriato, Filomena Carvalho nota que "vêm pessoas de todo o lado, até de camioneta". Com a casa-museu "ajudava a melhorar" , diz. Estão paradas as obras, está parada a tarde de negócio. Pelas 17.00, entra o distribuidor de bebidas, quase não há movimento nas ruas.

O presidente da Junta de Cabanas, Nuno Seabra, concorda que o museu "iria transformar a nossa freguesia e concelho num polo de atração turística". Podia ser este também um centro interpretativo do Estado Novo? Nuno Seabra prefere sublinhar o homem que foi Aristides. "O que mais me encanta é a simplicidade com que lidava com as pessoas", diz, sublinhando "o grande homem que foi". "Era realmente o sonho dele, salvar aquelas pessoas."

Não há quem reze no jazigo da família no cemitério de Cabanas de Viriato. Há uma fita e uma placa que assinalam a memória de Aristides, de homenagens antigas. No cemitério do Vimieiro, Salazar merece a visita quase contínua de pessoas que ali vão. Como aquele santa-combense que levou ali uns primos e pede para não ser identificado. "Passámos no cemitério de Santa Comba e eles achavam que era ali que estava o Salazar e trouxe-os aqui para verem." A curiosidade alimenta ainda mais a romaria do que a devoção.

"É um tema pacífico em Santa Comba"

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O autarca espreita para uma das casas de Salazar. Ali dificilmente alguém falará mal do ditador.

 

Na sede de concelho, num restaurante onde há um busto do ditador e uma foto antiga da estátua de Salazar que foi rebentada em 1978, uma pequena pagela assinala que se trata de "o melhor governante nos 900 anos de história de Portugal".

Rui Oliveira, o autarca do Vimieiro, diz que dificilmente se encontrará alguém que fale mal de Salazar por ali. "É um tema pacífico em Santa Comba Dão, por bairrismo, não por política. Defendem-no como conterrâneo", esclarece. "Pensar o Salazar é passado, é história", argumenta. "Queremos é pensar o presente e o futuro, isso é que é importante", atira a despedir-se.

O homem de 70 anos que passa junto à casa faz notar ao DN "a vergonha que aqui está". A sua indignação é outra e ouvem-se, em som de fundo, cães que ladram. Não é metáfora nenhuma: há ali, no quintal da correnteza de casas que eram de Salazar, um canil de uma associação de proteção de animais. "Meteram aqui um canil!", diz, repetindo que ele "deixou barras de ouro no banco". "Era um grande homem, só os ordenados eram baixos." A ladainha choca com a realidade: a uns 20 quilómetros, Aristides é mais uma prova do que foi o regime do Estado Novo. Repressivo, iníquo. Uma interpretação que terá de morar em Santa Comba Dão.

[reportagem originalmente publicada no Diário de Notícias de 31 de agosto de 2019, com fotos de Sara Matos/Global Imagens e ilustração de Vítor Higgs]

Outubro 15, 2021

O homem da fuga planeada em mortalhas

Miguel Marujo

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Preso em Caxias, António Tereso passou "para o outro lado", o que lhe valeu ser ostracizado pelos camaradas do PCP. Afinal preparava uma fuga. Há quase 60 anos, "no dia 4 de dezembro de 1961, pelas 9h35, sete reclusos que se encontravam no fosso interior do reduto norte do Forte de Caxias na hora do recreio, auxiliados por outro recluso da sala de trabalho do mesmo Forte (a sala dos rachados), levaram a cabo uma espectacular e audaciosa fuga". Recupero o texto do obituário de Tereso, para recordar esta história que, na América, já teria dado um filme, como me dizia Domingos Abrantes na altura da morte do seu camarada.

 

As mortalhas do tabaco foram a maneira encontrada por aqueles homens para discutirem e prepararem a sua fuga da prisão de Caxias, durante a ditadura do Estado Novo. Era a única comunicação com António Alexandre Tereso, o "rachado", nome dado no PCP aos que traíam camaradas. Durante 18, 19 meses foi "ostracizado pelos presos", quando afinal estava a encenar essa traição, para ganhar a confiança de guardas e da direção da prisão para observar possíveis hipóteses de fuga.

Este herói para os comunistas morreu aos 89 anos a 7 de janeiro [de 2017], no dia em que desapareceu Mário Soares, o que obliterou referências à morte do "fulano excecional, de dedicação e abnegação", como o classificou Domingos Abrantes, militante do PCP, seu companheiro na fuga.

Motorista da Carris, Tereso é o nome que se destaca na fuga dos oito detidos da prisão nos arredores de Lisboa, às 9.35 de 4 de dezembro de 1961. Militante do partido, tinha sido detido a 27 de fevereiro de 1959 pelo envolvimento na "grande luta" dos trabalhadores da Carris. José Magro, dirigente do PCP também preso em Caxias, "propôs esse rasgo de Tereso: passar para o outro lado", recordou Abrantes ao DN. "Passou a ser rachado", apesar da desconfiança de camaradas e carcereiros. "Não tinha o perfil de rachado, que é uma pessoa abatida e o Tereso tinha feito vasqueiro no julgamento."

Encenando uma discussão numa refeição na cadeia, o motorista bateu à porta, traindo os camaradas. "Ninguém lhe falava", só dois presos, José Magro e Afonso Gregório, sabiam. Todos "cortaram com ele". Os companheiros da Carris "deixaram de lhe pagar o salário", eles que se quotizavam para ajudar as famílias de camaradas presos. "Era um troféu de caça para a polícia ter um comunista que se tinha passado para o outro lado", explicou Domingos. "Nem a mulher dele sabia que era tudo encenação", disse.

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A sua função era ter a confiança dos carcereiros, com liberdade de movimentos. As hipóteses eram discutidas por mensagens escritas nas mortalhas do tabaco. "Ele tinha de esperar que todos adormecessem na sala dos rachados para escrever as mensagens. Toda a fuga foi discutida por mortalhas", contou Abrantes.

António Tereso descobriu um carro blindado, na chapa e no vidro, com pneus de câmara dupla. Havia dois automóveis: um Mercedes, cuja manutenção era feita por um pide que andava sempre com a chave, "e este Chrysler que tinha a chave na ignição". Foi uma ideia "de uma audácia tramada", exclamou Domingos. "Bater-lhe na cabeça que se podia fugir com o carro." Tereso precisou de "ganhar confiança para poder andar com o carro - convidou o diretor para uma volta, tornou-se normal circular de carro pela prisão", mas ali, ao recreio onde estavam os outros sete camaradas nunca tinha ido. "Éramos 11", recordou o também conselheiro de Estado, fugiram oito: "Foi feita uma avaliação dos quadros que mais interessavam ao partido." O carro não levava todos. "Aliás houve um erro que veio por bem", avaliou Domingos Abrantes. "Na nossa imaginação o carro tinha uma porta que não tinha. A distribuição dos lugares era em função de três bancos. Ainda bem que a gente se enganou. Com dois bancos se calhar não tínhamos ido tantos."

Na fuga de 5 segundos para entrar no carro, os homens foram às camadas, "como se fossem numa lata de sardinhas, seis no banco de trás e um à frente com o Tereso". O blindado que tinha sido de Salazar rebentou com o portão e protegeu-os dos disparos das espingardas dos guardas. Foram saindo dois a dois já em Lisboa e passaram à clandestinidade.

O motorista fugiu para a Checoslováquia e França, onde se fez torneiro mecânico. Regressou com o 25 de Abril. Domingos que só contactou com ele no dia da fuga, voltou a vê-lo apenas depois da revolução. E Tereso ensinou-o a conduzir. Reintegrado na Carris, depois reformado, Tereso ajudava sempre no partido. "Transportava camaradas, acabou por ser motorista aqui no partido. Ia a muitos sítios explicar a fuga, falava com jovens, era uma história atrativa. Agora, no fim, já estava muito debilitado. Não teve uma vida fácil."

 

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[Artigo originalmente publicado no DN de 22 de janeiro de 2017, com o título "António Tereso. Morreu o homem da fuga planeada em mortalhas". Foto do Chrysler Imperial, 1937 - que esteve ao serviço de Salazar - usado na fuga retirada do site do Museu do Aljube. Foto da ficha de preso encontrada na internet. Foto de António Tereso, com a imagem do carro atrás de si © Global Imagens.]

Outubro 13, 2021

Paddy Moloney: "Music became everything."

Miguel Marujo

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Paddy Moloney, 1938-2021

"I grew up in a family of musicians in this little cottage that seemed like a palace at the time. We would sit around and tell stories and play music every night. Music became everything to me, even more important than eating."

 

(foto Gerry Mooney/Independent Ireland)

Outubro 09, 2021

Do empobrecimento e do silenciamento da múmia

Miguel Marujo

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Falemos de empobrecimento. Torna-se fastidioso apontar o dedo a um senhor que começou por dar cabo de todo o sistema ferroviário português e que privatizou a Rodoviária Nacional, sem cuidar de manter uma coesão territorial nacional, acelerando ainda mais todo o processo de desertificação e empobrecimento do interior do país, aumentando a macrocefalia do litoral do país. Um senhor que exulta no primeiro parágrafo do texto que hoje deu à estampa porque passou o último classificado de uma UE a 12, omitindo que a UE se faz hoje a 27 e não estamos em último. Um senhor que usa o rendimento per capita, para omitir o desastre que foi a aplicação de fundos sociais europeus (e que maná, senhores, ele desperdiçou, todos os dias), nos seus governos, destruindo o tecido produtivo na agricultura e nas pescas, para mais tarde o país ter de correr atrás do prejuízo. O senhor que mente (ao omitir) a enorme crise de 2008, sacudindo responsabilidades de um capitalismo selvagem e violento, como o que ele professou e professa no seu texto, e nada trouxe de bom a Portugal — como se lê na desenfreada defesa que faz da troika e do seu governo, omitindo que foi depois de 2015 que o emprego e o crescimento económico deram um salto.

Falemos de silenciamento. O senhor que fala da alegada pujança de países de Leste, omitindo indicadores tão ou mais importantes como o estado da democracia em muitos desses países (mil vezes pior que a nossa), como a Hungria ou a Polónia. O senhor que omite indicadores relevantes, como a taxa de mortalidade infantil ou os números historicamente baixos de abandono escolar, apesar da pandemia, e que pandemia!, e que só sublinha a cartilha neoliberal de PIBs, passa o artigo a atacar governos de "extrema-esquerda", como o do Syriza ou os governos socialistas de Portugal, para enaltecer cartilhas sócio-económicas de Órbans e afins.

Não, é fastidioso e dá voltas ao estômago ler todas as linhas de um texto de um senhor que acolitou o BPN, mas mal ganhava para as despesas. O texto hoje publicado no Expresso é um grande embuste de um ilusionista que nunca engoliu a geringonça, a quem teve de dar posse, e foi provavelmente quem pior fez à economia portuguesa nesta jovem democracia — e sim, ele causou empobrecimento e silenciamento. Pena que nunca tenha tido a dignidade de fazer uma leve autocrítica. Nisso está bem acompanhado de Sócrates. E havia muito mais a dizer.

 

[foto Griffith Institute]

Setembro 29, 2021

Autarcas que levantaram o país do chão

Miguel Marujo

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Fernando Gomes foi eleito aos 30 anos: "Não havia uma única rua alcatroada, não havia iluminação pública, era fazer tudo do zero." (Foto Maria João Gala/Global Imagens)


O Portugal de 1976 era um país onde "faltava tudo". Ruas por pavimentar, bairros sem luz, água canalizada que não existia, esgotos a céu aberto. [Em 2017,] o DN viajou pelo país de então com quatro dos primeiros presidentes eleitos de câmaras municipais para fazer o retrato do que foram essas primeiras eleições autárquicas e das prioridades políticas que cada um deles teve para os seus concelhos. Perante a imensidão dos problemas, todos pediam tudo, recordam. E garantem que eram tempos de política pura.


Ruas por pavimentar, bairros sem luz, água que não chegava às torneiras, esgotos a céu aberto, transportes inexistentes e gentes sem casas. O Portugal de 1976 era o retrato de um país sem os mínimos de uma vida digna para muitos dos seus cidadãos, herança pesada de uma ditadura que gostava de ter os portugueses pobres e remediados. É este país que vai a votos a 12 de dezembro de 1976 para eleger, pela primeira vez em democracia, os seus órgãos autárquicos. Quase 41 anos depois, o DN percorreu essas ruas com quatro protagonistas eleitos nesse dia, autarcas que ajudaram o país a levantar-se do chão.

Fernando Gomes, 71 anos, eleito aos 30 presidente da Câmara Municipal de Vila do Conde, pelo PS, conduz o DN até um bairro social que nasceu no seu primeiro mandato. À passagem pelas Caxinas, perto do limite norte da cidade, vai apontando para os arruamentos. "Não havia uma única rua alcatroada, não havia iluminação pública", recorda, "era fazer tudo do zero". Talvez um pouco mais que zero.

Com mais ou menos variações, os exemplos repetem-se. "Faltava tudo", concorda Alda Santos Victor, uma das quatro mulheres eleitas presidentes da câmara em 304 municípios. Aos 95 anos, quase 96, eleita com 55 pelo CDS, a antiga presidente da Câmara de Vagos constata que "fez-se alguma coisa, fez-se o saneamento, que não havia".

[artigo originalmente publicado no DN, em 30 de setembro de 2017]

Setembro 25, 2021

Hergé e a grandeza da arte maior que é Tintin e a BD

Miguel Marujo

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Lisboa recebe a partir de dia 1 de outubro, na Gulbenkian, uma grande exposição sobre Hergé e a sua obra, que inclui o universo de Tintin. Em 2016, já vimos muito do que agora vem até à capital portuguesa e vale mesmo a pena.

 

As extensas filas que se acumulam à porta do Grand Palais [no outono de 2016], em Paris, parecem querer dar razão a Hergé, quando o criador de Tintin dizia esperar que "no ano 2000" a banda desenhada fosse ela própria um meio de expressão tão considerado "como a literatura ou o cinema" (e disse-o em 1969). É essa também a ideia-chave com que abre a exposição que as Galerias Nacionais francesas dedicam pela primeira vez à banda desenhada, 16 anos depois do início do milénio, numa sala que apresenta "a grandeza da arte menor".

Puro engano: o que esta mostra — [e que esteve] em exibição até 15 de janeiro de 2017— nos traz é uma arte maior em que a vida e a obra do belga Georges Rémi, que todos conhecem por Hergé, vai para além do universo da sua emblemática criação que é o repórter Tintin, mesmo que, ao longo de dez salas, se centre neste universo de 24 álbuns.

Logo a abrir há uma dimensão pouco conhecida de Hergé: a de amante de pintura abstrata e pintor, em que as suas referências são reconhecíveis nos quadros por si pintados, seja Miró ou Dubuffet. No diálogo interativo que a exposição apresenta com a obra de Hergé, é possível descobrir como o autor belga transportou essa sua admiração para as pranchas da BD, como no álbum Tintin e os Pícaros.

Todos os álbuns estão impregnados de referências da pintura neoclássica, surrealista ou do japonês Hokusai, como também do cinema de King Kong ou as personagens Bucha e Estica, de Stan Laurel e Oliver Hardy, que influenciaram as criações de Dupont e Dupond, como sinaliza o comissário da exposição, Jérôme Neutres, no catálogo da mostra. É Jérôme Neutres que nota que, "para alimentar o seu imaginário, Hergé, que raramente saiu da Bélgica e seus arredores, viajou essencialmente por outros imaginários". É essa viagem deste "romancista da imagem" que nos transporta também para a Lua e mergulhamos numa sala em que o centro é a maqueta da nave espacial dos álbuns de Tintin Rumo à Lua e Explorando a Lua, ao som da voz de David Bowie, em Space Oddity, com o Major Tom a chamar o ground control.

A acompanhar cada uma das etapas da obra de Hergé, o visitante pode observar esboços, trabalhos originais, reproduções do Le Petit Vingtième, no qual eram publicadas as histórias de Tintin, cruzando-se com a história. É assim que, num período de sucesso das obras publicadas no suplemento infantil do jornal Vingtième Siècle, a II Guerra Mundial obriga à suspensão deste diário. Na capa desse último Petit Vingtième Hergé desenhou o doutor Müller pronto a atacar Tintin, no momento em que a Alemanha invadia a Bélgica.

Tintin continuará nas páginas do diário Le Soir, sob controlo alemão, o que angustia Hergé quando da libertação do país do jugo nazi, mas não será acusado de nada. O estilo da linha clara que Hergé vem ensaiando nas pranchas de Tintin é ainda mais depurado com a publicação de As 7 Bolas de Cristal nas páginas do jornal.

A fama de Tintin que tantas vezes eclipsou a obra de Hergé atirou para a gaveta muito do seu trabalho. Antes de Tintin, o belga criou e desenhou em 1926 Totor, um jovem escuteiro, mas também daria vida em dezembro de 1935 a Les Aventures de Jo, Zette et Jocko, numa publicação francesa Coeurs Vaillants, uma lança num país onde o número de potenciais leitores era bem mais vasto.

Autodidata, o desenhador tomou o nome de Hergé, um pseudónimo que nasceu da troca das iniciais do seu nome de batismo Georges Rémi ("r" e "g"). Fazendo uso de uma montagem inteligente entre os vários elementos iconográficos e cénicos, a exposição leva-nos ainda aos trabalhos que foram emergindo dos Studios Hergé, nomeadamente na publicidade.

Transportando a linguagem da linha clara para os anúncios, Hergé entendeu desde cedo que a "legibilidade da mensagem e da imagem era primordial". Antes de a BD ocupar os seus dias a tempo inteiro, o criador de Tintin dedicou-se ao grafismo de logótipos, um talento de que se ocupou nos anos 1920 e 1930.

O mito de Tintin nasceria bem depois da publicação das duas primeiras pranchas a 10 de janeiro de 1929. Hergé dizia que podia abandonar a BD para se dedicar à pintura - não o fez. No final da mostra parisiense, há um painel imenso, uma "multidão de pessoas sozinhas", que foram as suas boas festas de 1973, uma multidão de personagens a deixar-nos os seus votos. Um universo de gentes a mostrar-nos como Hergé é universal.

[artigo originalmente publicado no Diário de Notícias, em 29 de novembro de 2016; foto © Robert Kayaert, SOFAM, Bruxelas/SPA, Lisboa, 2021]

Setembro 17, 2021

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Miguel Marujo

Lusa-PauloNovais.jpgSir Clive Sinclair (1940-2021).

His ZX Spectrum computers brought affordable personal computing to the masses and sold in their millions across the world: "The idea that an inventor can come up with some brilliant idea and somebody else will make it all happen is nonsense," he once said. "Either you do it yourself or it ain't going to happen."

[foto de Paulo Novais/Lusa, no Museu Load ZX Spectrum, em Cantanhede: trata-se do primeiro museu do mundo dedicado ao Spectrum, um exercício de nostalgia, mas também uma homenagem ao seu criador]

 

Setembro 10, 2021

Jorge Sampaio. "Este ocaso da vida é magnífico"

Miguel Marujo

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Desta vez, Jorge Sampaio não chorou. "Este ocaso da vida é magnífico"


No dia da sua morte, recupero uma reportagem minha quando dos seus 80 anos. Sampaio nasceu a 18 de setembro de 1939, no dia de anos do meu Pai, e morre dias depois da minha Mãe. Era um homem bom. Sempre foi.
PS homenageou antigo presidente da República e líder socialista no dia dos seus 80 anos [celebrados a 18 de setembro de 2019]. Sampaio respondeu com humor: "Não costumo fazer isto sem chorar um pouco." Costa sublinhou a "intranquilidade" da vida do socialista.


Jorge Sampaio avisou com uma pitada de humor. "É muito agradável estar aqui convosco e não costumo fazer isto sem chorar um pouco", atirou com um sorriso o antigo Presidente da República. O "aqui" é o Largo do Rato, sinónimo da sede do PS, e "isto" é uma homenagem que os socialistas fizeram questão de fazer nesta quarta-feira, dia 18 de setembro, no seu 80.º aniversário.

Sampaio não chorou - e fez questão de o lembrar, já quase no final das suas palavras. "Atenção: não chorei até agora e agora já é tarde." Só não é tarde para continuar a lutar, disse. "No ocaso da vida", como definiu este tempo que está a viver, é importante "ter a sensação de que é preciso sempre ir para a frente e nunca desistir, nunca desistir".

O secretário-geral socialista, António Costa, apontou isso mesmo: "Jorge Sampaio podia já estar a gozar a tranquilidade da vida, mas a verdade é que a vida lhe provoca sempre intranquilidade." E é essa intranquilidade que o leva a manter-se atento aos problemas do mundo e que o fez criar uma plataforma de apoio aos estudantes sírios que queiram estudar, fugindo à guerra.

O antigo Presidente e antigo líder do PS reconheceu-o: "Tudo está em aberto, este é que é o grande dilema e a complexidade dos nossos tempos" - e nessa complexidade inscreve-se a necessidade de "descobrir novas formas de agir" porque, avisou Sampaio, "o capitalismo financeiro vai tratar das crises da mesma maneira que sempre tratou".

O Sampaio estudante, advogado, político, secretário-geral do PS, Presidente da República, esteve inscrito nas palavras de todos - como num vídeo com imagens que passou instantes antes das intervenções - a começar pelo próprio que sublinhou "a fidelidade aos valores" em que foi educado. "E a felicidade que tive em cumprir estes 80 anos!"

O socialista confessou que se sente bem no Largo do Rato, onde não tem de justificar nada. Fez um parêntesis, de novo com humor. "É certo que me esqueci das escadas e agora subo escadas com imensa dificuldade", apontou. Depois defendeu que, no PS, há um "espírito aberto", também "para aquilo que deve ser discussão viva" ou "a discordância", mas onde "não pode caber a conspiração". Entre soaristas, guterristas ou sampaístas presentes nos jardins do Palácio Praia, a sede do PS, Sampaio ironizou ainda com aqueles que "andam todos a medir-se" na sua social-democracia.

Se a voz está mais frágil, como o corpo, as ideias saem com mais fluidez. "Devo ser daqueles que estão a adorar os debates", revelou sobre a pré-campanha para as eleições de 6 de outubro, notando que "despertou algum interesse", "discutiu-se algumas coisas fundamentais para o que há de vir". É a intranquilidade de que falou Costa.

O primeiro-ministro, na pele de secretário-geral do PS, sacudiu as notícias do dia, de uma demissão no seu governo, para dizer que este é um "dia feliz" para os socialistas. "Estamos aqui a festejar o aniversário, os 80 anos do Jorge Sampaio."

A "homenagem a um dos mais ilustres militantes do PS" também aconteceu pela militância de Sampaio na "defesa dos direitos humanos", apontou Costa - e, antes, os presentes ouviram o testemunho de Tamin, refugiado sírio, que agradeceu ao antigo Presidente a oportunidade que este lhe deu para "uma vida melhor", a ele, à sua mulher e à filha dos dois, que nasceu na Grécia e hoje todos os dias vai para a escola em Portugal.

O "homem tranquilo, fleumático, britânico" que é Sampaio, na definição de Costa, foi capaz de "decisões de rutura que tomou num determinado momento e marcaram a sua vida". E o atual líder socialista - que esteve sempre ao lado de Sampaio nas lutas internas do partido - enumerou-as, do 24 de março de 1962, quando "ergueu a sua voz" em defesa dos estudantes (na crise académica de 62), a 1989, quando avançou para a liderança do PS e se apresentou como candidato à Câmara de Lisboa e conseguiu unir a esquerda, incluindo o PCP de Álvaro Cunhal, em torno dessa candidatura; "e depois, anos depois", em 1995, quando desafia Cavaco a candidatar-se numa entrevista ao Expresso, "para o motivar a candidatar-se", e "foi a sua candidatura que motivou uma grande maioria de portugueses". Costa deixou de fora a bomba que Sampaio largou no seu mandato presidencial, quando demitiu o governo PSD-CDS de Santana Lopes, em 2004.

"O cidadão comprometido com a sociedade e com o mundo em que vive, sempre preparado para uma vida de intranquilidade", recebeu das mãos do líder socialista uma reprodução da primeira página do jornal oficial do PS, o Acção Socialista, quando foi eleito líder do partido. Na capa, Sampaio está de punho esquerdo erguido, o mesmo que nesta quarta-feira ergueu no final da sua intervenção, para agradecer os aplausos que lhe dispensaram.

Cantaram-se os Parabéns, cortou-se o bolo, num jardim em que a noite já caía, com vários ministros e secretários de Estado na assistência, e outras figuras do partido, como Ferro Rodrigues, Manuel Alegre, João Cravinho ou Jorge Coelho. "Agradeço-vos esta companhia neste ocaso da vida, que é um ocaso magnífico", tinha dito Sampaio a fechar o seu discurso.

[artigo originalmente publicado no Diário de Notícias, de 19 de setembro de 2019; foto de Daniel Rocha, no Público, março de 2005]

Agosto 03, 2021

Tratou da saúde a três Presidentes da República. Com o quarto, "o desafio é ser médico"

Miguel Marujo

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Daniel de Matos entrou em Belém pela mão de Mário Soares. Os chefes do Estado foram passando e ele tem ficado. Agora zela pela saúde de um antigo colega de liceu, Marcelo Rebelo de Sousa. Um perfil publicado em março de 2016, que ajuda a explicar voluntarismos atuais.

Marcelo Rebelo de Sousa realizou a sua primeira deslocação oficial para o estrangeiro com uma comitiva mínima, deixando em Lisboa o médico pessoal do Presidente da República. Daniel de Matos até agradece ter sido poupado a estas viagens: afinal, o médico, nascido a 6 de maio de 1948, está no seu sétimo mandato em Belém - está na Presidência desde a eleição de Mário Soares - é o decano do palácio presidencial.

São 30 anos de serviço, com milhares de quilómetros em centenas de deslocações ao estrangeiro e em território nacional. "Eu entro e saio com cada um deles", notou Daniel de Matos ao DN: Mário Soares, Jorge Sampaio e Cavaco Silva. "Entro e saio nos dias 9 de março", a data em que os chefes do Estado Português tomam posse. E entrou e saiu porque mereceu a confiança de cada um deles. "Os dois primeiros eram meus pacientes, o professor Cavaco Silva convidou-me para estas funções", explicou. Fonte oficial de Belém avançou ao DN que "o Presidente da República decidiu manter no cargo" quem já lá estava. "Não se trata de uma escolha pessoal, é manter o que já existia", acrescentou Belém. É mais do que isso: ele será médico de um velho conhecido. Marcelo e Daniel foram colegas de liceu, no Pedro Nunes, em Lisboa, conhecem-se desde os 11 anos.

António Mega Ferreira foi colega dos dois, "nos cinco primeiros anos de liceu". Mesmo que o curso da vida tenha afastado (uns seguiram para humanidades, como Marcelo e António, já Daniel optou pela ciência), o antigo administrador do Centro Cultural de Belém recordou que "era muito amigável, muito bom o relacionamento" entre os adolescentes Marcelo e Daniel. O agora Presidente "tinha um bom relacionamento com toda a gente", notou ao DN.

"Éramos um grupo de uns quatro, eu, o Marcelo, o João Seabra, que agora é padre, o João Amaral, que está na APEL, e o José Manuel Faria", vai desfiando o escritor e jornalista. Daniel era da turma, dava-se com eles, mas não fazia parte deste pequeno grupo que ia "alegadamente estudar para casa de Marcelo", ali na Rua de São Bernardo, um pouco abaixo do Liceu Pedro Nunes. "Íamos era lanchar, discutir este mundo e o outro", contou.

"Não comete erros básicos"

Daniel de Matos sabe bem ao que vai agora: o recém-empossado Presidente da República é um hipocondríaco assumido. "É um hipocondríaco confessado e erudito", completa Daniel de Matos ao DN. Que tenta definir melhor essa hipocondria e essa erudição: "É erudito médico-farmacologicamente, a sua hipocondria será mais nesse sentido." Assim, concede o médico, "dá alguma segurança, não comete erros básicos". Também por isso Rebelo de Sousa "acaba ele próprio por resolver 95%" dos problemas que tem. "O grande desafio é eu ser médico", diz, entre gargalhadas.

Marcelo, antes de ser eleito, confirmou esta sua curiosidade. "Eu vou às farmácias e porque conheço os medicamentos que saem, porque conheço as várias terapias, sou capaz de explicar como foram tratadas as úlceras desde o momento em que comecei a tratá-las." Que teve uma revelação com uma cientista, como confessou numa entrevista à revista Cristina. "Um dos momentos áureos da minha vida foi ter conhecido uma cientista de Leste, que foi para a Suécia, e inventou o medicamento que mais dinheiro deu a uma farmacêutica sueca na proteção do tecido do estômago e do duodeno atingido por úlceras", recordou. "Conhecer aquela cientista, que me explicou como é que tinha inventado aquele medicamento foi..." - e simula um espanto de cair para o lado. "Outra coisa que adoro: ir a congressos de médicos. Sinto-me bem de saúde. Se me acontecer, está lá tudo", atirou. Os portugueses também o viram, na campanha, a entrar numa farmácia e a perguntar por "novidades".

Talvez seja por isto que Daniel de Matos antecipou um "caldeirão". "Vamos ver como corre. É uma experiência que aceito correr", afirmou ao DN. Com um objetivo simples, admitiu: "Só tentarei dar saúde ao Presidente da República." E corrigiu-se logo. "Cuidar da excelente saúde que tem."

Um acaso no início

O médico chega a Belém em 1986 por um episódio que teve lugar uns seis anos antes, como revelou ao Expresso, numa entrevista em 2013. Em 1980, Daniel Joaquim de Sousa Azevedo de Matos estava de urgência com o amigo Eduardo Barroso, sobrinho de Mário Soares, quando o fundador do PS adoeceu. Como estava sem médico, Eduardo e Daniel foram a casa de Soares, e Azevedo de Matos acabou por ser "chamado quando havia qualquer coisa". Seria Daniel quem Mário Soares chamaria também, em 1986, para ser seu médico pessoal na Presidência. Jorge Sampaio repetiria o convite, Cavaco Silva também.

Ao longo dos anos, Daniel de Matos estendeu a sua atividade ao pessoal da Presidência. A consulta organizada tem lugar três dias por semana, mas Daniel de Matos vai passando e estando por lá. "Não quer dizer que noutros dias não veja pessoas."

Se tem sido assim no palácio, nas viagens o médico também foi chamado muitas vezes a acudir a quem precisava. "Pessoas que adoeciam em sítios difíceis", recordou. Ou coisas simples, como amigdalites. Colecionou quilómetros e histórias. Dos primeiros disse que foi "uma loucura" até agora, tem "tudo guardado" para um dia poder contabilizar. E das segundas recordou que tem muitas para contar, "quase todas com muita graça". "Não escrevi isso, tenho alguma pena, mas tenho de memória."

Agora, no sétimo mandato, este bisneto, neto e filho de médicos vai poder somar mais linhas ao caderno das suas memórias. Também pode tomar notas das novidades farmacêuticas, se o Presidente Marcelo tiver disponibilidade para ir visitando farmácias. Tem ali pelo menos um quase colega.

[artigo originalmente publicado no DN, a 20 de março de 2016; foto de Miguel A. Lopes, segundo o Google Images, identificada como "Presidência", no DN]

Julho 30, 2021

Presos à consciência

Miguel Marujo

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INVESTIGAÇÃO: Testemunhas de Jeová foram condenadas por não quererem fazer a tropa – nem o serviço cívico. Em Portugal, em plena democracia. Uma reportagem publicada em 2002.

 

Uma proibição de 50 anos valeu a prisão de muitos fiéis das testemunhas de Jeová, em todo o mundo. Em Portugal, também houve condenações. E dois ou três jovens terão passado pela prisão. A causa: recusa em cumprir o serviço cívico em alternativa ao serviço militar. Em nome de Jeová, que neste caso se pode traduzir em nome da intransigência dos homens.

Como José (os nomes são fictícios, a pedido dos próprios), membro das testemunhas de Jeová numa cidade do interior de Portugal. Esteve em tribunal por recusar prestar serviço cívico. Condenado com «uma pesada multa monetária» – ficou cadastrado, por uma doutrina que já não existe. Ou Manuel, filho de portugueses emigrantes nos arredores de Paris, que esteve preso um ano em 1989/90. Em França, como noutros países, muitas testemunhas passaram pelas cadeias.

Hoje, «o serviço militar é uma questão de decisão pessoal, de responsabilidade individual», disse ao PortugalDiário Pedro Candeias, da Associação de Testemunhas de Jeová em Portugal (ATJ). Mas nem sempre foi assim: da Segunda Guerra Mundial até 1996, os responsáveis veicularam a proibição do cumprimento de serviço militar e cívico.

Também diferentes acórdãos de Tribunais de Relação e do Supremo Tribunal de Justiça dão conta de vários recursos apresentados por jovens condenados, por recusa de prestação de serviço cívico.

Uma testemunha, nascida em Luanda, recenseada para efeitos militares no Laranjeiro, freguesia do concelho de Almada, baptizada numa congregação da ATJ de Almada, recusou-se servir a dois senhores: «Ali serviu como publicador cristão [que divulga porta a porta a sua doutrina]. Declarou não aceitar prestar qualquer outro serviço em substituição do serviço militar», lê-se no acórdão.

Já este ano [de 2002] uma publicação interna da ATJ – «Nosso Ministério do Reino» (Janeiro de 2002), a que o PortugalDiário teve acesso – anuncia o recenseamento militar para «varões» com 18 anos. Mais: trata-se de uma «obrigação cristã». Porque mudou a atitude? Por causa «da lei», dizem os "anciãos" da ATJ. Por «nada», respondem membros críticos da associação.

«As testemunhas de Jeová são profundamente cristãs», referiu Pedro Candeias. Por isso, seguindo «Jesus Cristo como ponto principal do ensino bíblico», devem recusar prestar serviço militar. A reserva é total, quando confrontado com as histórias individuais de "objectores ao serviço cívico": desconhece eventuais idas a tribunal, por não estar à época (finais dos anos 80 e inícios de 90) na direcção da ATJ. E a recusa da prestação de serviço cívico? «Teriam de ser os próprios a responder», diz Candeias.

Esta é a linha oficial desde 1 de Maio de 1996: a revista «A Sentinela» adverte que «o cristão dedicado e baptizado terá de fazer a sua própria decisão [em cumprir um "serviço civil compulsório"] à base da sua consciência treinada pela Bíblia». Mais: «Os anciãos designados devem respeitar plenamente a consciência deste irmão e continuar a considerá-lo como cristão de boa reputação».

«No passado, algumas testemunhas sofreram por se terem negado a participar numa actividade que sua consciência agora talvez permita», escreve-se ainda. Os críticos garantem que nunca se trataram de decisões pessoais, mas sim imposições. E quem não acatasse a ordem era excomungado, desassociado, e ninguém podia falar com eles - estavam condenados ao ostracismo.

Em 1949, no livro «Seja Deus Verdadeiro», o Corpo Governante – o órgão máximo dirigente mundial das TJ – condenou o «serviço militar combatente ou não». Proibição reafirmada em 1955, em nova edição, e em publicações internas («Despertai!», de 8/5/1975, e «A Sentinela», de 1/9/1986).

Como se lê num dos textos, de 1955: «A actividade de pregação dos ministros de Jeová lhes confere o direito de solicitar isenção de prestar treinamento militar e serviço nas forças armadas. A condição de isenção das testemunhas de Jeová também as dispensa de prestar o serviço governamental que se requer dos objectores de consciência aos serviço militares, combatentes ou não». O ano de 1996 ainda estava longe.

 

Um longo processo

Em Portugal, não há dados para quantificar o número de testemunhas de Jeová que tenham sido condenadas. Os processos ficaram dispersos por diferentes tribunais e o Gabinete do Serviço Cívico dos Objectores de Consciência (GSCOC) não recebeu esses dados sistematizados. O que se sabe é que cerca de 70/80 por cento dos objectores são fiéis daquele movimento religioso.

Até 1992, a obtenção do estatuto de objector de consciência ao serviço militar obrigatório forçava a um processo judicial, uma medida que só foi corrigida nesse ano – passando o processo a ser meramente administrativo.

Entre 1989 e 1992 foram vários os casos julgados. O Supremo Tribunal de Justiça emitiu 22 acórdãos sobre casos que envolveram testemunhas de Jeová objectoras de consciência. O incumprimento da prestação de serviço cívico implica uma pena que pode ir até dois anos.

As testemunhas de Jeová tentaram convencer os juízes que a sua recusa se fundava na sua doutrina. Os fiéis apenas se sentiam obrigados «a servir a Deus»: «Qualquer trabalho que fosse simples substituto para o serviço militar não seria aceitável às testemunhas de Jeová», lê-se em «Despertai!» (8/5/1975), uma argumentação repetida até à inversão da doutrina em 1996.

Às jovens testemunhas que recusavam cumprir a lei nunca lhes foi dito que o serviço cívico não estava ligado à instituição militar. E os processos seguiram para tribunal. Só não houve mais condenações por um acórdão do Supremo Tribunal de Justiça (STJ) – e pela actuação do GSCOC, que discretamente arrastou o reconhecimento dos objectores.

O acórdão do STJ, a 3 de Outubro de 1991, indica que «a concessão do estatuto de objector de consciência (...) não depende da prévia aceitação pelo requerente da prestação de serviço cívico, funcionando este como uma sua consequência e não uma condição». Ou seja, ninguém podia ir a tribunal apenas por manifestar a intenção de não cumprir o serviço cívico – depois de convocado, apenas podia ser condenado se recusasse a sua prestação.

Outro factor que veio aliviar a possível condenação de testemunhas de Jeová foi "prolongar" os seus processos entre o momento em que o estatuto foi requerido e a altura em que se reconheceu como objector. Por isso, verificou-se um aumento de estatutos reconhecidos a partir de 1996, com grande expressão em 1999: 2062 novos objectores, num universo de cerca de seis mil em dez anos (1992-2001).

 

«Um mundo orwelliano»

«Bem-vindo ao mundo “orwelliano” das testemunhas de Jeová», ironizaram fontes contactadas, a propósito de “sites” na internet e vozes críticas que, do interior das testemunhas de Jeová, procuram uma nova forma de viver a sua fé. «O que custa mais é transformar a partir de dentro», relataram. Por causa do «ostracismo» a que são votados os “dissidentes”, mas também os familiares que eventualmente permaneçam.

E há uma suspeição face àqueles que, de fora, procurem saber coisas sobre as testemunhas de Jeová, como revela uma advertência publicada em «Nosso Ministério do Reino» (Janeiro de 2002): «Irmãos de diversas congregações têm sido contactados por pesquisadores e outros que procuram obter informações sobre as Testemunhas de Jeová e a sua organização. (...) Se tais pessoas abordarem um publicador de congregação, ele deve fornecer o nome do superintendente presidente [um superior hierárquico]. Os anciãos [clero não remunerado] podem lidar com tais pesquisas e respondê-las de forma adequada (...).»

A falta de liberdade de expressão e os direitos humanos, a utilização da internet, as transfusões sanguíneas, o simples exercício do voto ou a recusa de cumprir o serviço cívico são alguns dos aspectos realçados pela documentação consultada.

A internet é hoje a principal fonte de críticas de muitas testemunhas de Jeová. Dezenas de sítios e páginas, sob a capa inevitável do anonimato, apresentam denúncias, procuram contradições, analisam documentação, alicerçado numa vontade – levantar «dúvidas». Um acto simples, mas reprovável, à luz do Corpo Governante, que tutela o pensamento “teológico” deste movimento religioso: «Não permita que dúvidas destruam a sua fé», lê-se num artigo publicado em «A Sentinela» (1/7/2001).

Num sítio crítico (“O Sentinela”, em alusão à revista das Testemunhas de Jeová) defende-se a internet como o instrumento que permitiu a muitos «conhecer o outro lado da moeda, as mentiras, os envolvimentos políticos, os falsos moralismos, os ensinamentos erróneos de cumprimento de profecias». Sem controlo da Sociedade Torre da Vigia (hoje Associação das Testemunhas Cristãs de Jeová), que desaconselha o uso da internet por fiéis. Curiosamente os órgãos dirigentes mantêm um “site” oficial – que se proclama como o «sítio autorizado acerca das crenças, ensinamentos e actividades das Testemunhas de Jeová».

[artigo revisto a partir do publicado originalmente no PortugalDiário.iol.pt, em 22 de março de 2002, na antiga ortografia, disponível em Arquivo.pt; foto do Congresso anual das Testemunhas de Jeová (em 2013, em Guimarães), de © Paulo Jorge Magalhães/Global Imagens]

Julho 27, 2021

Fazer amor sem suar e com a roupa interior vestida

Miguel Marujo

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Os clichés das produções de Hollywood estão registados num site divertidíssimo. Saiba tudo aquilo que os argumentistas repetem nos seus guiões.

 

Cena 7, take 2. Ação! Os dois principais protagonistas fazem amor, com a sua "roupa interior vestida". "Ela geme, mas não sua" e, depois do sexo, "ela deita-se de costas e puxa os lençóis até ao pescoço, exatamente como na vida real".

Não se trata do argumento de nenhum filme em particular. Retrata apenas três clichés das produções de Hollywood, em cenas de sexo, segundo um site divertidíssimo que regista os estereótipos dos filmes – Moviecliches.com. E clichés há muitos!

Qualquer personagem "apanha um táxi instantaneamente", basta esticar a mão e gritar. Mas se se tratar do herói do filme em perigo, "nenhum táxi aparece". É como os elevadores, que estão sempre no piso em que se encontram os protagonistas (como no filme Ricos e Pobres), exceto quando os heróis fogem dos vilões – e aí nunca mais chegam! Já se o herói foge do vilão, por elevador, o mau-da-fita consegue descer os 20 andares do prédio ao mesmo tempo.

A criatividade dos argumentistas não é posta em causa por estes detalhes (chamemos-lhes assim), mas lendo as 73 categorias disponibilizadas é impossível não reconhecer muitas cenas dos filmes que se veem. De A de "airplanes" [aviões] a W de "wood" [madeira], as mais diversas e hilariantes situações são listadas. "Há sempre uma freira em aviões que têm acidentes. Moral da história: nunca apanhem um avião com freiras" (como nos filmes Aeroplano e Aeroporto 77). Ou: "Quando os homens bebem whiskey, fazem-no sempre num copo pequeno, e bebem-no de um trago", lê-se na secção de "bares e bebidas".

Se encontramos secções que se limitam a um ou dois clichés, há outras que parecem autênticos tratados do disparate: em "Carros e condução", "os protagonistas encontram sempre lugar de estacionamento junto do seu destino"; em "mulheres", "as mulheres têm sempre as pernas e os sovacos depilados, mesmo na Idade das cavernas"; ou em "telefones", "todos os números de telefone começam por 555" (e há lá melhor exemplo que em O Último Grande Herói, quando um miúdo "entra" no filme do seu herói e para provar ao personagem de Schwarzenegger que "está" num filme, pergunta à menina do clube de vídeo o número de telefone e obtém como resposta o inevitável prefixo?!).

"Armas", "guerra", "lutas" e "vilões" são outras secções bem guarnecidas de estereótipos. E há ainda outras duas secções especiais: uma sobre "asteróides" e outra sobre o "Dia da Independência". A ficção científica sempre viveu de seres verdes, muito parecidos com... os homens.

Um site como este vive da contribuição de cinéfilos [apesar de hoje estar inativo]. E tem como mote uma frase do “rei dos clichés”, Jerry Seinfeld: "Quando se gosta de uma coisa, não se deve ser muito racional com isso. Como os vilões de todos os filmes de James Bond. Sempre que Bond entra na sua casa: 'Ah!, Mr. Bond, seja bem-vindo, entre. Deixe-me mostrar o meu plano diabólico e depois ponho-o numa máquina de morte que não funciona'."

[artigo revisto a partir do texto originalmente publicado em 2001, no Culto, site de cultura do iol.pt, hoje inacessível e cujo arquivo está apenas parcialmente disponível em Arquivo.pt; a foto é de Vicky Cristina Barcelona, filme de 2008, de Woody Allen, nesta cena com Scarlett Johansson.]

Julho 26, 2021

A indignação seletiva

Miguel Marujo

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Muitos que hoje atacam Otelo fazem-no por comparação a Salgueiro Maia. Talvez valha a pena lembrar que, em 1988, o então primeiro-ministro Cavaco Silva recusou atribuir a Salgueiro Maia uma pensão que tinha sido pedida pelo capitão de Abril pelos "serviços excecionais e relevantes prestados ao país" devido à sua participação no 25 de Abril, para a qual nunca obteve resposta. A recusa ou a falta de resposta ao pedido de Salgueiro Maia só veio a público três anos depois quando Cavaco Silva concordou com a atribuição de pensões a dois ex-inspetores da PIDE, um dos quais estivera envolvido nos disparos sobre a multidão concentrada à porta da sede daquela polícia política no 25 de Abril — e muitos do que louvam hoje Salgueiro Maia calaram então qualquer indignação.


A ler: O Otelo que escolho celebrar (de Daniel Oliveira, no Expresso) e Demasiado cedo para a história? (de Rui Tavares, no Público).

Junho 27, 2021

O trompete que foi tocar em surdina para o quarto mundo

Miguel Marujo

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"Devo muito ao Jon. Na verdade, muita gente deve muito ao Jon. Ele semeou uma poderosa e fértil semente cujos frutos ainda hoje colhemos. Parece impossível que alguém tão essencial tenha passado ao lado de tanta gente. Mas a sua revolução foi sempre sem sangue, em surdina, abafada tal como o som do seu trompete mutante."

Roubei estas palavras a Brian Eno, que li num texto promocional do Teatro Maria Matos, em 2009, no qual tropecei à pesquisa de uma foto. Cá em casa, há um disco em nome próprio, que ficou demasiadas vezes abafado na prateleira, mas descubro-o ainda e ao seu trompete em Brilliant Trees, de David Sylvian, em The Passion, a notável banda sonora original que Peter Gabriel criou para A Última Tentação de Cristo, ou em The Million Dollar Hotel (mais uma essencial aventura musical de Wim Wenders), onde surge em nome próprio e na "banda do hotel". E talvez haja ali por mais algum trompete discreto, sem sangue e em surdina, a tecer sons que nos mergulham noutros mundos, ele que desvendou um "quarto mundo". Jon Hassell morreu este sábado, 26. Tinha 84 anos.

"As Jon is now free of a constricting body, he is liberated to be in his musical soul and will continue to play in the fourth world. We hope you find solace in his words and dreams for this earthly place he now leaves behind. We hold him, and you, in this loss and grief", escreveu-nos a família.

 

 

Junho 23, 2021

Os galos pedem a nacionalização dos ovos! Abaixo o sabão amarelo! Visite o andar-modelo

Miguel Marujo

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No Maio de 68, eles pegaram nos paralelos e fizeram das ruas de Paris a sua praia da utopia. Sonhavam com a imaginação ao poder, eram realistas, por isso pediam o impossível, era proibido proibir e a liberdade era o crime que incluía todos os crimes e por isso era a arma absoluta de quem protestava.

No 25 de Abril, naquela manhã clara e limpa, a liberdade saiu à rua num dia assim e descobriu-se também uma torrente de palavras novas para dar significado à festa que se vivia. Gritou-se por aquilo que a ditadura de 48 anos tinha roubado: "Liberdade, liberdade, liberdade" foi a palavra de ordem que muitos começaram a lavrar em forma de alegria nas ruas de Lisboa, registada pelos repórteres tão comovidos como os populares, enquanto acompanhavam os militares que tinham deposto o regime. Disseram "fascismo nunca mais", como se repete "25 de Abril sempre" porque nunca devemos ter a democracia por garantida. Pediu-se "trabalho igual, salário igual", e ainda temos de o lembrar. Dizia-se "os ricos que paguem a crise" e sabemos que continuamos nós a pagar as crises dos ricos. "O povo unido jamais será vencido", sonhava-se. Havia no ar e nas palavras aquilo que, uma vez, Pacheco Pereira definiu como "uma ideia antiautoritária, uma alegria antiautoritária", pronta a "incomodar os slogans da época".

Daí nasceram alguns irreverentes slogans, palavras de ordem que devíamos recuperar. Ficam algumas destas frases, prontas a serem escritas e levadas no bolso, para as usarmos na situação certa, quando alguém nos quiser dizer basta, quando afinal quer negar a liberdade.

"Abaixo o sabão amarelo! Abaixo a tinta-da-china! Independência nacional, já!" "Abaixo a reação, viva o motor a hélice." "Inter 2, Sindical 0." "A terra a quem a trabalha. Mortos fora dos cemitérios, já!" "Abaixo a foice e o martelo, viva o Black and Decker!" "O socialismo está em construção, visite o andar-modelo." "Os galos pedem a nacionalização dos ovos." "Cimbalino ao poder, abaixo o café de saco!"

Já sabemos: a liberdade está a passar por aqui.

[artigo originalmente publicado no DN, com o título "Visite o andar-modelo", a 24 de abril de 2019; foto MM, de abril de 2014, de uma exposição na Assembleia da República sobre os 40 anos]

Maio 31, 2021

A escrita de Patti Smith entre um café e uma tosta de pão escuro

Miguel Marujo

Patti Smith no Coliseu de Lisboa em 2015 Orlando A

M Train foi escrito em cafés, entre muitas doses de cafeína, uma tosta de pão escuro e um pequeno pires de azeite. Tratou-se do segundo registo autobiográfico da cantora, que depois desta obra já teve mais dois livros publicados em Portugal.

O café quer-se curto, cheio, seja bica ou abatanado, italiana, cimbalino, em chávena fria ou escaldada, sem princípio, carioca, pingado, com ou sem açúcar. Café, sempre café. Patti Smith só quer a chávena de café acompanhada de uma tosta de pão escuro e um pequeno pires de azeite. É senha e contra-senha para as suas viagens, pela memória dos seus dias, com o marido Fred, naquele que é o seu novo livro M Train.

O livro é movido a café, como já em setembro [dse 2015] confessava Patti Smith ao DN, numa conversa em que se antecipava o seu concerto em Lisboa. "Decidi que este livro não teria guião, desenho ou agenda, apenas me sentava e escrevia. Sentava-me num café, bebia o meu café, e escrevia. E assim fiz, escrevi. M Train é como mind train, o comboio da mente, como um comboio de pensamentos, e escrevi sobre cafés, viajar, o meu último marido, a pessoa que eu amava."

Este comboio é também um longo poema de amor a Fred Sonic Smith, o rapaz de Detroit que "foi um encontro inesperado" na sua vida e que "lentamente" alterou o rumo da vida de Patti.

Sentada à mesa do pequeno Café 'Ino, em Greenwich Village, na sua Nova Iorque adotiva, Patti rapidamente deixa a conversa com Zak, que lhe "tira o melhor café aqui das redondezas", para viajar, pela memória, pela mente, para os trópicos, entre o Suriname e a Guiana Francesa, como depois se senta no Café Pasternak , em Berlim, onde se senta na "mesa habitual". É quase sempre assim que se inicia a chegada a um local. "Deixei as malas no quarto e fui de imediato para o café", escreve de Berlim. Podia ser o seu café imaginário, que gostava ter um dia. Ou outro qualquer, pelo mundo, onde se senta. E nomeia pelo menos um em cada cidade.

Já se sabe: este M Train é também diferente do anterior livro autobiográfico de Patti. Agora, disse, "quis escrever um livro muito diferente" de Just Kids porque nesse livro a artista "tinha uma coisa específica que tinha que escrever". E explicou ao DN: "O Robert Mapplethorpe pediu-me que escrevesse Just Kids antes de ele morrer, sobre a nossa vida em comum e a nossa juventude, sobre a sua morte e arte, era muito específico."

M Train é diferente: é "um mapa das estradas da minha vida", apresenta a artista. "É mais autobiográfico. Ao mesmo tempo partilho com o leitor a vida como ela é, para mim, o que faço, como eu a guio. Os livros que ando a ler, as coisas que me preocupam, os meus pensamentos, a minha meditação. É um pouco divertido - e tem muito café", explicava-se ao DN. Não é só os livros que lê Patti, são quem a marca. E por isso Patti convence Fred a viajar de avião e carro até à fronteira entre o Suriname e a Guiana Francesa, atravessando o rio Maroni de piroga até Saint-Laurent-du-Maroni, antiga colónia penal e de deportação dos condenados que cumpriam sentença na terrífica ilha do Diabo.

O que leva a artista até aquela cidade onde chove sempre não é a famosa história de fuga de Henri Charrière, que escreveu um livro (Papillon) e deu origem ao filme com Steve McQueen - é antes a vontade de ver aquilo que Jean Genet chamava de "chão sagrado", ele que tinha sido condenado a cumprir pena, mas que já não o chegou a fazer ali porque o presídio foi encerrado. Patti recolheu pedras que fará chegar ao escritor através de William S. Burroughs. M Train é também isto: a soma encantada de encontros e referências literárias.

Em setembro [de 2015], Patti admitia ao DN: "É difícil explicar o livro, foi desdobrando-se em tempo real, mas regressa ao reino da memória." Patti Smith tem na escrita a mesma disponibilidade que mostra voz e no ritmo pausado com que fala, longe das guitarras com que ilustra a sua poesia ou dos sons viscerais com que canta. Mas a música também se nota em cada uma das páginas deste comboio movido a café.

[Artigo originalmente publicado no DN, em 7 de maio de 2016. Foto de Patti Smith no Coliseu de Lisboa em setembro de 2015 © Orlando Almeida/Global Imagens]

Maio 18, 2021

"Ainda aqui estou na terra dos vivos." Uma canção para o Armistício

Miguel Marujo

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Sinéad O'Connor, Brian Eno, o rolling stone Robin Wood e o pink floyd Nick Mason juntaram-se em homenagem aos homens caídos nas trincheiras da I Guerra Mundial.

 

À voz grave do ator Cillian Murphy, que nos lê uma carta do tenente Michael Thomas Wall, do regimento real irlandês, junta-se a voz inconfundível da cantora Sinéad O'Connor, para nos trazerem o sofrimento dos homens que, há 100 anos, celebraram a paz nas trincheiras da Europa. Michael não sobreviveu à guerra, mas as suas palavras inspiraram o projeto da nova editora Evamore, que homenageia todos aqueles que caíram tombados.

"Deus me conceda que chegue em segurança", escreve o jovem irlandês à sua mãe, que esperava regressar a casa. "Ainda aqui estou na terra dos vivos", nota Michael. "Eu vi os olhos cansados de homens duros cheios de lágrimas e nunca vi uma carnificina como esta, nem um único corpo humano foi deixado intacto", descreve numa leitura comovente de Cillian Murphy, o ator de Dunquerque.

A papoila da capa não engana: este é um disco de homenagem aos homens mortos na I Guerra Mundial, assinado por Sinéad O'Connor, com o produtor e músico Brian Eno, o guitarrista dos Roling Stones, Ronnie Wood, o baterista dos Pink Floyd, Nick Mason, os coros de Imelda May e a narração de Cillian Murphy, numa produção de John Reynolds.

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Editado em EP, que disponibiliza quatro versões para o tema One More Yard - uma expressão que era usada pelos soldados nas suas cartas e diários referindo-se aos avanços através da chamada terra de ninguém - este projeto conta com a composição de Brian Eno para as palavras lidas por Murphy e o poema da canção interpretada por Sinéad inspira-se também nas palavras do soldado morto.

As verbas angariadas com a venda deste disco serão para apoiar a investigação de cancro. No jornal britânico The Independent, Nick Mason explicou que o projeto One More Yard (disponível nas plataformas de streaming, como o Spotify) "permite que pessoas como eu prestem homenagem aos jovens que há 100 anos lutaram pela nossa liberdade, mas também para fazer algo para ajudar os jovens que enfrentam hoje o cancro".

Já Ronni Wood invocou a sua própria experiência com a doença. "Como alguém que teve de lidar com o cancro, estou muito feliz por fazer parte desta nova iniciativa de consciencialização - é uma ótima ideia apoiada por algumas pessoas científicas brilhantes", disse. Eu adoro a canção One More Yard, uma triste história verdadeira com uma melodia assombrosa. Foi um prazer tocar neste tema."

[artigo originalmente publicado no DN em 12 de novembro de 2018; foto de cima: na I Guerra Mundial, aspeto das trincheiras portuguesas, com membros do Corpo Expedicionário Português na Flandres, como descrevia a Ilustração Portugueza, de 25 de março de 1918, in © Arquivo DN.]

Maio 10, 2021

Não vai ter golpe. (De quando o Brasil entrou em ebulição)

Miguel Marujo

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Entre aquela noite de vento no verão passado [2015] e esta tímida primavera, o Brasil entrou em ebulição e, há pouco mais de uma semana [em abril de 2016], deputados encheram a boca com deus e a família para justificar meras jogadas políticas, enquanto um deles invocou um torturador da ditadura militar brasileira como sendo "o terror de Dilma", a Presidente da República que foi torturada.

Esse golpe de 1964, louvado pelo deputado que cuspiu na democracia que lhe permite o dislate, foi o mesmo que levou Gilberto Gil e Caetano Veloso a deixarem para trás o sol e o sal da Bahia em que nasceram e cresceram e a exilarem-se em Londres. Agora, regressam a Portugal, desta vez nos coliseus do Porto e de Lisboa, para cantarem a sua amizade longa de mais de cinco décadas (depois de terem atuado a 31 de julho do ano passado em Oeiras), no espetáculo Dois Amigos, Um Século de Música, a digressão que festeja 50 anos da carreira de cada um.

Estávamos em julho de 1969 e a escolha da capital britânica para o exílio devia-se apenas à música, explicou Gil. "Paris tinha um meio musical aborrecido, Londres era o melhor sítio onde um músico podia estar", justificou nas páginas do jornal The Guardian. Curiosamente, Lisboa e Madrid ficavam fora do mapa do exílio porque os dois países também "viviam sob uma pesada ditadura". As ditaduras definiam o rumo dos dois amigos: deixaram o Brasil, onde tinham estado presos seis meses - dois na cadeia, quatro em prisão domiciliária - para chegarem à vida londrina onde experimentaram fundir o tropicalismo e o samba que traziam de Salvador e do Rio de Janeiro com o rock, o funk, o reggae ou o jazz que por esses dias ouviam nas ruas e nos clubes de Londres.

Ao celebrarem por estes dias 50 anos de música, eles têm o Brasil como pano de fundo: o golpe de 1964 assomou nas manchetes dos jornais de 2016 - e Caetano (com Gil) voltou a recordar esses tempos, num programa da televisão brasileira, Altas Horas. "A passeata", disse da manifestação de domingo, dia 13 de março, "não era suficientemente diferente da passeata da Família com Deus pela Liberdade que produziu o golpe de 1964, que ajudou a dar o golpe. O buraco é sempre mais em baixo, mas a gente tem que olhar com objetividade", apontou.

Novo disco

É esta objetividade que um e outro, Gilberto Gil e Caetano Veloso, colocam na música que fazem, celebrada agora numa digressão que começou com 25 canções escolhidas e viu o seu repertório crescer. Pelo meio já houve disco, com o mesmo nome da digressão, Dois Amigos, Um Século de Música (Ao Vivo), publicado em janeiro deste ano, que recupera o concerto de São Paulo, um dos 44 espetáculos que passaram por 35 cidades em 21 países, com uma audiência de umas 135 mil pessoas.

Os "veneráveis velhos da música brasileira", como lhes chamou o crítico da revista da especialidade Songlines, demonstraram bem mais do que aquilo que Alex Robinson ouviu no disco, a voz cansada e rouca dos 73 anos de Gilberto Gil, ou a "melhor forma" da doce voz de Caetano Veloso, também com 73 anos. Quem ouviu Gilberto Gil no verão passado, em Oeiras, a fazer percussão do seu violão e a usar a voz como o instrumento que soou mais alto enquanto cantava "Não tenho medo da morte mas sim medo de morrer", desconfia que seja assim, apesar da versão mais contida registada em CD de Não Tenho Medo da Morte, que vem já na segunda parte do concerto.

Os veneráveis velhos amigos transportam memórias de mais 30 álbuns, cantando à vez ou em conjunto, tocando violão e guitarra, num despojamento instrumental que não afasta a linguagem pouco ortodoxa que os dois sempre imprimiram à sua música, a solo ou em colaboração. Com a ditadura militar que os levou ao exílio, Caetano e Gil também fugiram à obrigação canónica que a esquerda intelectual queria impor contra o imperialismo, fosse na recusa das letras em inglês ou do uso da guitarra elétrica.

Back in Bahia

Hoje são dois corações vagabundos que resistem a adversidades, como aquele vento que assobiava aos microfones ou a inclemente distância de um palco num estádio como o do Parque dos Poetas, em Oeiras, no último verão. Agora, nos coliseus, numa série de quatro concertos que começou ontem à noite, haverá outra intimidade para acompanhar um alinhamento que, sem surpresas, deverá abrir com Back in Bahia, o regresso à Bahia quando em 1972 os dois deixaram o exílio político.

Sempre com os dois no palco, até quando um deles não toca nem canta, de camisa negra Caetano, de roupa branca Gil, estes dois rapazes deverão socorrer-se de composições que não são suas. E à abertura com uma canção de Gilberto - que foi ministro no primeiro governo de Lula da Silva - o concerto deve fechar com A Luz de Tieta, a feliz composição de Caetano que os portugueses reconhecem da telenovela.

Ao exílio, à subversão, ao experimentalismo, um e outro sempre olharam bem de perto para o seu Brasil. Canta Gil, podia também ser Veloso a dizer: "Não tenho medo da morte/ Mas sim medo de morrer/ qual seria a diferença/ Você há de perguntar/ É que a morte já é depois/ Que eu deixar de respirar/ Morrer ainda é aqui/ Na vida, no sol, no ar." Como estes dias que o país vive. E um dia eles voltam para lá, para a Bahia, de onde vieram, para a cantar e contar, como eles cantam. "Agora, os acontecimentos estão se atropelando. Precisamos de ter calma para olhar os acontecimentos. Não temos uma ditadura, mas o Brasil é um país desumanamente desigual e toda movimentação no sentido dessa tentativa de diminuir a desigualdade enfrenta a oposição da elite. Eu desconfio", argumentou Caetano na televisão.

No concerto em Salvador, no dia 2, quando o público se manifestou durante o tema Odeio (e Caetano canta "odeio você, odeio você, odeio você" - é apelativo, entende-se), usando as palavras de ordem dos apoiantes da presidente, "não vai ter golpe", Caetano concordou, "não vai" (mas a Câmara dos Deputados votou mesmo a abertura do processo de impeachment a Dilma Rousseff). Não vai ter golpe, não. Pelo menos nestas noites no Porto e em Lisboa. Sabemos bem com que linhas se tecem estas vozes.

[artigo originalmente publicado no DN, em 25 de abril de 2016, com o título "Não vai ter golpe. Caetano e Gil"]

Abril 28, 2021

"Jesus almost got me". Morreu Anita Lane

Miguel Marujo

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[Anita Lane, 1959-2021*]

Love is cruel/ Love is truly absurd/ Jesus almost got me/ I don’t know how many prayers he overheard.

Escassas informações apontam para a morte de Anita Lane, a voz vertiginosa que nos embalou em tantas canções com os Birthday Party, Bad Seeds, Nick Cave, Mick Harvey ou a solo. E vive na música.

* - É um mistério de vida na hora da morte. Não é claro o ano de nascimento de Anita: o Público toma como boa a data de 1959, que a Wikipedia refere como "c. 1959", já o site The Quietus, disponível num dos links deste post, começou por apontar 1962, mas corrigiu para 1959, com "62 anos", atribuindo a informação a fonte da editora. Para o jornal britânico The Guardiano mistério é sintetizado numa frase sobre esta natural de Melbourne: "No cause of death was given, and her age – believed to have been in her early 60s – could not be immediately confirmed."

Março 30, 2021

Fragmentos soltos de um sorriso

Miguel Marujo

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Faltam-me sempre as palavras, quando as notícias pedem recato. E, logo pela manhã, o Carlos escreveu-nos tudo: “A Xexão partiu no silêncio da noite para a margem da aurora.” Já se esperava, mas nunca esperamos­­, e as memórias assaltaram-me, num atropelo de afetos e histórias e canções e sorrisos – aquele permanente sorriso com que nos acolhia.

Essas memórias permanecem. Como a de um certo dia, num encontro do MCE, em que nos falou de relações – e foi ao francês para nos dizer que “conhecer” se diz connaître, que é como quem diz co-nascer. E deixou-nos essa proposta. Era assim: nunca se impunha, nunca nos impunha uma ideia, sugeria-nos. Mesmo nos momentos em que a minha vida se complicou, não tinha nenhum juízo para fazer, apenas palavras de esperança e uma enorme vontade e disponibilidade de ouvir. E questionar. E interpelar.

Houve uma noite em que nos convidou para jantar em casa, ainda no Príncipe Real – e eu brincava sempre com a toponímia daquela morada, fascinava-me a Travessa do Abarracamento de Peniche – com uma vista de perder o fôlego, a colina a descer o casario fora até ao rio. Pediu ao João Borges para levar a guitarra portuguesa e à Ana Luísa o seu violino, e a noite foi mágica, por entre gargalhadas desgarradas e conversas soltas, saltitando entre as coisas banais do quotidiano e as políticas da cidade, do país e do mundo, uns e outros com a mesma leveza e inquietação de sempre. Em cada gesto punha solenidade e risco, como no poema de Sophia.

Lembro-me de nos contar porque não conseguia ouvir sons repetitivos, como uma simples caneta a bater numa mesa. Relatava aqueles dias de tortura, às mãos de pides, com a serenidade que sempre colocou nas palavras. O 25 de Abril apanhou-a na prisão e por isso dizia ser a data da dupla libertação. Há quase um ano, no dia da Liberdade, escreveu que “não a queremos só mais alguns anos”. Ela, a liberdade, “veio para ficar e nós só temos de a defender sempre. É uma condição da democracia que é o regime que permite viver em comum dignamente.”

Como tão bem escreveu o Carlos Antunes, no 7Margens: “Habitava-a uma genuína alegria pela vida. Alegrava-se com os êxitos dos amigos, com ver os mais pequenos da família a crescerem em autonomia, com uma vida reencontrada, com um gesto de bondade, com os jacarandás em flor… Estava atenta ao acontecer da vida. Alegrava-se muito com o bem, com a liberdade, com a justiça e com a bondade. Amava a vida. E perguntava-nos, aos amigos, que lugar tinha a alegria na nossa vida. Desfrutava do prazer do lúdico e da fruição gratuita. Não alinhava nada com uma certa veneração da tristeza.”

Quando olho para a minha caixa de correio, as suas mensagens metem de tudo, preocupações com notícias, as muitas atividades em que se envolvia, já no bairro de Campo de Ourique, breves perguntas, “como estás? e a nossa Clarinha? tão crescida, ela”, e convites para jantar ou a visitar, e de como este ano nos foi roubando essa vontade. Mais recentemente dizia-me, “não estou famosa, mas estou bem disposta”, e da última vez que falámos, há um par de semanas, falhou-me a voz. “Beijinho, afilhado.” Beijinho, madrinha.


Maria da Conceição Moita (1937-2021)(A foto é de 2007.)