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É num corpo de letra courier, uma fonte tipográfica que imita a batida de uma máquina de escrever (e que replicamos neste post), que Nick Cave escreve as cartas de resposta aos fãs que lhe deixam perguntas sobre a sua criação, a poesia ou a música, a sua vida, a morte do filho e a sua fé ou os sonhos de que não se lembra — retomando os temas que percorrem o seu longo percurso criativo de 40 anos, em que o amor, a morte, o sexo e a religião se cruzam de forma quase omnipresente. 

Cada uma destas cartas tem sempre com a mesma assinatura de despedida, “love, Nick”. E é um gesto de amor aquele que o escritor de canções australiano, radicado na Grã-Bretanha, nos apresenta em The Red Hand Files, o site que já vai em 11* capítulos, com uma atualização regular, e que nos desvela os segredos de Nick Cave em ficheiros nada secretos — e desconcertantes, como também é Nick.

Depois do lançamento do seu álbum Skeleton Tree, em 2016, cuja gravação ficou marcada pela morte de Arthur, no verão de 2015, Nick Cave arrumou a cabeça e expiou o luto também numa digressão que, ao longo de 2017 e 2018, o levou aos palcos da América, Oceânia e Europa. E escrevendo, escrevendo muito.

A primeira questão de todas, escolhida por Nick, foi colocada pelo polaco Jakub, e e relaciona diretamente o luto com o processo criativo. Jakub recorda-lhe que em One More Time with Feeling, o documentário que acompanhou as sessões de gravação de Skeleton Tree, Nick admitia que tinha perdido o controlo sobre a escrita durante algum tempo e pergunta-lhe se estaria mudar como compositor. O cantor australiano admite que sim, que durante “um ano foi difícil descobrir como escrever” — tudo tinha desmoronado, o centro da sua vida e da vida de Susie, a mulher, tinha morrido. Susie e Nick sentiam-se “uma espécie de estrangeiros flutuando num espaço profundo”.

“A boa notícia”, respondeu Cave a Jakub, “é que no ano passado senti-me intensamente ligado à minha escrita”. E acrescentou: “Algo definitivamente mudou e escrevi muitas coisas novas. Não posso dizer-te o alívio que foi. Eu estou a escrever muito mais e é algo forte e focado, na minha opinião.” 

O desmoronamento na vida de Nick Cave não foi apenas o da perda física de um dos seus filhos. Aquilo que está no centro da sua vida é ainda, “no caso de um artista”, “um sentimento de espanto”. “Talvez seja o mesmo para todos”, admite o músico. “As pessoas criativas em geral têm uma propensão aguda para a maravilha. Um grande trauma pode roubar-nos isso, a capacidade de ficar impressionado com as coisas. Tudo perde o brilho.”

Ouvindo Skeleton Tree, composto durante esse tempo de dor, sabemos que há um espanto permanente em cada uma das suas canções, um sobressalto indizível e um arrebatamento por uma polifonia de afetos. O brilho está lá. Nick Cave revê-se nas palavras de S., uma fã que lhe escreve de Londres, sobre o processo criativo, de que é sempre algo que se vê de forma imperfeita ou apenas pelo canto do olho.

“Eu gosto muito da sua descrição do processo criativo: ver algo imperfeito ou pelo canto do olho. É isso mesmo. Uma boa ideia de música nunca se aproxima de ti, nunca te olha nos olhos, nunca se anuncia — pelo menos não na minha experiência. Ideias líricas são tão ilusórias quanto pirilampos: eles são espíritos que voam entre as árvores. No momento em que lhes dás atenção, eles foram-se.”

Na Califórnia a gravar novo álbum

Nick Cave vai além do que lhe perguntam, dá notícias do que está a fazer ou do que poderá acontecer, parece deixar cair a armadura de quem desafia a natureza quando sobe a um palco. 

Em setembro passado, na segunda carta, Jenn, de Boston (EUA), pergunta-lhe se tem animais em casa — tem dois cães: “Um cão lunático gentil de olhos tristes e com cancro chamado Otis e um pequeno salsicha psicótico chamado Nosferatu, cujo único grande empreendimento na vida é morder-me.”

Antes de falar dos cães, Cave começa por dar uma novidade. “Enquanto escrevo isto, estou sentado num estúdio com Warren na Califórnia a trabalhar no novo disco.” E desvela um pouco do que está a acontecer: “É uma coisa estranha e maravilhosa e muito diferente do que aconteceu antes. Estamos sob o seu feitiço.”

Em tempos em que as mediações tradicionais são postas em causa todos os dias, através das redes sociais — com atores e atrizes, músicos, modelos, um sem mundo de famosos e antes intocáveis a interagirem com os seus admiradores e detratores, Nick Cave surpreende-se com a reação que o site teve logo no primeiro instante. “Tenho sido inundado com perguntas. A adesão a The Red Hand Files apanhou-me completamente desprevenido. Por isso, muito obrigado a todas e a todos.”

O australiano sempre foi um magnífico contador de histórias, como provam também as suas canções (e os romances a que já deu vida) ou as prosas breves deste site. Como quando Irina, de Londres, questiona se no “bloco-notas cheio de palavras” de Nick grava peças do seu subconsciente e atreve-se a perguntar como serão os sonhos e como influenciam eles a escrita do australiano.

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A resposta é desconcertante: “Assassinos cruéis sequestraram o Warren. Os sequestradores enviaram-me uma lista de exigências. Eu tive que escrever uma carta de volta concordando com essas exigências. A carta que eu estava a compor tinha exatamente o mesmo formato de uma edição do Red Hand Files, com a mesma fonte cambria de vermelho sangue, o mesmo fundo de cor creme. O problema era que eu estava a ter um problema técnico em formatar a carta. As letras continuaram a lutar. A fonte continuou a mudar. O pequeno logotipo da mão vermelha não ficava de pé. O tempo estava a esgotar-se. E eu acordei, a tremer.” Era um sonho, bem se vê, mas pelo sim pelo não Nick telefonou a Warren. “Parece-me que ele está bem.”

Warren Ellis, que foi o responsável pela direção musical de Skeleton Tree, começou a colaborar com Nick Cave na gravação de Murder Ballads, e desde então tem ganho preponderância na definição do som do australiano e da sua banda. E tornou-se um amigo, concorda Cave, em resposta a vários fãs que o questionaram sobre… Ellis. “Há uma certa santidade nessa amizade, na medida em que ela atravessou todos os tipos de problemas nos últimos vinte e poucos anos, mas permanece resiliente como sempre. A nível profissional, desenvolvemos um estilo de composição baseado quase exclusivamente num tipo de intuição e improvisação espiritual que, como diz Henry Miller, parece calmo, alegre e imprudente.”

Foi com o texto em que falou explicitamente da morte do filho que estes Red Hand Files se projetaram no espaço mediático. A americana Cynthia conta-lhe que experimentou a morte do pai, da irmã e de seu primeiro amor nos últimos anos e que sente que, “de algum modo, mantém a comunicação com eles através de sonhos”. E Nick e Susie vivem o mesmo?, pergunta-lhe então. 

“Sinto a presença do meu filho, por todo o lado”, diz-lhe Nick Cave. “Parece-me que se amamos, sofremos. É esse o pacto. O amor e o luto estarão para sempre ligados”, escreve o músico. “O luto é o lembrete terrível das profundezas do nosso amor e, tal como este, não é negociável.”

A dor, conta-nos ainda, “ocupa o núcleo do nosso ser e estende-se dos nossos dedos até aos limites do universo. Dentro dessa volta existem todo o tipo de loucuras: fantasmas, espíritos, sonhos, tudo o que na nossa angústia desejarmos existir.”

Há uma espiritualidade que atravessa música e a poesia de Nick Cave e quando questionado sobre Deus — por um ateu, por exemplo, que lhe pede que explique a sua fé —, o australiano prolonga a resposta para lá do óbvio. “Há décadas que ando às voltas da ideia de Deus. Tem sido um lento arrastar pela periferia de Sua Majestade, com a caneta na mão, tentando escrever ao Deus vivo. Às vezes, acho que quase consegui. Quanto mais me torno disposto a abrir a minha mente para o desconhecido, a minha imaginação para o impossível e o meu coração para a noção do divino, mais Deus se torna aparente. Acho que temos aquilo que estamos dispostos a acreditar e que a nossa experiência do mundo se estende exatamente aos limites de nosso interesse e credibilidade. Estou interessado na ideia de possibilidade e incerteza. A possibilidade, pela sua própria natureza, estende-se além dos factos prováveis, e a incerteza impulsiona-nos para a frente. Eu tento encontrar o mundo com uma mente aberta e curiosa, insistindo em nada mais do que a liberdade do olhar para lá do que achamos que sabemos.”

E perante outra questão, sobre se Deus existe, a resposta dada é aquela que ouvimos nas suas canções. “Eu não tenho nenhuma evidência, mas não tenho a certeza de que essa seja a pergunta certa. Para mim, a questão é o que significa acreditar.” E acrescenta: “Acho impossível não acreditar, ou pelo menos não estar envolvido na procura disso, o que de certa forma é a mesma coisa. A minha vida é dominada pela noção de Deus, seja a Sua presença ou ausência. Eu sou um crente — na presença de Deus e na Sua ausência. Acredito na procura em si, mais do que no resultado dessa procura. Como extensão dessa crença, as minhas músicas são perguntas, raramente respostas.”

[Artigo publicado originalmente no DN, em 10 de dezembro de 2018, ligeiramente revisto; * — à data da publicação do artigo original, agora já são 23 capítulos]

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Este outono que se ouve no feminino

por Miguel Marujo, em 18.12.18

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Há novos álbuns no feminino que nos apontam três direções substantivamente diferentes mas dos quais retiramos idêntico prazer no posto de escuta. O outono ganha mais calor com as novas edições de Marianne Faithfull, Cat Power e Julia Holter. Abrimos o apetite.

Marianne Faithfull. Coração aberto na mesa de operações

Ainda miúda, com 17 anos, Marianne Faithfull revelou que seria mais fã dos Beatles do que dos Stones, um Benfica-Porto como tantos com que a música anglo-saxónica gosta de alimentar os nossos ouvidos. Ao 21.º álbum, com 71 anos, Marianne parece desdizer aquilo que confessava em 1964, ano em que cantou uma canção de Mick Jagger e Keith Richards, As Tear Go By, que a projetou para a fama e para a carreira.

Basta ouvir As Tear Go By, de novo, agora na sua voz envelhecida, rouca e sofrida. "Este é o disco mais honesto que já fiz. É uma cirurgia de coração aberto, querido", confidenciou à jornalista do Guardian, em setembro passado, no seu apartamento de Paris.

A voz rugosa de Marianne que ouvimos em Negative Capability, assim se chama este álbum, apresenta-nos uma viagem que nos fala de dor, tristeza e solidão, como aquela perda imensa que perscrutamos nos últimos álbuns de Johnny Cash, mas também de forma nítida noutro man in blackque canta com Marianne neste disco: Nick Cave. (E também há Warren Ellis, o homem que ajuda a dar textura às sombras de Cave em Skeleton Tree, que produz este disco com Rod Ellis, parceiro de PJ Harvey, e Head.)

Se o single que nos trouxe este longa duração, The Gypsy Faerie Queen, com Nick Cave na segunda voz, era já um excelente cartão de visita para o que agora nos é revelado (com toques muito próximos do cancioneiro do australiano), há canções que não enganam o envelhecimento, num diálogo pessoalíssimo sobre solidão e amor, como admitiu na entrevista ao jornal britânico. A canção de abertura, Misunderstanding, diz-nos isso mesmo: "Then you find yourself alone/ No explanation you can give... such a shame, no way to live."

Podemos voltar a As Tears Go By, nos versos que nos falam do ocaso do dia, e ver como aos 71 anos esta canção é diferente daquela que lhe ouvimos com 17: "It is the evening of the day/ I sit and watch the children play/ Doing things I used to do/ They think are new/ I sit and watch as tears go by". O coração está aberto na mesa de operações.

Marianne Faithfull, Negative Capability (Panta Rei)

 

Cat Power. Bendita nega

A americana Cat Power também abriu o seu coração em Wanderer, um disco em que Chan Marshall, o seu nome de batismo, respira serenidade em cada poro e a cada sopro, seis anos depois de Sun. Este disco nasceu de uma nega: a sua editora de há muito, a Matador, não gostou do que Cat lhes mostrou e recusou a sua edição. E também nasceu de uma revelação: Chan descobriu-se com uma doença, logo depois da edição de Sun, e logo depois ficou grávida.

Era impossível que este álbum fosse indiferente a estes acontecimentos tão antagónicos - e não é. Wanderer é terno, seduz pela voz, que ganha uma centralidade que não havia na pop que flirtava com a eletrónica no disco anterior.

Para ajudar mais ainda, outra femme terrible, Lana del Rey (que este ano já nos trouxe dois temas num registo muito seu) junta-se a Cat Power no excelente dueto que é Woman, um manifesto pessoal e libertador - e que se tornou um grande sucesso a fazer roer de inveja os executivos da Matador. E há também Stay, uma versão do tema de Rihanna que se despe para só contar a voz de Cat. Na medida exata, como é todo o álbum.

Cat Power, Wanderer (Domino Records)

 

Julia Holter. Estranha-se e entranha-se

Quem for ouvir Aviary à espera de algo como Sea Calls Me Home ou Feel You, canções maiores que nos apresentaram Have You in My Wilderness, de 2015, desengane-se: três anos depois, Julia Holter eleva a sua pop, que se equilibrava até aqui entre o lo-fi e a eletrónica, a um experimentalismo que pede uma audição atenta e demorada. Sem concessões.

Turn The Light On, o tema de abertura, é um excelente exemplo de como este é um disco a pedir tempo: há uma voz que plana por cima de sons que se prolongam, há fragmentos que se interrompem, procuram outras direções.

É impossível, nesses fragmentos, não ouvir ecos de Kate Bush ou Tori Amos, mas também a magia de Julianna Barwick e, sobretudo, uma voz a arriscar algumas amplitudes polifónicas de Meredith Monk. Arrisque-se o cliché: primeiro, estranha-se, depois entranha-se.

Julia Holter, Aviary (Domino Records)
[Publicado originalmente no DN, em 23 de novembro de 2018]

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Uma festa verdadeiramente dionisíaca

por Miguel Marujo, em 17.12.18

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O regresso dos Dead Can Dance faz-se da forma dionisíaca a que nos habituaram Brendan Perry e Lisa Gerrard, por entre ritmos encantatórios, percussões hipnóticas e a beleza de sons recolhidos na Natureza.

Neste seu nono álbum de estúdio, Dionysus, o primeiro em seis anos desde Anastasis, os australianos voltam a transportar-nos por entre experiências folclóricas, onde ouvimos o mistério das vozes búlgaras, o transe lânguido oriental ou um canto que nos remete para polifonias corsas.

A sua sonoridade continua a fazer a ponte entre a antiguidade e a modernidade sem qualquer dificuldade - e que já há muito reconhecemos na obra dos Dead Can Dance, sobretudo desde os espantosos The Serpent's Egg (1988) e Aion (1990).

Dionysus, que mostra na capa uma máscara nativa mexicana, divide-se em dois "atos" e sete "movimentos". Há uma solenidade na sua música que já arriscou mais, ao longo de um percurso de 37 anos (Brendan e Lisa juntaram-se em Melbourne em 1981), mas este Dionysus, que parte dos mitos do deus grego Dionísio, mantém intactas a aura misteriosa e a voluptuosidade com que o dueto vai desenhando as suas composições, como se ouve em Dance of the Bacchantes ou The Moutain.

Convocados os espíritos (o álbum foi lançado a 2 de novembro), os sete temas de Dionysusincorporam sons de colmeias da Nova Zelândia, o chamamento de pássaros de florestas da América Latina ou de um pastor dos Alpes suíços e do seu rebanho, passeiam-se por entre berimbaus brasileiros, flautas aztecas ou as cordas de uma gadulka búlgara e de uma balalaica russa.

Na sublime The Invocation, por entre ritmos que remetem para haréns de impérios otomanos ou persas, Gerrard é acompanhada pelas cantoras búlgaras (que também se fazem ouvir noutros temas), com quem tem andado em digressão - depois da edição de BooCheeMish, álbum do grupo Le Mystère Des Voix Bulgares com Lisa, num mantra de dafs iranianos ou tambores davul turcos.

Toda esta amálgama de ritmos pode deixar o ouvinte mais desatento de pé atrás, mas nestes quase 40 anos de percurso (e que Lisboa poderá comprovar em dois concertos já esgotados em maio de 2019), a maestria dos Dead Can Dance tem sido exatamente a de construir um som que se revela coerente, equilibrado, grandioso, eloquente e sempre misterioso. A transcendência mora aqui.

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[Publicado originalmente no DN, em 18 de novembro de 2018]

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Com uma primavera que andou frouxa e um verão que se viveu entre o tímido e o calor mais fogoso, podemos sempre olhar para a primeira metade do ano e recuperar música desses dias mais frios, que nos pode ajudar a ultrapassar a indecisão dos elementos, a canícula e o nevoeiro, o vento frio ou as chuvas que irrompem entre o sol.

Recuperamos seis discos do inverno e da primavera, todos já editados em 2018, para melhor nos refrescar nestes dias de calor. A ordem é estritamente aleatória, a música é para todos os sentidos e gostos.

 

Beach House, 7

Ao sétimo álbum de originais, Victoria Legrand e Alex Scally limitaram-se a nomeá-lo como 7. Mas não há qualquer crise de criatividade numa obra que ousa seguir novas direções no desenho das composições dos Beach House. Depois dos álbuns editados em 2015, Depression Cherry e Thank Your Lucky Stars, e de uma compilação de lados B no ano passado, este 7 enuncia logo nos primeiros acordes a vontade de mudar, onde só aparentemente se resiste à mudança. Entranha-se de tão viciante.

Bella Union, 17,90€ (CD), 27,90€ (LP)

 

Ash, Islands

Cinco anos depois de um regresso que já parecia improvável, os Ash regressam à casa onde se sentem mais à vontade para se divertirem com muitas malhas, na fórmula clássica de guitarra, baixo e bateria, numa linguagem que lhes valeu um culto relativo lá para as Ilhas Britânicas, incluindo a sua Irlanda do Norte natal. Com este Islands há muita adrenalina, que nos fazem bater o pé, como se voltássemos a dias de juventude, e há canções, como It's a Trap ou Incoming Waves, que apetecem ouvir em repeat — mas não é por aqui que viajaremos para o futuro.

Infectious/BMG, 14,30€ (CD)

 

Eels, The Deconstruction

De um dos autores mais desconcertantes nas poesias que canta e autor do sucesso improvável de Shrek, com My Beloved Monster, Mr. E. (senha para Mark Oliver Everett) volta a imprimir o seu cunho muito próprio neste The Deconstruction. Basta ouvir os primeiros versos do tema-título ("The deconstruction has begun/ Time for me to fall apart/ And if you think that it was rough/ I tell you nothing changes/ Till you start to break it down"), ou logo depois Bone Dry, onde E. canta candidamente "Bone dry/ You drank all the blood/ My heart is bone dry/ Can't give you more 'cause you took all of it", rematado com um Sha la la absolutamente desarmante. Como desconcertante é este álbum dos Eels, pintado de pequenas pérolas, como Sweet Scorched Earth e In Our Cathedral.

E Works Records, 14,95€ (CD), 35,10 (2LP)

 

TIPO, Novas Ocupações

O tipo que se esconde atrás deste projeto é Salvador Menezes, que já conhecíamos dos You Can't Win Charlie Brown — e isso já é um ótimo cartão-de-visita. Português de Lisboa, TIPO (grafa-se em maiúsculas) arrasta-nos com este Novas Ocupações para um delicioso torpor melancólico que pede uma cerveja ao fim de tarde, enquanto nos canta um "deixa a mama e tenta". Salvador deixou-se pois, tentou e conseguiu, neste disco produzido com Benjamim (que parece ter um toque de Midas em tudo o que faz) e Afonso Cabral, companheiro na aventura dos You Can't Win... Fazem o nosso tipo estas dez canções.

Pataca Discos, 12,60€ (CD)

 

The Breeders, All Nerve

É tudo nervo neste quinto álbum em 28 anos das manas Deal, que assinam para já um dos melhores álbuns rock do ano. Kim e Kelley juntaram-se a velhos colegas de estúdio e estrada para assinar All Nerve, um regresso que bebe na melhor fonte da inspiração: os próprios Breeders. Em fórmula que ganhou no passado não se mexe no presente, e se, por isso mesmo, tudo nos parece soar a algo que já foi ouvido, há também uma sensação de frescura que se renova a cada faixa, com a maturidade de quem toca e canta há muito. Obrigatórias estas 11 novas canções.

4AD, 13,90€ (CD)

 

Car Seat Headrest, Twin Fantasy

É um projeto inusitado este com que Will Toledo nos presenteou em 2018. Pegando num álbum de 2011, gravado ainda a solo e então disponibilizado na sua página do Bandcamp, o rosto dos Car Seat Headrest voltou às canções de Twin Fantasy para as reler com a companhia de uma banda. Este duplo álbum é a frente e o verso (de um lado Mirror to Mirror, de 2011, do outro, Face to Face) de um músico cheio de talento e ambição, que não receou baralhar e dar de novo canções escritas ainda na sua adolescência. Com uma maturidade a toda a prova.

Matador Records, 19,90€ (2CD), 31,90€ (2LP)


Publicado originalmente no DN, em 13 de setembro de 2018, com o título "Seis discos do frio que ainda vamos a tempo de ouvir no verão"

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Numa livraria perto de si

por Miguel Marujo, em 16.11.18

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As quatro concertinas mais desconcertantes da música portuguesa regressaram a 28 de setembro com o seu novo registo, Dentro Desse Mar, onde embarcam numa aventura, agora com a produção do brasileiro Jaques Morelenbaum.

 

 

As concertinas que foram inspirar-se no Brasil

Em dezembro de 2017, quatro rapazes de Águeda, já não tão rapazes quanto isso, instalaram-se no Rio de Janeiro para gravar com um dos nomes maiores da música brasileira, o produtor e violoncelista Jaques Morelenbaum, o seu novo disco, Dentro Desse Mar.

Se a face brilhante do Brasil falasse mais alto, este diálogo de concertinas com sons brasileiros e algumas pitadas de ritmos de África abafava hoje uma estridência de ódio que chega do outro lado deste mar.

Dentro Desse Mar chega agora ao palco em quatro datas de apresentação: na quarta-feira passada, dia 31, atuaram em Coimbra, no Convento de São Francisco; hoje, dia 3, tocam em Lisboa, no Teatro Tivoli BBVA; amanhã em Aveiro, no Teatro Aveirense; e, por fim, no Porto, dia 21, na Casa da Música, sempre com dois convidados especiais: Jaques Morelenbaum e a filha Dora, que canta no disco.

Artur Fernandes e Filipe Cal anteciparam ao DN, numa entrevista em que muitas vezes os dois se completavam, como se fizeram estas músicas com um oceano pelo meio, depois de uma gestação longa de oito, nove anos, desde o último trabalho de originais. O Brasil foi a inspiração.

 

Como é que uns rapazes de Águeda acabam no Rio de Janeiro a gravar um disco com Jaques Morelenbaum?

Artur Fernandes (A.F.) - Precisamos de voltar um pouco atrás. O nosso último álbum de originais era de 2009, entretanto editámos três trabalhos mas que não são originais - uma coletânea, um disco ao vivo com a Orquestra Filarmonia das Beiras e um EP com a Dom La Nena. Isto para dizer o quê? Que a maior parte do repertório deste disco tem muitos anos, algumas músicas têm oito, nove anos. Fomos tentando fazer os arranjos para estas músicas e estávamos a chegar às mesmas soluções de sempre, a mesma tipologia de arranjo. Acabámos por não avançar, não fechar, porque as soluções eram as mesmas e andávamos à procura do que queríamos fazer, experimentar coisas, por ali e por acolá, e com o tempo fomo-nos convencendo de que precisávamos de uma intervenção artística exterior, alguém que não nos conhecesse pessoalmente, que não conhecesse o nosso instrumento.

Eles, que tocam pelo mundo inteiro, que já fizeram concertos na China, no Canadá, na Alemanha, que andaram por África, decidiram pensar em alguém de "crédito mundial".

A.F. - O primeiro nome que nos surgiu foi precisamente o do Jaques Morelenbaum, também por alguma relação que ele tem tido mais recentemente com a música portuguesa. Ao longo do ano de 2017 fomos comunicando. Hoje é muito fácil fazer este tipo de comunicações à distância: o envio de partituras, de maquetes. E fomos falando com ele de quais eram as nossas angústias, "nesta música precisamos de que o Jaques resolva aqui a questão do arranjo, nesta música não fazemos ideia de que instrumentos havemos de incluir ou não". Ele foi pensando e apresentando soluções. Isto demorou um ano. Achámos que, já que tínhamos este nome tão importante e interessante, o ideal era mesmo irmos ter com ele.

Filipe Cal (F.C.) - E por causa dos inputs: cá, íamos recorrer aos mesmos músicos, aos mesmos recursos artísticos que já mais ou menos conhecemos, e nesta altura era interessante abrir. A quantidade de músicos e de conhecimentos que o Jaques tem, a qualidade que têm. Ele pegava no telefone e, com muita facilidade, reunia músicos fantásticos. Era uma mais-valia para o disco.

Porque era importante ter alguém que não conhecesse tão bem o instrumento?

A.F. - Um piano ou um violino são instrumentos estandardizados e que têm uma gama de recursos impressionante. O nosso instrumento é mais particular, tem uma organização específica e algumas limitações e, por outro lado, algumas potencialidades. As potencialidades nós fomos trabalhando e desenvolvendo - e fomos ignorando as dificuldades...

F.C. - ... contornando as dificuldades.

A.F. - ... fomos contornando. Este processo de "eu escrevo uma melodia mas isto não dá para tocar numa concertina, vamos optar por mudar esta nota para acolá", isso nós fazemos com toda a naturalidade. Agora precisávamos de alguém que não ficasse condicionado pelas características do instrumento, para decidir se havíamos de tocar aquele acorde ou aquela nota ou aquele ritmo.

Em Búzios, há muito Brasil ali. Até que ponto deixaram entrar o Brasil, ou foi o contributo de Jaques que foi colocando esses sons?

F.C. - Essa música foi composta pelo Artur já muito nesse espírito. E, mesmo sem aquela riqueza toda tímbrica [da versão final], ela própria puxa muito pelo ambiente.

A.F. - Tem um ritmo particular, de sete tempos...

F.C. - E a própria harmonia. O ponto de partida da música já está nos Açores [risos] e, depois, quando se põem músicos brasileiros a tocar em cima daquilo, a percussão, as cordas, para eles é peixe na água.

Quando se ouve Azáfama, a primeira música do álbum, parece que estamos perante uma síntese de um percurso, recuperando um som primitivo, ingénuo e orgânico dos primeiros discos. A concertina, o sopro, a respiração do instrumento... Azáfama vai cosendo as pontas que apresentam no resto do álbum.

A.F. - Sentimos que com este disco não deixamos de ser Danças Ocultas, incrementamos a faceta artística que tem que ver com a nossa estética. Há uma roupagem nova, nomeadamente nas cordas e na percussão, muito ligada à MPB (música popular brasileira) e também a África, nomeadamente em Soldado. Uma das demandas que apresentámos ao Jaques era a de pretendermos um som mais global, menos específico, menos rotulado, que qualquer pessoa possa ouvir e consumir. Esse resultado final, que tem a essência da estética Danças Ocultas e também a corzinha brasileira, e a fusão resulta num novo som que permite a quem ouve este Danças Ocultas novo ter curiosidade para ouvir a nossa discografia anterior.

Parece haver um trabalho coletivo, quase de artesãos, de uma oficina de artesãos, que vão compondo as peças em conjunto. Foi assim?

A.F. - Grande parte das músicas, dois anos antes, um ano antes, já estavam muito em bruto, algumas coisas em células. Houve duas em concreto que foram feitas já depois do contacto com o Jaques, nomeadamente a música que a Carminho canta, O Teu Olhar, e Búzios. Outras como As Viajantes, Caixinha de Música, São João, são músicas já muito antigas e que tinham as melodias e pouco mais.

F.C. - Porque estávamos sempre a chegar aos mesmos resultados...

A.F. - Estávamos fartos!

F.C. - Não adiantava ir por aí...

A.F. - Nessas músicas mais em esboço, falámos disso com o Jaques, de que precisávamos de uma intervenção dele nos arranjos, na sequência das partes da música.

Ao trabalho do produtor, juntou-se o de músicos que Jaques chamava.

A.F. - O Jaques dá espaço ao músico, para que ele próprio com o seu trajeto possa emprestar algo de novo à criação...

F.C. - Ele dá muita liberdade.

A.F. - Quase tudo foi gravado ao primeiro take, bandolins, guitarras, percussões...

F.C. - Ele mandava a música para os músicos, "o que é que pensaste?", e eles chegavam com as suas ideias e tocavam, enquanto o Jaques se sentava com aquele ar bonacheirão. Aquilo tinha uma liberdade muito grande na interpretação, são músicos que ele conhece muito bem.

Mas a concertina continua a ser a protagonista.

A.F. - Por mais participações ou inputs que possa haver de outros timbres, a narrativa deve ser conduzida pelos nossos instrumentos.

F.C. - Isto é um quarteto de concertinas.

Como é que o uso de palavras foi moldando o vosso som?

F.C. - Respondo da maneira menos óbvia. Nas músicas em que isso se sente mais são músicas que não são cantadas: em Soldado e Oníris. A partir de um disco com poemas ditos por Cesariny, o desafio foi musicarmos alguns deles e [compusemos uma] música que achámos adequada para um poema que retrata a guerra colonial. Nesse tema, a música moldou-se muito às palavras: aqueles ritmos africanos, aquele som. Faz sentido ter ali uma percussão, uma coisa africana... O Oníris também encaixámos num poema magnífico...

A.F. - A Arte de Bailar em Silêncio.

F.C. - Aquela densidade toda, aquela melancolia toda, é por influência do próprio poema.

A.F. - Pela primeira vez, temos uma música, O Teu Olhar, que foi feita a pensar para ser uma canção. Todo o nosso repertório é feito para música instrumental. Dessa Ilha e As Viajanteseram músicas instrumentais às quais foi acrescentada uma letra e adaptada a voz. OTeu Olhar foi escrita de propósito para ser uma canção e para ser cantada pela Carminho. Ainda assim, há ali alguns resquícios do lado instrumental, foi uma coisa que durante algum tempo andou a incomodar-nos sobre como resolver e que depois só uma artista genial como a Carminho é que resolveu essas questões de uma forma muito elegante. Tem que ver com um determinado tipo de recurso de passagens musicais que é o uso de arpejos, de sequências, se falar em números, 1-3-2-4-3-5, isto em música instrumental faz muito sentido, mas a cantar perde-se...

F.C. - A Carminho disse-me: "Isto foi mesmo escrito por um músico." [risos]

A.F. - Para confessar a nossa ingenuidade perante a escrita de canções...

F.C. - A nossa inexperiência...

A.F. - Há questões que passam despercebidas à maior parte das pessoas, mas há contornos melódicos que são mais para instrumentos e outros mais para vozes. [Felizmente, tivemos] a genialidade da Carminho na interpretação ao resolver essas pequenas nuances, que ela brilhantemente adequa a uma narrativa de voz.

O diálogo com os outros instrumentos é mais fácil?

A.F. - É. Apesar de, no caso das cordas, a morfologia, digamos assim, ser completamente diferente, a linguagem instrumental é muito universal. A gestão das tensões e das distensões, que fazem o discurso musical, obviamente que são muito mais naturais entre instrumentos do que entre instrumentos e voz. Aqui, a voz passa para um primeiro plano e o instrumento passa a fazer o comentário.

Já trabalharam com uma orquestra, tocaram com os Dead Combo, Rodrigo Leão, Dom La Nena, repetem a Carminho. Até que ponto estes diálogos ajudam a ir formando também a vossa música?

F.C. - Ajuda sempre. Estes artistas têm todos algo em comum connosco. O Rodrigo desde sempre, até andou com o Artur na tropa [risos]; com os Dead Combo há ali um lado mais noturno, que também temos; a Carminho dentro do fado é quem vai buscar ali um aspeto mais grave e tem uma plasticidade muito grande. Dentro das fadistas, do meu ponto de vista, é daquelas que se conseguem moldar melhor a diferentes tipos de música... A Orquestra Filarmonia das Beiras, por outra via: nós basicamente somos um ensemble, um quarteto de cordas que está ali, tens o violoncelo que é o baixo [Filipe Ricardo], eu a fazer a viola que é a harmonia, e os dois violinos a fazerem as melodias, que é o Artur e o Chico [Francisco Miguel]. O que fizemos com a orquestra foi basicamente amplificar os nossos instrumentos para orquestra. A Dom La Nena tem também uma linguagem bastante próxima. Fomos trabalhando com artistas com quem temos muitos pontos de contacto

A.F. - E de relação pessoal.

F.C. - Sim, isso é muito importante para a nossa construção, a maneira como as pessoas se relacionam e se moldam umas às outras, isso faz que a coisa consiga evoluir.

A.F. - Todas estas participações fazem que chamemos a atenção para determinados aspetos que o próprio repertório tem. Mais uma vez, com este disco que trazemos do Brasil, há uma quantidade infinita de pequenas ideias que poderão despertar-nos para outros trabalhos.

Volto ao início: para vocês, que importância teve a aprendizagem de um instrumento como a concertina?

A.F. - [pausa longa] É quase como ter um filho. Fazemos um filho e temo-lo! E depois temos de o educar e ele educa-nos a nós também.

F.C. - E gostamos dele!

A.F. - Sem pôr em causa esse processo, é isso que se passa com este instrumento. Todos nós, por influência do meio, do folclore local, somos levados a tocar este instrumento... Foi um instrumento que mexeu connosco, que nos fez vibrar com a música e, acima de tudo (e que é muito pertinente neste caso), este instrumento é feito para fazer a dança, e nós no início fazíamos as pessoas dançar ao som do nosso instrumento, que é uma magia incrível. É um instrumento que nos fez ter um olhar maravilhado perante a música. São coisas que não voltam atrás, não dá para mudar de instrumento.

 

[composição do início do texto de apresentação do álbum dos Danças Ocultas, já aqui republicado, a partir do Diário de Notícias, em 28 de setembro de 2018, e da entrevista também publicada no DN, em 30 de outubro de 2018, com ligeiras adaptações; foto de Alípio Padilha]

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Todos os santos. "I'm ready, my Lord"

por Miguel Marujo, em 01.11.18

 — ao meu Pai,

que nasceu três dias antes de Leonard Cohen
e morreu quatro anos antes e sempre gostou dele
 
 
 
[Cerca das duas da manhã de 11 de novembro de 2016, quando me preparava para desligar o computador caiu um alerta do NY Times. O computador já não foi desligado e o que aqui saiu foi ao correr das teclas escrito até cerca das 5 da manhã. A morte já tinha acontecido a 7 e só foi revelada no dia do funeral a 10. Passam dois anos dentro de dias. No dia de todos os santos, é uma outra forma de celebrar a vida.] 

 

Morreu Leonard Cohen. Poeta e escritor, cantor e compositor, o canadiano de 82 anos, feitos em setembro passado, já nos tinha avisado no seu último álbum, onde canta logo a abrir: "Hineni, hineniI'm ready, my Lord". Na altura do lançamento de You Want It Darker, em outubro passado, carregou nas tintas dizendo-se tal e qual, "preparado para morrer". Dias depois, a 13 de outubro, no consulado canadiano de Los Angeles, brincava. "Acho que exagerei. Sempre tive tendência para dramatizar. Pretendo viver para sempre."

O anúncio da sua morte foi feito pela sua editora, a Sony Music Canada, na página oficial no facebook do músico: "É com profunda dor que anunciamos que o lendário poeta, compositor e artista, Leonard Cohen, faleceu. Perdemos um dos mais aclamados e prolíficos visionários da música. Uma cerimónia terá lugar em Los Angeles em breve. A família pede privacidade durante este período de luto." Não foi revelada a causa da sua morte.

 

Leonard Norman Cohen nasceu no Quebeque, na cidade de Westmount, arredores de Montréal, a 21 de setembro de 1934. A música entrou cedo na sua vida, na adolescência, com os Buckskin Boys, um grupo folk de que não reza a história: o contacto com a poesia de Federico Garcia Lorca, de quem muitos anos mais tarde musicaria Take This Waltz (1988), conduziu-o à escrita — de poemas e romances. Publica três livros, quando nos anos 1960 se instalou numa ilha grega, Hidra: Flowers for Hitler (1964), que reunia poemas seus, e The Favourite Game (1963) e Beautiful Losers (1966). Mas regressará à América e à música.

De visita a Nova Iorque, contacta de novo com a música folk e conhece a cantora Judy Collins. Publica então Songs of Leonard Cohen (1967), que abre com Suzanne, canção maior de amor, como tantas na sua pena, de um álbum fulgurante — nas suas palavras e guitarras e coros — e onde também se ouve So Long, Marianne.

Em agosto passado, soube-se que a Marianne da canção tinha morrido e Leonard escreveu-lhe uma carta de despedida, em que mais uma vez falava da morte. "Sabes Marianne, chegou este tempo em que estamos realmente tão velhos e os nossos corpos estão caindo aos poucos que acho que vou seguir-te muito em breve. Sei que estou tão perto de ti que se esticares a tua mão, acho que consegues tocar na minha."

 

A esta estreia seguiram-se dois outros álbuns fundamentais no cancioneiro americano: Songs From a Room (1969) e Songs of Love and Hate (1971). Pelo meio apresentou um álbum ao vivo, Live at the Isle of Wight (1970), o primeiro de muitos, numa marca que se prolongaria até ao fim da carreira. Nos últimos anos, Cohen multiplicou os seus álbuns de originais em longas digressões e álbuns ao vivo que reproduziam os seus concertos.

Estes primeiros anos da década de 1970 foram pródigos para o canadiano, culminando na obra-prima que é New Skin for the Old Ceremony (1974), que tinha sido antecedido de Live Songs (1973). A seguir, os álbuns foram sendo mais espaçados: Death of a Ladies Man (1977), com uma produção turbulenta e opulenta por Phil Spector; Recent Songs (1979) e Various Positions, já em 1984. É o álbum de Hallelujah, a canção que John Cale e, mais ainda, Jeff Buckley, resgataram em toda a sua violenta beleza de sexo e amor, num poema que bebia na Bíblia (o rei David que se enamora de uma mulher).

 

Com os anos 80, Cohen, já para lá dos 50 anos, arrisca composições onde os sintetizadores de I'm Your Man (1988) sublinham uma poesia bem-humorada e socialmente crítica, cada vez mais declamada na voz inconfundível que a idade foi enrouquecendo. The Future (1992) aprofunda esse caminho, antes de Leonard se remeter a um longo silêncio e dedicar-se ao budismo. O jejum quebra-se em 2001 com Ten New Songs e Dear Heather (2004).

Nos últimos anos, a idade não atrapalha Cohen que se vê obrigado a regressar à estrada. Roubado pela sua agente de muitos anos, Kelley Lynch, em cinco milhões de dólares (4,5 milhões de euros), são os seus fãs de sempre que ganharam mais, com digressões gigantes — 247 concertos de 2008 a 2010, contabilizou a Rolling Stone. Cohen ainda mostrou as suas Old Ideas (2012) e os seus Popular Problems (2014), lançado um dia depois de completar 80 anos. Parecia eterno.

 

Antes do trabalho que lançou este ano, no tal encontro no consulado canadiano, Cohen ouviu um elogio feito por Bob Dylan, dias antes laureado com o Nobel da Literatura (que muitos diziam ser merecido por Cohen). Dylan afirmava num artigo que "quando falam de Leonard, evitam mencionar as suas melodias", quando estas "juntamente com as suas letras são a sua verdadeira genialidade". Cohen replicou que Dylan foi "muito generoso", mas preferiu elogiar antes o galardoado. "Não vou dar uma opinião sobre o que ele disse, mas sim sobre ter recebido o Prémio Nobel, o que para mim foi como dar uma medalha ao monte Evereste por ser a montanha mais alta [do mundo]".

Em agosto, quando se despedia de Marianne, Leonard escrevia que "lhe desejava uma muito boa jornada". "Adeus minha velha amiga. Amor infinito, encontramo-nos no caminho", completou.

Judeu convertido ao budismo, Cohen nunca deixou de trazer muitas referências religiosas. Hineni, que canta no seu álbum de despedida, é uma palavra hebraica que significa "aqui estou", dita por Abraão a Deus. No dia 7, Leonard cantou-a pela última vez.

 

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O furacão ficou gravado para nossa memória

por Miguel Marujo, em 25.10.18

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Concerto de Nick Cave que deu origem a um filme, Distant Sky, chega em versão áudio num EP de quatro temas. Uma força da natureza em 28 minutos

 

A passagem do furacão de Nick Cave & The Bad Seeds parece ter ficado inscrita na memória de quem, naquela noite de inverno em junho, esteve no Parque da Cidade, no Porto, como uma semana antes a mesma força da natureza tinha abalado um céu azul de espanto que descia no entardecer de Londres.

Meses antes, com esse álbum dilacerante que é Skeleton Tree a fazer as apresentações, o australiano apresentou-se na Royal Arena, em Copenhaga, para um concerto que deu origem a um filme, Distant Sky, e chega agora em versão áudio num EP de quatro temas. E registe-se: não são só quatro temas, não são meras quatro canções. São quatro obras maiores do cânone caveano - Jubilee Street, Distant Sky, From Her To Eternity e The Mercy Seat.

A primeira é uma extraordinária criação de Push The Sky Away (2012), que se anuncia uma vez mais como antecâmara para uma explosão de adrenalina, que ficará guardada para mais tarde. Porque antes há ainda Distant Sky, do referido Skeleton Tree (2016), com um poema que nos arrebata por um coro de afetos a duas vozes (à de Cave junta-se a da soprano dinamarquesa Else Torp, tal e qual como no álbum), num diálogo de companheiros feridos. "Let us go now, my only companion/ Set out for the distant skies/ See the sun/ See it rising/ Rising in your eyes", e Nick Cave fica de olhos marejados - como o violino de Warren Ellis que o acompanha no lamento final do tema.

E logo o australiano nos introduz a história de "uma rapariga", que já nos canta desde From Her To Eternity, o seu primeiro disco, de 1984. Nesta versão da canção que dá nome ao álbum já está aquilo que se constataria em Londres, como no Porto: uma descarga pesada orquestral dirigida por Warren Ellis, num diálogo violento entre piano e cordas demoníacas e a interpretação assombrosa de Nick Cave desta história da rapariga que vive no quarto 29.

Por fim, The Mercy Seat, de Tender Prey (1988) é outro dos hinos do universo de Cave, servido de novo numa crescente polifonia visceral e só aparentemente caótica. Este EP é enorme nos seus curtos 28 minutos de duração e pede uma audição em loop.

 

Nick Cave & The Bad Seeds
Distant Sky Live in Copenhagen EP
12" vinyl e plataformas de streaming
[publicado originalmente no Diário de Notícias, em 29 de setembro de 2018]

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Weird fishes.

por Miguel Marujo, em 21.10.18

 

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As concertinas que viajaram mar dentro

por Miguel Marujo, em 30.09.18

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Danças Ocultas apresentam no seu novo registo, Dentro Desse Mar, com produção de Jaques Morelenbaum, um cheiro intenso de Brasil. A descobrir esta linguagem universal

As quatro concertinas mais desconcertantes da música portuguesa regressam esta sexta-feira, 28 de setembro, com o seu novo registo, Dentro Desse Mar, onde embarcam numa aventura, agora com a produção do brasileiro Jaques Morelenbaum.

Fazendo um uso extraordinário das concertinas, compondo em conjunto, como no trabalho de uma oficina, a elegância do sopro que surpreendeu crítica e público em 1996, com o álbum homónimo, que nos mostrava quatro cadeiras desenhadas na capa e uma imensa vontade de rasgar com o som que tradicionalmente se associa a este instrumento, estes rapazes de Águeda voltam a apostar noutros músicos, vozes e instrumentos que dialogam consigo.

Ao quinto álbum de originais, a que se soma um EP em parceria com Dom La Nena, duas coletâneas e um álbum ao vivo com a Orquestra Filarmonia das Beiras, Artur Fernandes, Filipe Cal, Filipe Ricardo e Francisco Miguel juntam às concertinas outras vozes e instrumentos para melhor fazer ouvir a sua respiração, como logo se anuncia em Azáfama, o tema de abertura.

Os quatro das Danças Ocultas explicam esta escolha para abrir o álbum por ser uma música que transmite a "energia" que colocaram "na criação e gravação dos temas deste disco" e também "por revelar um novo caminho para Danças Ocultas".

Há Brasil a rodos, ou não houvesse Morelenbaum com o seu violoncelo e na produção, como já se disse, e um álbum quase todo ele gravado nos estúdios Casa do Mato, no Rio de Janeiro, mas também há Zélia Duncan na voz em As Viajantes, Dora Morelenbaum, a filha de Jaques, a cantar em Dessa ilha, que tem letra de Arnaldo Antunes, dos Tribalistas. Há uma tradição que nunca se deixa acantonar no tradicionalismo mais conservador, como se ouve em O Teu Olhar, cantada por Carminho, ela que também já cruzou várias vezes o seu fado com o um certo tropicalismo brasileiro.

O enorme oceano que separa Portugal e o Brasil parece apenas uma simples gota, quando se ouve este trabalho de artesãos que resgata a concertina e as suas composições para uma conversa em que a linguagem universal é a música, como transparece em Búzios ou Azaf.

Talvez não se encontre aqui a absoluta surpresa de quem descobriu estas danças com Folia, no primeiro álbum (1996), ou bailou em Contradança, do segundo trabalho, Ar (1998), mas a sedução destes sons encantam-nos tanto como o que se descobre dentro deste mar.

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Danças Ocultas,
Dentro Desse Mar

(Sony Music Portugal)
CD, 13,90€.
Também disponível
nas plataformas de streaming.

foto © Alípio Padilha, 
texto originalmente publicado
no DN de 28 de setembro de 2018

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Eles chegaram esta noite. Como gostaram sempre de fazer: de guitarra, baixo, bateria e voz. E uma energia desmedida, com truques de algibeira, um jogo cénico que joga com o espaço de uma forma deslumbrante — seja revisitando McPhisto, a personagem diabólica que encarna os fascismos e populismos da Europa, seja o desfiar das memórias de infância, no número 10 de Cedarwood Road, em Dublin, onde agora regressam num dia de chuva. 

Eles chegaram esta noite a um pavilhão sedento de canções (vivemos de novo o tempo das canções, avisou Bono), pedindo desculpa por terem demorado quase oito anos a voltar e agradecendo a paciência dos portugueses que esperaram por eles e retribuíram cantando em coro muitas das canções que já não ouvíamos há muito — e as que acabámos de conhecer nos últimos anos.

Eles, os U2, que é deles que falamos esta noite, convidaram-nos para a sua casa, percorrendo a sala em diferentes pontos, contando histórias de como experimentaram, ousaram, sonharam, namoraram e construíram, desfraldando bandeiras, a da Europa e a de cada um dos 28 países da União Europeia, cantando o Hino da Alegria, abençoando Portugal, Lisboa, Eusébio, Cristiano Ronaldo e António Guterres, denunciando fascistas, racistas, mentirosos, ditadores, dizendo que o que nos une é a Europa, este mesmo céu azul e de estrelas amarelas e que a droga que hoje queremos é o Espírito Santo. Sim, o Espírito Santo (já sabíamos que os rapazes têm fé).

Os U2 mostraram-nos o álbum de família, os vídeos de Iris, a mãe de Paul, o rapaz que hoje se chama Bono, que também fez de conta que telefonou a Ali, para lhe cantar o seu amor, You're the Best Thing About Me. E Summer of Love, que parece ser uma história de amor e afinal mete-nos nos barcos de refugiados que todos os dias atravessam o Mediterrâneo, esse mar plano, vindos da costa ocidental que é a Síria. Também houve Sunday Bloody Sunday, uma canção que nos recorda os troubles de uma Irlanda dividida em duas partes e as paredes de ódio e de quem quer paz. 

Os U2 mostraram-nos que o aparato cénico deve contar-nos as histórias e cantar-nos os sonhos que eles têm, de erradicar a pobreza, de esmagar os ditadores, metendo-nos a guerra dentro, como se estivéssemos em casa a ver um telejornal com imagens de Berlim em 1945 e da Síria nestes últimos anos, de Lisboa em 1926 ou Manchester ou Copenhaga ou Dublin na II Guerra Mundial, e os fascistas e extremistas que têm nome na Suécia de Democratas Suecos e muitos nomes na Itália ou na Polónia ou na Hungria.

Os U2 pegam em canções que porventura já não gostamos tanto (ah, antes é que era, dizem sempre alguns) e ensinam-nos que elas sabem-nos a hinos como os hinos de sempre: The Blackout como I Will Follow, Cedarwood Road como Until The Enf of World, One como 13.

Os U2 sabem que podem ajudar um bocadinho a fazer a diferença. E não se cansam de o lembrar a quem os vê e ouve. E também o dizem com humor e auto-ironia. “Somos a melhor banda de rock’n’roll do norte de Dublin”, diz Bono. Não são nada. São mesmo a melhor banda de rock’n’roll do mundo. 

(foto da Cláudia, esta noite na Altice Arena)

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Rapazes de fé

por Miguel Marujo, em 16.09.18

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Os U2 bebem na Bíblia sem medo

 

(publicado originalmente no blogue Religionline)

 

Quando este domingo e segunda-feira à noite os U2 subirem ao palco do antigo pavilhão da Utopia, em Lisboa, dificilmente alguma das pessoas ali presentes dirá que vai ver o concerto de uma banda cristã, que não o é, ou que quer ouvir mensagens cristãs, que as há.

É antes a música e o espetáculo (e quase só a música e o espetáculo) que leva os milhares de fãs à Altice Arena, na busca de uma utopia que os irlandeses continuam a procurar reinventar, reinventando-se, com mais ou menos ousadia – e mais ou menos sucesso – quase 40 anos depois do seu primeiro disco, o EP Three (1979). Trata-se de uma questão de fé, para Bono, The Edge, Adam Clayton e Larry Mullen Jr., como para aqueles que os seguem de forma indefetível. Crentes uns e outros, e uns nos outros.

 

 

Nunca renegando um vínculo ao cristianismo, e em particular ao catolicismo, os U2, nomeadamente o seu vocalista, Bono, carregaram sempre uma espiritualidade muito própria: eram “uma espécie de irmandade”, como os definiu The Edge, crentes nos únicos “dois grandes sacramentos”, a amizade e a música, em que uma fé inabalável na sua capacidade de vingar também representou a vontade de melhor cantar a sua fé. “Eu só vou onde há vida, sabe? Onde sinto o Espírito Santo. Se é na parte de trás de uma catedral católica romana, na quietude e no incenso, que sugerem o mistério de Deus, da presença de Deus, ou nas luzes cintilantes de uma tenda revivalista, eu apenas vou onde encontro a vida. Não olho para a denominação”, confessou Bono ao Christianity Today.

Esta ponte entre o sagrado e o profano é seguida de perto pelo vocalista do grupo irlandês. Em 2005, numa exposição sobre a Bíblia, em Lisboa, no âmbito do Congresso Internacional para a Nova Evangelização, liam-se estas palavras de Bono: “Sou um músico ‘escrevinhador’, fumador de charutos, bebedor de vinho, leitor da Bíblia. Sou um exibicionista que adora pintar quadros daquilo que não vê. Um marido, um pai, amigo dos pobres, às vezes dos ricos. Um ativista vendedor ambulante de ideias. Jogador de xadrez, estrela de rock em part-time, cantor de ópera no grupo pop mais barulhento do mundo. Que tal?”

Órfão de mãe, Bono escreve a sair da adolescência I Will Follow, o tema de abertura de Boy, o primeiro álbum, lançado em 1980 (e que certamente se ouvirá agora de novo em Lisboa, como tem acontecido nesta The eXPERIENCE + iNNOCENCE Tour). Notou que “este era um tema que ninguém tinha ainda explorado, no rock and roll – o fim da angústia da adolescência, a enganadora arte da masculinidade, a sexualidade, a espiritualidade, a amizade”.

 

 

 

No jornal L’Osservatore Romano recorda-se como Bono olhava para o rei David, dos tempos bíblicos: “Aos 12 anos adorava David: para mim era como uma pop star, as palavras dos salmos eram poesia e ele era um ídolo. Antes de se tornar profeta e rei de Israel, David passou por muita coisa. Viveu exilado e acabou por ir viver para uma caverna, onde fez as pazes com Deus. É aí que esta história se torna interessante: David compõe os seus primeiros blues.”

Perante uma afirmação destas, o jornalista do órgão oficial da Santa Sé verifica que “dito assim, tem todo o ar de uma afirmação irreverente”, mas Gaetano Vallini prefere ler esta ideia de Bono “como uma declaração de fé muito original”.

É tempo então de olharmos para as letras (na sua esmagadora maioria escritas por Bono), para lá do imediatismo das palavras. Trata-se de uma tarefa facilitada por Andrea Morandi, crítico musical e autor do livro U2. The Name Of Love (Roma, Arcana, 2009), que nos guia por esta “pesquisa filológica singular”, como lhe chama Vallini no L’Osservatore Romano. Trata-se de uma obra na qual são analisados todos os textos de Bono, desde o primeiro álbum, Boy (1980) até No Line On The Horizon (2009), na altura o último trabalho editado pelos U2. Depois disso, os irlandeses lançaram Songs of Innocence (2014) e Songs of Experience (2017), os trabalhos que mais alimentam a atual digressão.

 

 

 

Morandi considera que “a presença da Bíblia nos primeiros registos era uma coisa conhecida, mas que continuou de forma persistente até que [No Line On The Horizon] foi uma verdadeira descoberta”. Para o autor italiano, neste 12.º álbum, canções como Magnificent, que remete para o Magnificat (o hino colocado na boca da mãe de Jesus, enaltecendo a presença de Deus e condenando os poderosos e os soberbos) ou Unknown Caller, onde este estranho que chama é o Deus que salva, fecham um círculo perfeito: a religiosidade omnipresente dos primeiros trabalhos – como Boy, October (1981), War (1983), mas também The Unforgettable Fire (1984), The Joshua Tree (1987) e Rattle and Hum (1988) – antecipa a entrada na última década do milénio, no regresso a uma Europa em que a queda do muro de Berlim abre novas esperanças e dúvidas insistentes. Achtung Baby (1991) e Zooropa (1993) são essa nova Europa onde se perde a fé. E Bono canta essa fé perdida.

No prefácio ao livro de Morandi, Davide Sapienza pergunta: “Quem imagina o quanto seria uncoool ser fã de um grupo que nas canções e entrevistas falava de Deus, citava a Bíblia, concluía os concertos com uma (esplêndida) canção inspirada num salmo, e que era publicamente caracterizado, por um líder sem pelos na língua, como uma intenção de condenar as ideologias e falar sobre pontes a serem construídas para ligar as margens opostas de um longo e doloroso pós-guerra?”

Em The First Time, canção de Zooropa, Morandi reflete sobre como Bono “se entrega”, confessando “ter perdido a bússola e os mapas, a razão e a religião, os limites e as fronteiras”, a partir da parábola do filho pródigo. As referências bíblicas, que se fazem notar em todos os álbuns dos U2, traduzem-se em passagens dos textos de Bono: “Gave me the keys to his kingdom coming”, canta ele em The First Time, numa remissão para o evangelho segundo Mateus (16, 19). Ou “He said ‘I have many mansions/And there are many rooms to see’”, que nos remete para São João (14, 2).

 

 

 

Gaetano Vallini nota que Morandi nos apresenta Pop (1997), disco em que os U2 se abalançam a linguagens mais dançantes, como um álbum “cheio de discussões com Deus”, à procura da estrada perdida, mas difícil de encontrar. “Deus desligou o telefone”, canta Bono em If God Will Send His Angels.

Também o díptico recente de Songs of Innocence e Songs of Experience aproxima-nos desta espiritualidade, até pelo grafismo: a capa do disco de 2014 é uma foto de um pai e do filho (na realidade, Larry e o seu filho), transmitindo a relação única entre progenitor e criança; e a mais recente revela-nos dois adolescentes (filhos de Bono e The Edge), de mãos dadas, ela com capacete militar. Estes dois álbuns foram inspirados no livro de poemas Songs of Innocence and Experience, do místico e poeta inglês do século XVIII, William Blake. E Bono seguiu o conselho de um outro poeta irlandês que lhe disse para escrever “como se estivesse morto”.

Muitos podem estranhar esta “forte religiosidade”, nota L’Osservatore Romano, “numa estrela de rock do calibre de Bono e num grupo tão conhecido e comprometido”. “Mas as músicas estão lá para o provar.” Exemplos mais ou menos óbvios: Gloria, de October; Grace, de All That You Can’t Leave Behind (2000), Yahweh, que remete para o nome hebraico de Deus, “Eu Sou Aquele Que Sou”, em How To Dismantle An Atomic Bomb (2004); ou Cedars Of Lebanon, de No Line On The Horizon. Ou ainda 40, de War, cujo texto bebe o título, a inspiração e frases no Salmo 40, completadas com uma linha que, ao longo destes 35 anos, milhares e milhares de fãs repetiram nas mais de 400 vezes que a canção já foi interpretada ao vivo: “How long (to sing this song)”, por quanto tempo teremos que cantar esta música? – e que Bono encontrou no Salmo 6.

 

 

"Deus está interessado numa arte honesta e não em publicidade”, como já defendeu o vocalista dos U2, que encontra nos salmos uma fonte de inspiração para a sua escrita. Para aqueles que não creem, Bono aponta o Salmo 82 como um “bom começo”: “Defende os direitos dos pobres e dos órfãos. Que devemos ser justos para os necessitados e sem esperança. E salva-os do poder de pessoas más. Isto não é caridade, é justiça.”

Foi este mesmo sentido de justiça que levou Bono a empenhar-se nas campanhas que, antes do ano 2000, defenderam o perdão da colossal dívida externa dos países mais pobres, o que o levou a encontrar-se várias vezes com o Papa João Paulo II, que pugnava pela mesma causa. E é ainda este mesmo sentido de justiça que fez Bono decidir desfraldar uma bandeira da União Europeia no final dos concertos. E que leva Bono, no arranque da digressão europeia que agora chega a Lisboa, a defender uma Europa que deve ser sentida, pelas suas “múltiplas afinidades” e “identidades estratificadas”: “Ser irlandês e europeu, ser alemão e europeu, sem que se excluam mutuamente. A palavra patriotismo foi-nos roubada pelos nacionalistas e radicais que exigem a uniformidade. Mas os verdadeiros patriotas procuram a união acima da homogeneidade. Reafirmar isso é, para mim, o verdadeiro projeto europeu.”

[foto: Stufish, dos concertos da atual digressão]

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dez filmes, dez dias

por Miguel Marujo, em 06.08.18

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Na minha página do facebook 

... finalizei os dez dias de dez filmes com o filme da minha vida, La Double Vie de Véronique, um Kieslowski que não se explica, uma obra de graça em estado de graça, apesar de ter sido uma lista em que fugi aos dez melhores disto e daquilo, foi como me pediram, aqueles que tiveram impacto em mim, por causa do momento em que os vi, do que me fizeram ver, dos sobressaltos que proporcionaram, e com isto tudo ficaram a faltar tantos e tantos, de Totoro a A Valsa com Bashir, de Scorsese a Coppola, de Aniki Bobó a La Belle Noiseuse, de Kurosawa a Rohmer, do Verão de 42 ao Verão de Kikujiro, de John Ford a Tim Burton, de Primavera, Verão, Outono, Inverno e... Primavera a Mónica e o Desejo, e os dias iam por aí fora, sem cuidar do que pensassem, alimentando os nossos amigos, imaginários e reais — se calhar um dia faço isso: filmes todos os dias, sem explicações.


Os dez foram, sem especial ordem:

ET
Dolce Vita
Ponyo
Y Tu Mamá También
Nosferatu 
Laura 
Sangue
A Última Sessão
Mulholand Drive
La Double Vie de Véronique


(imagem do filme Totoro)

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PJ tomou notas. E levou-nos à guerra

por Miguel Marujo, em 26.06.18

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Atravessa-se o rio Anacostia para sudeste e estamos tão perto e tão longe dos senhores que decidem. Há uma estrada da boa esperança, outra avenida de Martin Luther King, nomes que carregam o peso da má fama de bairros devastados por guerras de gangues, uma cidade de drogas, habitada por zombies, apanhados por balas perdidas e assassínios que calam testemunhas.

Não é o Kosovo, nem o Afeganistão, é Washington D.C., o distrito da capital federal americana, do outro lado do rio, perto dos memoriais do Vietname e de Lincoln, dos yards cuidados da Marinha americana, e lá mais longe (passando o rio Potomac e o Pentágono) o cemitério nacional de Arlington, onde repousam os corpos dos soldados dos Estados Unidos que as guerras do Afeganistão e do Iraque vão enterrando como heróis.

Foi por este eixo da Good Hope Road e da Martin Luther King Jr Avenue, com passagem pela Benning Road — uma linha vermelha de snipers em zona de guerra num país pouco pacífico — ou por South Capitol Street, outra rua de carnificina, que PJ Harvey andou em reportagem, tomando notas no banco de trás de um carro, parando aqui e acolá, quase sempre em silêncio, ouvindo as descrições de um jornalista do Washington Post, Paul Schwartzman, que conhecia bem o terreno mas nem sabia quem guiava pelo lado negro da capital americana. "Quis cheirar o ar, sentir a terra e encontrar as pessoas de países por que estava fascinada", explicou-se PJ Harvey depois.

A britânica Polly Jean tomou notas também no Kosovo e no Afeganistão e destes roteiros de guerra compôs um livro de poemas (com fotografias de Seamus Murphy) e editou um álbum, em abril [de 2016], The Hope Six Demolition Project, que tem alimentado uma digressão que já passou no Porto, em junho [de 2016] no Primavera Sound, e chega agora a Lisboa, ao Coliseu dos Recreios.

No Porto, PJ tocou quase na íntegra este seu último álbum (só deixou de fora Near the Memorials to Vietnam and Lincoln) mas é provável que, a avaliar pelo alinhamento dos mais recentes concertos, possa agora tocar as 11 canções do álbum que o entusiasmado — com toda a razão, diga-se — crítico do Chicago Tribune, Greg Kot, definiu como sendo "um dos mais poderosos álbuns de protesto dos anos mais recentes", ao lado de To Pimp a Butterfly, de Kendrick Lamar, e Black Messiah, de D'Angelo.

É o mesmo Greg Kot que se refere a este trabalho como um "tipo de documentário musical ou novo jornalismo", uma observação que Kitty Empire, crítica do britânico Observer (que gostou bem menos do disco), quase desdenha, apelidando o álbum de "rock-reportagem" e acrescentando tratar-se de "uma espécie de reportagem", ainda que apresentada "através de guitarra, saxofone e coro gospel".

O espetáculo desta noite deve reproduzir muito daquilo que foi o concerto no anfiteatro natural do Parque da Cidade do Porto: cenário austero, polifonias sincopadas que enchem o palco e uma banda (com Mick Harvey, o homem que deixou os Bad Seeds, e John Parish, velho companheiro musical de PJ) que acompanha na medida certa o rigor da britânica em cena, quase sem desvios às canções e em que as palavras são as cantadas e pouco mais.

Apesar do ambiente quase intimista criado por entre as árvores do Parque do Porto e dos muitos indefetíveis que ali foram por causa de PJ, um festival é sempre um palco estranho para quem procura que a música seja o centro de tudo e, por isso, talvez os que esta noite forem ao Coliseu possam ganhar — em proximidade e exaltação.

Polly Jean quer sentar-nos no banco de trás do seu carro e guiar-nos pela devastação de guerras demasiado próximas e tão afastadas, enquanto pelas águas sujas do Anacostia um imenso coro prolonga um lamento: "Saying 'What will become of us?' What will become of us?"

 

[O concerto.] 

O Coliseu dos Recreios esteve longos minutos a pedir o regresso ao palco de PJ Harvey e dos outros nove que acompanhavam e quando a britânica regressou fez-se ouvir com um "thank you very much". Até aí, as palavras ficaram por conta das canções — e de um breve anúncio, quando Polly Jean apresentou a banda, também já perto do final do concerto em Lisboa.

O concerto foi assim: ao osso, direto, sem rodriguinhos, daqueles em que cada membro da banda tem direito a um minuto de exibição. Ali não: o que conta são as palavras das canções, os sons que as cantam - e a voz (e como cantou PJ Harvey esta noite!).

Para o mais recente The Hope Six Demolition Project, cuja digressão passou esta quinta-feira à noite por Lisboa, Polly Jean foi à guerra no Kosovo e no Afeganistão, mas também em Washington. A repórter que se fez ao caminho contou-nos as histórias do que viu, num palco de cenário ascético, de formas geométricas que pareciam abrir janelas para o mundo e só variavam nas cores graníticas ou quentes (como esta estranha noite de finais de outubro).

Este é um álbum político sem medo de o ser, com PJ Harvey a mostrá-lo no palco, de forma implacável, num rock que se faz de metais, percussões, guitarras, baixo e teclas, desde os primeiros acordes (como se fosse uma marcha) de Chain of Keys até aos sons finais quase a capella de River Anacostia, com que se encerra o concerto antes do encore, mas passando também por 50ft Queenie (de Rid of Me) ou Down by the Water (que se ouve em To Bring You My Love).

Let England Shake, o álbum de 2011, é o outro trabalho que mais vezes PJ Harvey trará ao palco e de onde resgatará o tema com que fecha o encore de menos de dez minutos, The Last Living Rose, em que se ouve "Take me back to beautiful England". O público que celebrou este acontecimento parecia pouco disponível a deixar partir quem lhes contou assim a guerra.

[textos originalmente publicados no DN a 27 de outubro e 28 de outubro de 2016; foto de Sara Matos/Global Imagens]

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O espanto de uma noite com os LCD Soundsystem

por Miguel Marujo, em 25.06.18

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Já deviam ter adivinhado que a magia estava para acontecer na noite de Lisboa, com epicentro no Coliseu dos Recreios. E já deviam saber que para escapar a este verão que tardava a chegar, o melhor era mergulhar no calor abafado de uma sala que estava preparada para uma imensa festa de corpos a pedirem dança.

Foram avisados com tempo que os LCD Soundsystem se apresentavam esta segunda à noite (e ainda terça e quarta — parece que ainda restam alguns bilhetes) para fechar em Lisboa a digressão do mais recente American Dream.

O jogo de espelhos a partir da bola colocada no cimo do palco foi pretexto para James Murphy, músico, compositor, produtor e frontman dos LCD Soundsystem, nos inebriar com os sons que melhor destila na sua paleta sonora. Ao segundo tema, You Wanted a Hit, já as luzes revelavam uma massa desejosa de se mexer, que a espera tinha sido imprevisível e sem sal pela mão do dj set de Shit Robot.

Se em American Dream pudemos perceber os nomes de Lou Reed, Leonard Cohen, Suicide, David Bowie ou Talking Heads, na primeira noite de Lisboa tudo isto foi servido numa bandeja que passou pela sua discografia (que, com os seus quatros álbuns de originais, tem tanto de curta como de essencial) numa amálgama em que tudo ganha forma, em que tudo surge impresso nos ritmos e nos tempos certos, sem uma nota a mais.

Mesmo nos percalços, James Murphy é mestre-de-cerimónias. Quando avança para Radioactivity dos Kraftwerk um cabo não ajuda. "Finjam que isto não aconteceu" e retoma-se em I Can Change, para nova destilação de corpos devidamente amalgamados numa plateia a abarrotar.

Uma barragem sonora, em que bateria e percussões se misturam com os dedos de baixos, guitarras e teclas, cronometrados por um relógio num canto do palco. É o tempo certo para estes dias, que se vai escrevendo com Yr City's a Sucker, Daft Punk is Playing at My House, Someone Great, Tonite, Home, I Want Your Love ou How do You Sleep.

Num palco também ele entupido de instrumentos e amplificadores e cabos, James Murphy guia canções, palavras e sons, com aquela voz que é tanto de veludo como sobe ao alto sem vacilar e sem nunca facilitar nas linhas densas e pesadas que formam este cruzamento de rock e música das pistas de dança, uma claustrofobia de "canções muito tristes", como explicará já mais para o fim o homem que criou este soundsystem.

É por essa altura que falará de como gosta de Lisboa, "como que uma segunda casa", que agradecerá ao público a comunhão na festa, entre elogios aos pastéis de nata. "Lisboa é um bom sítio para tocar", já tinha atirado no início.

Antes, a antecipar a pausa para o encore, "depois desta canção vamos saindo", o homem que em 2011 se fartou de uma indústria que lhe pedia para fazer sempre o mesmo e se retirou por uns anos, anunciando um longo adeus, pediu paciência ao público. "Vá lá, vocês já estiveram em concertos, são crescidos. É para irmos à casa de banho, porque somos velhos. Depois voltamos para mais umas canções. Quero só deixar as coisas claras, sermos honestos."

O regresso faz-se de Oh Baby, Dance Yrself Clean e a euforia final de All My Friends. Somos todos amigos crescidos, já ninguém pede mais. Mas sabemos todos que o espanto tomou conta da noite em Lisboa. Bem-vindos ao futuro.

[texto originalmente publicado no DN em 20 de junho de 2018; foto de Gustavo Bom/Global Imagens]

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