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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Julho 30, 2021

Presos à consciência

Miguel Marujo

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INVESTIGAÇÃO: Testemunhas de Jeová foram condenadas por não quererem fazer a tropa – nem o serviço cívico. Em Portugal, em plena democracia. Uma reportagem publicada em 2002.

 

Uma proibição de 50 anos valeu a prisão de muitos fiéis das testemunhas de Jeová, em todo o mundo. Em Portugal, também houve condenações. E dois ou três jovens terão passado pela prisão. A causa: recusa em cumprir o serviço cívico em alternativa ao serviço militar. Em nome de Jeová, que neste caso se pode traduzir em nome da intransigência dos homens.

Como José (os nomes são fictícios, a pedido dos próprios), membro das testemunhas de Jeová numa cidade do interior de Portugal. Esteve em tribunal por recusar prestar serviço cívico. Condenado com «uma pesada multa monetária» – ficou cadastrado, por uma doutrina que já não existe. Ou Manuel, filho de portugueses emigrantes nos arredores de Paris, que esteve preso um ano em 1989/90. Em França, como noutros países, muitas testemunhas passaram pelas cadeias.

Hoje, «o serviço militar é uma questão de decisão pessoal, de responsabilidade individual», disse ao PortugalDiário Pedro Candeias, da Associação de Testemunhas de Jeová em Portugal (ATJ). Mas nem sempre foi assim: da Segunda Guerra Mundial até 1996, os responsáveis veicularam a proibição do cumprimento de serviço militar e cívico.

Também diferentes acórdãos de Tribunais de Relação e do Supremo Tribunal de Justiça dão conta de vários recursos apresentados por jovens condenados, por recusa de prestação de serviço cívico.

Uma testemunha, nascida em Luanda, recenseada para efeitos militares no Laranjeiro, freguesia do concelho de Almada, baptizada numa congregação da ATJ de Almada, recusou-se servir a dois senhores: «Ali serviu como publicador cristão [que divulga porta a porta a sua doutrina]. Declarou não aceitar prestar qualquer outro serviço em substituição do serviço militar», lê-se no acórdão.

Já este ano [de 2002] uma publicação interna da ATJ – «Nosso Ministério do Reino» (Janeiro de 2002), a que o PortugalDiário teve acesso – anuncia o recenseamento militar para «varões» com 18 anos. Mais: trata-se de uma «obrigação cristã». Porque mudou a atitude? Por causa «da lei», dizem os "anciãos" da ATJ. Por «nada», respondem membros críticos da associação.

«As testemunhas de Jeová são profundamente cristãs», referiu Pedro Candeias. Por isso, seguindo «Jesus Cristo como ponto principal do ensino bíblico», devem recusar prestar serviço militar. A reserva é total, quando confrontado com as histórias individuais de "objectores ao serviço cívico": desconhece eventuais idas a tribunal, por não estar à época (finais dos anos 80 e inícios de 90) na direcção da ATJ. E a recusa da prestação de serviço cívico? «Teriam de ser os próprios a responder», diz Candeias.

Esta é a linha oficial desde 1 de Maio de 1996: a revista «A Sentinela» adverte que «o cristão dedicado e baptizado terá de fazer a sua própria decisão [em cumprir um "serviço civil compulsório"] à base da sua consciência treinada pela Bíblia». Mais: «Os anciãos designados devem respeitar plenamente a consciência deste irmão e continuar a considerá-lo como cristão de boa reputação».

«No passado, algumas testemunhas sofreram por se terem negado a participar numa actividade que sua consciência agora talvez permita», escreve-se ainda. Os críticos garantem que nunca se trataram de decisões pessoais, mas sim imposições. E quem não acatasse a ordem era excomungado, desassociado, e ninguém podia falar com eles - estavam condenados ao ostracismo.

Em 1949, no livro «Seja Deus Verdadeiro», o Corpo Governante – o órgão máximo dirigente mundial das TJ – condenou o «serviço militar combatente ou não». Proibição reafirmada em 1955, em nova edição, e em publicações internas («Despertai!», de 8/5/1975, e «A Sentinela», de 1/9/1986).

Como se lê num dos textos, de 1955: «A actividade de pregação dos ministros de Jeová lhes confere o direito de solicitar isenção de prestar treinamento militar e serviço nas forças armadas. A condição de isenção das testemunhas de Jeová também as dispensa de prestar o serviço governamental que se requer dos objectores de consciência aos serviço militares, combatentes ou não». O ano de 1996 ainda estava longe.

 

Um longo processo

Em Portugal, não há dados para quantificar o número de testemunhas de Jeová que tenham sido condenadas. Os processos ficaram dispersos por diferentes tribunais e o Gabinete do Serviço Cívico dos Objectores de Consciência (GSCOC) não recebeu esses dados sistematizados. O que se sabe é que cerca de 70/80 por cento dos objectores são fiéis daquele movimento religioso.

Até 1992, a obtenção do estatuto de objector de consciência ao serviço militar obrigatório forçava a um processo judicial, uma medida que só foi corrigida nesse ano – passando o processo a ser meramente administrativo.

Entre 1989 e 1992 foram vários os casos julgados. O Supremo Tribunal de Justiça emitiu 22 acórdãos sobre casos que envolveram testemunhas de Jeová objectoras de consciência. O incumprimento da prestação de serviço cívico implica uma pena que pode ir até dois anos.

As testemunhas de Jeová tentaram convencer os juízes que a sua recusa se fundava na sua doutrina. Os fiéis apenas se sentiam obrigados «a servir a Deus»: «Qualquer trabalho que fosse simples substituto para o serviço militar não seria aceitável às testemunhas de Jeová», lê-se em «Despertai!» (8/5/1975), uma argumentação repetida até à inversão da doutrina em 1996.

Às jovens testemunhas que recusavam cumprir a lei nunca lhes foi dito que o serviço cívico não estava ligado à instituição militar. E os processos seguiram para tribunal. Só não houve mais condenações por um acórdão do Supremo Tribunal de Justiça (STJ) – e pela actuação do GSCOC, que discretamente arrastou o reconhecimento dos objectores.

O acórdão do STJ, a 3 de Outubro de 1991, indica que «a concessão do estatuto de objector de consciência (...) não depende da prévia aceitação pelo requerente da prestação de serviço cívico, funcionando este como uma sua consequência e não uma condição». Ou seja, ninguém podia ir a tribunal apenas por manifestar a intenção de não cumprir o serviço cívico – depois de convocado, apenas podia ser condenado se recusasse a sua prestação.

Outro factor que veio aliviar a possível condenação de testemunhas de Jeová foi "prolongar" os seus processos entre o momento em que o estatuto foi requerido e a altura em que se reconheceu como objector. Por isso, verificou-se um aumento de estatutos reconhecidos a partir de 1996, com grande expressão em 1999: 2062 novos objectores, num universo de cerca de seis mil em dez anos (1992-2001).

 

«Um mundo orwelliano»

«Bem-vindo ao mundo “orwelliano” das testemunhas de Jeová», ironizaram fontes contactadas, a propósito de “sites” na internet e vozes críticas que, do interior das testemunhas de Jeová, procuram uma nova forma de viver a sua fé. «O que custa mais é transformar a partir de dentro», relataram. Por causa do «ostracismo» a que são votados os “dissidentes”, mas também os familiares que eventualmente permaneçam.

E há uma suspeição face àqueles que, de fora, procurem saber coisas sobre as testemunhas de Jeová, como revela uma advertência publicada em «Nosso Ministério do Reino» (Janeiro de 2002): «Irmãos de diversas congregações têm sido contactados por pesquisadores e outros que procuram obter informações sobre as Testemunhas de Jeová e a sua organização. (...) Se tais pessoas abordarem um publicador de congregação, ele deve fornecer o nome do superintendente presidente [um superior hierárquico]. Os anciãos [clero não remunerado] podem lidar com tais pesquisas e respondê-las de forma adequada (...).»

A falta de liberdade de expressão e os direitos humanos, a utilização da internet, as transfusões sanguíneas, o simples exercício do voto ou a recusa de cumprir o serviço cívico são alguns dos aspectos realçados pela documentação consultada.

A internet é hoje a principal fonte de críticas de muitas testemunhas de Jeová. Dezenas de sítios e páginas, sob a capa inevitável do anonimato, apresentam denúncias, procuram contradições, analisam documentação, alicerçado numa vontade – levantar «dúvidas». Um acto simples, mas reprovável, à luz do Corpo Governante, que tutela o pensamento “teológico” deste movimento religioso: «Não permita que dúvidas destruam a sua fé», lê-se num artigo publicado em «A Sentinela» (1/7/2001).

Num sítio crítico (“O Sentinela”, em alusão à revista das Testemunhas de Jeová) defende-se a internet como o instrumento que permitiu a muitos «conhecer o outro lado da moeda, as mentiras, os envolvimentos políticos, os falsos moralismos, os ensinamentos erróneos de cumprimento de profecias». Sem controlo da Sociedade Torre da Vigia (hoje Associação das Testemunhas Cristãs de Jeová), que desaconselha o uso da internet por fiéis. Curiosamente os órgãos dirigentes mantêm um “site” oficial – que se proclama como o «sítio autorizado acerca das crenças, ensinamentos e actividades das Testemunhas de Jeová».

[artigo revisto a partir do publicado originalmente no PortugalDiário.iol.pt, em 22 de março de 2002, na antiga ortografia, disponível em Arquivo.pt; foto do Congresso anual das Testemunhas de Jeová (em 2013, em Guimarães), de © Paulo Jorge Magalhães/Global Imagens]

Julho 27, 2021

Fazer amor sem suar e com a roupa interior vestida

Miguel Marujo

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Os clichés das produções de Hollywood estão registados num site divertidíssimo. Saiba tudo aquilo que os argumentistas repetem nos seus guiões.

 

Cena 7, take 2. Ação! Os dois principais protagonistas fazem amor, com a sua "roupa interior vestida". "Ela geme, mas não sua" e, depois do sexo, "ela deita-se de costas e puxa os lençóis até ao pescoço, exatamente como na vida real".

Não se trata do argumento de nenhum filme em particular. Retrata apenas três clichés das produções de Hollywood, em cenas de sexo, segundo um site divertidíssimo que regista os estereótipos dos filmes – Moviecliches.com. E clichés há muitos!

Qualquer personagem "apanha um táxi instantaneamente", basta esticar a mão e gritar. Mas se se tratar do herói do filme em perigo, "nenhum táxi aparece". É como os elevadores, que estão sempre no piso em que se encontram os protagonistas (como no filme Ricos e Pobres), exceto quando os heróis fogem dos vilões – e aí nunca mais chegam! Já se o herói foge do vilão, por elevador, o mau-da-fita consegue descer os 20 andares do prédio ao mesmo tempo.

A criatividade dos argumentistas não é posta em causa por estes detalhes (chamemos-lhes assim), mas lendo as 73 categorias disponibilizadas é impossível não reconhecer muitas cenas dos filmes que se veem. De A de "airplanes" [aviões] a W de "wood" [madeira], as mais diversas e hilariantes situações são listadas. "Há sempre uma freira em aviões que têm acidentes. Moral da história: nunca apanhem um avião com freiras" (como nos filmes Aeroplano e Aeroporto 77). Ou: "Quando os homens bebem whiskey, fazem-no sempre num copo pequeno, e bebem-no de um trago", lê-se na secção de "bares e bebidas".

Se encontramos secções que se limitam a um ou dois clichés, há outras que parecem autênticos tratados do disparate: em "Carros e condução", "os protagonistas encontram sempre lugar de estacionamento junto do seu destino"; em "mulheres", "as mulheres têm sempre as pernas e os sovacos depilados, mesmo na Idade das cavernas"; ou em "telefones", "todos os números de telefone começam por 555" (e há lá melhor exemplo que em O Último Grande Herói, quando um miúdo "entra" no filme do seu herói e para provar ao personagem de Schwarzenegger que "está" num filme, pergunta à menina do clube de vídeo o número de telefone e obtém como resposta o inevitável prefixo?!).

"Armas", "guerra", "lutas" e "vilões" são outras secções bem guarnecidas de estereótipos. E há ainda outras duas secções especiais: uma sobre "asteróides" e outra sobre o "Dia da Independência". A ficção científica sempre viveu de seres verdes, muito parecidos com... os homens.

Um site como este vive da contribuição de cinéfilos [apesar de hoje estar inativo]. E tem como mote uma frase do “rei dos clichés”, Jerry Seinfeld: "Quando se gosta de uma coisa, não se deve ser muito racional com isso. Como os vilões de todos os filmes de James Bond. Sempre que Bond entra na sua casa: 'Ah!, Mr. Bond, seja bem-vindo, entre. Deixe-me mostrar o meu plano diabólico e depois ponho-o numa máquina de morte que não funciona'."

[artigo revisto a partir do texto originalmente publicado em 2001, no Culto, site de cultura do iol.pt, hoje inacessível e cujo arquivo está apenas parcialmente disponível em Arquivo.pt; a foto é de Vicky Cristina Barcelona, filme de 2008, de Woody Allen, nesta cena com Scarlett Johansson.]

Julho 26, 2021

A indignação seletiva

Miguel Marujo

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Muitos que hoje atacam Otelo fazem-no por comparação a Salgueiro Maia. Talvez valha a pena lembrar que, em 1988, o então primeiro-ministro Cavaco Silva recusou atribuir a Salgueiro Maia uma pensão que tinha sido pedida pelo capitão de Abril pelos "serviços excecionais e relevantes prestados ao país" devido à sua participação no 25 de Abril, para a qual nunca obteve resposta. A recusa ou a falta de resposta ao pedido de Salgueiro Maia só vieram a público três anos depois quando Cavaco Silva concordou com a atribuição de pensões a dois ex-inspetores da PIDE, um dos quais estivera envolvido nos disparos sobre a multidão concentrada à porta da sede daquela polícia política no 25 de Abril — e muitos do que louvam hoje Salgueiro Maia calaram então qualquer indignação.


A ler: O Otelo que escolho celebrar (de Daniel Oliveira, no Expresso) e Demasiado cedo para a história? (de Rui Tavares, no Público).

Junho 27, 2021

O trompete que foi tocar em surdina para o quarto mundo

Miguel Marujo

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"Devo muito ao Jon. Na verdade, muita gente deve muito ao Jon. Ele semeou uma poderosa e fértil semente cujos frutos ainda hoje colhemos. Parece impossível que alguém tão essencial tenha passado ao lado de tanta gente. Mas a sua revolução foi sempre sem sangue, em surdina, abafada tal como o som do seu trompete mutante."

Roubei estas palavras a Brian Eno, que li num texto promocional do Teatro Maria Matos, em 2009, no qual tropecei à pesquisa de uma foto. Cá em casa, há um disco em nome próprio, que ficou demasiadas vezes abafado na prateleira, mas descubro-o ainda e ao seu trompete em Brilliant Trees, de David Sylvian, em The Passion, a notável banda sonora original que Peter Gabriel criou para A Última Tentação de Cristo, ou em The Million Dollar Hotel (mais uma essencial aventura musical de Wim Wenders), onde surge em nome próprio e na "banda do hotel". E talvez haja ali por mais algum trompete discreto, sem sangue e em surdina, a tecer sons que nos mergulham noutros mundos, ele que desvendou um "quarto mundo". Jon Hassell morreu este sábado, 26. Tinha 84 anos.

"As Jon is now free of a constricting body, he is liberated to be in his musical soul and will continue to play in the fourth world. We hope you find solace in his words and dreams for this earthly place he now leaves behind. We hold him, and you, in this loss and grief", escreveu-nos a família.

 

 

Junho 23, 2021

Os galos pedem a nacionalização dos ovos! Abaixo o sabão amarelo! Visite o andar-modelo

Miguel Marujo

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No Maio de 68, eles pegaram nos paralelos e fizeram das ruas de Paris a sua praia da utopia. Sonhavam com a imaginação ao poder, eram realistas, por isso pediam o impossível, era proibido proibir e a liberdade era o crime que incluía todos os crimes e por isso era a arma absoluta de quem protestava.

No 25 de Abril, naquela manhã clara e limpa, a liberdade saiu à rua num dia assim e descobriu-se também uma torrente de palavras novas para dar significado à festa que se vivia. Gritou-se por aquilo que a ditadura de 48 anos tinha roubado: "Liberdade, liberdade, liberdade" foi a palavra de ordem que muitos começaram a lavrar em forma de alegria nas ruas de Lisboa, registada pelos repórteres tão comovidos como os populares, enquanto acompanhavam os militares que tinham deposto o regime. Disseram "fascismo nunca mais", como se repete "25 de Abril sempre" porque nunca devemos ter a democracia por garantida. Pediu-se "trabalho igual, salário igual", e ainda temos de o lembrar. Dizia-se "os ricos que paguem a crise" e sabemos que continuamos nós a pagar as crises dos ricos. "O povo unido jamais será vencido", sonhava-se. Havia no ar e nas palavras aquilo que, uma vez, Pacheco Pereira definiu como "uma ideia antiautoritária, uma alegria antiautoritária", pronta a "incomodar os slogans da época".

Daí nasceram alguns irreverentes slogans, palavras de ordem que devíamos recuperar. Ficam algumas destas frases, prontas a serem escritas e levadas no bolso, para as usarmos na situação certa, quando alguém nos quiser dizer basta, quando afinal quer negar a liberdade.

"Abaixo o sabão amarelo! Abaixo a tinta-da-china! Independência nacional, já!" "Abaixo a reação, viva o motor a hélice." "Inter 2, Sindical 0." "A terra a quem a trabalha. Mortos fora dos cemitérios, já!" "Abaixo a foice e o martelo, viva o Black and Decker!" "O socialismo está em construção, visite o andar-modelo." "Os galos pedem a nacionalização dos ovos." "Cimbalino ao poder, abaixo o café de saco!"

Já sabemos: a liberdade está a passar por aqui.

[artigo originalmente publicado no DN, com o título "Visite o andar-modelo", a 24 de abril de 2019; foto MM, de abril de 2014, de uma exposição na Assembleia da República sobre os 40 anos]

Maio 31, 2021

A escrita de Patti Smith entre um café e uma tosta de pão escuro

Miguel Marujo

Patti Smith no Coliseu de Lisboa em 2015 Orlando A

M Train foi escrito em cafés, entre muitas doses de cafeína, uma tosta de pão escuro e um pequeno pires de azeite. Tratou-se do segundo registo autobiográfico da cantora, que depois desta obra já teve mais dois livros publicados em Portugal.

O café quer-se curto, cheio, seja bica ou abatanado, italiana, cimbalino, em chávena fria ou escaldada, sem princípio, carioca, pingado, com ou sem açúcar. Café, sempre café. Patti Smith só quer a chávena de café acompanhada de uma tosta de pão escuro e um pequeno pires de azeite. É senha e contra-senha para as suas viagens, pela memória dos seus dias, com o marido Fred, naquele que é o seu novo livro M Train.

O livro é movido a café, como já em setembro [dse 2015] confessava Patti Smith ao DN, numa conversa em que se antecipava o seu concerto em Lisboa. "Decidi que este livro não teria guião, desenho ou agenda, apenas me sentava e escrevia. Sentava-me num café, bebia o meu café, e escrevia. E assim fiz, escrevi. M Train é como mind train, o comboio da mente, como um comboio de pensamentos, e escrevi sobre cafés, viajar, o meu último marido, a pessoa que eu amava."

Este comboio é também um longo poema de amor a Fred Sonic Smith, o rapaz de Detroit que "foi um encontro inesperado" na sua vida e que "lentamente" alterou o rumo da vida de Patti.

Sentada à mesa do pequeno Café 'Ino, em Greenwich Village, na sua Nova Iorque adotiva, Patti rapidamente deixa a conversa com Zak, que lhe "tira o melhor café aqui das redondezas", para viajar, pela memória, pela mente, para os trópicos, entre o Suriname e a Guiana Francesa, como depois se senta no Café Pasternak , em Berlim, onde se senta na "mesa habitual". É quase sempre assim que se inicia a chegada a um local. "Deixei as malas no quarto e fui de imediato para o café", escreve de Berlim. Podia ser o seu café imaginário, que gostava ter um dia. Ou outro qualquer, pelo mundo, onde se senta. E nomeia pelo menos um em cada cidade.

Já se sabe: este M Train é também diferente do anterior livro autobiográfico de Patti. Agora, disse, "quis escrever um livro muito diferente" de Just Kids porque nesse livro a artista "tinha uma coisa específica que tinha que escrever". E explicou ao DN: "O Robert Mapplethorpe pediu-me que escrevesse Just Kids antes de ele morrer, sobre a nossa vida em comum e a nossa juventude, sobre a sua morte e arte, era muito específico."

M Train é diferente: é "um mapa das estradas da minha vida", apresenta a artista. "É mais autobiográfico. Ao mesmo tempo partilho com o leitor a vida como ela é, para mim, o que faço, como eu a guio. Os livros que ando a ler, as coisas que me preocupam, os meus pensamentos, a minha meditação. É um pouco divertido - e tem muito café", explicava-se ao DN. Não é só os livros que lê Patti, são quem a marca. E por isso Patti convence Fred a viajar de avião e carro até à fronteira entre o Suriname e a Guiana Francesa, atravessando o rio Maroni de piroga até Saint-Laurent-du-Maroni, antiga colónia penal e de deportação dos condenados que cumpriam sentença na terrífica ilha do Diabo.

O que leva a artista até aquela cidade onde chove sempre não é a famosa história de fuga de Henri Charrière, que escreveu um livro (Papillon) e deu origem ao filme com Steve McQueen - é antes a vontade de ver aquilo que Jean Genet chamava de "chão sagrado", ele que tinha sido condenado a cumprir pena, mas que já não o chegou a fazer ali porque o presídio foi encerrado. Patti recolheu pedras que fará chegar ao escritor através de William S. Burroughs. M Train é também isto: a soma encantada de encontros e referências literárias.

Em setembro [de 2015], Patti admitia ao DN: "É difícil explicar o livro, foi desdobrando-se em tempo real, mas regressa ao reino da memória." Patti Smith tem na escrita a mesma disponibilidade que mostra voz e no ritmo pausado com que fala, longe das guitarras com que ilustra a sua poesia ou dos sons viscerais com que canta. Mas a música também se nota em cada uma das páginas deste comboio movido a café.

[Artigo originalmente publicado no DN, em 7 de maio de 2016. Foto de Patti Smith no Coliseu de Lisboa em setembro de 2015 © Orlando Almeida/Global Imagens]

Maio 18, 2021

"Ainda aqui estou na terra dos vivos." Uma canção para o Armistício

Miguel Marujo

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Sinéad O'Connor, Brian Eno, o rolling stone Robin Wood e o pink floyd Nick Mason juntaram-se em homenagem aos homens caídos nas trincheiras da I Guerra Mundial.

 

À voz grave do ator Cillian Murphy, que nos lê uma carta do tenente Michael Thomas Wall, do regimento real irlandês, junta-se a voz inconfundível da cantora Sinéad O'Connor, para nos trazerem o sofrimento dos homens que, há 100 anos, celebraram a paz nas trincheiras da Europa. Michael não sobreviveu à guerra, mas as suas palavras inspiraram o projeto da nova editora Evamore, que homenageia todos aqueles que caíram tombados.

"Deus me conceda que chegue em segurança", escreve o jovem irlandês à sua mãe, que esperava regressar a casa. "Ainda aqui estou na terra dos vivos", nota Michael. "Eu vi os olhos cansados de homens duros cheios de lágrimas e nunca vi uma carnificina como esta, nem um único corpo humano foi deixado intacto", descreve numa leitura comovente de Cillian Murphy, o ator de Dunquerque.

A papoila da capa não engana: este é um disco de homenagem aos homens mortos na I Guerra Mundial, assinado por Sinéad O'Connor, com o produtor e músico Brian Eno, o guitarrista dos Roling Stones, Ronnie Wood, o baterista dos Pink Floyd, Nick Mason, os coros de Imelda May e a narração de Cillian Murphy, numa produção de John Reynolds.

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Editado em EP, que disponibiliza quatro versões para o tema One More Yard - uma expressão que era usada pelos soldados nas suas cartas e diários referindo-se aos avanços através da chamada terra de ninguém - este projeto conta com a composição de Brian Eno para as palavras lidas por Murphy e o poema da canção interpretada por Sinéad inspira-se também nas palavras do soldado morto.

As verbas angariadas com a venda deste disco serão para apoiar a investigação de cancro. No jornal britânico The Independent, Nick Mason explicou que o projeto One More Yard (disponível nas plataformas de streaming, como o Spotify) "permite que pessoas como eu prestem homenagem aos jovens que há 100 anos lutaram pela nossa liberdade, mas também para fazer algo para ajudar os jovens que enfrentam hoje o cancro".

Já Ronni Wood invocou a sua própria experiência com a doença. "Como alguém que teve de lidar com o cancro, estou muito feliz por fazer parte desta nova iniciativa de consciencialização - é uma ótima ideia apoiada por algumas pessoas científicas brilhantes", disse. Eu adoro a canção One More Yard, uma triste história verdadeira com uma melodia assombrosa. Foi um prazer tocar neste tema."

[artigo originalmente publicado no DN em 12 de novembro de 2018; foto de cima: na I Guerra Mundial, aspeto das trincheiras portuguesas, com membros do Corpo Expedicionário Português na Flandres, como descrevia a Ilustração Portugueza, de 25 de março de 1918, in © Arquivo DN.]

Maio 10, 2021

Não vai ter golpe. (De quando o Brasil entrou em ebulição)

Miguel Marujo

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Entre aquela noite de vento no verão passado [2015] e esta tímida primavera, o Brasil entrou em ebulição e, há pouco mais de uma semana [em abril de 2016], deputados encheram a boca com deus e a família para justificar meras jogadas políticas, enquanto um deles invocou um torturador da ditadura militar brasileira como sendo "o terror de Dilma", a Presidente da República que foi torturada.

Esse golpe de 1964, louvado pelo deputado que cuspiu na democracia que lhe permite o dislate, foi o mesmo que levou Gilberto Gil e Caetano Veloso a deixarem para trás o sol e o sal da Bahia em que nasceram e cresceram e a exilarem-se em Londres. Agora, regressam a Portugal, desta vez nos coliseus do Porto e de Lisboa, para cantarem a sua amizade longa de mais de cinco décadas (depois de terem atuado a 31 de julho do ano passado em Oeiras), no espetáculo Dois Amigos, Um Século de Música, a digressão que festeja 50 anos da carreira de cada um.

Estávamos em julho de 1969 e a escolha da capital britânica para o exílio devia-se apenas à música, explicou Gil. "Paris tinha um meio musical aborrecido, Londres era o melhor sítio onde um músico podia estar", justificou nas páginas do jornal The Guardian. Curiosamente, Lisboa e Madrid ficavam fora do mapa do exílio porque os dois países também "viviam sob uma pesada ditadura". As ditaduras definiam o rumo dos dois amigos: deixaram o Brasil, onde tinham estado presos seis meses - dois na cadeia, quatro em prisão domiciliária - para chegarem à vida londrina onde experimentaram fundir o tropicalismo e o samba que traziam de Salvador e do Rio de Janeiro com o rock, o funk, o reggae ou o jazz que por esses dias ouviam nas ruas e nos clubes de Londres.

Ao celebrarem por estes dias 50 anos de música, eles têm o Brasil como pano de fundo: o golpe de 1964 assomou nas manchetes dos jornais de 2016 - e Caetano (com Gil) voltou a recordar esses tempos, num programa da televisão brasileira, Altas Horas. "A passeata", disse da manifestação de domingo, dia 13 de março, "não era suficientemente diferente da passeata da Família com Deus pela Liberdade que produziu o golpe de 1964, que ajudou a dar o golpe. O buraco é sempre mais em baixo, mas a gente tem que olhar com objetividade", apontou.

Novo disco

É esta objetividade que um e outro, Gilberto Gil e Caetano Veloso, colocam na música que fazem, celebrada agora numa digressão que começou com 25 canções escolhidas e viu o seu repertório crescer. Pelo meio já houve disco, com o mesmo nome da digressão, Dois Amigos, Um Século de Música (Ao Vivo), publicado em janeiro deste ano, que recupera o concerto de São Paulo, um dos 44 espetáculos que passaram por 35 cidades em 21 países, com uma audiência de umas 135 mil pessoas.

Os "veneráveis velhos da música brasileira", como lhes chamou o crítico da revista da especialidade Songlines, demonstraram bem mais do que aquilo que Alex Robinson ouviu no disco, a voz cansada e rouca dos 73 anos de Gilberto Gil, ou a "melhor forma" da doce voz de Caetano Veloso, também com 73 anos. Quem ouviu Gilberto Gil no verão passado, em Oeiras, a fazer percussão do seu violão e a usar a voz como o instrumento que soou mais alto enquanto cantava "Não tenho medo da morte mas sim medo de morrer", desconfia que seja assim, apesar da versão mais contida registada em CD de Não Tenho Medo da Morte, que vem já na segunda parte do concerto.

Os veneráveis velhos amigos transportam memórias de mais 30 álbuns, cantando à vez ou em conjunto, tocando violão e guitarra, num despojamento instrumental que não afasta a linguagem pouco ortodoxa que os dois sempre imprimiram à sua música, a solo ou em colaboração. Com a ditadura militar que os levou ao exílio, Caetano e Gil também fugiram à obrigação canónica que a esquerda intelectual queria impor contra o imperialismo, fosse na recusa das letras em inglês ou do uso da guitarra elétrica.

Back in Bahia

Hoje são dois corações vagabundos que resistem a adversidades, como aquele vento que assobiava aos microfones ou a inclemente distância de um palco num estádio como o do Parque dos Poetas, em Oeiras, no último verão. Agora, nos coliseus, numa série de quatro concertos que começou ontem à noite, haverá outra intimidade para acompanhar um alinhamento que, sem surpresas, deverá abrir com Back in Bahia, o regresso à Bahia quando em 1972 os dois deixaram o exílio político.

Sempre com os dois no palco, até quando um deles não toca nem canta, de camisa negra Caetano, de roupa branca Gil, estes dois rapazes deverão socorrer-se de composições que não são suas. E à abertura com uma canção de Gilberto - que foi ministro no primeiro governo de Lula da Silva - o concerto deve fechar com A Luz de Tieta, a feliz composição de Caetano que os portugueses reconhecem da telenovela.

Ao exílio, à subversão, ao experimentalismo, um e outro sempre olharam bem de perto para o seu Brasil. Canta Gil, podia também ser Veloso a dizer: "Não tenho medo da morte/ Mas sim medo de morrer/ qual seria a diferença/ Você há de perguntar/ É que a morte já é depois/ Que eu deixar de respirar/ Morrer ainda é aqui/ Na vida, no sol, no ar." Como estes dias que o país vive. E um dia eles voltam para lá, para a Bahia, de onde vieram, para a cantar e contar, como eles cantam. "Agora, os acontecimentos estão se atropelando. Precisamos de ter calma para olhar os acontecimentos. Não temos uma ditadura, mas o Brasil é um país desumanamente desigual e toda movimentação no sentido dessa tentativa de diminuir a desigualdade enfrenta a oposição da elite. Eu desconfio", argumentou Caetano na televisão.

No concerto em Salvador, no dia 2, quando o público se manifestou durante o tema Odeio (e Caetano canta "odeio você, odeio você, odeio você" - é apelativo, entende-se), usando as palavras de ordem dos apoiantes da presidente, "não vai ter golpe", Caetano concordou, "não vai" (mas a Câmara dos Deputados votou mesmo a abertura do processo de impeachment a Dilma Rousseff). Não vai ter golpe, não. Pelo menos nestas noites no Porto e em Lisboa. Sabemos bem com que linhas se tecem estas vozes.

[artigo originalmente publicado no DN, em 25 de abril de 2016, com o título "Não vai ter golpe. Caetano e Gil"]

Abril 28, 2021

"Jesus almost got me". Morreu Anita Lane

Miguel Marujo

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[Anita Lane, 1959-2021*]

Love is cruel/ Love is truly absurd/ Jesus almost got me/ I don’t know how many prayers he overheard.

Escassas informações apontam para a morte de Anita Lane, a voz vertiginosa que nos embalou em tantas canções com os Birthday Party, Bad Seeds, Nick Cave, Mick Harvey ou a solo. E vive na música.

* - É um mistério de vida na hora da morte. Não é claro o ano de nascimento de Anita: o Público toma como boa a data de 1959, que a Wikipedia refere como "c. 1959", já o site The Quietus, disponível num dos links deste post, começou por apontar 1962, mas corrigiu para 1959, com "62 anos", atribuindo a informação a fonte da editora. Para o jornal britânico The Guardiano mistério é sintetizado numa frase sobre esta natural de Melbourne: "No cause of death was given, and her age – believed to have been in her early 60s – could not be immediately confirmed."

Março 30, 2021

Fragmentos soltos de um sorriso

Miguel Marujo

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Faltam-me sempre as palavras, quando as notícias pedem recato. E, logo pela manhã, o Carlos escreveu-nos tudo: “A Xexão partiu no silêncio da noite para a margem da aurora.” Já se esperava, mas nunca esperamos­­, e as memórias assaltaram-me, num atropelo de afetos e histórias e canções e sorrisos – aquele permanente sorriso com que nos acolhia.

Essas memórias permanecem. Como a de um certo dia, num encontro do MCE, em que nos falou de relações – e foi ao francês para nos dizer que “conhecer” se diz connaître, que é como quem diz co-nascer. E deixou-nos essa proposta. Era assim: nunca se impunha, nunca nos impunha uma ideia, sugeria-nos. Mesmo nos momentos em que a minha vida se complicou, não tinha nenhum juízo para fazer, apenas palavras de esperança e uma enorme vontade e disponibilidade de ouvir. E questionar. E interpelar.

Houve uma noite em que nos convidou para jantar em casa, ainda no Príncipe Real – e eu brincava sempre com a toponímia daquela morada, fascinava-me a Travessa do Abarracamento de Peniche – com uma vista de perder o fôlego, a colina a descer o casario fora até ao rio. Pediu ao João Borges para levar a guitarra portuguesa e à Ana Luísa o seu violino, e a noite foi mágica, por entre gargalhadas desgarradas e conversas soltas, saltitando entre as coisas banais do quotidiano e as políticas da cidade, do país e do mundo, uns e outros com a mesma leveza e inquietação de sempre. Em cada gesto punha solenidade e risco, como no poema de Sophia.

Lembro-me de nos contar porque não conseguia ouvir sons repetitivos, como uma simples caneta a bater numa mesa. Relatava aqueles dias de tortura, às mãos de pides, com a serenidade que sempre colocou nas palavras. O 25 de Abril apanhou-a na prisão e por isso dizia ser a data da dupla libertação. Há quase um ano, no dia da Liberdade, escreveu que “não a queremos só mais alguns anos”. Ela, a liberdade, “veio para ficar e nós só temos de a defender sempre. É uma condição da democracia que é o regime que permite viver em comum dignamente.”

Como tão bem escreveu o Carlos Antunes, no 7Margens: “Habitava-a uma genuína alegria pela vida. Alegrava-se com os êxitos dos amigos, com ver os mais pequenos da família a crescerem em autonomia, com uma vida reencontrada, com um gesto de bondade, com os jacarandás em flor… Estava atenta ao acontecer da vida. Alegrava-se muito com o bem, com a liberdade, com a justiça e com a bondade. Amava a vida. E perguntava-nos, aos amigos, que lugar tinha a alegria na nossa vida. Desfrutava do prazer do lúdico e da fruição gratuita. Não alinhava nada com uma certa veneração da tristeza.”

Quando olho para a minha caixa de correio, as suas mensagens metem de tudo, preocupações com notícias, as muitas atividades em que se envolvia, já no bairro de Campo de Ourique, breves perguntas, “como estás? e a nossa Clarinha? tão crescida, ela”, e convites para jantar ou a visitar, e de como este ano nos foi roubando essa vontade. Mais recentemente dizia-me, “não estou famosa, mas estou bem disposta”, e da última vez que falámos, há um par de semanas, falhou-me a voz. “Beijinho, afilhado.” Beijinho, madrinha.


Maria da Conceição Moita (1937-2021)(A foto é de 2007.)

Março 23, 2021

Debaixo do Céu

Miguel Marujo

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Nos planos finais, que se sucedem no ecrã, o que vemos é uma cidade arrasada, esventrada, quase sem vida — e a voz daquela mulher conta o que significou para ela, judia, refugiada, ouvir em 2000 no parlamento israelita o então presidente alemão Johannes Rau admitir que “Hitler nunca teria conseguido nada se não tivesse tido o apoio do povo alemão”. E, conclui aquela mulher, há sempre gente decente, “e muitos judeus foram salvos por alguns alemães decentes”, mas antes tinha dito a tal verdade incómoda. “O povo alemão apoiou Hitler voluntariamente.” 

Ao ouvir isto, ressoou em mim o voto de quase meio milhão de pessoas, que nos dizem que não são fascistas. Não serão todos, mas voluntariamente apoiam um discurso que abre a porta aquilo que a Europa já viveu e não pode voltar a viver, nem esquecer, nem perdoar — o fascismo, o racismo, o discurso de ódio.

 

(Debaixo do Céu dá voz a refugiados que fugiram aos nazis, com imagens da época. Passou no final de janeiro na RTP2, e então escrevi este apontamento. Está disponível na RTP Play.)

Março 01, 2021

O tríptico da pandemia. Canções para estes tempos de inquietação

Miguel Marujo

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De surpresa, Nick Cave trouxe-nos mais um disco, por estes dias, Carnage, assinado a meias com Warren Ellis, seu parceiro nos Bad Seeds e companheiro de muitas bandas sonoras. Com o mundo fechado em si mesmo, por conta de uma pandemia, uma digressão (que passaria por Lisboa) cancelada e a raiva de não poder subir a um palco, o australiano já se tinha apresentado em 2020 alone ao piano e escrito o libreto para uma quase-ópera de um compositor belga.

Carnage é como que uma terceira parte daqueles dois trabalhos, todos eles marcados por estes tempos de pandemia, como assumiu o próprio Nick Cave. Quando anunciou em dezembro que os concertos no Reino Unido e na Europa estavam cancelados, o músico explicou-se no seu site em que mantém correspondência com os fãs que, sem a digressão, o melhor mesmo era gravar um disco. “Time to make a record”, e fechou a conversa.

“Fazer Carnage foi um processo acelerado de intensa criatividade”, contou por sua vez Warren Ellis, o companheiro que é cada vez mais a mão que guia Cave, seja nos Bad Seeds, nos discos e em palco, seja na forma como as suas orquestrações arrumam no tom certo as canções de Nick.

E que canções, estas. Nick Cave descreveu o álbum como “um registo brutal, mas muito bonito, aninhado numa catástrofe comunitária”. “We won't get to anywhere, darling/ Anytime this year/ We won't get to anywhere, darling/ Unless I dream you there”, e a partir de Albuquerque revisitamos este longo ano de confinamentos. Mas estas são canções cheias de fé dentro, que é como quem diz cheias de dúvidas e incertezas, e comoventes. Mesmo um descrente pode ouvir nestas palavras e sons um qualquer deus.

Naquele que é o primeiro disco de canções de Cave e Ellis, prolongando a colaboração a dois na escrita para cinema e no trabalho coletivo dos Bad Seeds, a criatividade posta nesta carnificina foi intensa: “As oito músicas estavam lá de uma forma ou de outra nos primeiros dois dias e meio”, disse Warren. E isso reflete-se em composições que ora nos aconchegam, ora nos desacomodam. “People ask me how I’ve changed/ I say it is a singular road/ And the lavender has stained my skin/ And made me strange”, revela-nos em Lavender Fiels, uma bela canção que musicalmente, sobretudo nos coros, nos remete para as composições religiosas da comunidade ecuménica de Taizé, que Cave e Ellis nunca terão ouvido na vida. “We don’t ask who/ We don’t ask why/ There is a kingdom in the sky”, ouve-se ainda.

As polifonias vocais de Hand of God ou White Elephant embebidas na matéria orgânica sonora que Ellis tece em torno das letras de Cave recusam sempre uma grandiloquência desnecessária, comovendo antes o mais empedernido dos corações. Como aqueles versos que nos fecham o álbum, em Balcony Man: “And this morning is amazing and so are you/ This morning is amazing and so are you/ This morning is amazing and so are you/ In the morning sun.” Infinitamente simples.

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Este tríptico da pandemia iniciou-se em 2020, o ano em que o australiano se sentou sozinho ao piano, registado em Idiot Prayer, para nos trazer 22 orações muito pessoais, desde o londrino Alexandra Palace para todo o mundo, numa transmissão em streaming, e em que se dedicou também à escrita de 12 litanias a convite do compositor neoclássico belga Nicholas Lens.

Nick Cave teve de ir pesquisar o significado de litania, apesar de ter aceitado prontamente a proposta para escrever uma ópera para Lens, para quem já tinha feito um anterior libreto, Shell Shock, sobre os horrores da I Guerra Mundial.

“A primeira coisa que fiz, depois de desligar o telefone, foi pesquisar: ‘O que é uma ladainha?’ E aprendi que uma litania era ‘uma série de preces religiosas’ e percebi que, durante toda a minha vida, escrevi litanias”, contou.

Uma improvável paixão de Cristo

Não é de agora que a religiosidade e a espiritualidade impregnam a música de Nick Cave, e de uma forma mais explícita (e assumida pelo músico) no seu percurso mais recente, marcado pela morte de um dos seus filhos em 2016. Skeleton Tree e Ghosteen são marcas indeléveis dessa jornada entre o desespero e a graça.

Também em L.I.T.A.N.I.E.S., o álbum que a Deutsche Grammophon editou dias antes do Natal de 2020, as palavras de Cave transportam a música de Lens por uma improvável paixão de Cristo, minimal e contida de palavras e frases que se repetem como numa ladainha, por vezes hipnótica, quase sempre melancólica.

“Eu estava confinado, a minha digressão mundial tinha sido cancelada e sentia uma estranha inquietação, tanto apocalíptica quanto monótona. Nicholas ligou-me e perguntou se eu poderia escrever doze litanias. Eu concordei alegremente.”

O registo é menos operático e a composição de Nicholas Lens remete-nos antes para música de câmara, onde a tensão das cordas, sopros, teclados e percussões com as vozes tinge o silêncio destes tempos de pandemia. Este é um álbum que não esconde os dias em que nasceu: o confinamento de Lens em Bruxelas, o silêncio que se ouvia na capital belga, cruzaram-se com uma experiência de Nicholas no Japão, onde ouviu um conjunto zen que conseguiu “transformar uma tristeza vaga e avassaladora numa promessa calorosa”.

Para gravar o disco, por causa do distanciamento físico exigido, Nicholas Lens rodeou-se de um pequeno ensemble de câmara (viola, violino, violoncelo, clarinete, fagote, flauta, saxofone, percussão e teclados), músicos também eles confinados, cada um em sua casa, e das vozes da sua filha, Clara-Lane Lens, da sua própria (assinando com o seu nome, Nicholas L. Noorenbergh), da soprano Claron McFadden e da do tenor Denzil Delaere.

Esta paixão abre com Litany of Divine Absence, com o piano a marcar o compasso e uma voz sussurrada que pergunta Where are You?, a criatura a questionar o Criador, “onde estás?”, como uma criança perdida no escuro, ou um filho de Deus cheio de dúvidas no Monte das Oliveiras.

Por algum motivo, o libreto começa com a Litany of Divine Absence e termina com a Litany of Divine Presence (“I see you”, canta a voz). E neste caminho há lugar à transformação, também pelo amor, outro tema omnipresente na escrita do australiano: “And I’ll watch you die and I’ll save youAm full of language, but do not speakI am holding you and I need youI am holding you and I need you/ I need you”.

É Nick Cave que nos diz, por estes dias, em mais uma das suas cartas aos fãs, na qual fala sobre o cristianismo, que “atos de compaixão, bondade e perdão podem acender [o] espírito de bondade dentro de cada um e no mundo”. Tal como em L.I.T.A.N.I.E.S., onde nos conduz entre o desespero e a graça, Cave aponta para a redenção que também ele procura. “Pequenos atos de amor que se estendem e trazem socorro a esse espírito animado, o Cristo suplicante, tão necessitado de reabilitação.”

L.I.T.A.N.I.E.S. vive essa experiência e pede que nos deixemos levar nesse mesmo conflito. Se durante toda a sua vida, Nick Cave escreveu litanias, vale então a pena perscrutar Idiot Prayer, o tal registo do australiano a solo (“alone at Alexandra Palace”, diz-nos em subtítulo a capa do disco de 2020), que despe de artifícios 22 das suas canções e poemas e nos apresenta o seu universo em voz e piano. E onde encontramos uma resposta para estes dias de pandemia: é o mistério, a incerteza e o conflito que alimentam a fé de cada um (e fé é duvidar sempre). Como em todas estas litanias e orações.

 

O álbum Carnage foi editado a 25 de fevereiro. Dois dias antes, tinha publicado no jornal 7Margens um texto sobre as duas obras anteriores de Nick Cave, Idiot Prayer e L.I.T.A.N.I.E.S., quando afinal havia novo álbum ao virar da esquina. Ao ouvir Carnage, com Warren Ellis, ouvi-o logo como uma terceira parte do que seria aquele texto se tivesse sido escrito dois dias depois. Assim, mantendo a estrutura desse texto original, acrescentei agora algumas notas sobre o novo disco. Fotos de Joel Ryan e Cat Stevens.

Fevereiro 27, 2021

Ainda tínhamos um sonho ou dois

Miguel Marujo

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Aveiro, 1988, algures por aí. Pelo palco fora, montado nas caves ainda em reboco da universidade, entra uma carrinha Toyota Hiace e de lá de dentro, umas duas horas atrasados, saltam os Pop Dell'Arte.

O concerto foi épico, como são tantas aventuras aos 16 anos, com o stôr de Antropologia bêbado ao nosso lado, no palco Querelle e Juramento sem Bandeira e Sonhos Pop e Avanti Marinaio, e passados estes anos permanece a imagem daquelas Catacumbas (que era o nome que se dava às caves) da Universidade de Aveiro, assim como dura o meu gosto pela transgressão, ilógica e contramundo da free pop desta banda cujo rosto sempre foi João Peste. 

E estas notas soltas nascem no final do visionamento do documentário Ainda Tenho um Sonho ou Dois - A História dos Pop Dell´Arte, de Nuno Galopim e Nuno Duarte, exibido este sábado à noite na RTP 2 (e disponível na RTP Play). Arriba, avanti, pop dell'arte.

O Nuno Galopim recordou em 2015 os 30 anos da banda, na então Máquina de Escrever. Vale a pena espreitar.

Janeiro 04, 2021

Quando chegou o verão que nos fez sonhar

Miguel Marujo

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Se há geografia para estas canções, essa geografia é a daquelas praias em que acordamos com a ronca do farol a guiar os barcos pelo nevoeiro e a pedir algo mais que a manga curta dos calores desses dias. É um verão sereno, um simples verão, quase melancólico, sem euforias de latitudes tropicais, que pede corpos dolentes — e este verão também se dança.

Se há tempo para estas canções, é este tempo: os primeiros acordes deste Verão, o novo disco dos Gift, revelados [em 22 de março de 2019] no tema-título deste álbum, pareciam mais agarrados ao que tínhamos ouvido em Altar (2017), fruto de uma colaboração com o músico e produtor Brian Eno, que se repete neste álbum, desde esta sexta-feira [29 de março de 2019] disponível nas lojas.

No entanto, Blue, o instrumental com que abre Verão (como Black abria Primavera), remete-nos para um novo campo de sonoridades a explorar por Sónia Tavares, Nuno Gonçalves, Miguel Ribeiro e John Gonçalves. E se é impossível não pensar em Brian Eno, por entre as suas obras ambientais quase minimalistas, também se reconhecem propostas que já ouvíramos em Altar.

Este é um álbum que se segue a Primavera, o disco de 2012, como nos contam os próprios The Gift, na folha promocional. "Neste verão o preto e branco da Primavera dá lugar ao azul escuro. Neste verão o preto e branco da ausência de cor dá lugar ao vazio de uma sala de estar com luz do sol, ameno, sossegado, impulsivo... Dá lugar ao calor visto desde dentro. Inspira a reflexão. Neste Verão corre apenas uma brisa. Uma suave brisa."

No disco gravado entre Alcobaça, nos Estúdios Casa Azul, e Londres, nos Brian Eno Studios, os Gift trocam-nos a volta: Hammock é cantada em português, Vulcão e Sol trazem-nos palavras em inglês. As canções demoram-se, como em Impressiveness ou Foggy, que seduzem no jogo de cordas e voz, exaltam-se em Cabin, superam-se na luxuriante Lowland e arrebatam-nos em Vulcão. Se Lowland — na voz de Nuno Gonçalves — arrisca-se a entrar no cânone dos temas pop mais reconhecíveis dos Gift, Vulcão já está no panteão dos temas imprescindíveis do grupo originário de Alcobaça, num mantra sonoro que faz deste Verão uma paragem obrigatória.

Não é um verão de tainadas, este. É um verão que faz sonhar, o enorme oceano à nossa frente e a imensidão do espaço, almost like a magic satellite, como cantam em Lowland. Finalmente, chegou o Verão.

 

"Há 20 anos, a esta hora, estávamos a ficar cheios de nervos"

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Há 20 anos, os Gift subiram ao palco da Aula Magna, em Lisboa, para um concerto que ficaria registado no imaginário da banda — e do público que ali foi e da comunicação social da época — como "mítico". Seis, sete meses antes, com Vinyl o álbum de estreia de 1998, a banda de Alcobaça tinha tido uma estreia menos apoteótica em Lisboa.

Agora, 20 anos depois, Sónia Tavares, Nuno Gonçalves, John Gonçalves e Miguel Ribeiro regressam a uma sala onde voltaram outras vezes para apresentar o novo disco Verãoacompanhado de uma revisitação de Primavera. Apesar do tempo, esta quinta-feira à noite é doVerão que vamos ter notícias.

Horas antes do concerto desta quinta-feira na Aula Magna, Nuno Gonçalves recorda ao DN que "há 20 anos, a esta hora, estávamos a ficar cheios de nervos". Hoje em dia, olhando para esses dias, o músico explica, numa breve conversa com o DN, o que mudou desde então — e o que se pode esperar hoje [9 de maio de 2019]. (E nos próximos dias 12, na Casa da Música, no Porto, e 17, no Teatro Académico Gil Vicente, em Coimbra.)

Vinte anos depois, este regresso à Aula Magna é um marco?

Sim, é um marco importante. É a uma sala a que já voltámos outras vezes, ao longo destes 20 anos, não é um regresso em primeira mão. Pontualmente visitámo-la, na altura do Film (2001) e do AM-FM (2004), e deu-se o acaso deste disco, deste Verão, ser 20 anos depois dessa mítica noite, que para muitos foi o espoletar dos Gift. Há 20 anos estávamos a esta hora a ficar cheios de nervos.

Para quem não esteve, como é que descreveria o concerto?

Ainda ontem, a Sónia partilhou uma reportagem desse espetáculo e vi o alinhamento que tínhamos tocado. Tínhamos dez canções de alinhamento, mais cinco de encore e no final repetimos o single da altura, o OK! Do You Want Something Simple? — e houve uma explosão de alegria com uma invasão do palco. O concerto ficou marcado por esse momento final, por essa explosão e por esse público.

Na altura era um espetáculo bastante ambicioso. Era uma banda que, na última vez que tinha tocado em Lisboa, tinha sido no São Luiz seis ou sete meses antes, e não tinha esgotado, tinha sido um concerto cheio, mas não tinha sido apoteótico. Foi o lançamento do Vinyl. E seis meses mais tarde esgota uma sala grande em Lisboa, sem nenhuma máquina por trás, sem nenhuma editora, sem nenhuma produtora, e foi sobretudo com isso, com a música dos Gift, e acho que isso é que é notável nesta história!

Uma banda que não era de Lisboa — e isto hoje é muito importante de focar, porque vivemos outra vez muito o que vivíamos nos anos 90: ou vens de Lisboa ou não prestas para nada, ou pelo menos como não te conheço muito bem não sei até que ponto é que vales assim tanto, o que ainda é pior. Esta banda esgota uma sala mítica em Lisboa — e a partir daí as dúvidas ficaram dissipadas. Os Gift marcaram muito mais concertos, tiveram muito melhores críticas, tocaram muito mais na rádio, em seis meses foi uma ascensão apoteótica.

O alinhamento ainda não está definido. Até que ponto se podem esperar por surpresas?!

Gosto muito deste espetáculo porque estamos a fazer uma coisa que quase nunca fizemos. Nós nunca preparamos o alinhamento, o alinhamento é feito entre o ensaio do som e o espetáculo, é feito por mim e é decidido quase de forma impulsiva, consoante o que acho que vão ser os momentos altos e baixos do espetáculo.

Desta vez como também temos esta missão de tocar em revisão o álbum Primavera e o álbum Verão, temos um conjunto de canções forte e intocável destes dois discos. Por um lado, estamos muito excitados por tocar as coisas novas, por outro lado, muito excitados também e motivados por conseguirmos voltar a este disco [Primavera, 2012], que infelizmente não teve espaço no alinhamento ao longo destes anos, porque é um disco bastante solene, feito para teatros, não é para praças ao ar livre, com 10 mil ou 15 mil pessoas a ver. É mais calmo, mais sereno, este é o mote forte do espetáculo.

Uma banda como os Gift já não tem muito a provar, mesmo a nós próprios, interessa-nos essa ideia calma e serena de apresentar as canções. É um espetáculo muito bonito, muito belo, com uma interação muito frágil entre o vídeo e a música que fazemos, com um convite para respirar, numa altura em que tudo é rápido, tudo tem que ser dançável e imediato. Agrada-me imenso. Há uma eletrónica muito mais pausada, relaxada.

Também é um concerto tecnicamente difícil para todos os músicos. Não é fácil juntar todas estas coisas em palco, temos vibrafones, um órgão de fole, o piano sempre presente, muitas vozes, uma bateria muito pouco convencional, que tem muitos samples a disparar, uma guitarra clássica...

Há um trabalho só vosso ou contam com a colaboração de outros?

Contamos com a colaboração de mais três músicos, o Mário Barreiros, o Paulo Praça e o Israel Pereira na guitarra clássica. Acho que o sucesso de uma banda hoje em dia é não haver uma especialização de cada músico: não podes tocar numa banda e ser só baixista ou só guitarrista. Esta ideia de circular por vários instrumentos acaba por ser interessante e estimulante.

E contam revisitar Vinyl, à passagem dos 20 anos?

Não creio, os Gift nunca foram uma banda a olhar para trás, nunca na vida olhámos para trás. Inclusive nesse concerto há 20 anos estreámos uma música, que faria parte do Film em 2001. Gostamos mais de olhar para a frente, não temos essa paixão de nostalgia de revisitar muita coisa, mas não sei ainda. Estamos muito contentes com este disco, por isso não faz sentido roubar tempo ao alinhamento. Na Aula Magna, é preferível apostar em coisas novas, como Vulcão, Lowland ou até Sol.

 

E eles convidaram-nos para a sala de estar deles

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Há 20 anos, a Aula Magna acabou com uma invasão do palco. Agora, os Gift voltaram a juntar os amigos no conforto da sua sala de estar, para um concerto que prometia ser relaxado mas também acabou com o palco invadido. Uma festa!

Aula Magna foi esta quinta-feira à noite uma imensa sala de estar para a qual os Gift convidaram amigos e conhecidos, uns que há 20 anos já ali tinham estado a festejar, de tal forma que invadiram o palco, outros que nem nascidos eram - e que também acabaram a invadir o palco no final da noite de uma imensa festa.

Como amigos que sabem receber, contaram-nos histórias, riram-se e brincaram, elogiaram os Cure e desdenharam do que Madonna anda a fazer, agora que ela até é nossa vizinha, ofereceram-nos duas horas de alegria e melancolia, alguma esperança, sem grandes danças (disseram eles). Mas, no fim, como acontece sempre entre amigos, houve dança e palmas e barulho, e uma nova invasão de palco, 20 anos depois, agora com Big Fish, do álbum Altar.

Para começo de conversa, no "conforto da sala de estar" que foi esta noite a sala da Universidade de Lisboa, os Gift trouxeram-nos o seu Verão, o último álbum, pretexto para a atual digressão, que revisita também Primavera (2012). E é um verão diferente que este disco nos traz, disseram-nos em diálogo Nuno Gonçalves e Sónia Tavares, e é assim: mais calmo e relaxado, a pedir a dolência própria daqueles longos três meses de verão que eram as férias grandes da adolescência de muitos que ali estavam.

Nada se fazia com pressa, nada era urgente, havia tempo para respirar - e a primeira parte do concerto vive muito dessa eletrónica relaxada, como tinha antecipado ao DN Nuno Gonçalves, mesmo quando foram buscar You Will Be Queen ao álbum de 2017, Altar, que contou com Brian Eno na composição e produção.

À solenidade de Blue, o instrumental que abre Verão e com que arrancou o concerto, juntou-se a voz de Sónia, e que voz!, para nos trazer Hammock ou Serpentina, antes de chegar a Verão, a canção-título que, ao vivo, se mostra bastante eficaz, provando assim a escolha acertada para single de apresentação do disco.

De Primavera esta noite hipnótica apresentou-nos Open Window, Primavera, La Terraza ou Meaning of Life, um ciclo interrompido para uma surpresa no alinhamento, como garantiu Nuno Gonçalves, com Fácil de Entender (2006), e para uma segunda viagem a Verão, a metade para lá do meio do disco, mais vibrante, como descreveu Nuno, "mas não muito", como brincou Sónia.

Impossível não ser muito vibrante: Cabin, Lowland ou Vulcão pediram corpos a remexerem-se nas cadeiras largas da Aula Magna. E se os Gift tinham pedido desculpa por fazerem uma festa mais recatada, quando chegaram a Love Without Violins (com Brian Eno a cantar no ecrã) e a Big Fish já ninguém se lembrava dessas desculpas. Os amigos são para as ocasiões e para a festa. E no palco, para além de Nuno e Sónia, de John Gonçalves e Miguel Ribeiro, estiveram ainda Mário Barreiros, Paulo Praça e Israel Pereira.

No encore, houve Big Fish a fechar em delírio, como houve Live To Tell, porque afinal também gostam de Madonna e é uma canção que se cantava naqueles verões longos com tempo para tudo. E houve antes Music, de AM-FM (2004), com Sónia a explicar-nos porque nos receberam tão bem na sua sala de estar: "I'm doing it for music, I'm doing it for love, I'm doing it for everyone around me."

[textos originalmente publicados no DN em 28 de março de 2019, sobre o álbum, e em 9, no caso da entrevista, e 10 de maio de 2019, sobre o concerto; foto do concerto de "há 20 anos" na Aula Magna, © Arquivo DN; foto do concerto de 2019, © C.V.]

Dezembro 09, 2020

Another flower: Harold Budd (1936–2020)

Miguel Marujo

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Ainda hoje ouvi o novíssimo álbum de Robin Guthrie com Harold Budd, Another Flower, editado no dia 4. E esta noite a notícia: Budd morreu aos 84 anos (1936–2020).

Ele há coisas. 

 

"Harold Budd, minimalist and avant-garde musician who helped pioneer the genre of ambient music, has died. He was 84. Budd's solo compositions and collaborations with Brian Eno, Daniel Lanois, and the Cocteau Twins inspired a generation of electronic and experimental musicians.
E atualize-se, com esta viagem do Nuno Galopim pela obra de Harold Budd, no Gira-Discos (é seguir o link).

Dezembro 06, 2020

A música não se quer apressada. Mas eles teimam em acelerar o ano

Miguel Marujo

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Estamos ainda no início de dezembro, mas as revistas britânicas especializadas de música já nos foram dando a conhecer os melhores de… 2020. É um clássico que nem a pandemia refreou. O Spotify seguiu o mesmo caminho: no início de dezembro mostrou como tinha sido o nosso ano de 2020. De 6 a 31 de dezembro, ainda há quase quatro semanas inteirinhas nas quais poderemos ouvir muito mais música e baralhar um pouco as contas. Eles não querem saber. 

As revistas já têm os melhores do ano, o Spotify já nos deu o wrap de 2020. Manda a prudência que não seja assim. É como nos acontecimentos do ano. Lembram-se do tsunami de 2004? Aconteceu a 26 de dezembro, já todos os jornais tinham escolhido os seus eventos… desatualizados.

O meu ano musical no Spotify (ainda houve muito mais vinis e discos compactos que fizeram os sons dos dias) reflete trabalho: a morte de Ennio Morricone, em 6 de julho, que depois contei em texto para o 7Margens, levou-me a ouvir à saciedade muitas das suas bandas sonoras. Mas há uma que recorrentemente me acompanha, a do filme The Mission, e não é de agora — já noutros anos o Spotify notou essa particular obsessão. Aliás, como sintetiza muito bem o wrap que me foi preparado, one song helped you get through it all: On Earth As It Is In Heaven. É isto mesmo: esta canção ajuda-me muito a ir vivendo isto tudo. (Curiosamente, a primeira vez que o streaming me deu a ouvi-la, este ano, foi a 17 de janeiro, o dia do meu aniversário.)

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Agora, a morte do compositor italiano apenas tornou mais omnipresente as músicas do filme de Roland Joffé: os cinco temas mais ouvidos são mesmo deste disco. E ao sexto tema, descubro outra banda sonora original: Frozen II, na versão portuguesa com Há coisas que não mudam, fruto da audição insistente da pequenita cá de casa. Ele há coisas que não mudam. 

Também não espanta muito: as bandas sonoras sempre foram uma presença significativa na música que ouço. Nos 19222 minutos (mais de 320 horas) que estive no Spotify em 2020, há lugares para muitas outras e, dos cinco músicos mais ouvidos, também lá está Ryuichi Sakamoto — que tem algumas das bandas sonoras que mais me acompanham há muito, como Merry Christmas Mr. Lawrence, The Last Emperor ou The Sheltering Sky, muitas delas reunidas no álbum Music for Film. E também lá estão os Radiohead (omnipresentes e omniscientes, ámen) que nos deram o melhor cartão de despedida em Romeo+Juliet de Baz Luhrmann com Exit music (for a film). Fitas minhas: o cinema pode ser uma excelente porta de entrada na música.

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Uma surpresa neste meu top 5 de audições (e logo em 2º!) é a presença dos americanos His Name Is Alive, nome do catálogo da 4AD, que estrearam a década de 1990 nesta editora fundamental e me cativaram então com os seus dois primeiros objetos musicais não identificados (numa multidão de influências, criando atmosferas algures entre o shoegaze, a eletrónica, e pitadas de metal). O Spotify traz-nos esta possibilidade de retomarmos algures o caminho perdido de quem deixámos de seguir o rasto há muito — por vezes, percebemos que não perdemos nada, noutros regressamos com gosto a uma discografia que mereceria outra atenção, como descobri (e percebi) com estes His Name Is Alive.

Por fim, John Cale, nome maior dos Velvet Underground, que se cruzaria por exemplo com Brian Eno e tantas vezes é apontado como uma influência de músicos da cena indie. A sua discografia é uma banda sonora muito constante da minha vida. Na sua carreira a solo poucos saberão apontar-lhe grandes êxitos ou sucessos orelhudos, mas é um porto seguro em cada trabalho que apresenta, como foi a revisitação e atualização em 2016 dessa obra prima que é Music For a New Society em M:FANS, uma leitura de roupagens eletrónicas que não envergonha o original de 1982.

Este streaming não é só para velhos, fiquem já a saber. Segundo as contas do Spotify, em 2020 ouvi 409 novos artistas, alguns certamente no modo toca-e-foge-cruz-credo, e cruzei-me com 423 géneros, 224 deles novos. Não estava ciente de tantos géneros musicais desde o tempo do jornal Blitz, nos anos 80, mas não é de nos admirarmos muito, a avaliar pela classificação que encontro no meu top 5. Os géneros que mais ouvi nestes 11 meses do ano da pandemia foram “art pop”, “rock”, “soundtrack”, “melancholia” e “compositional ambient”. Isso, melancolia... 

Também fui um “pioneiro” (“you're a pioneer”): ouvi Vinte Vinte (Branko, Ana Moura e Conan Osíris) antes de atingir os 50 mil streams. Pioneer, not an influencer. Outros dados deste wrap spotifyano são mais óbvios, dado o contexto dos discos mais escutados. A década mais ouvida foi a de 1980 (que é a de The Mission) e Ennio Morricone foi “quem mais esteve a meu lado”, de um total de 1247 artistas ouvidos. É: valha-nos a música. Eles aceleram o ano, mas a música não se quer apressada.

 

[E podem espreitar as 100 mais ouvidas em 11 meses de 2020]

Imagem: Jeremy Irons em A Missão, de Roland Joffé.

Novembro 30, 2020

"Toda a minha vida foi fazer coisas com beleza e sentido"

Miguel Marujo

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Laurie demora-se no pequeno-almoço. Entre amigos e telefonemas para Paris, para onde segue depois de Lisboa. O dia límpido e o mar brilhante, azuis estonteantes no horizonte, entram pelo hall do hotel. Talvez a conversa que se antecipa no bloco-notas peça um ambiente menos vivo – e daí talvez não. Recordando as imagens que percorrem os momentos finais de Heart of a Dog – Coração de Cão, o filme que Laurie Anderson veio apresentar ao Lisbon & Estoril Film Festival, e as palavras que Lou Reed canta em Turning Time Around, talvez a conversa tenha de ter afinal aquele enquadramento, luminoso – e também a simplicidade de Laurie, 68 anos, artista, música, realizadora, desarmante no humor, olhar de menina, chávena larga de café na mão.

Vamos a Paris, para início de conversa. Depois de Lisboa, a americana seguia para a cidade que, na sexta-feira anterior (a entrevista teve lugar no domingo, 15 de novembro de 2015), vivia o terror de atentados que não olharam a quem, que atingiram gente num estádio, em restaurantes, num concerto. “Vou para Paris, era suposto fazer uma conferência sobre música para jovens músicos, que vêm de todo o mundo, mas cancelaram os concertos, o promotor do evento foi morto, mas decidi ir...” E acrescenta: “Toda a minha vida como artista temi este dia, em que pessoas viriam a um concerto para matar pessoas. Aconteceu na Califórnia, uma vez há muito tempo, mas nunca assim, nunca como terrorismo. Por isso tenho que pensar o que vou dizer, é demasiado complexo. ‘Como vivemos isto e como vamos responder a isto?’.” 

Sobram dúvidas, apesar de certezas. “O meu objetivo como artista é criar empatia, por isso quando temos toda a gente a falar de quem foi morto, também me lembro de todos os sírios que foram mortos, questionando-me sobre que conflito é este, sobre o facto de nós não falarmos sobre eles, de não os termos nas nossas manchetes. Também devíamos fazer isto, as nossas vidas não são mais preciosas que as deles. Não estou a dizer que entendo o terrorismo mas é muito importante recuarmos e olharmos para toda a situação.”

A morte irrompe na conversa, como no filme Heart of a Dog, um retrato sobre a sua cadela Lolabelle, pretexto para refletir sobre a vida e a morte, que revisita os últimos dias da morte da mãe (com quem a artista mantinha uma relação distante, difícil: “Não amo a minha mãe.”) e percorre episódios com a marca do 11 de setembro. Laurie vive na cidade que foi atacada num dia límpido de 2001, e na altura a sua resposta foi artística: dois concertos dias depois do dia infame. A arte como resistência e sobrevivência. “Podemos usar muitas palavras: resistir, sobreviver, comprometer com, viver por... Para mim, toda a minha vida foi fazer coisas que considero terem beleza e sentido, por isso é muito importante proteger essas coisas de pessoas que querem acabar com elas.”

“O propósito da morte é a libertação do amor”, diz-nos Laurie no filme - e a banda sonora que faz o filme vive em disco de forma magistral, sem que as músicas e o monólogo da autora se percam. “Não tento romantizar a morte, eu amo a vida”, e repete-se ao DN para melhor se explicar. “Eu amo a vida, mas no meio de Heart of a Dog, o meu professor [de budismo] diz-me para praticar a tristeza sem estar triste. A morte para muitos é assustadora ou triste, mas eu tento vê-la como uma big picture, uma coisa transitória, que faz profundamente parte das nossas vidas.”

Depois regressa à viagem que se seguia a Lisboa e aos telefonemas que a ocupavam. “Tenho pensado toda a manhã, no que dizer a estes jovens músicos, porque temos aqui uma combinação de amor e morte no mesmo instante: gente que se dedica a ouvir música, uma das coisas mais alegres que podemos fazer como seres humanos, e depois são mortos.”

Das palavras que lhe ocupam a manhã passa para o filme. “Heart of a Dog é também sobre lá em cima”, e olha e aponta. “Sobre a liberdade do alto mas que quando se inverte transforma-se em medo." No filme não há metáforas: a sua rat terrier descobre, em passeios pela Califórnia (onde Laurie se refugia com Lolabelle depois dos atentados do 11 de setembro), que nos ares mora uma ameaça, falcões que a sobrevoam e confundem a cadela com coelhos, a mesma surpresa estampada nos olhos dos novaiorquinos quando olharam para cima e viram a destruição. “Para mim, como artista, é importante ver sempre a oportunidade em algo, em vez de viver no medo. Por isso me questiono 'porque faço música?', 'porque faço filmes, porquê?'.” 

Eles, quem atacou, querem isto: “Que vivamos no medo, para termos medo. É uma coisa terrível para se fazer às pessoas, para as fazer ter medo de sair e eles sabem isso. Por isso, é importante resistir, mas também ouvir a sua história, o seu lado.” Ou dito de outro modo, procurando a normalidade. “Sair à rua, ir aos restaurantes, fazer coisas, coisas normais, não ter medo, tentar não ter medo, tentar abrir o coração ao que se passa, em vez de só pedir vingança” - e muda a voz, quase fantásmica, “vingança não, não, não”. Para insistir que essa “é uma terrível reação”.

O filme termina com uma “mensagem de esperança”. A voz de Lou Reed - o marido de Laurie, que morreu em 2013, e que assoma por instantes a estender-lhe a mão - canta Turning Time Around, onde se pergunta a que é que se chama amor. Laurie sorri e antecipa uma resposta: “Cada ser no presente. Este filme também é sobre o tempo. Como se vive os arrependimentos, as expectativas, como é que vivemos este momento. Para mim, Turning Time Around é sobre uma pessoa que está bem no presente, e é uma prenda para as pessoas, de quem aprecia a vida como é.”

[artigo originalmente publicado no DN em 22 de novembro de 2015]

Novembro 25, 2020

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Miguel Marujo

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Maradona, 1960-2020. El Pibe.
E vem-me à memória uma jogada batida, aquele meio campo driblado de forma diabólica.


«Si el fútbol es universal, Maradona también lo es, porque Maradona y fútbol ya son sinónimos. Pero a la vez era inequívocamente argentino, lo que explica el poder sentimental que siempre ha tenido en nuestro país y que lo hizo impune. Un hombre que, por su condición de genio, dejó de tener límites desde la adolescencia y que, por su origen, creció con orgullo de clase. Por esa razón, y también por su fuerza representativa, con Maradona los pobres le ganaron a los ricos, de manera que las adhesiones incondicionales que tenía allá abajo fueron proporcionales a la desconfianza que le tenían los de arriba. Los ricos odian perder. Pero hasta sus peores enemigos tuvieron que sacarse el sombrero ante su descomunal talento futbolístico. No había más remedio.» (Jorge Valdano, Adiós a Diego y adiós a Maradona).