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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Janeiro 10, 2022

Patti Smith. "Não sou música. Sou uma cantora e uma performer"

Miguel Marujo

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Em 2015, a cantora americana voltou a Portugal para um concerto que, como no Porto em maio desse ano, celebrava os 40 anos do lançamento do seu primeiro álbum, Horses. É uma digressão que já estava na reta final e que foi o mote para uma conversa ao telefone, a partir de Nova Iorque, onde regressou nos anos 90, depois da morte do marido, para se dedicar de novo à música, à escrita e à fotografia. Uma mulher de múltiplos talentos. A começar pela voz

 

Quinze minutos, não mais, a meio da tarde em Lisboa, manhã em Nova Iorque. As indicações eram claras: depois da breve saudação, a entrevista devia começar logo depois. Não era preciso de facto mais nada. Patti Smith tem uma disponibilidade na voz e no ritmo pausado com que fala, longe das guitarras com que ilustra a poesia de Gloria, que por momentos o mundo se suspende nas suas palavras.

Quando veio ao Porto, em maio, disse que estava a acabar um livro. Já está finalizado?

Sim, está acabado.

É sobre o quê?

O livro chama-se M Train. Quis escrever um livro muito diferente do meu último (Just Kids) porque nesse livro tinha uma coisa específica que tinha de escrever. O Robert [Mapplethorpe] pediu-me, antes de morrer, que escrevesse o livro sobre a nossa vida em comum e a nossa juventude, sobre a sua morte e arte, era muito específico. Decidi que este livro não teria guião, desenho ou agenda, apenas me sentava e escrevia. Sentava-me num café, bebia o meu café, e escrevia. E assim fiz, escrevi. M Train é como mind train, o comboio da mente, como um comboio de pensamentos, e escrevi sobre café, viajar, o meu último marido, a pessoa que eu amava.

Uma espécie de ensaio ou mais autobiográfico?

É mais autobiográfico. Ao mesmo tempo partilho com o leitor a vida como ela é para mim, o que faço, como eu a guio. Os livros que ando a ler, as coisas que me preocupam, os meus pensamentos, a minha meditação. É um pouco divertido – e tem muito café dentro. É difícil explicar o livro, foi-se desdobrando em tempo real, mas regressa ao reino da memória. À memória de quando o meu marido [Fred "Sonic" Smith] estava vivo e um pouco de como era a nossa vida.

Foi uma tragédia a sua perda.

Sim, eu amava-o. Era o pai dos meus filhos. Eu tive uma sucessão de mortes, o Robert Mapplethorpe morreu em 1989 e depois o meu pianista, que só tinha 37 anos, morreu dois anos depois, depois o meu marido e um mês depois o meu irmão. Foi forte... (pausa) Mas o livro foca-se mais na minha vida atual, com memórias do Fred.

Essas perdas levaram-na de novo à música, nessa altura.

Eu gravei e toquei os meus primeiros discos nos anos 70, gravei o meu primeiro álbum em 1975, Horses, esse foi o meu primeiro álbum, mas eu deixei a vida pública em 1979 para me casar e ter filhos. Quando o meu marido morreu, em 1994, regressei à vida pública em 1996. Foi a sua morte que obrigou a fazer-me à vida, para tomar conta dos meus filhos. Trouxe-os para Nova Iorque e voltei a tocar e a gravar de novo. Mas não tínhamos um horário escolar. Hoje, os meus filhos cresceram, estou a fazer o meu trabalho, estou a escrever, a fotografar – e estamos a fazer uma digressão para comemorar Horses.

Escreveu poesia, publica livros, escreve música, anda em digressão. Passados estes anos, o que é que é mais relevante para si. Há anos falou sobre o seu trabalho como um processo muito orgânico. Continua a ser assim?

Sim, o meu trabalho é orgânico e a forma como flui de uma para outra é orgânica, mas a coisa mais consistente que fiz, desde que era uma jovem rapariga, foi escrever. A escrita é o coração das coisas que fiz, e até como performer comecei como poeta, a misturar a poesia com o rock’n’roll, comecei como escritora, não como música. Eu não sou uma música. Eu sou uma cantora e uma performer, mas nunca estudei música nem toco música. Sou mais uma intérprete, mas penso que escrever é mais essencial para mim.

Horses apareceu nesse processo?

Horses apareceu como poesia. “Jesus died for somebody’s sins but not mine” ["Jesus morreu pelos pecados de alguém, mas não pelos meus", no início de Gloria] começa como um poema que escrevi em 1970 e que costumava interpretar em sessões de leitura de poesia. Muita da improvisação que fiz como poeta filtraram-se deste modo para as canções de Horses. Eu comecei simplesmente, primeiro com Lenny Kaye, a ler poesia, enquanto ele me dava um ritmo sonoro, depois o meu pianista Richard Sohl que trouxe a estrutura de Horses. De 1971 a 1974, nós evoluímos, e quando fizemos Horses já tinha evoluído de fazer leituras de poesia para ter uma banda de rock’n’roll. Mas continuávamos a basearmo-nos na poesia.

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Jesus died for somebody’s sins but not mine.” Esta afirmação continua a fazer sentido para si?

Faz sentido no contexto em que a escrevi, como uma jovem rapariga, não contra Jesus, porque sempre admirei Jesus, mas contra a religião organizada. A minha visão de Jesus é de alguém que foi revolucionário, que espalhou a ideia de amor, cujo ensinamento era amarmo-nos uns aos outros, mas senti que a religião organizada confina as minhas ideias e liberdade. A canção opõe-se mais à religião organizada, mas era a afirmação de uma jovem rapariga. Escrevi isto há 48 anos, quase meio século atrás, como uma declaração de independência e de existência. Sim, faz sentido para mim em termos de “onde é que eu estava” e no que é que eu acreditava. Mas, como lhe disse, admiro os ensinamentos de Cristo. Por isso, estou capaz de negociar esse cisma muito facilmente [risos].

Porque é que acha que é importante celebrar agora os 40 anos de Horses?

40 anos! Estou orgulhosa de que o álbum continue a ser relevante 40 anos depois. Estou orgulhosa. E ainda estou fisicamente forte, saudável o suficiente para apresentar com sucesso o álbum às pessoas. É um marco e como senti que no 50.º aniversário terei 78 anos, pensei que o 40.º aniversário era a melhor altura para mim para apresentar uma forte interpretação do álbum. E estou muito confiante em fazê-lo. Não me sinto diminuída, se estou ou não estou a replicar o álbum. Nós vivemo-lo todas as noites, o que interpretamos é importante no momento, não é teatro. Tocamo-lo com o mesmo fervor com que o fizemos há 40 anos. E por isso sinto que temos algo a oferecer às pessoas.

Por isso ainda sente que o álbum bombeia sangue para o coração do rock’n’roll, como disse em tempos?

[risos] Eu não sinto medo, isso de certeza. Não tenho medo. O álbum continua a ser um marco para muitos na música. Michael Stipe, dos R.E.M., está sempre a dizer isso, foi Horses que o trouxe para a música. Sinto-me lisonjeada. Michael Stipe é meu amigo e sinto-me muito orgulhosa de que ele se tenha inspirado. O Michael também é uma inspiração para mim, é verdadeiramente um dos grandes letristas na música popular, por isso fico muito feliz de que tenha sido capaz de o inspirar.

Numa entrevista afirmou que o rock era a voz política da sua geração. Nestes tempos com alguém como Donald Trump a ocupar o palco, o rock continua a ser uma forma de passar uma mensagem?

Penso que na nossa cultura, onde podemos comunicar com as pessoas através da tecnologia, há muitas maneiras de comunicar e muitas maneiras importantes de inspirar as pessoas. Penso que o rock, como todas as artes, são importantes catalisadores. No fim são as pessoas que têm de fazer a mudança. Nos anos 60, havia Bob Dylan, Neil Young, qualquer cantor de protesto ajudou a criar a nossa voz cultural, foram uma grande inspiração, mas foram as pessoas que tiveram de fazer as mudanças, que tiveram de ir para as ruas e protestar contra [a Guerra do] Vietname, para engrandecer o movimento dos direitos civis. Sim, acredito que a música pode ser inspiradora e ser um guia ou dar força às pessoas... Mas são elas que têm de fazer a mudança.

People still have the power?

Sim, têm, mas têm de o usar. [risos]

O que podemos esperar do concerto de Lisboa? Será diferente dos concertos do Porto?

É sempre diferente. Para começar estaremos em Lisboa, e seremos arrastados pela energia da cidade. Gosto muito de Lisboa e não toco aí há muito tempo, por isso estou muito ansiosa por chegar. Todas as noites são diferentes. Há coisas que acontecerão em Lisboa que não acontecem em mais nenhum lado. É como trabalhamos: gosto de me ligar às pessoas no momento, falar com elas, discutir com elas. Horses é o principal tema, apresentaremos o álbum e depois logo veremos como segue a noite. Trazemos o que trazemos, mas a nossa porta está aberta, por isso as pessoas vão ajudar-nos a engrandecer a noite. Estamos a fechar a celebração de Horses e estou mesmo feliz por irmos atuar em Lisboa. É um sítio onde gosto de perder tempo e fotografar. Ver que tipo de energia mútua podemos tirar da nossa noite.

Gosta da luz de Lisboa?

É linda. Sempre gostei de escrever em Lisboa. Mas também é uma linda cidade para fotografar. Ou apenas caminhar à noite. A atmosfera é especial, tem uma energia especial. Estou muito entusiasmada por regressar.

Um livro no outono e disco na primavera

M Train é o novo livro de Patti Smith, a lançar em outubro nos Estados Unidos, depois do sucesso – de crítica e público – que acolheu Just Kids. É um livro com muito “café dentro”, como confessou a própria na entrevista destas páginas, escrito ao ritmo de uma esplanada. Em inglês, dito em inglês, soa diferente: Patti sentava-se no cafe a beber o seu coffee, enquanto observava quem passava e tomava notas. Depois do livro, chegará um novo álbum. “Sim, vou fazer um novo álbum, não sei ainda bem quando, provavelmente na primavera”, disse ao DN. E não vai parar, admitiu. “Vou ajudar a escrever o argumento para uma minissérie de televisão baseada em Just Kids”, o livro de 2010. “Tenho muitos projetos. Para já vou fazer uma mão-cheia mais de concertos: uns dez mais.” E fica fechada a celebração de Horses.

[artigo originalmente publicado no Diário de Notícias, em 19 de setembro de 2015; fotos: sem autoria, Patti Smith Group in New York 1975Robert Mapplethorpe (1946-1989) - Patti Smith, Horses 1975]

Janeiro 07, 2022

Peter Bogdanovich, a última sessão

Miguel Marujo

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Peter Bogdanovich morreu aos 82 anos. É dele The Last Picture Show (A Última Sessão, em Portugal)filme magnético — com Cybill Shepherd — e que escolhi entre os dez que mais impacto tiveram em mim, naqueles exercícios sem explicações e de mera vaidade no Facebook. Ou como recordou Francis Ford CoppolaI’ll never forgot attending a premiere for The Last Picture Show. I remember at its end, the audience leaped up all around me bursting into applause lasting easily 15 minutes. I’ll never forget although I felt I had never myself experienced a reaction like that, that Peter and his film deserved it. May he sleep in bliss for eternity, enjoying the thrill of our applause forever.”
De Texasville para a históriawith the touch of restless young genius, he seemed to reinvent pulp crime, the western, the road movie and the screwball comedy – in short order.


Na foto: Cybill Shepherd and Peter Bogdanovich photographed outside the Plaza Hotel in New York City, circa 1974 Photograph: Images Press/Getty Images, publicada no The Guardian.

Dezembro 21, 2021

Cuidado com o beijo

Miguel Marujo

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Muitos anos antes da covid-19, já havia preocupações com determinadas tradições natalícias, como a do "beijo ao menino". No Natal de 2000, o então bispo de Leiria-Fátima pedia cautelas neste tradicional ritual das missas de Natal, por causa do «recrudescimento da tuberculose». 

 
Um simples beijo no “menino”, um gesto quase mecanizado, repetido em todos os natais, nas igrejas portuguesas de Norte a Sul. Bastou um alerta sobre possíveis perigos relacionados com este beijo e logo se inflamaram alguns ânimos. 
 
O bispo de Leiria-Fátima, D. Serafim Ferreira e Silva, sugeriu aos padres da diocese que encontrassem alternativas ao tradicional beijo na imagem do Menino Jesus, uma tradição nas missas desta época natalícia, para «acautelar os riscos», quando se assiste ao «recrudescimento da tuberculose», mas rejeitando qualquer proibição e alarmismos. Apesar das cautelas do responsável eclesiástico, a iniciativa mereceu críticas do director da Associação Nacional de Tuberculose e Doenças Respiratórias, António Romão, em declarações ao jornal «Público», esta sexta-feira. 
 
Para este médico pneumologista, «a eficácia dessa proibição é praticamente nula», acrescentando que «só se a pessoa mandasse uma expectoração é que haveria algum perigo». E remata que «as pessoas que vão beijar o Menino Jesus nem sequer pertencem aos grupos de risco», como migrantes clandestinos ou toxicodependentes. 
 
A proposta inédita é «um sinal simbólico e pedagógico» às comunidades, explicou o prelado de Leiria ao PortugalDiário. «Alertado por uma médica» e apoiado por um grupo de médicos do Hospital de Leiria, D. Serafim quis sensibilizar a população. Afinal, diz, «a Igreja tem sido paladina dos direitos da saúde», com uma «caminhada social notabilíssima». 
 
Na sua mensagem de Natal [de 2000], o bispo de Leiria dirige um apelo aos padres diocesanos para que, «apesar das tradições e dos sentimentos», procurem «encontrar alternativas, que respeitem a dignidade do gesto e a preservação da saúde». Uma vénia, um gesto de carícia na imagem ou uma genuflexão são algumas das possibilidades. Que os padres de Leiria, contactados pelo PortugalDiário, não rejeitam. «Estou disponível para outro tipo de gestos que as pessoas assumam», diz Abílio Lisboa, padre em Pousos. Para o pároco da Sé de Leiria, Joaquim Almeida Baptista, os fiéis poderão fazer «o gesto que quiserem, aquilo que as sensibiliza mais», uma recomendação que António Pereira Faria, prior da Barreira, outra freguesia do concelho de Leiria, também fará aos seus paroquianos. 
 
«Sem alarmismos», os sacerdotes referem que este «é um assunto menor», na expressão de Pereira Faria, e que esta não «é uma questão fundamental do cristianismo», como acrescenta Almeida Baptista. Mas, reconhecem, a atenção à saúde pública é um aspecto necessário. Por isso, o prior da Sé não fará «tábua rasa da recomendação». Por enquanto, e porque a «sensibilidade vai-se apurando lentamente», D. Serafim Ferreira e Silva mantém a tradição: «No dia de Natal, eu próprio darei a imagem a beijar a quem quiser». 
 
Esta advertência sobre o beijo no “menino” levantou a questão da distribuição da comunhão na boca, «muito mais importante», na expressão de todos aqueles que foram ouvidos pelo PortugalDiário. D. António Marcelino, bispo de Aveiro e vice-presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, refere que na próxima assembleia do clero da sua diocese, a 28 de dezembro [de 2000], este será um assunto na mesa. E diz que insistirá com os sacerdotes para adoptarem a comunhão na mão, «mas sem forçar ninguém». 
 
D. Manuel Falcão, bispo resignatário de Beja e presidente da Comissão Episcopal da Liturgia, diz que se «deve caminhar» cada vez mais para a distribuição das hóstias na mão. E, referindo as palavras de Jesus na última ceia, diz que «“tomai e comei” não é meter na boca; tomar na mão é muito mais fiel à ordem de Cristo». Por tudo isto, em Pousos, «como prática, as crianças são educadas a receber a comunhão na mão», conta Abílio Lisboa. Se ainda «há um caminho a percorrer», como diz este padre, porque «há maneiras arreigadas que tem de ser respeitadas, o respeito pela inovação também é importante». 
 
[artigo publicado originalmente a 23 de dezembro de 2000, no Portugal Diário, reproduzido a partir do blogue LxRepórter
 

Dezembro 03, 2021

Vidas de histórias mínimas: viver com quase nada

Miguel Marujo

Agora que vem aí nova campanha eleitoral, regressará o argumento falso de quem vive do "rendimento mínimo", como se viver com quase nada fosse desejo. O CDS abusou desse pretexto para tentar destruir uma das medidas socialmente mais justas alguma vez concretizada, e hoje há um partido antidemocrático que ataca de forma primitiva e troglodita quem beneficia desta medida, enquanto ignora os desmandos de muitos que o financiam. Já em 2002, com o debate feito de falsos dados, fui ouvir quem trabalhava no terreno, para contar sobre estas vidas mínimas.

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Sérgio, 22 anos, seropositivo, casado, mulher também toxicodependente, um filho. Bateu à porta do rendimento mínimo, que o apoiou. Na altura, não lhe davam mais de um mês de vida. Dois anos depois, a doença permanece, mas a miséria não.

Até aqui chegar, o processo daquele jovem de Braga passou por passos simples, uma montanha quase intransponível para muitos dos beneficiários do Rendimento Mínimo Garantido (RMG), agora transformado em Rendimento Social de Inserção (RSI) pelo Governo.

“Ninguém tem acesso ao RMG de um momento para outro”, contrapõe o assistente social João Paulo Freitas à ‘vox populi’ que condena os eventuais facilitismos da medida. Só quem vive em “condições precárias” pode aceder à medida, explica quem já trabalhou no terreno com utentes do programa. “E têm de fazer prova dessas condições precárias.”

Mas afinal quem são os beneficiários do rendimento mínimo? Têm entre 25 e 44 anos, pertencem a famílias nucleares com filhos e têm uma baixa escolaridade. A miséria reproduz miséria: “Quando falamos de RMG estamos a falar do bas-fond da sociedade. Não há nada mais abaixo”, resume Ricardo Maximiano, psicólogo social, que acompanhou o programa até há meses. O PortugalDiário procurou vidas de histórias mínimas – aqueles que vivem com quase nada.

“Já sou alguém!”

Os técnicos deparam-se no terreno com casos de marginalização extrema. “Não se pode projetar uma solução para estes casos a partir do padrão de vida que temos”, defende João Paulo Freitas. “A um toxicodependente ressacado não se marca uma ida ao gabinete às 10 horas da manhã”, diz. Para este assistente social, a secretária foi muitas vezes a rua. E sublinha: “Não podemos dar respostas clássicas” a problemas que não o são.

O RMG (ou o seu substituto RSI) obriga qualquer beneficiário a “contrapartidas”. Afinal, esta é “uma medida de inserção, não de subsidiação”, justifica Ricardo Maximiano. Os desempregados têm de se inscrever num centro de emprego, as crianças das famílias beneficiárias têm de se matricular na escola e entrar no programa de vacinação. Os doentes iniciam tratamentos, os toxicodependentes procuram a desintoxicação.

As dificuldades começam aqui. Adultos sem qualquer tipo de documentação, crianças que nunca foram vacinadas ou observadas por profissionais de saúde. E romper este ciclo não é simples, conta João Paulo Freitas, que trabalhou no Casal Ventoso, em Lisboa, e mais recentemente na cidade de Braga. Entrar no registo civil, por exemplo, “é uma prova para eles”. No fim, lembra, muitos exclamavam com o bilhete de identidade na mão: “Já sou alguém!”

Ser alguém também é ter autonomia económica. A prestação para um adulto ronda os 135 euros (qualquer coisa como 27 contos), um valor equivalente à pensão de sobrevivência. Cada criança, se as houver, recebe 50 por cento do adulto beneficiário. Por isto, Ricardo Maximiano rejeita que haja “quem viva do rendimento mínimo e não queira trabalhar”. O que está em causa, em situações de fraude detetadas, “é a ‘chico-espertice’ de alguns, que até trabalham, e ‘sacam’ mais uns vinte contos [100 euros]”, acrescenta. Mas, defende, “estas fraudes são quase inevitáveis, como também as há no IRS, por exemplo”.

Do outro lado da moeda, “há situações complicadas de resolver”. Como o caso da mulher de 30 anos, divorciada, com dois filhos menores. De prestação do RMG recebia 52.400$00 (cerca de 261 euros), 26.200$00 (pouco menos de 131 euros), da mãe, mais 26.200$00, dos dois filhos. Foi-lhe proposto um emprego, com um salário de 65 mil escudos (não mais de 324 euros). Com uma diferença: a mulher precisaria de arranjar quem lhe cuidasse das crianças e necessitava de comprar o passe para os transportes. Feitas as contas, a situação deteriorava-se. “Em consciência, não é lícito recusar este emprego?”, questiona Ricardo Maximiano. Na verdade, são pobres, mas não são mal-agradecidos.

 

“Não há mais nada abaixo na sociedade”: quem recebe o Rendimento Mínimo

O perfil das famílias beneficiárias ao Rendimento Mínimo Garantido (RMG) parece ir ao encontro da caracterização de Ricardo Maximiano, psicólogo: “Não há mais nada abaixo na sociedade.”

Vejamos. Nos projetos urbanos concorreram principalmente “famílias precarizadas”, aquelas que vivem “em situações de pobreza extrema, sem rendimentos ou com rendimentos muito escassos, com dificuldades de sobrevivência”, e “famílias instáveis”, com uma “situação de pobreza determinada pela existência de rendimentos incertos provenientes de biscates e empregos ocasionais, situação de emprego instável nos adultos ativos”.

Nos projetos de zonas rurais ou semiurbanas predominam “famílias pobres-remediadas”, ou seja, famílias com rendimentos certos, mas escassos, vivendo com dificuldades.

A caracterização é de estudos de acompanhamento e avaliação, nos anos de 1997 e 1998, do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia (CIES) do ISCTE, encomendados pelo (então) Ministério do Trabalho e da Solidariedade. Hoje, ao fim de seis anos de Rendimento Mínimo Garantido, quase 800 mil pessoas passaram por esta medida. Atualmente são 118 mil famílias abrangidas pelo programa, num total de 344 263 pessoas.

Outro dado significativo, segundo números do Instituto para o Desenvolvimento Social: os “motivos da cessação a nível nacional” do programa revelam a importância da medida: 64,3 por cento dos beneficiários terminaram a sua ligação ao RMG por “alteração de rendimentos”. O “não cumprimento do programa de inserção” e a “não subscrição do programa de inserção” levou à cessação de 18,8 por cento dos benefícios.

No estudo do CIES de 1998, coordenado pelo sociólogo Luís Capucha*, refere-se que “os efeitos do RMG não podem ser medidos pelos acordos de inserção associados ou implementados”. O facto de existir para as famílias “uma fonte previsível e regular de receitas provoca por si só efeitos – por exemplo na capacidade de projetar o futuro – que não podem ser menosprezados”.

 

 

Artigos originalmente publicados a 7 de julho de 2002, em duas partes no PortugalDiário (jornal online do portal IOL, depois TVI24 online, hoje CNN Portugal). Os dados são dessa data. Foto: Victor, CC BY 2.0, via Wikimedia Commons.

* – Luís Manuel Capucha (coord.), Rendimento Mínimo Garantido: Avaliação da Fase Experimental, Ministério do Trabalho e da Solidariedade/Comissão Nacional do Rendimento Mínimo e Centro de Investigação e Estudos de Sociologia (ISCTE), Lisboa, 1998.

 

 

Novembro 24, 2021

O amor é cego. Como Berlim salvou os U2 e todos ganhámos

Miguel Marujo

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A 18 de novembro de 1991, quando aquele comboio entrou na estação de Berlin Zoologischer Garten, que todos resumem à Bahnhof Zoo, a história aconteceu. Há 30 anos, o mundo vivia uma estranha euforia, com uma Europa que tinha rasgado de par em par a Cortina de Ferro, a pesada fronteira que partia o continente entre Ocidente e Leste. As velhas utopias perdidas nas burocracias e ditaduras de Leste tinham soçobrado e o capitalismo sonhava cantar amanhãs — outra ilusão. Há 30 anos, já o Muro de Berlim tinha sido desmantelado dois anos antes, numa alegria contagiante, e outros muros invisíveis começavam a ser levantados.

É neste tempo que se ouvem os primeiros acordes de Achtung Baby, a provocação sonora que os U2 lançaram no seu regresso à Europa, com paragens em Berlim e Dublin. Naquele dia, ao sair na Zoo Station, o cartão de visita fez-se de guitarras eletrizantes e percussões pesadas, vozes distorcidas, insuspeitas e viciantes tonalidades eletrónicas, I’m ready, I'm ready for what’s next, e eles diziam-se prontos para o que aí vinha.

A surpresa morava logo a abrir o álbum. Num texto incluído na edição de luxo com que os irlandeses assinalaram os 20 anos de Achtung Baby, o jornalista Andrew Mueller, autor de vários livros “que vendem suficientemente mal para continuar no jornalismo”, reconheceu o preconceito que se esboroa aos primeiros segundos de audição do primeiro single, The Fly: “Um rockabilly claustrofóbico e barulhento, vagamente reconhecível como U2.” E acrescentou à paleta de sons ouvidos: “É difícil exagerar o quão surpreendente foi o contacto inicial com Achtung Baby — especialmente para aqueles que, como este correspondente e a maioria dos seus então colegas da imprensa musical da moda, há muito tempo haviam classificado os U2 como uns chatos pomposos e piedosos.”

Não admira a confissão. Os U2 vinham de um período de excessos, do salto para os estádios em digressões gigantes, depois da obra-prima The Joshua Tree (1987) e de uma viagem pelos Estados Unidos em Rattle and Hum (1988), um disco e filme feito como um épico americano que acabou mal recebido pela crítica. Em From The Sky Down - a documentary (2011) são os próprios que descrevem aquela travessia da América como algo penoso e triste. “Ele gravou quilómetros e quilómetros de takes, e não há alegria nenhuma”, diz Edge, referindo-se a Phil Joanou, o realizador de Rattle and Hum. “Aquilo não nos assentava, aquilo em que nos tínhamos tornado”, admitia, neste documentário.

Este final da década de 1980 acabou por desgastar o grupo de quatro amigos irlandeses — Bono, The Edge, Adam Clayton e Larry Mullen Jr. — ao ponto de quase pôr um fim à banda. A história é conhecida, e repetida como mantra: “Fazer Achtung Baby é a razão porque ainda aqui estamos”, diria mais tarde Bono.

“Isto soa demasiado a U2”

Aterrar em Berlim não foi fácil. O outono e inverno são muito frios e cinzentos na cidade. No livro que acompanha Achtung Baby Deluxe Edition, o autor americano Bill Flanagan (que escreveu U2 at the End of the World) descreve as tensões vividas nos estúdios Hansa, local que já tinha visto nascer algumas obras míticas de notáveis como David Bowie, Iggy Pop, David Sylvian, Nick Cave and The Bad Seeds, Siouxsie and The Banshees, Depeche Mode, Tangerine Dream ou Pixies. “O Hansa Studios podia estar cheio de história, mas era um estúdio desatualizado e desconfortável para gravar”, sintetiza Flanagan.

Para Larry Mullen e Adam Clayton, o pouco material que Bono e The Edge tinham escrito não era bom suficiente para fazer a banda mudar de direção. O grupo seguia o seu esquema habitual de encontrar novas ideias em conjunto para as canções, numa jam session, “mas eles continuaram a discordar, musical e filosoficamente”, descreve Bill Flanagan. “Se eles vinham com alguma coisa que soasse como uma grande canção dos U2, Bono e Edge protestavam que soava demasiado a U2. Larry e Adam objetavam: ‘Nós somos os U2!’”

Os quatro miúdos que se fizeram amigos e músicos na banda, não conseguiam agora falar a mesma linguagem. Enquanto Larry ouvia Led Zeppelin e Jimi Hendrix, The Edge explorava música como Einsturzende Neubauten, KMFDM ou os Young Gods. “É música industrial. Tem a ver com a utilização de repetição e com retirar a humanidade das coisas, até um certo nível, para que a humanidade que pomos tenha mais significado”, explicava-se Edge em From The Sky Down.

A ponte surgiu com One, que se tornou também uma das canções mais universais dos U2, como recordou Flanagan. Enquanto Edge, Adam e Larry tentavam acertar as notas de uma canção, Bono começou a improvisar no microfone sobre a tensão na sala, as discussões entre os membros do grupo: “We’re one but we’re not the same, we get to carry each other.” De todos aqueles momentos de tensão em Berlim, nasceu One, quando “os quatro baixaram os braços e começaram a colaborar”.

“Uma dádiva”, chamou-lhe Edge. “No instante em que estávamos a gravar, tive uma sensação muito forte do seu poder. Estávamos todos a tocar juntos na grande sala de gravação, um enorme e misterioso salão de baile cheio de fantasmas da guerra, e tudo se encaixou. Foi um momento reconfortante, quando todos finalmente disseram, ‘oh ótimo, este álbum começou’. É a razão pela qual estás numa banda — quando o espírito desce sobre ti e crias algo realmente comovente. One é uma peça incrivelmente comovente. Ela atinge o coração", confessou o guitarrista a Neil McCormick, em U2 by U2 (2006, ed. HarperCollins).

No seu U2 Songs + Experience (2018, ed. Carlton Books), Niall Stokes acrescenta Sonic Youth e My Bloody Valentine à lista de influências "mais pesadas" que se ouvia nas sessões de Achtung Baby. Mas este jornalista irlandês refere que, em simultâneo, os seus conterrâneos de Dublin desenvolveram um interesse por Roy Orbinson, Scott Walker e Jacques Brel, compositores de “torch songs”, canções de amores não correspondidos. Nas letras era este o caminho a seguir, defendia Edge, tornando-as mais pessoais. One é, de novo, um exemplo.

 

Brian Eno, que produziu o disco com Daniel Lanois, sintetizaria (na revista Rolling Stone, de 28 de novembro de 1991) o som que ali se começou a forjar. “Os termos da moda neste álbum eram trashy, descartável, dark, sexy e industrial (todos bons) e sérios, educados, doces, justos, rockistas e lineares (todos maus). Era bom se uma música te levasse numa viagem ou te fizesse achar que a tua aparelhagem estava avariada, seria mau se lembrasse estúdios de gravação ou os U2. Sly Stone, T. Rex, Scott Walker, My Bloody Valentine, KMFDM, The Young Gods, Alan Vega, Al Green e Insekt eram todos a favor. E Berlim... tornou-se um pano de fundo conceptual para o registo. A Berlim dos anos 30 — decadente, sexual e sombria — ressoando contra a Berlim dos anos 90 — renascida, caótica e otimista…”

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“Foi o momento em que a rock culture se encontrou com a club culture. Berlim significava textura, Manchester significava ritmo, ritmo que só podia ser criado usando computadores e máquinas”, argumentava Edge, enquanto Bono recordava a influência da música alemã, citando os Kraftwerk. “Aos 16, um dos primeiros álbuns que comprei para a [namorada] Ali foi o Man Machine. Isto é a música soul para a Europa. É a invenção da música eletrónica.”

É este choque que marca a diferença do disco, com pitadas de ironia.“A abertura de Zoo Station faz uma declaração poderosa: no seu uso deliberado de sons ‘industriais’, que não nos lembram de forma alguma os instrumentos convencionais; no primeiro plano da tecnologia, no início da música — na verdade, em tornar isso a afirmação de abertura do álbum — não há dúvidas de que os U2 adotaram recursos sonoros novos para eles. Mas o facto de ser um gesto deliberadamente hesitante coloca-o claramente no reino da sátira. Talvez satirize a própria tecnologia ou a novidade dos U2 abraçarem a tecnologia”, interpreta Susan Fast num ensaio intitulado “Music, Contexts, and Meaning in U2”, incluído na coletânea de textos Expression in Pop-Rock Music: A Collection of Critical and Analytical Essays (Studies in Contemporary Music and Culture), de 2000 (ed. Garland Publishing).

As pistas para a dança
A dance music, que Bono e Edge referem no filme-documentário sobre Achtung Baby, acaba por marcar o trabalho do grupo de forma evidente nos singles que vão sendo publicados, com remisturas das canções mais orelhudas para as pistas de dança, como Even Better Than The Real Thing ou Mysterious Ways, The Fly ou Who’s Gonna Ride Your Wild Horses, ou em lados B como The Lady With the Spinning Head ou Salomé. Mas também nos dois álbuns seguintes: Zooropa (1993), outra obra-prima, e que é um segundo capítulo de Achtung Baby (foi, aliás, publicado como um dos discos na já referida edição dos 20 anos, que incluía outros dois com remisturas, Über Remixes e Unter Remixes); e Pop (1997), que arriscava três canções a abrir (Discothèque, Do You Feel Loved, Mofo) que pareciam deixar para trás o rock — e os seus fãs dos anos 80.

Ouvindo hoje Achtung Baby, todas estas músicas-mais-pop-que-rock integram sem qualquer mácula o cancioneiro dos U2. “No seu novo habitat, os U2 apropriaram-se de novos sons e novas batidas, aparentemente sentindo-se tão confortáveis em saquear os reluzentes legados da vanguarda dos Kraftwerk, Can e Neu! em Berlim, como tinham feito com os blues empoeirados em Memphis”, regista Andrew Mueller. A própria herança do grupo é uma vantagem, acrescenta o jornalista, lembrando a Irlanda natal, uma rocha cravada entre a Europa e a América.

 

O alinhamento do disco regista esse caminho, com Zoo Station e Even Better Than The Real Thing a apontarem logo a abrir novas pistas para os sons do álbum. Se One fez tiro ao alvo dos clássicos da banda, Until the End of the World retomou os riffs de guitarra que se deixam enlevar numa percussão que pede corpos dolentes a dançarem. O realizador alemão Wim Wenders tinha-lhes pedido uma canção, a banda respondeu com este tema, dizendo-lhe que o queriam usar no disco e que lhe roubavam também o nome do filme. Em U2 Songs + Experience, Niall Stokes pergunta quais são os temas das canções dos U2 e The Edge responde: “Traição, amor, moralidade, espiritualidade e fé.” Stokes regista: “Traição veio primeiro.”

Who’s Gonna Ride Your Wild Horses e So Cruel, que se seguem, mantêm o registo da nova sonoridade experimentada nos Hansa Studios, antecipando The Fly, o single de apresentação do disco e que, já vimos, deixou todos baralhados.

U2-Achtung-Baby-Kv.jpgÉ Brian Eno quem melhor descreve o processo de composição do disco, num longo parágrafo, publicado em Achtung Baby Deluxe Edition. “Alguém chega com uma velha mistura em bruto que acabou de redescobrir e que, apesar de todas as suas deficiências, tem alguma coisa. O que é? Podemos conseguir sem abandonar tudo o que aconteceu desde então? Podemos obter o melhor de ambos? Quando falha, o resultado é diluído, comprometido, homogeneizado. Quando corre bem, passa a existir um híbrido, há uma sinergia de sentimentos e nuances que ninguém antecipou. Se isso acontecer, é novidade. Há muitas novidades deste tipo neste álbum: So Cruel é épica e íntima, apaixonada e tranquila, Zoo Station, de uma alegria maníaca e industrialmente jovial, Ultra Violet (Light My Way) tem uma melancolia envolvente, Mysterious Ways é pesado e leve. Encontrar um único adjetivo para qualquer canção mostra-se difícil: é um álbum de oximoros musicais, de sentimentos que não deveriam existir juntos, mas que de alguma forma são verosímeis.”

Para além das já citadas, toda a segunda metade de Achtung Baby é uma sucessão de outros oximoros musicais: Tryin' to Throw Your Arms Around the World, Acrobat e Love Is Blindness.

O amor é cego, bem se vê. “Por um momento, à medida que a velha ordem ia passando, os U2 exploraram a possibilidade de reconciliar muitas ideias aparentemente contraditórias e fazer tudo soar. Eles escaparam do canto em que eles próprios se tinham metido, no final dos anos 80, fazendo explodir a casa. Foi uma explosão linda. Podia ver-se o fogo de artifício a milhas. E ainda se podem ouvir os ecos”, concluiu Bill Flanagan.

Ícones pop

 

“Os U2 chegaram a Berlim do final do século XX em busca de uma musa e de uma metáfora, e partiram com o início de um álbum que pareceu surpreendê-los tanto quanto a todos. Era uma boa época para ser um iconoclasta — até mesmo para os ícones”, define Mueller.

“Apesar das ironias mordazes ouvidas ao longo de Achtung Baby — ou, talvez, por causa delas —, os U2 parecem que nunca se divertiram tanto nas suas vidas”, sublinha Andrew Mueller, apesar do batismo de fogo que significou Berlim. E esse divertimento foi transposto para o palco na Zoo Tv Tour.

Para a imagem de Achtung Baby, o fotógrafo e cineasta Anton Corbijn resgatou os Trabant, velhos carros de fabrico da Alemanha de Leste, para cortar com a imagem de quatro rapazes encasacados junto às árvores de Joshua (são também dele, Corbijn, as icónicas — lá está — imagens de Joshua Tree). “Da noite para o dia, o carro deixou de ser um símbolo de status muito desejado e tornou-se uma lembrança do passado”, escreveu Corbijn, que com as suas fotos ajudaria a transformar aqueles automóveis da RDA em ícones pop.

Como recorda o jornalista alemão Martin Scholz (também na Deluxe Edition), os U2 viajaram de avião para Berlim a 3 de outubro de 1990, apanhando o último voo da British Airways que pousaria oficialmente no território da República Democrática Alemã, a RDA, no lado oriental da cidade. Mas já aterraram no futuro, no dia em que a Alemanha foi oficialmente reunificada e a RDA deixou de existir. É a imagem perfeita para Achtung Baby: um disco que aterrou no futuro. E o Muro caiu de vez naquele 18 de novembro de 1991.

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[artigo originalmente publicado no 7Margens; fotos © Anton Corbijn, da sessão de fotografias para a promoção de Achtung Baby.]

 

 

Novembro 09, 2021

A caminho da Expo: um bairro inteiro que quer criar

Miguel Marujo

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À passagem dos 20 anos da Expo'98, antes de uma pandemia que suspendeu vidas, uma reportagem nos caminhos do Oriente sobre a vida que fervilhava por ali, num bairro onde agora querem fazer nascer unicórnios (não lhes digam nada, mas os unicórnios não existem).



De bicicleta, numa foodtrip pela Europa, Anne e Antoine Legrand começaram por se maravilhar pelo Alentejo, onde pensaram lançar âncora, mas chegados a Lisboa enamoraram-se de tal modo da cidade que deixaram o sonho de viver nas terras da planície para um dia.

Quando procuravam móveis para a casa que encontraram na Graça, foram parar a uma loja de mobiliário vintage no Beato, num enorme armazém como tantos outros na zona. "E assim descobrimos este bairro", explica Anne ao DN, em português.

É um bairro "com todo o potencial", diz, antecipando a escolha que ela e o marido fizeram por uma pequena casa que será um restaurante familiar [A Ilegítima, assim se chama], a inaugurar no outono [de 2018], junto ao Largo do Olival.

Este largo sossegado de coreto a um canto é um parque de estacionamento, onde os carros parados não perturbam a calma do lugar, com mesas para jogar às cartas e sem ninguém naquela tarde de dia de semana, casas de piso térreo ou de um ou dois andares, não mais, um apartamento de janelas de acrílico branco que denuncia a reabilitação recente e que está à venda, e outro edifício de esquina a cair.

Passam poucos por ali, encostados que estamos à Rua do Grilo, à Calçada Duque de Lafões e à Alameda do Beato, mas já há cartazes imobiliários nesta Lisboa que agora, 20 anos depois da Expo'98, deixou de ser apenas uma terra de passagem entre o centro da cidade e o Parque das Nações. Beato e Marvila ficaram a ver o progresso nascer paredes meias com estas duas freguesias, e começam por fim a mexer. Sem medo da gentrificação, o palavrão para estes tempos. 

"É um bairro ótimo, parece Brooklyn", compara Anne Legrand, "com as cervejas artesanais, as galerias de arte. Aqui há garagens, armazéns, um bairro inteiro que quer criar", entusiasma-se Anne. "E eu tenho um milhão de ideias", antecipa.

Ideias de sobra têm também os responsáveis do Hub Criativo do Beato (HCB) para uma área de 35 mil metros quadrados e 20 edifícios, enumera Miguel Fontes, diretor executivo da Startup Lisboa, a quem a Câmara de Lisboa entregou a gestão do projeto.

Se "Lisboa está no mapa", como diz ao DN, "obriga Lisboa a mexer-se", apostando numa zona da capital que começou a "ganhar outra dinâmica". "De Santa Apolónia à Expo" - como tantos ainda hoje dizem, referindo-se ao Parque das Nações - "era a zona que faltava desenvolver e consolidar". Por isto, "a localização do Hub não foi inocente", admite Miguel Fontes.

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No espaço por agora quase vazio, há obras de saneamento a arrancar e empresas que já começaram a anunciar a sua instalação na antiga Manutenção Militar - era ali que se fazia o pão, as massas e as bolachas para os militares portugueses. Miguel Fontes chama-lhes parceiros e puxa dos nomes com satisfação: haverá a Factory Berlin, o hub digital da Mercedes, a Super Bock, a Web Summit ou a Startup Lisboa. São "entidades âncora", ímanes que podem atrair outras nos eixos definidos para o HCB: empreendedorismo, indústrias criativas e mundo corporativo. E haverá ali um museu, na antiga fábrica da moagem, para perpetuar a memória do lugar.

Até ao final de 2019, Miguel Fontes conta ter "os primeiros ocupantes a abrirem portas", num espaço que se foi mostrando à cidade com eventos, que ocuparam o local, como a mais recente exposição do World Press Photo.

O responsável recusa que o projeto seja um objeto estranho ao bairro, a esta zona de Lisboa. Mas reconhece que "já havia uma dinâmica própria no Beato e em Marvila". O HCB "é um ponto de partida e de chegada", conta, recordando a reunião que mantiveram com comerciantes e líderes da comunidade para lhes explicar o que será o Hub e para os ouvir. "O desafio é controlar os efeitos mais perniciosos, como a gentrificação."

Anne Legrand duvida que venha a ser um bairro tão atingido como outras zonas da cidade. "É uma zona de trabalho e industrial, não é uma zona turística", nota, eventualmente procurada por quem se interessa por arte urbana. Eles próprios na sua Maison Legrand, empresa de eventos, que pretendem que funcione como um laboratório, querem "trazer os locais". "Não procuramos os turistas, se vierem muito bem, mas queremos trazer quem vive e trabalha em Lisboa", para se sentarem na sua cozinha em volta da mesa.

É de vizinhos que se faz também a clientela do Bistrô Lisboa, cafetaria e lounge como se apresenta o estabelecimento na Rua Fernando Farinha, numa urbanização de prédios incaracterísticos de construção recente, e onde sobressai o elétrico amarelo que marca a Lisboa que os turistas procuram. Sem quererem fazer um simples "café do Nuno e do Bruno", o Bistrô nasceu com vontade de ser diferente. Bruno Ribeiro é desta zona de Marvila, o Vale Formoso, e depois de saber da disponibilidade do espaço desafiou Nuno Gomes (trabalhavam os dois numa empresa da restauração) para fazer de outro modo, onde a oferta é limitada. "Manter o tradicional mas atualizado" - e desde há dois anos e meio que assim fazem. À oportunidade de negócio, estudaram os clientes e o que pediam para apostar em alimentação saudável, sumos naturais, saladas. Há bolachas e chás e um parque infantil ao lado, muito procurado.

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Em conversa com o DN, os dois notam que já há "muita procura imobiliária" e "pouca oferta". "Se souberem de alguém que venda", ou "arrende", pergunta quem passa, também estrangeiros. Ao longe, no fundo da rua, veem-se os silos de cereais do Beato, o azul do Tejo a espreitar.

Numa zona "muito parada, envelhecida e e decadente", que foi perdendo atratividade, a sua precariedade "trouxe este tipo de usos" de gente a apostar em negócios e espaços diferentes, avalia Miguel Fontes. "O início desta dinâmica esteve muito cruzado com esta indefinição." Agora, é tempo de outra definição: o Beato e Marvila não são mais meras passagens a caminho do Oriente.

[artigo originalmente publicado no Diário de Notícias a 23 de maio de 2018; foto principal: Anne Legrand, no espaço que viria a ser o restaurante familiar, © Pedro Rocha/Global Imagens]

Outubro 31, 2021

Obsidian, o país a que nunca fui mas por onde viajo muito

Miguel Marujo

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No solstício do verão de 2016, no dia mais longo do ano, fui literalmente guiado pela Islândia: um carro equipado com uma câmara deu a volta à ilha pela route one, uma estrada da circunvalação pelo país todo. A viagem de 1332 km foi transmitida em direto durante 24 horas, numa emissão para a televisão islandesa e no youtube, com uma banda sonora criada a partir de um software que gerava música a partir do tema óveður dos Sigur Rós, reinventando indefinidamente sons para criar novas e imprevisíveis direções musicais em tempo real. 

Nunca fui à Islândia, e gostava muito (talvez um dia). Mas tenho viajado muito pelo país, seja por aquela emissão de slow TV daquele dia de solstício, seja por culpa de Björk, Múm ou Ólafur Arnalds, entre outros nomes que me levaram tantas vezes pelas paisagens quentes e gélidas da Islândia. 

Agora é Jónsi que nos convida para mais uma viagem. O também vocalista dos Sigur Rós trouxe-nos um disco novo, lançado de surpresa este sábado, dia 30, e — com a chuva e o vento lá fora — mergulhamos neste território frio, despido, cru e rugoso que a terra moldou no meio do Atlântico Norte. Em nome próprio, Jónsi não se afasta por completo do som dos discos do grupo que o revelou ao mundo, até porque o seu registo vocal o torna facilmente identificável, no entanto, há uma viagem sonora que nos agarra a outra terra, mais funda e ambiental, menos pop, por vezes quase industrial, mais feita de água e fogo.

O título do álbum, Obsidian, remete para o “vidro vulcânico natural formado quando a lava expelida de um vulcão arrefece rapidamente com um crescimento mínimo de cristais” — ou seja, trata-se de uma rocha ígnea, palavra de wikipedia. E é para essa atmosfera que nos leva o longo vídeo que Jónsi revelou neste mesmo sábado para acompanhar a audição do disco na íntegra, feito de formas etéreas, poeiras que dançam, partículas que se soltam, pedras que saltitam ou fragmentos que vão caindo, num espesso ecrã a preto e negro. 

Este é no entanto um disco incandescente, com uma voz que tanto nos sussurra como plana sobre o calor gélido de sons que se desprendem das rochas de lava, de géiseres feéricos, de lagos que fervem, de montes que se despenham no mar, de uma estrada monótona que volteia a ilha — onde nunca fui, mas por onde continuo a viajar, também neste Obsidian. Lá fora, o vento faz bailar a chuva.

Outubro 30, 2021

Mulheres, aborto, gays. Há um 'Tea Party' no CDS e Cristas não fala dele

Miguel Marujo

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Um artigo de opinião que defende que as mulheres gostam de ganhar menos que os homens e de casar bem lançou um aceso debate e deixou a pergunta: o que é a TEM, um grupo dentro do CDS que afrontou Assunção Cristas e que a direção do partido preferiu então ignorar publicamente? Pistas de um texto de 2019 para entender o debate fratricida no partido por estes dias.

 

Estão contra o aborto, a eutanásia, a adoção de crianças por casais homossexuais e recusam as quotas para as mulheres. Dizem-se democratas-cristãos mas "não confessionais", criticam um suposto "marxismo cultural" e acham que as mulheres estão a ser obrigadas a ter uma carreira, a sair de casa, a não ter filhos e agora "até querem" obrigá-las ir para a política.

São militantes do CDS e organizaram-se numa corrente de opinião interna, a Tendência Esperança em Movimento (TEM). Entre os críticos, também nos centristas, há quem os compare ao tea party americano — eles garantem que "não são preconceituosos" e deixam reparos à liderança de Assunção Cristas.

Para Abel Matos Santos, porta-voz da TEM e membro da Comissão Executiva da corrente, "vivemos num tempo em que as coisas nos são impostas, ditas e transpostas como sendo verdades absolutas e irrefutáveis".

Eles, garantem, estão cá para denunciar essas verdades que consideram absolutas e irrefutáveis. Foi um artigo controverso publicado no jornal Observador e assinado pela médica e membro da TEM/CDS, Joana Bento Rodrigues, sobre o papel da mulher, o feminismo e a lei da paridade, que espoletou uma discussão nas redes sociais e fez com que se questionasse que grupo é este dentro do CDS, que tem uma página ilustrada com a fachada da sede do partido em Lisboa e o logotipo do partido bem visível. O artigo já conta com mais de 22 mil partilhas e 320 comentários, só no site do jornal.

Entre as causas por que esta "corrente de opinião" centrista "se bate" e "acredita" — e pelas quais "entende ser seu dever envolver-se ativamente" — está a "ideologia de género". No site da TEM, o texto de Joana Bento Rodrigues está incluído nesta "causa".

No artigo, a mulher "dita feminista" é descrita assim: "A que integra as 'tribos', a que se deslumbra com as capas de revistas, a que se diz emancipada, a que não precisa de relações estáveis, a que não quer engravidar para não deformar o corpo nem perder oportunidades profissionais, a que frequentemente foge da elegância no vestir e no estar — optou por se objectificar, pretendendo ser apenas fonte de desejo em relações casuais, rejeitando todo o seu potencial feminino, matrimonial e maternal."

Para Joana Bento Rodrigues, "a mulher gosta de se sentir útil, de ser a retaguarda e de criar a estabilidade familiar, para que o marido possa ser profissionalmente bem sucedido. Esse sucesso é também o seu sucesso! Por norma, não se incomoda em ter menos rendimentos que o marido, até pelo contrário. Gosta, sim, que seja este a obtê-los, sendo para si um motivo de orgulho. Porquê? Porque lhe confere a sensação de protecção e de segurança. Demonstra-lhe que, apesar poder ter uma carreira mais condicionada, pelo facto de assumir o papel de esposa e mãe, a mulher conta com esse suporte e apoio do marido, para que nada falte. Por outro lado, aprecia a ideia de 'ter casado bem', como se fosse este também um ponto de honra."

Matos Santos está satisfeito com o debate gerado por estes dias que partiu das afirmações da sua companheira de partido: "Isto anda animado, parece que se criou a semana da mulher, sem quotas, só pelo mérito dos textos e das ações. Assim vale a pena!", exultou na sua página do Facebook. Ao DN, explica-se: "Quando coisificamos as mulheres, criamos quotas para as mulheres, criamos exceções para as mulheres, com a desculpa de que não são capazes, não têm acesso, não têm possibilidade, que são mais frágeis, mais fracas, nós estamos a diminuir a própria mulher."

Anos e anos de luta pelos direitos das mulheres têm uma interpretação bem distinta para o porta-voz da tendência do CDS. "Temos de criar condições para uma sociedade positiva e saudável onde as mulheres possam escolher livremente — e aqui é que é o ponto, a pedra-de-toque —, onde possam escolher livremente o estilo de vida que querem ter."

A realidade é, nas palavras de Abel Matos Santos, uma só: "As mulheres hoje são empurradas pelo politicamente correto para o carreirismo, para estarem fora de casa, para terem uma carreira profissional, senão não valem nada." E os homens, perguntou o DN. "Os homens não são empurrados para estas coisas, os homens sempre se sentiram, naturalmente, impelidos para isso." E insiste: "A questão aqui é que há mulheres que não querem ter carreirismo, que querem ser mães, que querem estar em casa, que querem trabalhar e cuidar dos filhos, há mulheres que querem cuidar da família e isso não pode ser menosprezado."

A Tendência ​​​​​​​Esperança em Movimento não põe em causa a opção de quem trabalha, como a presidente do CDS, Assunção Cristas. Também Joana Bento Rodrigues, recorda o porta-voz da TEM, "é uma mulher de sucesso, é mãe". E Matos Santos elabora mais: "Uma mulher que está em casa por opção própria não é uma prisão, não é uma imposição, há muitas mulheres que querem isso, que querem isso para si."

Puxa de uma comparação improvável, a dos "países mais evoluídos no norte da Europa", onde "as mulheres têm os filhos e ficam em casa dois anos e o Estado apoia-as nisso". Também apoia os homens, aponta o DN. "Não, não, é diferente, porque sabe que o papel da mulher junto dos filhos é diferente do do homem", contrapõe Abel Matos Santos.

Não é assim, na verdade: a Suécia, por exemplo, permite aos progenitores dividirem 480 dias de licença subsidiada para cuidar das crianças, obtendo um bónus de acordo como essa licença é dividida.

Para o porta-voz da TEM, o que importa é "discutir estas coisas", atacando depois o que diz ser o "feminismo exacerbado", como Joana Bento Rodrigues acusou o "marxismo cultural". "Temos de discutir sem preconceitos o papel da mulher na sociedade e valorizar as mulheres que optam por uma coisa que é diferente daquilo que o feminismo exacerbado defende que é a mulher que aborta, a mulher carreirista, a mulher que não tem de estar em casa, a mulher que se sobrepõe ao marido, como se o marido e a mulher não fossem iguais numa relação de amor, em constituir uma família, onde não há um melhor do que o outro, há uma complementaridade."

Tudo se resume à liberdade das mulheres, garante. "Tem de haver é liberdade e o grito que temos de dar é o da liberdade. As pessoas têm de ter a liberdade de poder escolher e as mulheres não podem ser menorizadas por quererem ficar em casa ou por quererem não ter uma carreira. Hoje em dia, a sociedade e os movimentos feministas e o marxismo cultural castigam as mulheres, diminuem as mulheres que optam por isto."

O que é a Tendência Esperança em Movimento? Direção do partido não fala

De acordo com a Declaração de Princípios da TEM, disponível no site, "a principal razão para a criação da Tendência Esperança em Movimento é a evidência — que já não é possível ignorar — de que é mesmo preciso defender os nossos valores e afirmar a nossa identidade. Com efeito, esses valores — não só os do nosso partido mas também os da própria democracia constitucional de tipo ocidental — estão a ser atacados." E acrescenta-se que estes valores estão a ser "assaltados pela agenda progressista de pendor relativista e niilista, pelo laicismo radical, pelo fundamentalismo islâmico e pela ilusão multicultural, pelo liberalismo sem limites, pela contínua erosão da soberania nacional, garantia primeira da liberdade do povo português, entre outros fatores".

Sublinhe-se o "mesmo" na frase em que, para estes militantes centristas, "é mesmo preciso" defender os valores do partido e da sociedade, como se a atual liderança do CDS falhasse. "Nós não somos preconceituosos", argumenta o porta-voz da TEM. "Põem-nos o estigma, ou que somos contra os homossexuais, ou que somos xenófobos, nós não somos nada disso, rejeitamos isso."

O alvo do texto de Joana Bento Rodrigues sobre a lei da paridade era também Assunção Cristas, que votou a favor das quotas na política e, para mal dos seus opositores internos, se anunciou uma "acérrima defensora das quotas", esperando que "no futuro não sejam necessárias quotas", mas registando o seu "desagrado profundo" à forma como "o processo foi conduzido".

O membro do Conselho Nacional centrista, Francisco Mendes da Silva, apontou o dedo à tendência no CDS que dispõe de "um cantinho que se podia chamar 'tiro à Cristas', pela forma como deixa claro quão detesta aquilo que Assunção é e representa", referindo-se ao espaço de opinião de vários militantes da TEM no jornal Observador, que tem "um peso inversamente proporcional ao que tem no partido". "Está aí tudo nesse tal artigo", aponta Mendes da Silva, que chegou a ser deputado no início desta legislatura.

 

Para Matos Santos, o texto não representa um ataque à líder do partido. "Tem direito à sua opinião", mas não deixa de fazer contas: só Assunção Cristas e uma outra deputada do CDS, Isabel Galriça Neto, votaram a favor da lei da paridade; e outros quatro deputados, incluindo o líder parlamentar, Nuno Magalhães, abstiveram-se. "O resto é tudo contra", sentencia o porta-voz da corrente. É a líder que está (quase) isolada nesta matéria, lê-se nas entrelinhas.

Esta lei da paridade é, no entendimento da TEM, "inconstitucional" e impraticável. "Não sei se amanhã, com a obrigação dos 40% [de pessoas de um dos sexos nas listas], não sei se elas [mulheres] estarão lá porque são capazes e competentes ou simplesmente por ser uma lei sexista", atira.

Matos Santos recupera um argumento de Filipe Lobo d'Ávila, de que as mulheres não serão suficientes para os partidos comporem as listas. O porta-voz da TEM deixa um "exemplo prático: há freguesias e concelhos no país onde não há mulheres suficientes para integrar as listas."

Abel Matos Santos rejeita qualquer menor representatividade da Tendência. "Nós valemos tanto no CDS hoje como o CDS vale no país", argumentou ao DN. O porta-voz da TEM compara o partido ao país para melhor argumentar — e deixar um recado a Assunção Cristas. "Quem nos acusa de falta de representatividade, então está a acusar o CDS de falta de representatividade no país. Nós valemos 10% no congresso e a alternativa à atual liderança vale 30% no congresso. Não é para ignorar, não é falta de representatividade, é o que é. Uma líder inteligente e que agrega tem de ter em conta estas diferentes sensibilidades e tem de tentar conciliar, ouvir, escutar. E isso é o que pedimos desde o princípio, e mesmo quando não nos querem escutar, nós falamos e dizemos. Alguma coisa há de ficar."

A direção do CDS não mostrou disponibilidade para falar neste momento ao DN sobre a Esperança em Movimento.

A estrutura da Tendência, que é composta por uma comissão executiva e outra consultiva, tem 11 pessoas — apenas uma mulher. E, dos dez membros da TEM representados nos órgãos do CDS, também só há uma mulher, curiosamente a mesma: Sara Sepúlveda da Fonseca, que nesta terça-feira integrou um grupo que entregou em Belém um manifesto assinado por 102 mulheres contra as alterações à lei da paridade nas listas eleitorais.

Na órbita desta corrente de opinião, há um nome que sobressai, o do antigo líder José Ribeiro e Castro, que não está em nenhum dos órgãos da TEM, mas já participou numa conferência da organização, juntamente com outros dois ex-presidentes, Adriano Moreira e Manuel Monteiro. A corrente defende o regresso deste antigo líder, que deixou há anos o CDS, então em rutura com Paulo Portas, e já o teve em dois encontros como um dos principais oradores.

Num desses encontros, o Congresso da TEM, participaram a líder centrista, Assunção Cristas, mas também o presidente da Juventude Popular, Francisco Rodrigues dos Santos, que também já tinha estado num ciclo de debates sobre as autárquicas.

"Isto é o debate normal", diz Abel Matos Santos, sobre as propostas que a Tendência tem apresentado. "Em determinada altura, se a divergência for muito grande, exige-se clarificação, e para isso é que há congressos, eleições nas distritais e concelhias, os militantes terão liberdade de escolher um caminho ou outro."

Para o porta-voz da TEM, o posicionamento desta corrente de opinião sobre a homossexualidade ou a família não belisca o que pensam sobre dirigentes do partido, como Adolfo Mesquita Nunes, que já assumiu ser homossexual, ou outros que são divorciados. "De modo nenhum", garante ao DN. "As pessoas são livres de fazer o que entenderem com a sua vida. Não tenho nada que ver com as opções sexuais, de vida, das pessoas. Era o que mais faltava. Nem a Tendência se mete nisso."

Desde que as políticas não se afastem de uma certa linha. "Outra coisa é o modelo de sociedade que nós defendemos. Eu não tenho nada contra que dois homens ou duas mulheres vivam juntas, se amem e façam a sua vida. Agora, tenho contra quando lhe chamam casamento, o casamento não é isso, chamem-lhe outra coisa, uma união civil registada. Se lhe chamassem outra coisa, não vinha mal ao mundo." E vem mal ao mundo chamar-se casamento? "Mas não é. O casamento, se googlar, nunca foi entre duas pessoas [do mesmo sexo], é entre um homem e uma mulher. Agora é que passou a ser de outra maneira."

De acordo com Matos Santos, neste caso, "o que interessa são as políticas, não são as pessoas". Alguém como Mesquita Nunes podia ser líder do partido, questiona-se o próprio, para logo responder em que condições. "Nada contra, desde que a visão do país, da sociedade, da política, da democracia cristã se coadune com aquilo que nós entendemos, nada contra."

A TEM não é confessional, assegura. Tudo se resume a "uma questão política, de termos os melhores ao serviço do país e da sociedade. Temos pessoas na Tendência que são divorciadas e que são homossexuais, para nós é irrelevante."

[artigo originalmente publicado no Diário de Notícias de 27 de fevereiro de 2019]

Outubro 28, 2021

Até a morte os separa. Como o Parlamento recusa unanimidades nos votos de pesar

Miguel Marujo

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Na hora da morte, as convicções políticas de cada partido acabam por decidir a forma como acompanham o voto de pesar de personalidades evocadas pelos deputados. Não há uma única bancada que não o faça. [E de como se demonstra que, afinal, fazer uma mera soma de votos de uns com outros é enganador.]


Carlos Justino Cordeiro, antigo deputado do PS e autarca em Alenquer, e Sidónio Manuel Vieira Fernandes, ex-presidente do Instituto de Emprego da Madeira, contaram ontem [11 de maio de 2019] com um voto de pesar aprovado por unanimidade dos deputados na Assembleia da República. No momento da morte, a unanimidade é por norma o resultado dos votos de pesar dos diferentes partidos. Mas nem sempre é assim.

À ideia feita de que no passamento de alguém se elogia sempre a sua personalidade, os partidos parlamentares respondem com votos contra e abstenções. Não é preciso pesquisar muito para trás: no dia 26 de abril, um voto de pesar apresentado pelo CDS pela morte do toureiro Ricardo Chibanga teve um voto contra do PAN e as abstenções do BE, dos Verdes e do deputado não inscrito Paulo Trigo Pereira.

Em março de 2018, quando do pesar ao coronel João Varela Gomes, opositor à ditadura e ao fascismo, o CDS votou contra, com quatro abstenções (Ana Rita Bessa, Assunção Cristas, Filipe Anacoreta Correia e Telmo Correia).

Também em maio do ano passado, o Parlamento aprovou um voto de pesar ao capitão de Abril Álvaro Henriques Fernandes, com a abstenção do PSD e do CDS, e outro do antigo deputado centrista Rosado Fernandes (fundador da CAP) que contou com a abstenção do PCP.

Outras votações sem consenso foram mais notadas. Os comunistas votaram contra o voto de pesar ao empresário Belmiro de Azevedo, em novembro de 2017, enquanto BE e PEV se abstiveram.

Um ano antes, também em novembro, era Fidel Castro a dividir o Parlamento. Para começar, havia dois textos para votar na morte do antigo presidente de Cuba. O texto do PCP passou com os votos do proponente, do PEV e do BE; PAN, PS e PSD abstiveram-se e o CDS votou contra (com deputados destas três últimas bancadas a votar de modo diferente). Já o do PS passou com os votos a favor de toda a esquerda, a abstenção do PSD e do PAN e votos contra do CDS.

Em 2013, na anterior legislatura, por exemplo, foi o major-general Jaime Neves, uma das figuras centrais do 25 de Novembro, quem dividiu a câmaraAs bancadas do PCP, do BE e do PEV votaram contra o pesar apresentado por PSD, PS e CDS. Sem se preocupar com a falta de consenso, um pequeno grupo de antigos comandos, que se reconheciam pelas suas boinas, lançaram o grito de guerra Mama Sume (que significa "prontos para o sacrifício").

Os critérios para evocação

Questionados os partidos sobre os critérios usados para as pessoas que evocam e o que pode levar à decisão de se abster ou votar contra, o [à época] líder parlamentar do CDS, Nuno Magalhães, explicou ao DN que "segue o critério da relevância política, académica, económica, social, desportiva da pessoa a evocar, bem como o impacto que o seu percurso teve em Portugal ou no mundo". E acrescenta a "tradição" de apresentar votos de pesar a pessoas que tenham exercido funções como deputados ou dirigentes do partido.

O PCP argumentou que "é muito comedido quanto à apresentação de votos de pesar", notando que "a banalização de iniciativas dessa natureza arrisca-se a desvalorizar a sua apresentação". E defendeu a homenagem de "personalidades cuja notoriedade seja reconhecida".

Na hora de votar contra

A bancada comunista é taxativa na hora de se manifestar contra: "O PCP só se abstém ou vota contra em situações em que considere que a vida e obra da personalidade em causa merecem um juízo de tal modo negativo que impeça o PCP de, em coerência, se associar à sua homenagem."

Os comunistas disseram que votam a favor na morte "de personalidades com quem manteve profundas divergências, mas já seria incoerente votar a favor de votos de pesar pelo falecimento de personalidades cuja intervenção o PCP considere de tal modo negativa que não mereça ser homenageada".

Já o CDS disse que "tem como critério de partida o voto favorável em todos". "Assim foi em 99% das vezes e independentemente das opiniões, percurso ou convicções da pessoa a evocar", explicou Nuno Magalhães. "Só em casos extremos, no nosso entender, é que o CDS não pode votar a favor", exemplificando "no presente milénio" com Yasser Arafat e Fidel de Castro.

Para o PEV "faz sentido" ter "liberdade de votar contra, uma vez que os considerandos que dão corpo ao voto muitas vezes são relevantes para a decisão" desse voto.

Já André Silva garantiu que o PAN não vota contra "por convicções políticas e ideológicas mas admite não votar favoravelmente se o voto de pesar enaltecer ações ou valores que promovam a violência ou tenham atentado contra liberdades e direitos fundamentais".

Os outros partidos (PSD, PS e BE) não responderam ao DN.

[artigo originalmente publicado no Diário de Notícias de 12 de maio de 2019; foto de Fidel Castro, o antigo presidente de Cuba, do Arquivo DN]

Outubro 28, 2021

As estranhas geringonças na hora de votar no Parlamento

Miguel Marujo

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À geringonça que foi garantindo os votos necessários para que o executivo socialista sobrevivesse a uma legislatura que muitos vaticinavam curta, com os votos de PS, BE, PCP e PEV, somaram-se todas as semanas outras geringonças de geometria variável, em que, por exemplo, comunistas se juntaram a PSD e a CDS para fazer passar ou travar uma proposta. Um artigo de abril de 2019.

Em breve [depois de abril de 2019], há uma matéria que pode gerar uma solução que pode passar com os votos de PS, CDS e PCP. Trata-se de uma proposta de alteração centrista ao Estatuto dos Magistrados Judiciais, para que o salário dos juízes tenha como teto máximo o do Presidente da República, que foi acolhida pelos socialistas, que tinham proposto eliminar o teto máximo do salário do primeiro-ministro para o vencimento dos juízes. Os comunistas também acompanharão este sentido de voto. Mas falta ainda o trabalho de discussão na especialidade, até à proposta chegar a votos.

Estas geringonças estranhas, ou porventura inesperadas, acontecem de forma bem mais frequente do que se acha, apesar de só serem mais notadas com propostas e projetos mais relevantes. [Eis alguns exemplos.]

Os votos decisivos do PCP no chumbo da eutanásia

Foi uma das últimas questões fraturantes levadas ao Parlamento e os quatro projetos acabaram chumbados com os votos dos deputados comunistas. O PCP foi decisivo: os seus 15 deputados somaram-se aos 19 do CDS e mais de 80 do PSD (seis sociais-democratas votaram a favor, mas não em todos ao mesmo tempo, evitando também assim a sua aprovação). No futuro, para que uma proposta possa vingar (os bloquistas prometeram que voltariam ao tema na próxima legislatura), será necessária uma maioria de esquerda que consiga dispensar os votos do PCP, que disse que não mudaria de opinião. Para que o "sim" à despenalização da eutanásia vingue será preciso que os deputados de PS, BE, PEV e PAN, somados aos do PSD que estão a favor (Rui Rio é um deles), formem essa maioria.

O momento em que a geringonça podia ter caído

A geringonça teve um momento em que "esteve em risco" de não chegar ao fim desta legislatura, revelou em novembro passado a coordenadora do Bloco de Esquerda, Catarina Martins, quando falava no encerramento da convenção do partido. Dizia Catarina Martins então: "Só houve um momento em que a legislatura esteve em risco." Para logo depois situar esse momento quando o governo socialista procurou "compensar os patrões" pela subida do salário mínimo nacional com a descida da taxa social única (TSU), no final de 2016. Depois de aprovada em concertação social, como a tal contrapartida à subida do salário mínimo, a descida da TSU para os patrões acabaria chumbada na Assembleia da República em janeiro de 2017, pelo voto conjunto de BE, PCP e PEV e... PSD. Esse chumbo obrigou o governo a ter de encontrar uma alternativa, que passou então pela redução do pagamento especial por conta.

Combustíveis: só à segunda a esquerda deu a mão ao PS

Em junho de 2018, o CDS levou a votos uma proposta para eliminação do adicional ao imposto sobre produtos petrolíferos (ISP), que mereceu a aprovação na generalidade, com os votos favoráveis de PSD, CDS e PAN, valendo a abstenção de PCP, BE e PEV. O PS ficou sozinho a votar contra a medida. Quinze dias depois, na especialidade, a proposta acabou chumbada por BE e PCP. Em causa estava um pormenor importante, para bloquistas e comunistas: a eventual inconstitucionalidade da medida, por ter impacto orçamental. A solução seria colocar no articulado que a lei só entraria em vigor a 1 de janeiro de 2019, mas o CDS não o fez.

A reforma florestal que ficou sem o banco de terras

O Parlamento aprovou em julho de 2017, com os votos da esquerda, três propostas do pacote para a reforma florestal. Pelo caminho ficou a criação de um banco de terras, chumbada por PSD, CDS e PCP.

Os muitos pequenos exemplos do dia-a-dia

É um exemplo entre muitos: ontem, nas votações regimentais, o PCP juntou-se ao PSD e ao CDS para viabilizar um projeto de resolução social-democrata que "recomenda medidas urgentes de valorização dos cemitérios dos nossos heróis". Estes projetos, que se limitam a recomendações para o governo, são exemplos que se multiplicam no dia-a-dia de geometrias - e geringonças - muito particulares na hora das votações.

[artigo originalmente publicado no Diário de Notícias de 27 de abril de 2019; foto © Reinaldo Rodrigues/Global Imagens]

Outubro 26, 2021

Scott já tinha ouvido Rodrigo sem saber que um dia lhe ia dar voz

Miguel Marujo

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Life Is Long é o álbum que Rodrigo Leão e Scott Matthew escreveram por e-mail. Australiano colabora com português desde 2011 e ouviu-o aos 17 anos nos Madredeus. Agora que Rodrigo regressa com novo disco, Estranha Beleza da Vida, onde se ouvem outras colaborações, recuperamos dois artigos de 2016, uma entrevista e a crónica de um concerto.


Era um rapaz nos seus 17 anos, vivia no meio do campo, num sítio onde era muito difícil ter acesso a música, mas chegou-lhe às mãos uma cassete na qual descobriu uma canção que o encantou. "Talvez durante um bom ano" ouviu O Pastor, assim se chamava essa canção dos Madredeus (do álbum Existir, de 1992).

"Fiquei completamente marcado por essa canção e devo tê-la ouvido, talvez durante um bom ano, a toda a hora, era uma das minhas experiências favoritas de sempre", recorda Scott Matthew, o jovem que muitos anos depois, em 2011, seria desafiado pelo músico e compositor Rodrigo Leão a emprestar a sua voz e palavras a uma canção. "Quando me convidou para fazer alguma coisa com ele, fiquei encantado...", confessa Scott, à conversa com o DN, com Rodrigo ao seu lado. "No início não fiz logo a associação", entre o compositor português e a canção que ouviu à exaustão na adolescência. "Mas cinco minutos no Google e, de repente, "oh, wow", é ele..." - e os dois riem-se.

Foi assim que se iniciou a viagem que agora se concretiza com Life Is Long, o disco a quatro mãos que é hoje lançado. A cumplicidade de Rodrigo e Scott salta à vista: sentados na esplanada da Casa Independente, ao Intendente, em Lisboa, os dois músicos explicam que o seu processo de criação é "natural".

Fizeram "tudo por e-mail". "Pode parecer estranho para as outras pessoas, mas para nós foi bastante natural. Quero dizer: nós os dois vivemos em diferentes partes do mundo", o australiano em Nova Iorque, o português em Lisboa, "mas não sentimos uma forte necessidade de comunicar sobre o que estávamos a fazer ou sobre o que estávamos a tentar alcançar. Foi mais uma resposta emocional a uma peça musical. Eu tive uma resposta emocional a isso, escrevia e enviava-lhe de volta. Não foi nada stressante, de todo", explica-se Matthew.

Rodrigo completa: "Nós não conversámos muito acerca de... Foi só comunicar através da música." Scott acrescenta que foi um processo "mais intuitivo" e o português acrescenta. "Quando começámos a falar em fazer um álbum completo, em conjunto, pensei que talvez devêssemos falar sobre o que iríamos fazer, mas depois acabámos por não o fazer..." - e riem-se de novo. "Continuámos a fazer da mesma maneira que tínhamos começado a fazer."

O processo foi "longo": o álbum foi gravado em junho de 2014 e misturado em janeiro deste ano. "Penso que, por causa disso, foi um processo agradável porque não tínhamos a pressão do tempo, não tínhamos uma data-limite autoimposta ou imposta pela editora. Tivemos muito tempo para escrever as canções. Foi agradável", descreve Scott.

Sem quase mexer no que registaram. "Não mudámos muito entre as gravações e as misturas", recorda Rodrigo. "Pensei, algures, que podíamos mudar mais do que aquilo que acabámos por mudar. Nós queríamos algo simples, nada de demasiado trabalhado, com muitos arranjos. Mas temos o apoio das cordas, três sopros, a bateria, os baixos, as guitarras..."

As letras apareceram sempre depois da primeira ideia da canção, conta o português. "Por vezes pensei, quando estava a tentar compor, na voz de Scott, claro... mas noutras canções só estava a tentar fazer alguns coros... Estava a tentar fazer algo para ser cantado", argumenta o compositor, que tem uma vasta obra instrumental. Neste disco, "só há dois pequenos instrumentais. É um álbum de canções com voz".

A voz masculina que acompanha Rodrigo é melancólica, como são as suas letras. O australiano prefere não falar em "tristeza". "Não gosto da palavra, porque me parece muito forte para aquilo que fazemos. Gosto de "melancolia" - e penso que há muita beleza na melancolia", responde. "A minha história de escrita de canções lida - há muito tempo já - com a melancolia, a perda e o abandono e tudo isso sobre amor e perda." Como a música de Rodrigo, que "tem essa atmosfera".

Scott sacode qualquer "depressão". "Nós ouvimos as canções, antes de iniciar estas entrevistas, e fiquei surpreendido com a quantidade de canções que têm uma mensagem positiva." Como a primeira canção, The Child, que lhe parece uma lullaby. "Eu inspiro-me naquilo que a música me diz, naquilo que deve ser, e em particular nessa soou-me exatamente como uma canção de embalar", diz.

Desligado o gravador, fechada a entrevista, com o calor de Lisboa a apertar, o australiano começa a cantarolar O Pastor...

 

É a vida. A melancolia em palco

Português e australiano apresentaram o seu Life Is Long no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, no âmbito do Misty Fest.

 

Scott Matthew chega-se ao microfone e diz aquilo que todos já ouviram: "Não sou conhecido por fazer canções muito felizes." Mas logo atalha que vai cantar uma canção de amor, algo "positivo", e ainda estamos quase no início deste domingo à noite, no Coliseu dos Recreios, onde o australiano e o português Rodrigo Leão - mais o quinteto que os acompanham - se apresentam com Life Is Long, o álbum que os dois lançaram no final de setembro.

Quando Scott fica sozinho em palco, já mais a meio, para interpretar duas canções, vai ao seu álbum de versões buscar Smile, de Charlie Chaplin, o palhaço triste que cantou "Smile, what's the use of crying?" - e o australiano fá-lo sem artíficios, a voz e a guitarra dedilhada. E logo depois, sozinho com a mesma guitarra, convida o público a acompanhar os coros de I Wanna Dance with Somebody, o hit de Whitney Houston, mais uma nota de humor que se solta. Como também quando reinterpreta o original com um "don't you want to dance with me boy... girl... someone... I don't care", e provoca risos ao público e ao próprio.

Quando se ouve Life Is Long, sabemos porque se explica Scott. Já ao DN, em entrevista, o australiano tinha recusado dizer que escrevia letras tristes, preferindo a palavra "melancolia". Mas é uma melancolia que transporta esperança, com espaço para resgatar, pelos arranjos vivos do violoncelista Carlos Tony Gomes, uma pitada mais do som que Rodrigo Leão há muito tece, entre a síntese da Sétima Legião e dos Madredeus, que fundou nos anos 1980, e o classicismo cinéfilo que pontua a sua carreira a solo. A banda que o acompanha traduz este caldeirão: há uma guitarra e baixo, um trompete e uma bateria, sintetizador e órgão, mas também o violoncelo e o violino.

O público sabe ao que vai: rendido à voz de Scott, familiarizado com os instrumentais que Rodrigo recupera de Cinema, aplaudindo os agradecimentos de um e outro para a família que está na plateia. Percebe-se melhor que é uma imensa família, um grande grupo de amigos. Life Is Long, a fechar antes do encore, que Scott apresenta como a canção de que mais gosta do álbum, é de facto a chave para esta saudade que se desprende de cada palavra e de cada tom.

No regresso ao palco, repete-se That's Life. "Grateful, no need for you explain/ no need for this to spell pain/this may not be a failure/this lose can be a gain." É a vida. E sabe bem ouvi-la interpretada assim neste palco.

[entrevista originalmente publicada no DN de 30 de setembro de 2016; e crónica do concerto publicada em 7 de novembro de 2016]

 

Outubro 18, 2021

Salazar e Aristides. Da repressão à liberdade em apenas 22 km

Miguel Marujo

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Esta terça-feira, 19 de outubro de 2021, o Estado português faz (um bocadinho mais de) justiça a Aristides de Sousa Mendes, conferindo-lhe honras de Panteão Nacional. Em agosto de 2019, há dois anos, andei por estradas da Beira por conta do debate que um "museu Salazar" lançara, quando 22 kms ao lado, a casa que foi do cônsul aguardava por obras. Então, no Vimieiro e em Cabanas de Viriato avançavam projetos para a construção de um "centro interpretativo" e de uma casa-museu para recuperar a memória de António Oliveira Salazar e de Aristides de Sousa Mendes. Mundos opostos que se cruzam, da repressão do ditador à liberdade escrita pela vida do cônsul.


"Eis o mus" e só se adivinham as outras duas letras, "eu", muito apagadas, com uma seta a apontar para a porta verde da casa branca, um piso térreo com a marca do tempo, uma janela partida, a caliça caída, que só a placa escura resgata do esquecimento - para curiosos e devotos. "Aqui nasceu em 28-4-1889 Dr. Oliveira Salazar um Senhor que governou e nada roubou" e a bandeira portuguesa inscrita. Há ideias feitas que perduram. Como a ideia de um museu, que não será museualimentando a polémica há semanas e cujo projeto será apresentado na próxima quarta-feira, 4 de setembro [de 2019].

"A polémica só acontece porque vivemos em democracia", atira em jeito de saudação Rui Oliveira, 66 anos, presidente da Junta de Freguesia de Óvoa e Vimieiro. "A controvérsia é saudável, se vivêssemos em ditadura seria diferente." Nesse tempo, no tempo de quem ali nasceu, naquele lugar de Vimieiro, concelho de Santa Comba Dão, "quem estivesse contra ia para o Tarrafal", recorda, referindo-se ao campo de concentração em Cabo Verde para opositores políticos à ditadura do Estado Novo.

A democracia tem esta virtude: as opiniões diferentes são acolhidas, ninguém é preso nem morre por as defender. Para Rui Oliveira, o futuro Centro Interpretativo do Estado Novo, que a Câmara Municipal de Santa Comba Dão quer instalar na antiga Escola-Cantina Salazar no Vimieiro, "devia ter à entrada uma foto de Salazar ou de uma das suas obras e ao lado a foto de Humberto Delgado a dizer que foi morto por Salazar". "O homem não era um santo", completa o autarca socialista sobre o antigo presidente do Conselho, enterrado no cemitério da aldeia, para defender que "um homem só não faz um regime, toda a máquina funcionava". Mas, garante Rui Oliveira, esse centro "nunca será um oratório de Salazar".

Nem lhe chamem museu. O presidente da câmara, Leonel Gouveia, ausente de Santa Comba Dão, não quer falar mais, com a funcionária da autarquia que atende o DN a remeter para o comunicado emitido a 24 de agosto sobre o assunto e a corrigir o jornalista quando se fala em "museu".

No comunicado, Leonel Gouveia, também socialista, sublinhou que "conscientes das notícias, muitas delas descontextualizadas, que recentemente davam como certa a criação, em Santa Comba Dão, de um museu dedicado a António de Oliveira Salazar, vem a Câmara Municipal de Santa Comba Dão, em nome da verdade, informar o seguinte: jamais esta autarquia teve intenção de promover a criação do denominado "Museu Salazar"".

Na avenida com nome de ditador, Rui Oliveira conduz o DN até à escola que será o futuro centro interpretativo, registando que os "saudosistas" que ali vêm "são minorias insignificantes". E recorda um evento recente em que estiveram "não mais de 40 pessoas saudosistas".

O cemitério como romaria

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Os saudosistas não precisam de mais um local de romaria, já têm o cemitério do Vimieiro.

 

Estes não precisam de mais um local de romaria: o cemitério, no alto da aldeia, junto ao Santuário de Santa Cruz, já é esse sítio. "Mantenha a porta fechada" - e indiferentes à caveira no cimo, vão entrando curiosos e devotos, cumprindo o pedido do aviso. Logo à esquerda, uns metros à frente, lá estão as lápides que veneram o ditador, mostrando o que quase estava escondido: a sepultura rasa, com as iniciais AOS e o ano 1970, num dos lados, era pouco. Por isso, os veneradores salpicaram a parede de palavras e flores - já secas ou de plástico. "O homem mais poderoso de Portugal do século XX e modesto sem igual. Nasceu humilde e humilde cresceu, viveu humilde e humilde morreu." As loas são as habituais, a azia de quem escreveu pela democracia instalada também: "Medíocre é o povo que com ele nada aprendeu."

São essas palavras que Manuel Abrantes, 26 anos, bebe para justificar a sua presença ali. "Podia ler palavra a palavra o que ali está, eu não diria melhor." É de Lisboa, está na região e veio de propósito com dois amigos para visitar a sepultura de Salazar. "Viemos rezar pela sua alma", completa Margarida Paccetti, 31 anos. Não é figura de estilo: os três inclinam a cabeça enquanto leem no telemóvel uma oração pelos fiéis defuntos. "Dai-lhe, Senhor, o eterno descanso." E rezam o pai-nosso, antes de completarem: "Acolhei com bondade o vosso servo António."

Adeptos de um museu para Salazar, os três jovens defendem o projeto. "Não percebo porque é que não foi feito antes", atira Manuel Abrantes, com a concordância de Margarida Paccetti e Manuel Tovar, de 22 anos. "Depende é de qual é o partido" a fazer o espaço, aponta Margarida. "É difícil que seja isento. O problema é esse."

A casa de Aristides que será museu

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A Casa do Passal, onde viveu Aristides e a família.

 

Agosto, o sol bate os 28 graus, não se vê quase ninguém nas ruas do Vimieiro, o Dão ali ao lado a rasgar uma fronteira com Santa Comba. Quem passa, passa de carro. Como em Cabanas de Viriato, 22 quilómetros a norte, já no concelho de Carregal do Sal. Ali também há projetos para um museu, na Casa do Passal, onde viveu Aristides de Sousa Mendes, um grande solar que acomodava a família do diplomata com 14 filhos e os empregados. A casa tinha capela e biblioteca - hoje, o seu interior é uma ruína, de paredes e soalhos escorados à espera da intervenção que permita a reabilitação para a instalação de um museu.

Nuno Seabra, 45 anos, presidente da Junta de Freguesia de Cabanas de Viriato, lamenta que ainda não haja porta aberta na Casa do Passal. "Está ainda na fase de projeto e candidaturas", depois da recuperação de fachada e telhado. "Nós sentimos muito, em Cabanas e no concelho, a não finalização das obras. Recebemos dezenas de pessoas por dia e chegam e não veem ainda a casa completamente requalificada."

Há uma corrente que mantém o portão fechado. Passa um carro com um casal, os dois observam de dentro da viatura e depois seguem. "Não têm mais para ver", aponta ao DN Pedro Matos, funcionário da junta.

Falta algo mais, lamenta-se Nuno Seabra, que faça as pessoas parar mais. Por isso, enquanto não há casa-museu, o autarca, independente eleito pelo PS, quer criar uma sala de visitas no edifício da junta, mesmo em frente ao palacete, "para poder receber essas pessoas". Como aquelas que chegaram num autocarro, com turistas franceses e ingleses. Isso e construir um memorial de homenagem, que está há anos numa gaveta da junta. É uma das metas que tem para 2020, quando passam 80 anos do "ato de consciência" do diplomata que fez frente a Salazar.

"Antes com Deus contra os homens"

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Interior da Casa do Passal (2019). "Era uma casa em que não faltava nada. Depois é que foi o diabo!" 

 

Com a II Guerra Mundial a alastrar pela Europa e as tropas nazis a entrarem por França dentro, a cidade de Bordéus encheu-se de refugiados, sobretudo judeus, desesperados por um visto para fugir ao terror do Holocausto. O cônsul português na cidade, Sousa Mendes, resolve ignorar a instrução que Salazar tinha dado, através da Circular n.º 14 para todos os diplomatas, determinando a proibição da concessão de vistos a refugiados judeus, exilados políticos e cidadãos do Leste Europeu.

Na manhã de 17 de junho de 1940, o cônsul decide passar vistos sem olhar a quem. "Antes com Deus contra os homens do que com os homens contra Deus", exclama, antes de iniciar uma maratona de três dias e três noites a assinar vistos, salvo-condutos para a liberdade. Salazar não gostou e aplicou-lhe um processo disciplinar, que resultou na suspensão da sua atividade por um ano e na aposentação forçada. Aristides também foi proibido de exercer advocacia. A sua condição económica degradou-se, conseguiu que alguns filhos partissem para os Estados Unidos e morreu pobre, em Lisboa, em 3 de abril de 1954. Só a democracia reabilitaria a título póstumo o cônsul. O que ainda não fez na totalidade para a sua casa, que também se foi degradando e acabou vendida em hasta pública. A casa foi aviário, serviu para um simulacro de bombeiros, foi ruína.

"Era uma casa em que não faltava nada. Depois é que foi o diabo!", descreve Olímpio Dias Tavares, de 90 anos e quatro meses, como faz questão de se apresentar ao DN, que convive de perto com filhos mais novos de Aristides, o João Paulo e o Luís Filipe, com quem anda na escola, no edifício que hoje é a junta.

As memórias desses tempos, dele e da vila, começou a registá-las num caderno A4 preto, onde se fala também de César de Sousa Mendes, o irmão gémeo de Aristides, que foi ministro dos Negócios Estrangeiros de Salazar e intercedeu junto do ditador pelo irmão sem sucesso. "Eu bem tenho dito cá na terra que também temos de recordar o irmão, César", explica Olímpio, numa torrente de histórias nunca atraiçoadas pela memória.

Lembra-se de nomes, recorda episódios, recupera datas, do casamento da D. Clotilde, uma das filhas de Aristides, "com pompa", em que a filarmónica foi convidada para um concerto, da carrinha Ford, grande, para levar a família toda e os empregados, uns 28/30 lugares, e lá vinha o cônsul "com rebuçados para todos os miúdos". "Tratavam muito bem toda esta gentinha", diz, genuinamente, de Aristides e Angelina, a prima com quem o diplomata se casou.

O bom samaritano de tantos judeus

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Não há quem reze no jazigo da família de Sousa Mendes, no cemitério de Cabanas.

 

O cônsul acolhe na sua casa refugiados judeus e os seus gestos motivam o epíteto de "justo entre as nações", título atribuído pelo Yad Vaschem, um centro israelita para lembrar as vítimas judaicas do Holocausto e aqueles que salvaram judeus. O católico que trouxe de Antuérpia em três peças, porque eram muito grandes e pesadas, um Cristo-Rei, que encima a colina onde está a Casa do Passal, e que no canto do jardim fronteiro do palacete tem um crucifixo enorme, foi o bom samaritano de tantos judeus - e a quem Salazar não perdoou o incumprimento de uma circular burocrática.

Nos 22 quilómetros que separam as duas localidades, sonha-se com a construção de dois museus. À entrada de Cabanas, atrás do balcão da Pastelaria Viriato, Filomena Carvalho nota que "vêm pessoas de todo o lado, até de camioneta". Com a casa-museu "ajudava a melhorar" , diz. Estão paradas as obras, está parada a tarde de negócio. Pelas 17.00, entra o distribuidor de bebidas, quase não há movimento nas ruas.

O presidente da Junta de Cabanas, Nuno Seabra, concorda que o museu "iria transformar a nossa freguesia e concelho num polo de atração turística". Podia ser este também um centro interpretativo do Estado Novo? Nuno Seabra prefere sublinhar o homem que foi Aristides. "O que mais me encanta é a simplicidade com que lidava com as pessoas", diz, sublinhando "o grande homem que foi". "Era realmente o sonho dele, salvar aquelas pessoas."

Não há quem reze no jazigo da família no cemitério de Cabanas de Viriato. Há uma fita e uma placa que assinalam a memória de Aristides, de homenagens antigas. No cemitério do Vimieiro, Salazar merece a visita quase contínua de pessoas que ali vão. Como aquele santa-combense que levou ali uns primos e pede para não ser identificado. "Passámos no cemitério de Santa Comba e eles achavam que era ali que estava o Salazar e trouxe-os aqui para verem." A curiosidade alimenta ainda mais a romaria do que a devoção.

"É um tema pacífico em Santa Comba"

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O autarca espreita para uma das casas de Salazar. Ali dificilmente alguém falará mal do ditador.

 

Na sede de concelho, num restaurante onde há um busto do ditador e uma foto antiga da estátua de Salazar que foi rebentada em 1978, uma pequena pagela assinala que se trata de "o melhor governante nos 900 anos de história de Portugal".

Rui Oliveira, o autarca do Vimieiro, diz que dificilmente se encontrará alguém que fale mal de Salazar por ali. "É um tema pacífico em Santa Comba Dão, por bairrismo, não por política. Defendem-no como conterrâneo", esclarece. "Pensar o Salazar é passado, é história", argumenta. "Queremos é pensar o presente e o futuro, isso é que é importante", atira a despedir-se.

O homem de 70 anos que passa junto à casa faz notar ao DN "a vergonha que aqui está". A sua indignação é outra e ouvem-se, em som de fundo, cães que ladram. Não é metáfora nenhuma: há ali, no quintal da correnteza de casas que eram de Salazar, um canil de uma associação de proteção de animais. "Meteram aqui um canil!", diz, repetindo que ele "deixou barras de ouro no banco". "Era um grande homem, só os ordenados eram baixos." A ladainha choca com a realidade: a uns 20 quilómetros, Aristides é mais uma prova do que foi o regime do Estado Novo. Repressivo, iníquo. Uma interpretação que terá de morar em Santa Comba Dão.

[reportagem originalmente publicada no Diário de Notícias de 31 de agosto de 2019, com fotos de Sara Matos/Global Imagens e ilustração de Vítor Higgs]

Outubro 15, 2021

O homem da fuga planeada em mortalhas

Miguel Marujo

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Preso em Caxias, António Tereso passou "para o outro lado", o que lhe valeu ser ostracizado pelos camaradas do PCP. Afinal preparava uma fuga. Há quase 60 anos, "no dia 4 de dezembro de 1961, pelas 9h35, sete reclusos que se encontravam no fosso interior do reduto norte do Forte de Caxias na hora do recreio, auxiliados por outro recluso da sala de trabalho do mesmo Forte (a sala dos rachados), levaram a cabo uma espectacular e audaciosa fuga". Recupero o texto do obituário de Tereso, para recordar esta história que, na América, já teria dado um filme, como me dizia Domingos Abrantes na altura da morte do seu camarada.

 

As mortalhas do tabaco foram a maneira encontrada por aqueles homens para discutirem e prepararem a sua fuga da prisão de Caxias, durante a ditadura do Estado Novo. Era a única comunicação com António Alexandre Tereso, o "rachado", nome dado no PCP aos que traíam camaradas. Durante 18, 19 meses foi "ostracizado pelos presos", quando afinal estava a encenar essa traição, para ganhar a confiança de guardas e da direção da prisão para observar possíveis hipóteses de fuga.

Este herói para os comunistas morreu aos 89 anos a 7 de janeiro [de 2017], no dia em que desapareceu Mário Soares, o que obliterou referências à morte do "fulano excecional, de dedicação e abnegação", como o classificou Domingos Abrantes, militante do PCP, seu companheiro na fuga.

Motorista da Carris, Tereso é o nome que se destaca na fuga dos oito detidos da prisão nos arredores de Lisboa, às 9.35 de 4 de dezembro de 1961. Militante do partido, tinha sido detido a 27 de fevereiro de 1959 pelo envolvimento na "grande luta" dos trabalhadores da Carris. José Magro, dirigente do PCP também preso em Caxias, "propôs esse rasgo de Tereso: passar para o outro lado", recordou Abrantes ao DN. "Passou a ser rachado", apesar da desconfiança de camaradas e carcereiros. "Não tinha o perfil de rachado, que é uma pessoa abatida e o Tereso tinha feito vasqueiro no julgamento."

Encenando uma discussão numa refeição na cadeia, o motorista bateu à porta, traindo os camaradas. "Ninguém lhe falava", só dois presos, José Magro e Afonso Gregório, sabiam. Todos "cortaram com ele". Os companheiros da Carris "deixaram de lhe pagar o salário", eles que se quotizavam para ajudar as famílias de camaradas presos. "Era um troféu de caça para a polícia ter um comunista que se tinha passado para o outro lado", explicou Domingos. "Nem a mulher dele sabia que era tudo encenação", disse.

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A sua função era ter a confiança dos carcereiros, com liberdade de movimentos. As hipóteses eram discutidas por mensagens escritas nas mortalhas do tabaco. "Ele tinha de esperar que todos adormecessem na sala dos rachados para escrever as mensagens. Toda a fuga foi discutida por mortalhas", contou Abrantes.

António Tereso descobriu um carro blindado, na chapa e no vidro, com pneus de câmara dupla. Havia dois automóveis: um Mercedes, cuja manutenção era feita por um pide que andava sempre com a chave, "e este Chrysler que tinha a chave na ignição". Foi uma ideia "de uma audácia tramada", exclamou Domingos. "Bater-lhe na cabeça que se podia fugir com o carro." Tereso precisou de "ganhar confiança para poder andar com o carro - convidou o diretor para uma volta, tornou-se normal circular de carro pela prisão", mas ali, ao recreio onde estavam os outros sete camaradas nunca tinha ido. "Éramos 11", recordou o também conselheiro de Estado, fugiram oito: "Foi feita uma avaliação dos quadros que mais interessavam ao partido." O carro não levava todos. "Aliás houve um erro que veio por bem", avaliou Domingos Abrantes. "Na nossa imaginação o carro tinha uma porta que não tinha. A distribuição dos lugares era em função de três bancos. Ainda bem que a gente se enganou. Com dois bancos se calhar não tínhamos ido tantos."

Na fuga de 5 segundos para entrar no carro, os homens foram às camadas, "como se fossem numa lata de sardinhas, seis no banco de trás e um à frente com o Tereso". O blindado que tinha sido de Salazar rebentou com o portão e protegeu-os dos disparos das espingardas dos guardas. Foram saindo dois a dois já em Lisboa e passaram à clandestinidade.

O motorista fugiu para a Checoslováquia e França, onde se fez torneiro mecânico. Regressou com o 25 de Abril. Domingos que só contactou com ele no dia da fuga, voltou a vê-lo apenas depois da revolução. E Tereso ensinou-o a conduzir. Reintegrado na Carris, depois reformado, Tereso ajudava sempre no partido. "Transportava camaradas, acabou por ser motorista aqui no partido. Ia a muitos sítios explicar a fuga, falava com jovens, era uma história atrativa. Agora, no fim, já estava muito debilitado. Não teve uma vida fácil."

 

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[Artigo originalmente publicado no DN de 22 de janeiro de 2017, com o título "António Tereso. Morreu o homem da fuga planeada em mortalhas". Foto do Chrysler Imperial, 1937 - que esteve ao serviço de Salazar - usado na fuga retirada do site do Museu do Aljube. Foto da ficha de preso encontrada na internet. Foto de António Tereso, com a imagem do carro atrás de si ©Global Imagens.]

Outubro 13, 2021

Paddy Moloney: "Music became everything."

Miguel Marujo

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Paddy Moloney, 1938-2021

"I grew up in a family of musicians in this little cottage that seemed like a palace at the time. We would sit around and tell stories and play music every night. Music became everything to me, even more important than eating."

 

(foto Gerry Mooney/Independent Ireland)

Outubro 09, 2021

Do empobrecimento e do silenciamento da múmia

Miguel Marujo

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Falemos de empobrecimento. Torna-se fastidioso apontar o dedo a um senhor que começou por dar cabo de todo o sistema ferroviário português e que privatizou a Rodoviária Nacional, sem cuidar de manter uma coesão territorial nacional, acelerando ainda mais todo o processo de desertificação e empobrecimento do interior do país, aumentando a macrocefalia do litoral do país. Um senhor que exulta no primeiro parágrafo do texto que hoje deu à estampa porque passou o último classificado de uma UE a 12, omitindo que a UE se faz hoje a 27 e não estamos em último. Um senhor que usa o rendimento per capita, para omitir o desastre que foi a aplicação de fundos sociais europeus (e que maná, senhores, ele desperdiçou, todos os dias), nos seus governos, destruindo o tecido produtivo na agricultura e nas pescas, para mais tarde o país ter de correr atrás do prejuízo. O senhor que mente (ao omitir) a enorme crise de 2008, sacudindo responsabilidades de um capitalismo selvagem e violento, como o que ele professou e professa no seu texto, e nada trouxe de bom a Portugal — como se lê na desenfreada defesa que faz da troika e do seu governo, omitindo que foi depois de 2015 que o emprego e o crescimento económico deram um salto.

Falemos de silenciamento. O senhor que fala da alegada pujança de países de Leste, omitindo indicadores tão ou mais importantes como o estado da democracia em muitos desses países (mil vezes pior que a nossa), como a Hungria ou a Polónia. O senhor que omite indicadores relevantes, como a taxa de mortalidade infantil ou os números historicamente baixos de abandono escolar, apesar da pandemia, e que pandemia!, e que só sublinha a cartilha neoliberal de PIBs, passa o artigo a atacar governos de "extrema-esquerda", como o do Syriza ou os governos socialistas de Portugal, para enaltecer cartilhas sócio-económicas de Órbans e afins.

Não, é fastidioso e dá voltas ao estômago ler todas as linhas de um texto de um senhor que acolitou o BPN, mas mal ganhava para as despesas. O texto hoje publicado no Expresso é um grande embuste de um ilusionista que nunca engoliu a geringonça, a quem teve de dar posse, e foi provavelmente quem pior fez à economia portuguesa nesta jovem democracia — e sim, ele causou empobrecimento e silenciamento. Pena que nunca tenha tido a dignidade de fazer uma leve autocrítica. Nisso está bem acompanhado de Sócrates. E havia muito mais a dizer.

 

[foto Griffith Institute]

Setembro 29, 2021

Autarcas que levantaram o país do chão

Miguel Marujo

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Fernando Gomes foi eleito aos 30 anos: "Não havia uma única rua alcatroada, não havia iluminação pública, era fazer tudo do zero." (Foto Maria João Gala/Global Imagens)


O Portugal de 1976 era um país onde "faltava tudo". Ruas por pavimentar, bairros sem luz, água canalizada que não existia, esgotos a céu aberto. [Em 2017,] o DN viajou pelo país de então com quatro dos primeiros presidentes eleitos de câmaras municipais para fazer o retrato do que foram essas primeiras eleições autárquicas e das prioridades políticas que cada um deles teve para os seus concelhos. Perante a imensidão dos problemas, todos pediam tudo, recordam. E garantem que eram tempos de política pura.


Ruas por pavimentar, bairros sem luz, água que não chegava às torneiras, esgotos a céu aberto, transportes inexistentes e gentes sem casas. O Portugal de 1976 era o retrato de um país sem os mínimos de uma vida digna para muitos dos seus cidadãos, herança pesada de uma ditadura que gostava de ter os portugueses pobres e remediados. É este país que vai a votos a 12 de dezembro de 1976 para eleger, pela primeira vez em democracia, os seus órgãos autárquicos. Quase 41 anos depois, o DN percorreu essas ruas com quatro protagonistas eleitos nesse dia, autarcas que ajudaram o país a levantar-se do chão.

Fernando Gomes, 71 anos, eleito aos 30 presidente da Câmara Municipal de Vila do Conde, pelo PS, conduz o DN até um bairro social que nasceu no seu primeiro mandato. À passagem pelas Caxinas, perto do limite norte da cidade, vai apontando para os arruamentos. "Não havia uma única rua alcatroada, não havia iluminação pública", recorda, "era fazer tudo do zero". Talvez um pouco mais que zero.

Com mais ou menos variações, os exemplos repetem-se. "Faltava tudo", concorda Alda Santos Victor, uma das quatro mulheres eleitas presidentes da câmara em 304 municípios. Aos 95 anos, quase 96, eleita com 55 pelo CDS, a antiga presidente da Câmara de Vagos constata que "fez-se alguma coisa, fez-se o saneamento, que não havia".

[artigo originalmente publicado no DN, em 30 de setembro de 2017]

Setembro 25, 2021

Hergé e a grandeza da arte maior que é Tintin e a BD

Miguel Marujo

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Lisboa recebe a partir de dia 1 de outubro, na Gulbenkian, uma grande exposição sobre Hergé e a sua obra, que inclui o universo de Tintin. Em 2016, já vimos muito do que agora vem até à capital portuguesa e vale mesmo a pena.

 

As extensas filas que se acumulam à porta do Grand Palais [no outono de 2016], em Paris, parecem querer dar razão a Hergé, quando o criador de Tintin dizia esperar que "no ano 2000" a banda desenhada fosse ela própria um meio de expressão tão considerado "como a literatura ou o cinema" (e disse-o em 1969). É essa também a ideia-chave com que abre a exposição que as Galerias Nacionais francesas dedicam pela primeira vez à banda desenhada, 16 anos depois do início do milénio, numa sala que apresenta "a grandeza da arte menor".

Puro engano: o que esta mostra — [e que esteve] em exibição até 15 de janeiro de 2017— nos traz é uma arte maior em que a vida e a obra do belga Georges Rémi, que todos conhecem por Hergé, vai para além do universo da sua emblemática criação que é o repórter Tintin, mesmo que, ao longo de dez salas, se centre neste universo de 24 álbuns.

Logo a abrir há uma dimensão pouco conhecida de Hergé: a de amante de pintura abstrata e pintor, em que as suas referências são reconhecíveis nos quadros por si pintados, seja Miró ou Dubuffet. No diálogo interativo que a exposição apresenta com a obra de Hergé, é possível descobrir como o autor belga transportou essa sua admiração para as pranchas da BD, como no álbum Tintin e os Pícaros.

Todos os álbuns estão impregnados de referências da pintura neoclássica, surrealista ou do japonês Hokusai, como também do cinema de King Kong ou as personagens Bucha e Estica, de Stan Laurel e Oliver Hardy, que influenciaram as criações de Dupont e Dupond, como sinaliza o comissário da exposição, Jérôme Neutres, no catálogo da mostra. É Jérôme Neutres que nota que, "para alimentar o seu imaginário, Hergé, que raramente saiu da Bélgica e seus arredores, viajou essencialmente por outros imaginários". É essa viagem deste "romancista da imagem" que nos transporta também para a Lua e mergulhamos numa sala em que o centro é a maqueta da nave espacial dos álbuns de Tintin Rumo à Lua e Explorando a Lua, ao som da voz de David Bowie, em Space Oddity, com o Major Tom a chamar o ground control.

A acompanhar cada uma das etapas da obra de Hergé, o visitante pode observar esboços, trabalhos originais, reproduções do Le Petit Vingtième, no qual eram publicadas as histórias de Tintin, cruzando-se com a história. É assim que, num período de sucesso das obras publicadas no suplemento infantil do jornal Vingtième Siècle, a II Guerra Mundial obriga à suspensão deste diário. Na capa desse último Petit Vingtième Hergé desenhou o doutor Müller pronto a atacar Tintin, no momento em que a Alemanha invadia a Bélgica.

Tintin continuará nas páginas do diário Le Soir, sob controlo alemão, o que angustia Hergé quando da libertação do país do jugo nazi, mas não será acusado de nada. O estilo da linha clara que Hergé vem ensaiando nas pranchas de Tintin é ainda mais depurado com a publicação de As 7 Bolas de Cristal nas páginas do jornal.

A fama de Tintin que tantas vezes eclipsou a obra de Hergé atirou para a gaveta muito do seu trabalho. Antes de Tintin, o belga criou e desenhou em 1926 Totor, um jovem escuteiro, mas também daria vida em dezembro de 1935 a Les Aventures de Jo, Zette et Jocko, numa publicação francesa Coeurs Vaillants, uma lança num país onde o número de potenciais leitores era bem mais vasto.

Autodidata, o desenhador tomou o nome de Hergé, um pseudónimo que nasceu da troca das iniciais do seu nome de batismo Georges Rémi ("r" e "g"). Fazendo uso de uma montagem inteligente entre os vários elementos iconográficos e cénicos, a exposição leva-nos ainda aos trabalhos que foram emergindo dos Studios Hergé, nomeadamente na publicidade.

Transportando a linguagem da linha clara para os anúncios, Hergé entendeu desde cedo que a "legibilidade da mensagem e da imagem era primordial". Antes de a BD ocupar os seus dias a tempo inteiro, o criador de Tintin dedicou-se ao grafismo de logótipos, um talento de que se ocupou nos anos 1920 e 1930.

O mito de Tintin nasceria bem depois da publicação das duas primeiras pranchas a 10 de janeiro de 1929. Hergé dizia que podia abandonar a BD para se dedicar à pintura - não o fez. No final da mostra parisiense, há um painel imenso, uma "multidão de pessoas sozinhas", que foram as suas boas festas de 1973, uma multidão de personagens a deixar-nos os seus votos. Um universo de gentes a mostrar-nos como Hergé é universal.

[artigo originalmente publicado no Diário de Notícias, em 29 de novembro de 2016; foto © Robert Kayaert, SOFAM, Bruxelas/SPA, Lisboa, 2021]

Setembro 17, 2021

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Miguel Marujo

Lusa-PauloNovais.jpgSir Clive Sinclair (1940-2021).

His ZX Spectrum computers brought affordable personal computing to the masses and sold in their millions across the world: "The idea that an inventor can come up with some brilliant idea and somebody else will make it all happen is nonsense," he once said. "Either you do it yourself or it ain't going to happen."

[foto de Paulo Novais/Lusa, no Museu Load ZX Spectrum, em Cantanhede: trata-se do primeiro museu do mundo dedicado ao Spectrum, um exercício de nostalgia, mas também uma homenagem ao seu criador]

 

Setembro 10, 2021

Jorge Sampaio. "Este ocaso da vida é magnífico"

Miguel Marujo

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Desta vez, Jorge Sampaio não chorou. "Este ocaso da vida é magnífico"


No dia da sua morte, recupero uma reportagem minha quando dos seus 80 anos. Sampaio nasceu a 18 de setembro de 1939, no dia de anos do meu Pai, e morre dias depois da minha Mãe. Era um homem bom. Sempre foi.
PS homenageou antigo presidente da República e líder socialista no dia dos seus 80 anos [celebrados a 18 de setembro de 2019]. Sampaio respondeu com humor: "Não costumo fazer isto sem chorar um pouco." Costa sublinhou a "intranquilidade" da vida do socialista.


Jorge Sampaio avisou com uma pitada de humor. "É muito agradável estar aqui convosco e não costumo fazer isto sem chorar um pouco", atirou com um sorriso o antigo Presidente da República. O "aqui" é o Largo do Rato, sinónimo da sede do PS, e "isto" é uma homenagem que os socialistas fizeram questão de fazer nesta quarta-feira, dia 18 de setembro, no seu 80.º aniversário.

Sampaio não chorou - e fez questão de o lembrar, já quase no final das suas palavras. "Atenção: não chorei até agora e agora já é tarde." Só não é tarde para continuar a lutar, disse. "No ocaso da vida", como definiu este tempo que está a viver, é importante "ter a sensação de que é preciso sempre ir para a frente e nunca desistir, nunca desistir".

O secretário-geral socialista, António Costa, apontou isso mesmo: "Jorge Sampaio podia já estar a gozar a tranquilidade da vida, mas a verdade é que a vida lhe provoca sempre intranquilidade." E é essa intranquilidade que o leva a manter-se atento aos problemas do mundo e que o fez criar uma plataforma de apoio aos estudantes sírios que queiram estudar, fugindo à guerra.

O antigo Presidente e antigo líder do PS reconheceu-o: "Tudo está em aberto, este é que é o grande dilema e a complexidade dos nossos tempos" - e nessa complexidade inscreve-se a necessidade de "descobrir novas formas de agir" porque, avisou Sampaio, "o capitalismo financeiro vai tratar das crises da mesma maneira que sempre tratou".

O Sampaio estudante, advogado, político, secretário-geral do PS, Presidente da República, esteve inscrito nas palavras de todos - como num vídeo com imagens que passou instantes antes das intervenções - a começar pelo próprio que sublinhou "a fidelidade aos valores" em que foi educado. "E a felicidade que tive em cumprir estes 80 anos!"

O socialista confessou que se sente bem no Largo do Rato, onde não tem de justificar nada. Fez um parêntesis, de novo com humor. "É certo que me esqueci das escadas e agora subo escadas com imensa dificuldade", apontou. Depois defendeu que, no PS, há um "espírito aberto", também "para aquilo que deve ser discussão viva" ou "a discordância", mas onde "não pode caber a conspiração". Entre soaristas, guterristas ou sampaístas presentes nos jardins do Palácio Praia, a sede do PS, Sampaio ironizou ainda com aqueles que "andam todos a medir-se" na sua social-democracia.

Se a voz está mais frágil, como o corpo, as ideias saem com mais fluidez. "Devo ser daqueles que estão a adorar os debates", revelou sobre a pré-campanha para as eleições de 6 de outubro, notando que "despertou algum interesse", "discutiu-se algumas coisas fundamentais para o que há de vir". É a intranquilidade de que falou Costa.

O primeiro-ministro, na pele de secretário-geral do PS, sacudiu as notícias do dia, de uma demissão no seu governo, para dizer que este é um "dia feliz" para os socialistas. "Estamos aqui a festejar o aniversário, os 80 anos do Jorge Sampaio."

A "homenagem a um dos mais ilustres militantes do PS" também aconteceu pela militância de Sampaio na "defesa dos direitos humanos", apontou Costa - e, antes, os presentes ouviram o testemunho de Tamin, refugiado sírio, que agradeceu ao antigo Presidente a oportunidade que este lhe deu para "uma vida melhor", a ele, à sua mulher e à filha dos dois, que nasceu na Grécia e hoje todos os dias vai para a escola em Portugal.

O "homem tranquilo, fleumático, britânico" que é Sampaio, na definição de Costa, foi capaz de "decisões de rutura que tomou num determinado momento e marcaram a sua vida". E o atual líder socialista - que esteve sempre ao lado de Sampaio nas lutas internas do partido - enumerou-as, do 24 de março de 1962, quando "ergueu a sua voz" em defesa dos estudantes (na crise académica de 62), a 1989, quando avançou para a liderança do PS e se apresentou como candidato à Câmara de Lisboa e conseguiu unir a esquerda, incluindo o PCP de Álvaro Cunhal, em torno dessa candidatura; "e depois, anos depois", em 1995, quando desafia Cavaco a candidatar-se numa entrevista ao Expresso, "para o motivar a candidatar-se", e "foi a sua candidatura que motivou uma grande maioria de portugueses". Costa deixou de fora a bomba que Sampaio largou no seu mandato presidencial, quando demitiu o governo PSD-CDS de Santana Lopes, em 2004.

"O cidadão comprometido com a sociedade e com o mundo em que vive, sempre preparado para uma vida de intranquilidade", recebeu das mãos do líder socialista uma reprodução da primeira página do jornal oficial do PS, o Acção Socialista, quando foi eleito líder do partido. Na capa, Sampaio está de punho esquerdo erguido, o mesmo que nesta quarta-feira ergueu no final da sua intervenção, para agradecer os aplausos que lhe dispensaram.

Cantaram-se os Parabéns, cortou-se o bolo, num jardim em que a noite já caía, com vários ministros e secretários de Estado na assistência, e outras figuras do partido, como Ferro Rodrigues, Manuel Alegre, João Cravinho ou Jorge Coelho. "Agradeço-vos esta companhia neste ocaso da vida, que é um ocaso magnífico", tinha dito Sampaio a fechar o seu discurso.

[artigo originalmente publicado no Diário de Notícias, de 19 de setembro de 2019; foto de Daniel Rocha, no Público, março de 2005]

Agosto 03, 2021

Tratou da saúde a três Presidentes da República. Com o quarto, "o desafio é ser médico"

Miguel Marujo

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Daniel de Matos entrou em Belém pela mão de Mário Soares. Os chefes do Estado foram passando e ele tem ficado. Agora zela pela saúde de um antigo colega de liceu, Marcelo Rebelo de Sousa. Um perfil publicado em março de 2016, que ajuda a explicar voluntarismos atuais.

Marcelo Rebelo de Sousa realizou a sua primeira deslocação oficial para o estrangeiro com uma comitiva mínima, deixando em Lisboa o médico pessoal do Presidente da República. Daniel de Matos até agradece ter sido poupado a estas viagens: afinal, o médico, nascido a 6 de maio de 1948, está no seu sétimo mandato em Belém - está na Presidência desde a eleição de Mário Soares - é o decano do palácio presidencial.

São 30 anos de serviço, com milhares de quilómetros em centenas de deslocações ao estrangeiro e em território nacional. "Eu entro e saio com cada um deles", notou Daniel de Matos ao DN: Mário Soares, Jorge Sampaio e Cavaco Silva. "Entro e saio nos dias 9 de março", a data em que os chefes do Estado Português tomam posse. E entrou e saiu porque mereceu a confiança de cada um deles. "Os dois primeiros eram meus pacientes, o professor Cavaco Silva convidou-me para estas funções", explicou. Fonte oficial de Belém avançou ao DN que "o Presidente da República decidiu manter no cargo" quem já lá estava. "Não se trata de uma escolha pessoal, é manter o que já existia", acrescentou Belém. É mais do que isso: ele será médico de um velho conhecido. Marcelo e Daniel foram colegas de liceu, no Pedro Nunes, em Lisboa, conhecem-se desde os 11 anos.

António Mega Ferreira foi colega dos dois, "nos cinco primeiros anos de liceu". Mesmo que o curso da vida tenha afastado (uns seguiram para humanidades, como Marcelo e António, já Daniel optou pela ciência), o antigo administrador do Centro Cultural de Belém recordou que "era muito amigável, muito bom o relacionamento" entre os adolescentes Marcelo e Daniel. O agora Presidente "tinha um bom relacionamento com toda a gente", notou ao DN.

"Éramos um grupo de uns quatro, eu, o Marcelo, o João Seabra, que agora é padre, o João Amaral, que está na APEL, e o José Manuel Faria", vai desfiando o escritor e jornalista. Daniel era da turma, dava-se com eles, mas não fazia parte deste pequeno grupo que ia "alegadamente estudar para casa de Marcelo", ali na Rua de São Bernardo, um pouco abaixo do Liceu Pedro Nunes. "Íamos era lanchar, discutir este mundo e o outro", contou.

"Não comete erros básicos"

Daniel de Matos sabe bem ao que vai agora: o recém-empossado Presidente da República é um hipocondríaco assumido. "É um hipocondríaco confessado e erudito", completa Daniel de Matos ao DN. Que tenta definir melhor essa hipocondria e essa erudição: "É erudito médico-farmacologicamente, a sua hipocondria será mais nesse sentido." Assim, concede o médico, "dá alguma segurança, não comete erros básicos". Também por isso Rebelo de Sousa "acaba ele próprio por resolver 95%" dos problemas que tem. "O grande desafio é eu ser médico", diz, entre gargalhadas.

Marcelo, antes de ser eleito, confirmou esta sua curiosidade. "Eu vou às farmácias e porque conheço os medicamentos que saem, porque conheço as várias terapias, sou capaz de explicar como foram tratadas as úlceras desde o momento em que comecei a tratá-las." Que teve uma revelação com uma cientista, como confessou numa entrevista à revista Cristina. "Um dos momentos áureos da minha vida foi ter conhecido uma cientista de Leste, que foi para a Suécia, e inventou o medicamento que mais dinheiro deu a uma farmacêutica sueca na proteção do tecido do estômago e do duodeno atingido por úlceras", recordou. "Conhecer aquela cientista, que me explicou como é que tinha inventado aquele medicamento foi..." - e simula um espanto de cair para o lado. "Outra coisa que adoro: ir a congressos de médicos. Sinto-me bem de saúde. Se me acontecer, está lá tudo", atirou. Os portugueses também o viram, na campanha, a entrar numa farmácia e a perguntar por "novidades".

Talvez seja por isto que Daniel de Matos antecipou um "caldeirão". "Vamos ver como corre. É uma experiência que aceito correr", afirmou ao DN. Com um objetivo simples, admitiu: "Só tentarei dar saúde ao Presidente da República." E corrigiu-se logo. "Cuidar da excelente saúde que tem."

Um acaso no início

O médico chega a Belém em 1986 por um episódio que teve lugar uns seis anos antes, como revelou ao Expresso, numa entrevista em 2013. Em 1980, Daniel Joaquim de Sousa Azevedo de Matos estava de urgência com o amigo Eduardo Barroso, sobrinho de Mário Soares, quando o fundador do PS adoeceu. Como estava sem médico, Eduardo e Daniel foram a casa de Soares, e Azevedo de Matos acabou por ser "chamado quando havia qualquer coisa". Seria Daniel quem Mário Soares chamaria também, em 1986, para ser seu médico pessoal na Presidência. Jorge Sampaio repetiria o convite, Cavaco Silva também.

Ao longo dos anos, Daniel de Matos estendeu a sua atividade ao pessoal da Presidência. A consulta organizada tem lugar três dias por semana, mas Daniel de Matos vai passando e estando por lá. "Não quer dizer que noutros dias não veja pessoas."

Se tem sido assim no palácio, nas viagens o médico também foi chamado muitas vezes a acudir a quem precisava. "Pessoas que adoeciam em sítios difíceis", recordou. Ou coisas simples, como amigdalites. Colecionou quilómetros e histórias. Dos primeiros disse que foi "uma loucura" até agora, tem "tudo guardado" para um dia poder contabilizar. E das segundas recordou que tem muitas para contar, "quase todas com muita graça". "Não escrevi isso, tenho alguma pena, mas tenho de memória."

Agora, no sétimo mandato, este bisneto, neto e filho de médicos vai poder somar mais linhas ao caderno das suas memórias. Também pode tomar notas das novidades farmacêuticas, se o Presidente Marcelo tiver disponibilidade para ir visitando farmácias. Tem ali pelo menos um quase colega.

[artigo originalmente publicado no DN, a 20 de março de 2016; foto de Miguel A. Lopes, segundo o Google Images, identificada como "Presidência", no DN]