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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Setembro 29, 2022

Sigur Rós. Da ordem do espanto

Miguel Marujo

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Quando o espanto se apresenta à nossa frente, nem sempre estamos preparados. Quando o belo se passeia aos nossos olhos e ouvidos, podemos ficar muito tempo pasmados, sem saber articular o que sentimos, o que acabámos de viver – e ficamos pasmados. Talvez por isso, horas depois de termos visto os Sigur Rós em palco (no sofrível Campo Pequeno, que tanta luta terá dado aos técnicos de som dos islandeses) ainda nos faltem as palavras e sobrem as emoções para descrever o que foram aquelas quase três horas de concerto.

Podíamos enumerar vulcões e geiseres, uma natureza que irrompe por entre a lava, como a voz de Jónsi se eleva para lá de todas as notas e explosões, de todos os tecidos sonoros que tecem planícies e montanhas, que arrepia no som mais grave ou no tom mais agudo, entre o rouco e o sussurrado, entre o dito e o que ficou por dizer.

Cada uma das 21 canções (aos primeiros dez temas, mais intimistas, seguiu-se um hlé, intervalo, para novo set de 11 músicas sob a luz de um solstício de verão) mostrou um público ávido, mesmo que ali não se acompanhe cada um dos versos, e em comunhão com os quatro islandeses. Por trás da exaltação de cada espectador, desconfiamos que todos estavam entre o espanto e o pasmo. E a melhor forma de ir contando a história da noite de 28 de setembro é mergulhar uma e outra vez na discografia mágica destes druidas dos tempos novos.

 

[foto MM]

Setembro 25, 2022

A dança é um lugar estranho

Miguel Marujo

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A dança é uma linguagem que me é estranha — talvez pela inabilidade muito pessoal em dar sentido e ritmo a este corpo. E também por isso a dança fascina-me, mesmo que no dia a dia não a absorva (ou consuma) como com outras artes. Paro por vezes, aos sábados à noite na RTP2, a ver bailados contemporâneos ou clássicos, entre o fascinado e o intrigado: que me dizem aqueles movimentos, os ritmos, os corpos? Sei que, como em todas as artes, o gosto não se impõe, antes discute-se e aprende-se, e estes programas ou alguns (poucos) espetáculos vistos vão ajudando a formar o meu próprio gosto pela dança. Nem sempre incondicional, nem sempre fácil.

Esta noite, Olga Roriz apresentou no CCB um espetáculo que criou com a Companhia Nacional do Bailado (e que repete este domingo), integrado no centenário de Saramago — e o arrebatamento aconteceu(-me). Dos corpos presos na engrenagem, fechados, inquietos e carnais, do amor refletido de Blimunda e Baltazar, dos braços erguidos de punho cerrado, dos risos que soltam os gestos, Deste Mundo e do Outro é um espanto feito espetáculo. E devia ter guia de marcha para todos os palcos do país.

 

[foto CNB]

Setembro 09, 2022

Sete salmos de terra

Miguel Marujo

 

Nick Cave cantou um dia que não acredita num Deus intervencionista, que põe e dispõe do nosso destino e finta-o de uma maneira que deixa sempre um rasto de insatisfação. Em Into My Arms, canção de 1997, os versos iniciais dizem-no assertivamente: I dont believe in an interventionist God.

Depois disso, o tempo pregou-lhe uma partida: em 2015 morreu-lhe um filho, em maio deste ano um segundo. A tudo isto, Nick Cave, músico, cantor, escritor, poeta, nascido na Austrália e a viver em Inglaterra, sobreviveu respirando (just breathe, just breathe, repetia Nick no seu concerto no Porto, em junho). E criando: álbum após álbum, de Skeleton Tree (2016) a Carnage (2021), o seu sopro deu-nos absolutas obras-primas, onde a dor, a morte e Deus respiram em cada verso e em cada estria. (Fica de fora Push the Sky Away, de 2013, outra obra maior, por ser anterior à tragédia de 2015.) “Assumi, por razões de sobrevivência, um compromisso com a natureza incerta do mundo. É aqui que o meu coração está”, dizia-nos em agosto de 2019, sobre a morte de Arthur.

Agora há este novo trabalho, Seven Psalms, objeto inclassificável, um disco de spoken word, no qual os versos dos textos são lidos sobre uma camada sonora construída por Nick Cave e Warren Ellis. São sete salmos destes tempos, escritos pelo australiano, numa prosa tão poética quanto reveladora de quem tem pressa em dialogar com Deus. É mais uma peça a juntar à prolixa produção de Cave, nas suas diferentes roupagens, nestes últimos anos: Ghosteen (2019), Idiot Prayer — Nick Cave Alone at Alexandra Palace (2020), Carnage (2021), B-Sides & Rarities Part II (2021), La Panthère Des Neiges (2021) e este Seven Psalms (2022). Sem esquecer Litanies (2021), um conjunto de 12 litanias que Cave escreveu para o compositor belga Nicholas Lens.

Para fãs de longa data, menos atentos às referências bíblicas que sempre compuseram a já longa discografia de Cave, este é um exercício que não pedirá um segundo de escuta (serão “tretas”, senhores). Para os outros, eventualmente os que foram descobrindo Nick Cave e os seus Bad Seeds desde The Boatman’s Call (1997), esta é uma obra a pedir tempo — e tempo para respirar. É um disco que pede disponibilidade, que se demore nele, a ouvir as palavras e a respiração por entre os versos, uma pausa para escutar. E respirar.

Quando anunciou este disco, em novembro de 2021, Cave antecipou a estrutura dos poemas e a dificuldade que seria para muitos dos seus fãs ouvir este trabalho: “Cada salmo é composto de três versículos de quatro linhas e aborda uma preocupação espiritual diferente — alegria, culpa, maldade, adulação, etc. Os sete [poemas] são registados como uma peça longa. Não [será] para todos, com certeza, mas é uma coisa adorável ao mesmo tempo.”

Nick Cave refere a alegria, mas estes sete salmos descem à terra, com o australiano a contar-nos as suas angústias e ansiedades perante a morte. No primeiro salmo, How Long Have I Waited?, é direto: Lord, I cannot wait a single moment more (“Senhor, eu não posso esperar nem mais um momento.”).

Em Have Mercy On Me, o segundo salmo, encontra-se uma súplica: Havе mercy on me, Lord, and bring me home (Tem misericórdia de mim, Senhor, e traz-me para casa). Ou, logo depois, em I Have Trembled My Way Deep, em que nos diz: My heart, my love, my Lord, my one true bride/ Sanctuary where the eternal yearning rest (Meu coração, meu amor, meu Senhor, minha verdadeira noiva/ Santuário onde a saudade eterna descansa).

 

Os textos não facilitam, impregnados de uma forte espiritualidade, não são para todos, como avisou Cave, mas neles encontramos também um pai que perscruta a tragédia que lhe tocou. Em I Have Wandered All My Unending Days, fala de uma mansão no céu, para onde todos irão, um a um, e em I Come Alone And To You revela que não tem para onde ir, a não ser para junto do Senhor (Deep calls to deep, I have nowhere left to go/ But to you, Lord, breathless, but to you). É um salmo de um profeta quase resignado, que só a melodia que acompanha os diferentes salmos procura sacudir.

As palavras de Nick são sempre ilustradas por delicados tecidos sonoros escritos pelo próprio Cave e por Warren Ellis, o bad seed que é cada vez mais o maestro que o acompanha nas suas diferentes roupas. E o lado B do vinil é uma composição instrumental que junta todos os sete salmos.

Na altura em que anunciou este novo trabalho, sem certezas do que faria com ele, Nick Cave foi desafiado a mostrar algo que andasse a escrever e rematou então a carta com um dos salmos, o sexto, de novo com a morte a pesar nas palavras: “Há coisas que nunca deveriam acontecer”, escreve. “Such things should never happen but we die” — mas nós morremos.

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Nick Cave, Seven Psalms
Kobalt – Goliath Records (maxi vinil)


[artigo originalmente publicado no 7Margens, em 2 de setembro de 2022. Foto © Nikolay Nersesov/ .]

Setembro 06, 2022

"Lá em casa ninguém se zanga com a política. A cozinha não é má"

Miguel Marujo

Adriano Moreira Orlando Almeida GI.jpg

Esta entrevista nasceu com um pretexto: um novo livro de crónicas do DN, que ia ser publicado à época, em 2016. Na altura, o mote era só o livro, mas a direção do DN pediu-me, depois da primeira conversa, que alargasse o âmbito e estendesse para um retrato de vida. Assim foi: a dois tempos, a conversa fluiu como se de um só momento se tratasse. E o registo de uma manhã e de uma tarde sairia em junho desse ano, percorrendo o seu percurso político, cívico e académico, recordando quando esteve detido no Aljube (um episódio que o próprio desvalorizou, por saber do que outros tinham sofrido às mãos da ditadura naquela cadeia), onde conheceu Mário Soares e que ia jantar nessa noite a sua casa, de quando foi ministro do Ultramar no início dos anos 1960, do ressentimento que nunca teve pelo exílio no Brasil, ou do caminho democrático do país. Pelo meio, um homem de cultura e com um saber que nunca soa presunçoso, que questiona, que interpela, mesmo que não concordemos. E para lá da conversa publicada, os longos momentos de diálogo que não foram para a entrevista - e que navegaram à volta do ISCSP, dos filhos, da Academia das Ciências e da sua bela bliblioteca... Adriano Moreira faz hoje 100 anos. 

 

No seu gabinete de todas as manhãs, na Academia das Ciências de Lisboa, Adriano Moreira recebeu o DN, numa conversa que se prolongou a dois tempos, para desfiar histórias e nomes, numa memória que raramente se atrapalhou. O professor universitário jubilado tem um livro novo que reúne as crónicas do DN e outro na calha. Da janela do gabinete vê-se o Passos Manuel, onde fez o liceu e para onde ia a pé desde Campolide. Foi por onde começou a entrevista...

Veio "criança de colo para a cidade grande", mas ao mesmo tempo sentia-se um transmontano a viver em Campolide. Esses dois mundos completavam-se, ou havia grandes diferenças?

Nesse tempo, Campolide era uma espécie de aldeia anexa a Lisboa, eu por exemplo andei neste liceu e eu vinha a pé de Campolide até aqui [e aponta pela janela].

Com um grupo de colegas.

Sim, eram dois. Depois voltávamos ao fim das aulas, eram quilómetros de caminho. Era um meio que também tinha alguma coisa de aldeia. Acontece que os transmontanos eram, e são, muito solidários. Todos os amigos do meu pai e da minha mãe eram transmontanos que estavam em Lisboa, e eu sempre fui passar as férias grandes com o meu avô para a aldeia. Eram três meses, três meses de liberdade, isso fez de mim muito mais transmontano do que lisboeta - não só a gente com quem nos dávamos. Aqui tem como é que eu fiquei transmontano. Uma coisa curiosa: quando tive de ter funções públicas, a qualquer um dos sítios onde eu chegava havia logo transmontanos, vinham logo ter comigo.

Ainda vai a Grijó de Vale do Infante, a aldeia onde nasceu?

Vou. Sabe o que significa Grijó? Quer dizer igrejinha, por isso há vários em Portugal. Eu vou lá de vez em quando por várias razões - primeiro porque estão lá enterrados o meu pai e a minha mãe. Eu tenho sempre um afeto permanente pelos meus pais. Um pai que é filho de um empregado de um moinho, vem para Lisboa e faz serviço militar e, como era costume da migração lá de cima, eles tinham oportunidade na polícia, na Guarda Republicana e nos elétricos. O meu pai acabou a vida como subchefe da polícia do Porto de Lisboa. Este homem, com estas dificuldades, resolveu que tinha um filho e uma filha e que os dois tinham de ter um curso superior - imagina o sacrifício? A minha irmã é médica e eu sou esta pessoa, licenciado em Direito e sou doutor em não sei quantas coisas.

Falava da ligação com o seu pai.

Tenho sempre uma fotografia do meu pai comigo [puxa da carteira para a mostrar] e no meu escritório. Em casa também, na sala de estar, um retrato que um amigo meu, que é pintor, pintou e fez-me uma surpresa.

A sua mãe?

A minha mãe também era da aldeia, ficava em casa mas fazia trabalhos de costureira. Aquela gente era especial porque o pai da minha mãe já era assim uma pessoa que tinha estado no Brasil, dois anos (teve uma zaragata com a administração pública em Macedo de Cavaleiros e depois teve de emigrar). Depois voltou para a aldeia. Era um homem muito lido, recebia jornais, como O Século, que lia todos os dias num banco de pedra.

É esse avô de quem diz que só por o ter conhecido valeu a pena já ter vivido?

É. Era um homem extraordinário, sensato, muito lúcido e muito inteligente, aliás, a minha mãe ficou com a inteligência dele. A vida na aldeia era terrível, ele teve oito filhos e enterrou cinco com tuberculose, mas nunca o ouvi queixar-se. Era rijo, com carácter, nada de se queixar. É uma coisa simples. Eu tive uma vida muito simples, fiz o curso secundário a ir a pé, depois fiz o curso universitário a ir a pé para o Campo de Santana e a voltar para Campolide sempre.

O seu mundo, na juventude, é também o mundo da Segunda Guerra Mundial. Aquilo que chegava da Europa até cá ajuda-o a moldar-se politicamente?

Eu devo dizer que, na altura, a política não me interessava.

Mas junta-se em 1945 a uma lista do MUD (Movimento de Unidade Democrática, de oposição).

Não. Isso foi porque no escritório onde estava a fazer o estágio toda a gente assinou essa lista - e eu também. Eram eleições livres e eram o que pediam. Eu formei-me com 21 anos e estava naquele escritório e toda a gente assinou.

Não é a Segunda Guerra Mundial que o muda politicamente?

Eu entrei na Faculdade de Direito com 16 anos. A grande inquietação que nós tínhamos eram as notícias sobre o avanço das tropas alemãs que já estavam nos Pirenéus, e a invasão da península era uma coisa possível. O sentimento da população em geral era contra os alemães. Não é que o povo soubesse o que era o nacional-socialismo, mas o homem estava a destruir a Europa, isso era bastante para ter medo e até a nível moral ser contra. Como eu tive toda a minha juventude com necessidade e esforço físico, a política não me interessava realmente. Só muito tardiamente é que comecei a interessar-me, sobretudo quando enveredei pela vida universitária. Houve duas coisas - a que eu chamo as minhas quedas no mundo - que me levaram a interessar a sério pelas coisas: fui convidado para ser professor da Escola Superior Colonial. E [o ministro do Ultramar] Sarmento Rodrigues pediu-me para estudar o problema prisional do Ultramar. Fui a todas as colónias de África e escrevi um livro, que foi a minha tese de concurso, sobre O Problema Prisional do Ultramar. Ganhou um prémio da Academia das Ciências, que nesse tempo era nem mais nem menos do que 80 contos, e dei-o todo à minha mãe para reconstruir a capela da aldeia.

A pedido da sua mãe?

Não, ela não pediu, não foi preciso, eu sabia da capela, foi um gosto muito grande para mim, a minha mãe era muito crente e vi que era uma coisa que poderia fazer, de maneira que, com esse prémio, paguei.

Voltando à tese...

Eu fiz isso e inspirou a "reforma Sarmento Rodrigues" no regime prisional. Ainda hoje acho que a reforma foi boa. A minha inspiração principal veio de um médico que havia no Congo, que era um homem que além de médico era teólogo e músico e resolveu adaptar o hospital à cultura nativa. O que interessava eram as populações nativas, eu disse que só podia haver campos de trabalho para que tivessem uma atividade em que fizessem a sua agricultura e com bom comportamento podia significar juntar a família. Comecei a interessar-me por aquilo e digo que foi a minha primeira queda do mundo porque conhecia o Direito, era o que eu ensinava, mas vi que não era o Direito que estava em vigor. Depois vem o problema de Portugal entrar nas Nações Unidas: o chefe da delegação foi o Dr. Paulo Cunha, que era um grande professor, tocava violino, era alegre, e foi-me buscar à Escola [Superior Colonial]. Fui com ele, era gente muito nova e todos de grande categoria, como Franco Nogueira, ainda jovem conselheiro.

Estamos em 1957.

Por aí. É a minha segunda queda no mundo. Eu sabia muito bem o que era a Carta das Nações Unidas e a Declaração de Direitos Humanos, tudo do Direito, mais uma vez, feitas por ocidentais, mas foi a primeira vez na história da humanidade que ouvimos representantes de áreas culturais diferentes, que tinham sido colonizados, a falar ao mundo em função dos seus valores. O Raul Ventura, que era o ministro que se seguiu a Sarmento, organizou um centro de estudos do Ultramar e eu é que fiquei diretor. Fizemos uma data de missões de investigação e é aí que eu começo a defender as teses de que o estatuto do indigenato tem de acabar.

Teses que vai aplicar quando chega a ministro do Ultramar.

Apliquei tudo. Eu mandava um relatório meu para o Ministério do Ultramar e vim a verificar que eles o liam porque dois anos depois o Dr. Salazar manda-me chamar para falar comigo. Quando lá cheguei o Dr. Salazar disse-me: "O senhor escreveu um relatório para o Ministério do Ultramar e disse que em 1961, mais ou menos, haveria revolta, como é que adivinhou isso?" E eu respondi: "Porque tive uma professora na primária que me ensinou a fazer contas", "então como é isso?", "é simples, Portugal não seria condenado enquanto tivesse um terço dos votos das Nações Unidas e eu fiz as contas à entrada dos países e verifiquei que se perdia o terço nessa data, éramos condenados, eles tinham o apoio internacional de todos os lados e a previsão era essa", e então ele disse-me: "O senhor tem razão para dizer que não ao que eu lhe vou perguntar, mas quer vir pôr essas reformas em vigor?", e eu disse "não posso responder assim porque não pertenço a nenhuma política nem sequer fui da Mocidade Portuguesa e, para me meter numa coisa dessas, quem é que me apoia?", e diz ele "apoio eu", e eu disse "não chega, preciso de gente técnica". Depois ele ainda disse: "Eu sei que o senhor tem razões para me dizer que não por causa da questão do Santos Costa", e eu disse-lhe "senhor presidente, desculpe, mas não é o único português que põe os interesses do país acima das suas discordâncias". E aqui tem como é que eu entrei.

Esse episódio é de 1948, quando defende a família de um general num processo de homicídio voluntário, que faz um pedido de habeas corpus, o primeiro de todos, e acaba preso no Aljube.

Essa história nunca a abordo muito porque já morreram as pessoas, mas sim, fui preso. António Ribeiro, que era advogado da Standard Elétrica - que foi onde eu comecei a trabalhar -, ele é que me encarregou de tratar desse assunto. Um dia chamaram-me à PIDE, o inspetor conhecia-me de miúdo porque o meu pai era subchefe da polícia, quando eu entrei, disse: "Tu é que meteste aquela velhota num sarilho?" e eu disse "qual velhota?", "a viúva do general Mouzinho", e eu disse "não a conheço", "mas ela fez a queixa em nome dela e disse que falou contigo", "não", "então quem é que falou contigo?", e eu disse "isso é segredo profissional, não posso dizer". Ele foi ao telefone e depois voltou e disse: "Olhe, eu falei com o ministro da Justiça, que foi teu professor, não foi?", e eu disse "foi", "ele disse que não podia esperar outra resposta tua mas que te prendesse", "tudo bem, cumpra as ordens".

Esteve ainda dois meses detido?

Quase. Salazar mandou pedir o processo que metia o Santos Costa e arquivou o processo e disse "ponha o rapaz em liberdade, que é o único que se portou com dignidade". Quem interveio logo a seguir foi a Ordem dos Advogados, naquele tempo ser advogado era uma coisa a sério. O ambiente da advocacia era muito diferente de hoje, eu conheci advogados espantosos nesse tempo, ainda fiz tribunal, defesas, e não correram mal. O poder da palavra pode vencer a palavra do poder, era o conceito desse tempo.

Foi um mês e meio complicado para si?

Não, os que estavam presos eram todos comunistas, de maneira que eu era uma pessoa à parte.

Conheceu Mário Soares no Aljube?

Sim, e ficávamos amigos. Ainda hoje [no dia da entrevista] vou jantar a casa dele. Ele é um ano mais novo do que eu, eu tinha lá ao meu lado, na minha camarata, a História da Filosofia do Hegel e tinha O Príncipe [de Maquiavel], que é um livro muito célebre. Ele chega ao pé de mim, diz que se chama Mário Soares e diz "você lê uma literatura toda reacionária" e eu: "Estou a fazer estudos para miguelista" - e ficámos amigos até hoje.

Esteve preso por quase suspeitas?

Sim, "quase suspeitas", e por isso é que Salazar me disse "o senhor tem razões para me dizer que não", que é quando lhe digo "o senhor não é o único português que mete os interesse do país acima das discordâncias".

Acabar com o indigenato significava exatamente o quê?

A relação dos colonizadores, quando começa no século XVI, é de senhores para escravos. Quem acaba primeiro com a escravatura nesta metrópole chama-se Marquês de Pombal, depois no Ultramar é o Sá da Bandeira, mas logo a seguir veio o estatuto do indígena, que era a negação da cidadania, que permitia abusos do ponto de vista selváticos. Além de revogar o indigenato, fiz um código de trabalho rural que foi considerado o mais avançado de África. Depois, é claro, instalei o ensino superior e foi uma luta. Fiz o que pude naquele período todo, mas para isto foi uma fadiga muito grande.

Oliveira Salazar pede-lhe então para mudar de política.

Em determinado momento. Isto, como calcula, atingiu interesses brutais, mudou-se uma estrutura. Eu tenho um filho que é advogado, o João, que esteve em Moçambique, e tinha um colega africano que um dia lhe perguntou se era filho do Adriano Moreira, e ele disse que sim, e ele disse "então vou dizer-te uma coisa: o meu pai africano disse que só teve o primeiro dia de felicidade na vida, já tinha 70 anos, quando lhe deram o bilhete de identidade por causa do decreto do teu pai", portanto veja o que representava para eles. O próprio Salazar começou a sentir reações das bases de apoio dele. Ele chamou-me e disse-me: "Quando o chamei disse-lhe que apoiava as suas reformas, tenho cumprido ou não?", e eu não fazia ideia para que era a conversa, disse "sim, até agora tem cumprido". E disse ainda: "Mas devo dizer-lhe o seguinte, as reações são de tal ordem que eu próprio não estou seguro de poder continuar chefe do governo, temos de mudar de política", e eu com convicção disse assim: "Vossa excelência acaba de mudar de ministro", e ele disse "eu já estava à espera que me respondesse isso", e vim-me embora. Foi sempre atenciosíssimo comigo e, daí por diante, nunca mais tive qualquer atividade política, como não tinha tido antes. Até que veio a Revolução e fui saneado como toda agente.

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Nem essas divergências manifestadas com as estruturas do regime o livraram de saneamentos, na empresa e na universidade.

Na universidade até devo dizer que foi onde tive as reações mais inesperadas, mas eu não estava cá, estava no Brasil em serviço. Quem me disse que não voltasse foi o almirante Pinheiro de Azevedo, que tinha sido meu aluno, e eu disse "então mas como não volto se tenho aí a minha mulher e três filhos?", e ele disse "eu trato disso, eles vão ter consigo". Mas não tratava era da minha vida - passei dois meses difíceis. Conhecia muita gente no Brasil, mas nunca fui de andar a pedir coisas. Um dia veio um professor da Católica, que me encontrou, foi a minha casa, estava numa casa bastante humilde, enfim não chovia lá dentro, e disse-me "ando há dois meses à sua procura para o convidar para catedrático da Universidade Católica do Rio de Janeiro". Quem me mandou reintegrar foi o Eanes, com efeito retroativo, no Instituto Superior Naval de Guerra e na Universidade. Ainda hoje tenho gratidão e respeito pelo general Eanes.

Esse tempo viveu-o com ressentimento no Brasil?

Não, eu não sou de ressentimentos.

No fundo, aquilo que lhe estava a acontecer era explicado pelo contexto da história?

Sim. Depois voltei, fui professor da Marinha, ainda outro dia me fizeram uma festa e disseram que eu entrei para a Marinha há 60 anos, todos os chefes do Estado-Maior que estão reformados foram meus alunos, portanto esta coisa do Eanes comoveu-me muito.

Quando regressa, é convidado por Freitas do Amaral, Adelino Amaro da Costa e Narana Coissoró...

Sim, o Narana que tinha sido meu assistente na Universidade.

E é convidado para o CDS?

Sim. Eu achei que esse momento era muito difícil para o país. [Antes do 25 de Abril] é a tropa que vai avisando que a guerra não se ganha. Segunda coisa: o grande suporte do regime eram as Forças Armadas, e houve avisos de que era preciso mudar. Depois aparece um grupo de Margão, que pede uma constituição federal porque não quer ser invadido pela União Indiana, ninguém aceitou, e houve um movimento para Cabo Verde serem ilhas adjacentes... Eu aí não tinha intervenção nenhuma, mas sei que isso era assim e alguma projeção que eu mantive é porque eles sabiam as coisas que eu tinha escrito. Quando vem o 25 de Abril, a primeira fase chama-se golpe de Estado (que, tecnicamente é quando um elemento da estrutura se afasta), a revolução começa depois. Há [então] um debate e devemos muito ao general Eanes nesse aspeto - a constitucionalização do regime - que ou se tem uma via revolucionária de extrema-esquerda ou se tem uma constitucionalização europeia, que é o que o general Eanes consegue orientar, e também o Freitas do Amaral e o Jorge Miranda. Eles vão ter comigo e convidam-me pelas coisas anteriores que eu tinha feito e que tinha dito e eu, mais uma vez, aceito pelo interesse nacional. Agora era interessante que, tendo a Europa sido feita pelas democracias cristãs, o país onde a democracia cristã não vingou era o país mais católico - é interessante.

São tempos de trincheira. Ou acha que, apesar de todas as diferenças ideológicas que eram fortes naquela época, eram tempos em que o diálogo era possível?

Na Universidade, foi sempre possível, e se você foi estudante ali [no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas], encontrou esse espírito, a pessoa fala livremente.

A democracia foi uma aprendizagem para todos?

É evidente que mudar de regime tem de mudar as pessoas, tem de mudar os hábitos. Mas não se teria feito isso se não houvesse homens lúcidos, e o principal, a meu ver, foi o Eanes e o Jorge Miranda e essa gente, que conduziram isto em termos de constitucionalizar o país no modelo europeu. Foi uma grande batalha que eles ganharam.

A ideia de aderir à União Europeia, a CEE de então, por Mário Soares, também ajuda a consolidar a democracia?

Tudo isso. O Partido Socialista teve um papel fundamental nisso: o comício da Fonte Luminosa [a 19 de junho de 1975] é um facto histórico fundamental. A linha constitucionalista europeísta ganhou mas foi uma batalha. Devo dizer que gostei de estar no Parlamento durante todo aquele tempo, e acho que a cerimónia da saída não foi má [e sorri].

Depois da sua liderança no CDS, num tempo difícil em que o partido estava reduzido a uma dimensão mínima...

Até com uma ação de despejo no Caldas [sede do partido].

Depois disso, e depois da sua primeira experiência política ainda no Estado Novo enquanto ministro, refugiou-se na universidade. Esta era um refúgio importante para si?

Não era um refúgio, para mim é uma vocação.

E a política foi uma desilusão?

Não neste sentido. Eu achei que fazia aquilo que em consciência devia ao país. Agora, foi um esforço que não resultou. Mas eu tenho algumas provas, depois disto tudo. Por exemplo, há uma universidade em São Vicente [Cabo Verde] e eu devo ser o primeiro doutor honoris causa depois da independência. Aqui há tempos ajudei a fazer aquele tratado de Cabo Verde com a União Europeia porque o embaixador que estava cá veio pedir-me, a mim e ao Mário Soares. Fizemos isso, passado algum tempo foi a minha casa a ministra dos Negócios Estrangeiros de São Tomé e disse-me: "Olhe, eu vinha pedir a sua ajuda porque o senhor ajudou a fazer uma coisa para Cabo Verde que nós também precisávamos." Eu disse-lhe: "Ajudo, mas primeiro tem de tomar um compromisso comigo, não mudam o nome da rua que lá têm." Sabe qual é o nome da rua? Rua Ex-Adriano Moreira" [risos]. Ela, coitada, é que depois mudou, passado pouco tempo deixou de ser ministra.

Esperava ver uma das suas filhas, Isabel, chegar à política? Foi uma coisa que cultivou em casa?

Não, isso é uma decisão dela. Eu procurei educar os meus filhos com um certo sentido de liberdade e responsabilidade - e a mim também ninguém me encaminhou. Segui muito o meu pai e os exemplos dele. Esta filha tem comigo uns cuidados e um afeto que é uma coisa... Uma vez um jornalista perguntou-lhe "faz estas coisas e então e o seu pai?", "o meu pai é o homem da minha vida" [sorriso largo].

Conversam muito sobre política lá em casa?

Então não?! À vontade. Ninguém se zanga com a política. A cozinha não é má [risos]. Sabe quantos netos tenho? Tenho 14. De vez em quando, quando se juntam todos, é uma festa.

 



[Entrevista originalmente publicada no Diário de Notícias, em 18 de junho de 2016. Fotos © Orlando Almeida/Global Imagens]

Setembro 04, 2022

Fucking, Nick

Miguel Marujo

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O gajo insiste em semear as melhores bad seeds deste mundo — de fato negro, camisa branca, fucking obrigado e uma noite visceral, apocalíptica e cheia de raiva e amor, há contradições maiores, e sobe ao palco à hora certa e logo nos pede que nos preparemos, get ready for love, e nem o alinhamento igual ao da véspera em Málaga, que vamos antecipando no pequeno ecrã, retira uma linha à surpresa de uma interpretação emotiva, que se sente na voz, no humor, nos parabéns à Paula, nos olhos que se emocionam, I need you, 'Cause nothing really matters, I need you, Just breathe, just breathe, no coração que bate, motherfucker, bum-bum-bum, é um tiro e outro e outro, e é sangue que bombeia o coração, sentes o coração bater, pergunta-nos, e há a história que ele nos conta de uma rapariga, como se fosse a primeira vez, e uma e outra vez que ele respira, ao piano, Come sail your ships around me, And burn your bridges down, sempre esta proximidade, abraços e regressos, That she will keep returning, Always and evermore, Into my arms, olhares e ficar a seu lado, I am beside you, I am beside you, Look for me, look for me, esperando sempre o regresso, talvez de um filho pródigo, And it's bringing my baby right back to me, Well there are some things too hard to explain, e depois os olhos marejados, e o obrigado, Lisboa, para sacudir o piano, a tristeza, para logo abrir os braços como o profeta bem acolhido nesta casa, o pastor que exorciza demónios e vergonhas, Tupelo's shame, O God help Tupelo!, um culto em que se sabe ao que se vai e mesmo assim se surpreende, e a banda que é um bando de amigos acólitos e o coro saído daquela igreja que dança, bate palmas, grita aleluia, faz a festa, é uma festa, e é uma fé enorme esta, entre as descargas das sementes ruins e a voz que vocifera just breathe, just breathe, e todos respiramos, bebemos deste sangue e deste cálice. 

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Não me peçam que saiba descrever com palavras precisas a emoção maior que foi (que é) este concerto de Nick Cave & The Bad Seeds — no seu regresso a Lisboa. Foi o último desta fucking digressão de três meses pela Europa. Nunca sairá da nossa memória. Fucking, Nick, bem nos divertimos.

 

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[Fotos de João Amaro Correia]

Agosto 09, 2022

Bebê-las louras, com gravata, que é como os homens e as mulheres gostam

Miguel Marujo

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O calor pede que seja servida fresquinha. E peça-a com espuma, aquela gravatinha irresistível. Este é também o roteiro possível de uma escolha difícil - onde beber boas imperiais ou finos. Uma escolha muito parcial. [Esta reportagem é de 25 de julho de 2012. Talvez haja sítios que já não existam, mas o essencial permanece visível ao palato.]

 

Este é o relato de uma tarefa impossível – e injusta. Indicar ao leitor onde se bebem as boas imperiais, os melhores finos. Impossível porque o redator não provou todas, nem nada que se pareça. Valeu-se de inquéritos instantâneos, de memórias mais ou menos recentes, de guias insuficientes. E da ideia de uma página continuamente em construção (mas podem entupir a caixa de correio do redator com sugestões para o verão que aí está).

Faltam os roteiros que ajudem à tarefa, as revistas especializadas, as páginas de entendidos. Em tempos, o atual secretário de Estado da Cultura alimentou uma página na extinta Grande Reportagem sobre cervejas – e daí resultou um livrinho de Francisco José Viegas feito guia para "não morrer de sede no inferno". Podem tragá-lo.

Depois há os afetos e as companhias, que tornam aquele fino memorável ou obrigam a esconder aquela imperial no recanto mais escondido da nossa memória. 

Mais: esta é uma tarefa injusta porque aqui se vão omitir muitas cervejarias, cafés, tascas, bares ou restaurantes onde ela sai da torneira como mandam as regras.

As regras, já se sabe, variam consoante as circunstâncias e os palatos, mas Jorge Sousa – chefe de turno da histórica Cervejaria Trindade, em Lisboa, que guiou o DN num curso intensivo sobre a arte – explica-nos que o copo se quer seco, bem seco (perde-se na história, a história de tasqueiros que não lavavam os copos), e inclinado, qualquer coisa como uns 30º, nem muito próximo do tirador nem muito afastado. Faz diferença o tempo que se leva do tirador à mesa ou ao balcão, por isso se deve ter atenção.

Quando está quase cheio, endireita-se o copo, dois dedos de espuma, uma gravatinha, a bebida ali na marca dos 20 cl se for imperial, ou 40/50 cl, se nos atrevermos à caneca. É tudo um jogo de equilíbrios.

Os homens e as mulheres preferem-nas louras. É a clássica lager que domina o mercado, a Sagres e a Super Bock, num Benfica-Porto das cervejas, onde as outras tentam a bravata de jogar de igual para igual. Mas a variedade já se faz ao balcão de uma qualquer boa cervejaria, com louras, ruivas, escuras, mais ou menos adocicadas, ou de travo amargo.

A porter escura e densa que dá pelo nome de Guinness, por exemplo, vive nos bares irlandeses (o Hennessy's ou O'Gilins) do Cais do Sodré, em Lisboa, mas também já se bebe ao balcão da Trindade.

Dizem, porque o redator não teve a possibilidade de ir testar ao vivo e no paladar, que a melhor imperial do País é tirada no Lebrinha, em Serpa. Ninguém sabe explicar o segredo, que é a alma do negócio, mas na Net encontram-se relatos de nortenhos a dar o copo à palmatória, por se tratar de um fino saído com a chancela da Sagres.

Recanto improvável para ir beber a que será a melhor imperial do País, como são outros que se pôde recolher na preparação deste roteiro: no Álvaro, na aldeia da Urra, às portas de Portalegre; no Horácio, em Linda-a-Velha, ou no Eduardo das Conquilhas, na Parede; no Augusto e no Tico-Tico, em Aveiro, ou no Café do Farol, na praia da Barra, ali próximo; no Chez Maurice, com o mar e a praia da Aguda (Gaia), aos nossos pés; no Bar Amarelo, da Praia do Homem do Leme, do Porto, como cantam Os Azeitonas; nas tascas das arcadas da Praça Velha da Guarda; na Praxis, que na Coimbra dos estudantes produz as suas próprias cervejas; ou no Bar Bonaparte, o pub de tipo irlandês que um alemão mantém no Porto, e que vem a ser (palavra de Viegas) "o lugar português mais apropriado para beber a Erdinger".

Em Lisboa, multiplicam-se as cervejarias clássicas, como a histórica Trindade ou a Portugália, a Ramiro ou a Lusitana. Há ainda, no Mercado de Alvalade, a Sem Palavras, ou a Bota Velha, em Campo de Ourique.

É uma amostra modesta, parcial e parcelar. E seca. Há horas que o redator só sonha em sair da redação e poder gozar a companhia de uma loura. Este sol de verão está a pedi-las.

[artigo originalmente publicado no Diário de Notícias, em 25 de julho de 2012; informações sobre os locais podem estar desatualizadas]

Agosto 07, 2022

As praias que pedem paciência

Miguel Marujo

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As praias da minha infância pedem paciência, pedem que sejamos pacientes, não se consomem facilmente, pedem tempo, que nos demoremos nelas.

A Barra e a Costa Nova, mas também São Jacinto, Torreira, Vagueira, Areão e Mira, vivem-se sem pressas: há nevoeiro pela manhã, mesmo que já não haja a ronca do farol a dizê-lo, mas sabemos que vai abrir mais tarde, e abre; há ondas altas e um mar bravo de bandeira amarela ou vermelha, faz-se o passadiço ao longo das dunas e a Barra promete águas mais calmas (e se não, vai-se até junto da Meia Laranja, na Praia Velha); a água está mais fria, mas os ossos sabem que tudo se suporta — e ser paciente é ir entrando no mar dentro devagarinho. Nem sempre é assim, sim, mas nas outras praias também nem sempre é assim.

As praias da minha infância são pacientes, e é sempre um gosto mergulhar nelas, nas suas areias, no mar que as faz, nas pessoas que as habitam. Já tenho saudades.

 

[a fotografia, captada com uma grande angular, foi tirada na zona da antiga Rua 5, à entrada da Barra, a meio caminho entre a Costa e o Farol, no dia 24 de julho de 2022, pelas 18h10 — © Miguel Marujo]

Agosto 06, 2022

“Enough!”. O fã que se fartou das “tretas” de Nick Cave sobre Deus

Miguel Marujo

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A mensagem é curta e grossa: “For fucks sake, enough of the God and Jesus bullshit!” – a tradução pode ser suavizada, ou carregada nas tintas. Dada a ira do leitor de Nick Cave, o tom será mais o calão forte que a interjeição zangada. “Caramba! Chega desta treta de Deus e Jesus!” (traduzamos assim).

O cantor, músico e compositor australiano, há muito radicado na Grã-Bretanha, não responde logo a Jason, de Londres. À pergunta irada, Nick Cave junta outras questões, feitas por Lorraine, de Berlim, Alemanha: “Quais são os seus pensamentos sobre a liberdade de expressão? Acha que é um direito?” – e é por aí que ele vai na sua resposta, a dissertar sobre a liberdade de expressão…

Já aqui falámos sobre este site de conversa que Nick Cave criou e alimenta: em The Red Hand Files, o australiano responde a questões dos seus fãs e leitores, e estas vão das mais prosaicas sobre a música e os discos, até às que aprofundam questões complexas e filosóficas.

A 9 de junho, Sue, de Paris, França, perguntou-lhe: “Na tua opinião, o que é Deus?” – tema recorrente, já se sabe, na discografia e na correspondência de Nick Cave. A resposta do australiano é assertiva: “Deus é amor”, e explica que é por isso que sente “dificuldade” em relacionar-se “com a posição ateísta”. A explicação é demorada: “Cada um de nós, mesmo os mais resistentes espiritualmente, anseia por amor, quer percebamos ou não. E esse anseio chama-nos para sempre em direção ao seu objetivo — que devemos amarmo-nos uns aos outros. Devemos amarmo-nos uns aos outros. E principalmente acho que o fazemos — ou vivemos muito próximos da ideia, porque quase não há distância entre um sentimento de neutralidade em relação ao mundo e um amor crucial por ele, quase nenhuma distância de todo. Tudo o que é necessário para passar da indiferença ao amor é ter os nossos corações partidos. O coração parte-se e o mundo explode diante de nós como uma revelação.”

 

Talvez valha a pena recordar, neste ponto, que muito recentemente, em maio, Nick Cave perdeu mais um filho, Jethro, de 31 anos, depois de em 2015 ter morrido, com 15 anos, Arthur — e esta primeira morte marcou de forma indelével os trabalhos do músico nos últimos anos.

Com esta reflexão sobre Deus, Cave disserta sobre o bem e o mal, e no fundo está a revelar as inquietações de um pai que perdeu dois filhos. “Não há um problema do mal. Há apenas um problema do bem. Por que é que um mundo tantas vezes cruel insiste em ser belo, em ser bom? Por que é que é preciso uma devastação para o mundo revelar a sua verdadeira natureza espiritual? Não sei a resposta para isto, mas sei que existe um tipo de potencialidade para além do trauma. Suspeito que o trauma seja o fogo purificador através do qual realmente encontramos o bem do mundo.”

Na resposta aos seus fãs, Nick Cave confessa-se — com uma oração, descobrimos nós. “Todos os dias eu rezo para o silêncio. Eu rezo a todos eles. Todos eles que não estão aqui. Nesse vazio, eu despejo todo o meu desejo, desejo e necessidade, e com o tempo essa ausência torna-se potente, viva e ativada com uma promessa. Essa promessa que fica dentro do silêncio é beleza o suficiente. Esta promessa, neste momento, já é espanto suficiente. Esta promessa, agora mesmo, é Deus suficiente. Esta promessa, agora, é o máximo que podemos suportar.”

A liberdade de criar

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Esta carta a Sue terá levado o londrino Jason a dizer que estava farto das “tretas” sobre Deus e Jesus. (Num jornal português, também por causa disto, um crítico de música desdenhou de um dos discos mais recentes de Nick.) E a resposta serve-se com diplomacia: Cave começa por falar da liberdade de expressão — e sendo ele autor, pode dizer-se que ele nos fala sobre a liberdade de criação.

Assumindo que os seres humanos são “criaturas subtis e caóticas, cheias de ambiguidades e contradições”, “total e necessariamente diferentes uns dos outros”, apesar de reduzidos a categorias “arbitrárias de identidade”, como são a raça, a religião ou o género, Nick Cave defende ainda a “amálgama” de que é feito cada indivíduo. “Cada um de nós é um amálgama de tudo o que amamos, perdemos e aprendemos, os nossos sucessos e fracassos pessoais, os nossos arrependimentos particulares e as nossas alegrias singulares – e parte dessa singularidade é o que pensamos de maneiras diferentes.”

Nick Cave defende que a liberdade de expressão “é uma conquista social ou cultural, algo que nós, como comunidade, podemos usar para animar, encorajar e liberar a alma do nosso mundo, desde que tenhamos a sorte de viver numa sociedade que permita tal coisa”. Trata-se de uma questão que ajuda a aferir da qualidade de uma democracia – das sociedades. “Poder falar livremente não é apenas um benefício para si mesmo, fazendo com que nos sintamos menos sozinhos, é também um barómetro da saúde da nossa sociedade, assim como a intolerância a ideias opostas indica uma fraqueza ou falta de confiança em seus próprios pensamentos e as ideias da nossa sociedade”, argumenta.

Percebe-se porque é que Cave começa por falar sobre a liberdade de expressão, contra “a intolerância a ideias opostas”. Para melhor dizer que falar de Deus e de Jesus, para ele, só é possível numa comunidade na qual se pode falar livremente. E o músico situa Jesus como alguém que viveu num tempo em que falar era arriscado: “Jesus percorria a terra expressando o que eram, na época, ideias consideradas perigosas e heréticas.” Por isso, argumenta, Jesus “foi seguido por um círculo nervoso de escribas e saduceus a resmungarem, cujo objetivo era apanhá-lo – expor não apenas as Suas ideias perigosas, mas desnudar e perseguir a sua singularidade”.

Sabemo-lo, “eles tiveram sucesso, e Cristo foi cancelado na Cruz”, descreve Nick, usando uma curiosa formulação adequada a estes tempos ditos de “cancelamentos”. As ideias de Jesus eram “impossíveis e perigosas – amar o inimigo, amar os pobres, perdoar os outros – [e] eram aterrorizantes, inconcebíveis e proibidas na Sua época, mas tornaram-se, com o tempo, as melhores ideias que sustentam a sociedade em que muitos de nós temos a sorte suficiente para viver hoje. Vale a pena lembrar isto.”

Este discurso, também político, é aquilo que permite a Cave voltar à questão da tolerância necessária para viver em comunidade. “Acho que devemos ter cuidado com as nossas suposições sobre quais as ideias que achamos certas e quais as ideias que achamos erradas, e o que fazemos com essas ideias, porque é a ideia aterrorizante – a ideia chocante, ofensiva e única – que exatamente pode salvar o mundo.”

 

[artigo originalmente no 7Margens, em 26 de junho de 2002; a primeira imagem é Der Gaukler (c. 1502), de Hieronymus Bosch, reproduzida a partir do site de Nick Cave; a segunda imagem é The Love of God, detalhe (c.1861–1869), de Georgiana Houghton, também reproduzida do mesmo site.]

Agosto 03, 2022

Uma lápide em gaélico foi proibida num cemitério inglês — e nós ganhámos uma bela canção

Miguel Marujo

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A Igreja de Inglaterra proibiu uma inscrição em irlandês numa lápide fúnebre, em Coventry, argumentando que a frase teria de ser traduzida para inglês para que as pessoas não a confundissem com uma declaração política. A família de Margaret Keane foi para tribunal e ganhou – e os irlandeses Fontaines D.C. fizeram desta história uma (belíssima) canção do seu mais recente disco, que apresentaram em Lisboa no festival Alive, a 6 de julho.

Em julho de 2018, quando da morte de Margaret aos 73 anos, os seus familiares quiseram inscrever, na pedra do túmulo no cemitério da Igreja de St Giles, em Exhall (Coventry, centro de Inglaterra, perto de Birmingham), a saudade que tinham: “In ár gcroíthe go deo”, que se traduz por “Para sempre nos nossos corações”. Não puderam.

Dois anos depois, em 2020, o juiz Stephen Eyre QC, de um tribunal eclesiástico – o Tribunal Consistório da diocese de Coventry, da Igreja da Inglaterra (Comunhão Anglicana) – argumentou que aquelas palavras tinham de ter tradução simultânea. “Dadas as paixões e os sentimentos ligados ao uso do gaélico irlandês, existe um triste risco de que a frase seja considerada uma forma de slogan ou que a sua inclusão sem tradução seja vista como uma declaração política”, começou por apontar o juiz, citado pelo jornal The Irish Times. “Isso não é adequado, pelo que a frase ‘In ár gcroíthe go deo’ deve ser acompanhada de tradução.”

A Igreja da Inglaterra disse na época, num comentário solicitado pela BBC, que a decisão “não reflete” a sua política nacional, acrescentando em comunicado que “a língua irlandesa é uma parte importante do património” da organização.

O pedido para não haver qualquer tradução tinha partido da filha de Margaret, Caroline Newey. Segundo a decisão do juiz, a filha argumentou que não havia necessidade dessa tradução, uma vez que “a língua irlandesa é considerada não apenas um meio de comunicação, mas [também] um veículo de valor simbólico”. Para Caroline Newey, “o uso dessa língua sem tradução não é uma declaração política, mas [antes] o reconhecimento da identidade da sra. Keane e é para honrar… [a sua] língua nativa”. O juiz não acolheria a argumentação da família: a inscrição seria “incompreensível” para a maioria dos que a leriam e decidiu-se pela necessidade de traduzir a frase.

Esta decisão acabou posteriormente por ser anulada, por discriminação racial, em fevereiro de 2021, culminando uma batalha de quase três anos para que o local de repouso final de Margaret Keane pudesse ficar assinalado com palavras da sua terra natal, como desejava a família. 


Dos jornais para o disco

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Neste tempo, Grian Chatten, vocalista e letrista dos Fontaines D.C., leu a história nos jornais e escreveu aquela que é a canção de abertura do mais recente trabalho destes irlandeses, Skinty Fia, lançado a 22 de abril. O título do tema é bebido na inscrição gaélica desejada pela família: In ár gcroíthe go deo.

Na BBC, Bernadette Martin, outra das filhas de Margaret, descreveu a canção como “um final adequado para a jornada que vivemos em família”. “Era a última coisa que esperávamos”, contou. “Quando ouvimos, a primeira coisa que fizemos, eu e as minhas irmãs, foi ficar no túmulo da minha mãe, tocá-la para ela e ouvi-la pela primeira vez naquele lugar especial.”

A família acabou por entrar em contacto com a banda, depois de terem visto a lista das canções do álbum, contou a BBC. O vocalista e letrista, Grian Chatten, diz que, nesse contacto, a família de Keane manifestou a sua aprovação e isso foi “uma das coisas mais incríveis que já aconteceram”. “Isso significa muito mais para mim do que qualquer nomeação para os Grammy”, atirou Chatten à BBC. E acrescentou o seu contentamento por terem sido capazes de dizer algo sobre uma história assim”, sem desrespeitar ou ofender ou de qualquer forma apropriar-se “do que era essencialmente uma história de família.”


O problema do irlandês

Inspirada na história de Keane, esta canção vive também da história pessoal de Chatten. Este novo disco dos Fontaines D.C. é um retrato sobre ser-se irlandês não vivendo na Irlanda, e sentir-se por vezes indesejado. Como o gaélico da lápide de Margaret. Foi isto que inspirou Chatten, que agora mora com a namorada em Londres. “Esta história saiu muito antes de eu me mudar definitivamente para Londres”, disse na conversa com a BBC. “Para ser honesto, deixou-me nervoso com a mudança”, confessou. “A ideia de que uma língua em si é inerentemente política é profundamente crítica, errada e retrógrada. Porque essa língua é a mesma que é usada para dizer: ‘Aproveita o teu primeiro dia na escola, filho’”, argumentou. Para concluir: “Há mais para desinspirar as pessoas do que um conflito.” 

Numa outra declaração, o tom de Grian Chatten é ainda mais mordaz, sobretudo em relação à posição da Igreja anglicana. Com a recusa daquela frase, “a Igreja de Inglaterra decretou que [o gaélico] seria potencialmente visto como um slogan político”. A língua irlandesa – que se tornou minoritária durante o domínio britânico da ilha e é uma arma na disputa entre os dois países – acaba por ser vista como algo que incendeia as emoções, “o que é um nível muito básico de xenofobia”.

A revolta está nas palavras, mais do que na canção. “Considerar o irlandês e perceber o irlandês como algo inerentemente ligado ao IRA ou ao terrorismo ou qualquer coisa assim, é profundamente perturbador. Eu senti-me como se estivesse a olhar para o cano da arma, ao ir viver para este país, que realmente não recebe bem as pessoas irlandesas. Ainda considera as pessoas da Irlanda como algo não confiável e ameaçador.”

Chatten revelou que tudo isto o fez pensar na sua “própria família no oeste da Irlanda”, tocando os seus instrumentos tradicionais (e ele próprio toca acordeão no novo álbum, recorda a BBC) e cantando músicas na véspera de Ano Novo. “Penso que eles fazem parte deste [corpo] que estava a ser julgado desta maneira, e isso deixa-me muito chateado pessoalmente.” Ao ouvir In ár gcroíthe go deo, há aborrecimentos que se podem aplaudir.

Já o baixista do grupo, Conor Deegan III, disse a Chatten que houve uma coisa positiva, que foi a de não terem conhecido o desfecho do caso a favor da família, antes de concluírem a música. Só assim, argumentou Conor, o refrão da canção pode ser repetido com “o mesmo sentimento de lamento”, como se ouve nos coros quase fúnebres de In ár gcroíthe go deo, num registo que remete também para a tradição musical irlandesa dos laments (goltraí, em gaélico), canções tristes muitas vezes cantadas em velórios ou que lembram tragédias locais. 

Não há tristeza neste epílogo: Margaret pôde ser homenageada como a família desejava e os Fontaines D.C. deram-nos mais uma bela canção neste seu terceiro disco, que merece ser escutado de fio a pavio.

 

[artigo originalmente publicado no 7Margens, a 30 de junho de 2022]

Junho 17, 2022

A fraternidade é vermelha

Miguel Marujo

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Jean-Louis Trintignant, 1930-2022: « Etre une page blanche, partir de rien, du silence. Dès lors, on n’a pas besoin de faire beaucoup de bruit pour être écouté. » (in Le Monde

Figure majeure et farouche du cinéma, l’acteur aux 120 films, révélé aux côtés de Bardot dans «Et Dieu... créa la femme», a promené son élégance chez Lelouch, Bertolucci, Chéreau ou Haneke. Obsédé par l’idée du suicide et marqué par les tragédies intimes, il est mort ce 17 juin à 91 ans. (in Libération)
 
[imagem: fotograma de Rouge, da trilogia Trois Couleurs, de Krzysztof Kieślowski]

Junho 12, 2022

Esta Amélia que anda a monte

Miguel Marujo

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Amélia Muge é um dos segredos mais mal guardados da música portuguesa — e à conta desse novo Amélias, absolutamente genial, publicado há um par de meses, recupero uma conversa antiga (de 2002, só publicada em 2003) com esta cantora-autora-compositora. Na altura, o Culto!, site de cultura do portal IOL, apresentou esta entrevista, dispensando-se as perguntas, a propósito de a monte, o disco de 2002 (ver texto a seguir: «O mundo é delas»). Num fim de tarde quente em Lisboa, o tema dessa entrevista foi desvelando os territórios de Amélia, quando o disco percorria já os palcos, e que é por onde começou a conversa (que soa muito atual).

 

Os palcos. Tudo seria mais simples se tivéssemos salas de concertos de produção regular, com equipamentos adequados e espaços de riqueza acústica que ajudassem. Hoje tudo se passa ao ar livre e há um determinado tipo de música que fica sem lugar e sem espaço, fica fragilizada. 

Depois pede-se por parte do público uma certa adrenalina. Vai-se para esses concertos para descarregar, para namorar, as pessoas pedem um determinado tipo de reacções — não é para estar a escutar. Por alguma razão, os cinemas não são projetados numa sala às escuras só para ser projetados. Pede-se uma concentração para o que está a ser exibido. Com a música é a mesma coisa. Há música que é feita a pensar na rua e há outra que é feita pensar noutros espaços. 

 

As cumplicidades. [As colaborações com José Mário Branco, Gaiteiros de Lisboa, Camerata Meiga, e outros] Surgem por acaso. O que sinto é que quando os interesses são comuns, as pessoas também acabam por se encontrar. As coisas têm acontecido muito por encontros que, surpreendentemente, parecem muito por acaso. 

Mas também gosto muito de fazer trabalhos com outras pessoas. E mesmo quando não são trabalhos assumidamente com outras pessoas, gosto muito de mediar junto do público coisas de que gosto. Quando gosto de um autor quero que as pessoas, através do meu trabalho, o conheçam melhor. 

 

Laurie Anderson. É para mim um referente. O que faz com a língua inglesa — e que é importante em aprendizagem que faz com ela — é até onde a gente pode ir naquilo que é a fronteira entre o canto e a fala e naquilo que é a criação de um clima linguístico a partir das tecnologias e a partir dos ambientes que cria, para cantar/contar. Para quem se dispõe a ouvir, com essa atitude de aprender, o que é o canto, as fronteiras de uma coisa e outra, o que é a literatura ligada à música aprende imenso com ela. 

Havia indícios já no Todos os dias (1994) e no Taco a Taco (1998) dessa minha devoção grata à Laurie Anderson. As coisas não estão assim tão afastadas como isso. As pessoas vão perceber que temos um mundo todo em gavetas — e não estou só a falar da música, estou a falar dos conhecimentos, das profissões. As artes dão um sinal muito positivo de que há pelo menos vontade de se encontrarem e de se perceberem que irmandades são estas.

 

As vozes do mundo. [Os textos de José Eduardo Agualusa, Mário Cesariny, José Saramago, os sons de Rui Júnior, Pirin Folk Ensemble] As coisas não nascem por acaso. Nem os projetos não são todos definidos na cabeça e depois passam para a prática, para o terreno. Faço discos como talvez se façam livros. Há uma necessidade diária de informação, de entrar em contacto com coisas que já se conhecem, mas se querem conhecer melhor, com coisas novas... 

Não há criatividade sem informação. A criatividade é juntar coisas que aparentemente ainda não se encontraram. A criatividade é sempre uma homenagem às leis da atracção universal. Nós lidamos com coisas que são anteriores ao próprio homem. 

Depois há um esforço de compor — que não tem nada a ver com discos. É completamente por acaso: leio um poema que gosto e passados cinco minutos estou agarrada a um piano, a uma viola ou a um adufe a tentar perceber o que é aquilo me diz em termos musicais. 

Outra coisa completamente diferente é o disco. Aí há uma ideia de base: por um lado, fazer um disco de homenagens (e no fundo é o que é este a monte) é um disco de homenagens, mas também ao mesmo tempo de descobertas, ir mais fundo no contacto com estas vozes todas. Por outro lado, procurar caminhos, onde os encontros sejam mais irreais, onde as pessoas estejam mais disponíveis. O a monte tem a ver com isso. O disco pode dar uma ideia de uma segunda versão de "Santo António aos peixes" — "a monte", vou cantar para os passarinhos! Não é nada disso. 

Há percursos que são facilitados porque há vozes que nos chamam, que de algum modo nos dão apoio nesses caminhos, que são um contraponto aos caminhos já conhecidos - todo um saber que dá nomes a tudo, classifica os géneros musicais todos direitinhos, em várias categorias. 

 

Música tradicional. Esse tem sido um dos grandes problemas: querem pôr-me um chavão qualquer que está dentro de uma gaveta e depois eu não caibo. Depois dizem: "Não gosto do trabalho porque não faz música tradicional!” Mas quem é que disse que eu queria fazer música tradicional?! 

Todo o ser humano necessita de modelos, sejam musicais, ideológicos ou de educação. Mas, ao mesmo tempo, necessita de os transgredir. 

 

Mestiçagem cultural. O [José Eduardo] Agualusa é imprescindível. Temos uma noção de cultura muito rígida, muito ligada ao modelo que pretende dar uma alma portuguesa muito pura, quando a nossa maior riqueza é a mestiçagem. E o rasto dos encontros e olhares que o português foi tendo do mundo e vice-versa. Este a monte abrange estas coisas todas. 

 

As ideologias. Andámos até há bem pouco tempo há procura da ideologia. Mas não me parece que haja uma ideologia que seja capaz de absorver aquilo que são as várias "nuances" das visões do mundo. Não há uma única maneira de abordar o mundo. Os olhares devem ser de descoberta e de confronto — de um confronto saudável. 

Há, em termos ideológicos, vários pontos de partida. Agora, vamos encontrar ideologias de confronto, mais flexíveis, que não sejam cartilhas, que todos têm de seguir. 

Nós fazemos aquilo que somos. O lado mais interessante é esse, é pôr uma marca pessoal nas coisas. 

 

A edição do disco, quase de "autor". Há processos de produção que sinto que não podem ser todos massificados, os projetos têm de encontrar a maneira de se personalizarem, e isto é muito difícil para uma editora. As próprias editoras estão numa situação de crise, que vem no arrasto da tentativa desesperada de apostar naquilo que vende, que permite lucros fáceis e imediatos. 

 

A monte na música portuguesa. Não há condições. Na televisão, por exemplo, nunca há condições especiais para nada: "Diga lá em três minutos o que pensa". E quando se vai a um programa — "ai, tem de fazer em playback e com os nossos cenários", que são iguais para todos os programas. Há a ideia que tudo é facto, que tudo se consome só porque se ouviu. 

Como tudo está voltado para as coisas muito rápidas, sobra a pergunta: onde é que estão as pessoas? Onde é que estão os autores? Onde é que está o espaço para encontros especiais? Parece realmente que anda tudo a monte. 

 

O mundo é delas

Sob o signo da aventura, Filipa Pais abre-nos a porta do seu mundo. Uma viagem acompanhada pela inspiração de outros dois viajantes — Corto Maltese, de Hugo Pratt, e o Principezinho, de Saint-Exupéry — que recupera os sons tradicionais (de Não se me dá que vindimem, Altinho e José embala o menino) ou veste com tonalidades serenas as palavras de Mário Cesariny (Em todas as ruas te encontro) ou Reinaldo Ferreira (Que o mundo é meu).

O som não anda longe de L’Amar (1994, Strauss), o primeiro e — até este À porta do mundo (2003) — único disco a solo de Filipa Pais, também por causa de João Paulo Esteves da Silva, como produtor, compositor, músico e letrista. Mas ainda por causa dos temas assinados pelos irmãos Salomé, companheiros de muitas outras aventuras: Janita, que faz das palavras de Hélia Correia uma entusiasmante viagem pelas "vozes do Sul" (nome de um projeto de Janita que também contou com a voz de Filipa), e Vitorino, com o excelente Meu querido Corto Maltese (um original do álbum Alentejanas e Amorosas, de 2001).

Mas as sonoridades de À porta do mundo transformam-se nas vocalizações mais maduras e seguras de Filipa, que se solta ao longo dos 14 temas e é sublinhada pela produção musical de Ricardo Dias e João Paulo Esteves da Silva.

A edição do disco pela Vachier Associados é cuidada e bonita, pontuada com desenhos inspirados nos originais de Pratt e Saint-Exupéry.

 

Vozes a monte

Com este disco, a Vachier renova uma marca já presente na edição, também ela cuidada e bonita, do álbum de Amélia Muge, a monte, no ano passado. Amélia Muge inaugurou as edições discográficas daquele selo. E depois de Filipa Pais, anunciam-se para breve os Quadrilha. E aos escaparates chegou agora (2003) o novo de Ricardo Rocha, Voluptuária.

Amélia rompeu o silêncio com a monte (2002), depois de Múgica (1992), Todos Os Dias (1994) e Taco a Taco (1998, distinguido com o Prémio José Afonso, em 1999). Atrás das vozes anda então Amélia, que arrisca cruzá-las «sem preocupações de defender este ou aquele género musical, sem preocupações de perceber onde acaba o artístico e começa o tecnológico, sem preocupações de sinalizar heranças culturais ou de carimbar o que é popular ou não é» (ver entrevista acima). 

É verdade: a monte é tudo menos conformista e arrisca sons e palavras que Amélia Muge aprendeu a amar. E que felizmente partilha connosco. Basta ouvir A garra do macaco, que é como quem diz Laurie Anderson vertida (literalmente traduzida) para português. Ou todas as outras vozes que se desvelam neste a monte, como as vozes búlgaras — aquelas que o mundo descobriu nos finais da década de 80 que falavam com Deus — do Pirin Folk Ensemble.

Há poucos discos assim no mercado português. E este foi um dos mais importantes de 2002. Prova disso é a recente nomeação do disco para o Prémio José Afonso (em 2003*). Agora anda a monte pelos palcos portugueses.


[* — O vencedor de 2003 foi Nove Fados E Uma Canção De Amor, de Carlos do Carmo; curiosamente, À porta do mundo, de Filipa Pais, foi o galardoado de 2004; estes artigos foram originalmente publicados no Culto!, em 23 e 24 de julho de 2003, recuperados a partir do Arquivo.pt]

Junho 10, 2022

António, um rapaz de Lisboa. Guia para uma peregrinação popular

Miguel Marujo

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A igreja onde vão celebrar de propósito ou a capela a que ninguém liga, um painel numa estação ou uma escultura num hospital: a capital guarda locais improváveis de memória do rapaz de Lisboa. A reportagem é de 2019, antes da pandemia, e foi republicada no DN tal e qual em 2020, quando a covid parecia dar uma trégua, mas a vida ainda estava longe de retomar o seu ritmo. Depois de dois anos muito atípicos, praticamente sem santos, este texto podia ter sido quase todo escrito agora.


Faltam minutos para as nove da manhã e já o ritmo vai acelerado naquele pedaço de Lisboa, um dos recantos da cidade tomado de assalto por turistas de todo o mundo, que chegam em autocarros, tuk-tuks, táxis e algumas bicicletas e mais uma trotineta, por entre quem anda na vidinha do costume. É o retrato da Lisboa que todos querem ver – e há uns quantos que ali vão de propósito. Querem ir, querem entrar na “casa do santo”.

Estamos junto à Sé Patriarcal, o tal recanto antigo da capital, na Igreja de Santo António, em Lisboa, o primeiro ponto de paragem obrigatória de um roteiro de António por Lisboa, e há um intenso formigueiro de gente que sobe as escadas do templo. Ouve-se italiano, sussurra-se francês, há um casal americano e outros alemães.

No altar-mor há uma mulher que cuida da limpeza, um balde de água verde e a vassoura, e num dos altares laterais é um homem que trata de pequenos arranjos, empoleirado num escadote. “Ai, a ferrugem”, ouve-se a meia voz, mas não há quem lhe preste atenção. Ou à mulher lá em cima.

É aqui que vêm muitos devotos do franciscano, que terá nascido neste local em 1195, no dia 15 de agosto – as contradições sobre o seu nascimento são muitas e apesar de comummente ser esta a data apontada, há quem defenda que Fernando de Bulhões, assim se chamava, nasceu em 1191 ou mesmo em 1188, na Rua das Pedras Negras, que hoje tem o nome de Santo António da Sé. Na igreja, que é propriedade da Câmara Municipal de Lisboa, a informação é assertiva: “Aqui nasceu Santo António” – e as setas indicam-nos o caminho para a cripta em dez línguas. À cripta, há quem chegue bem cedo, logo pela hora da abertura, para rezar, “conversar com o santo”, conta Pedro Ferreira, que zela pela igreja. “Pedem para estar uns cinco minutos.” Outros apressam-se mais, perante o pequeno altar separado dos fiéis por uma grade. Em cima, uma placa diz que “nesta Casa, segundo a tradição, nasceu e viveu António, que foi roubado pela gloriosa morada do Céu”.

Um italiano ensaia-se a ler esta frase em português. “Ah, é a sua casa”, diz para uma mulher. Benze-se apressadamente e sai. Ali vai “por devoção”, confirma Tommaso, sem muita vontade de se explicar mais, dizendo que não fala português. Outro homem também fez questão de ir ali abaixo, a 12 de maio de 1982, para rezar: “O santo padre João Paulo II por sua iniciativa e devoção visitou e orou neste lugar onde nasceu Santo António.”

Num livro de visitas da igreja, alguém do grupo deste homem alto, com mais de 60 anos, auricular nos ouvidos para escutar o guia, deixa uma prece: “Reza por todos nós e sobretudo os doentes.” Outro casal assinala a sua presença. “Angelo e Teresina estiveram aqui. Santo António protege toda a nossa família.” “Por devoção e para rezar”, explicam-se tão apressados quanto o seu outro compatriota. António de Lisboa e de Pádua, a quem invocam, “é um homem bom”.

Isto da fé é coisa que nem sempre se explica ou se confessa a um jornalista. Quando questionado, o alemão prefere repetir-se "schönschön", às perguntas do porquê de estar ali. É bonito, para ele, e nada mais se consegue perceber. Italianos, polacos, brasileiros, são os que mais peregrinam ali. “Há um encanto” para com este templo, defende o funcionário da igreja. “Pedem para celebrar ou concelebrar”, conta Pedro Ferreira, que acrescenta que há missais em “muitas línguas” que permitem essas celebrações. “Os libaneses gostam muito de vir celebrar” na Igreja de Santo António. Há celebrações de rito caldeu ou maronita, do Oriente, e também os patriarcas de Constantinopla e da Síria fizeram “questão de vir aqui”.

O Museu de Lisboa – Santo António, reaberto em 2014, paredes-meias com a igreja, coleciona peças sobre o homem que nasceu Fernando. A peregrinação aqui é artística, numa viagem que passa pela relação entre o jovem e a cidade onde viveu até aos 20 anos, com peças de coleções públicas e privadas e diferentes museus nacionais.

A tradição popular tomou António como um santo de especial devoção. E o roteiro que aqui se propõe tropeça numa exposição temporária – disponível até 30 de junho [de 2019], junto ao museu – de uma procissão de Santo António, 300 peças dos irmãos Baraça, representantes da típica cerâmica de Barcelos, que fotografaram uma das procissões (que acontece todos os 13 de junho e a ela se juntam os santos das igrejas por onde passa). A partir das fotos, os ceramistas reproduziram todos os seus participantes, escuteiros, bombeiros, polícias, padres e populares e o andor no carro.

Do lado de fora da igreja, também há quem entregue a sua devoção junto da pequena estátua de Santo António, inaugurada “pelo Papa João Paulo II”, no dia em que o Papa foi ali rezar. Na base, junto a esta inscrição, repousa o brasão do papa polaco.

As velas estão apagadas e a estátua quase fica escondida por entre a parafernália de uma estação televisiva que ali faz um programa dedicado aos santos populares. Tudo em volta é feérico e mesmo um outro Santo António, de cerâmica, pintado de cor-de-rosa, colocado junto à entrada do museu, submerge na confusão em volta. É um ícone pop.

Pelas ruas de Alfama, sobejam gift shops souvenirs, por entre balcões e barraquinhas improvisadas que abastecem as noites dos santos, onde se inscrevem versos magoados, como os de que “Alfama não cheira a fado/ Cheira a povo, a solidão/ Cheira a silêncio magoado/ Porque querem matar a tradição”. E resiste um pequeno azulejo com a imagem clássica do santo, de criança ao colo e ar contristado. Estamos na Rua de São Miguel, multiplicam-se os templos fechados, o desta rua, mas também o de Santo Estêvão. Só num pátio escondido da Rua das Escolas Gerais, o elétrico 28 a serpentear a colina cheio de turistas ali acima, encontramos um outro painel, gasto e tosco, uma auréola no santo e outra na criança de colo, entalado entre duas janelas num prédio pintado de amarelo. E dois americanos, enormes, a fumar a vapor e a ouvir música no telemóvel a olhar para o casario, sem ligar peva.

Embrenhando-se pelo bairro, não há sinais dos tronos de Santo António, antiga memória dos peditórios que ajudaram à reconstrução do templo depois do terramoto de 1755. Esta arte efémera começava a ser armada de forma espontânea pelos moradores do bairro, em finais de maio, nos pátios e às portas das casas, e eram os tronos o primeiro sinal das festas de junho. E com eles vinham os miúdos a pedirem uma moedinha para o santo. Num café, às Escolas Gerais, ali abaixo de São Vicente de Fora, pergunta-se pelos tronos. “Ah, eram tradição, agora só há alojamentos locais”, responde-nos o homem com uma bica. Nem tudo se perdeu, agora promove-se um concurso de tronos e figuras, que começaram a ser expostos no fim de semana (e ficarão durante o tempo que apetecer aos seus autores).

Nem só de arte temporária e efémera se faz um roteiro de António por Lisboa: no Museu Nacional de Arte Antiga pode espreitar-se um Santo António pregando aos peixes, de Vieira Lusitano, do século XVIII, um São Francisco e Santo António, uma pintura a óleo do mestre da Lourinhã, do primeiro quartel do século XVI, e o Livro de Horas de D. Manuel, também do século XVI. Mais à mão, para viajantes apressados, na Estação do Rossio, há um painel de azulejos com Santo António junto à Sé, de Lima de Freitas, deslocado no tempo, com um elétrico e namorados e candeeiros.

Regressa-se a Alfama, seguindo por Santa Clara e chegando à colina que sobe para Sapadores, Santa Apolónia dos comboios ali abaixo. Vamos a caminho da Capela do Vale de Santo António, na rua com o mesmo nome. Estamos numa zona que é uma amálgama arquitetónica e, encravada no casario incaracterístico, a capela branca, de linhas simples e uma curta torre sineira.

Também conhecida por Ermida de Santo António do Vale e Nossa Senhora da Assunção, esta capela foi edificada em 1780 (e há uma pequena placa que assinala o “II Centenário da edificação”). O santo casamenteiro está embutido num pequeno nicho, por cima do n.º 84, numa porta lateral da capela. Mais acima, na fachada principal, um vitral revela António.

Foi aqui que, diz a tradição, o franciscano descansou quando se dirigia ao rio Tejo, vindo do Convento de São Vicente, para embarcar em direção às costas do Norte de África. Agora não há quem pare, as portas estão fechadas. Há uma ranhura onde se lê “pão de Santo António”, para esmolas, que remete para a tradição antoniana de colocar nas igrejas uma caixa para o “pão dos pobres”.

No antigo Convento dos Capuchos instala-se hoje o Hospital de Santo António dos Capuchos, onde no pátio de entrada está uma referência escultórica ao monge. O nome do estabelecimento, ao Campo de Santana, vem do século XVI quando ali se ergueu um convento com o nome do doutor da Igreja, que foi entregue aos padres recoletos da Custódia de Santo António. É o Patriarcado Latino de Jerusalém que nos conta que o homem de Lisboa e Pádua “é venerado de forma especial pela comunidade dos franciscanos da Terra Santa”.

Este roteiro da Lisboa de António termina já longe do centro, em plena Praça de Alvalade, onde uma enorme estátua do escultor António Duarte ali foi erigida e inaugurada em outubro de 1972. De cada um dos lados, faz-se o percurso de António, “padroeiro de Portugal 1195-1231”, que viveu em “Lisboa 1195-1213”, esteve a estudar em “Coimbra 1213-1221” e, por fim, morreu em “Pádua 1231”. Por entre carros apressados, e sem passadeira para a placa central, há quem ali vá venerar o santo: lá estão vasos de flores e, estamos em junho, um grande manjerico.

[artigo originalmente publicado no Diário de Notícias em 11 de junho de 2019, republicado em 2020]

Junho 03, 2022

a voz que fala com os deuses

Miguel Marujo

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É impossível sair do Coliseu dos Recreios, como saí esta noite, sem que a voz, aquela voz, continue a ecoar na cabeça, uma memória encantatória que nos percorre e permanece — Lisa Gerrard é a alma dos Dead Can Dance (e o público manifestou-o vezes sem fim), o corpo e os sentidos do cerebral Brendan Perry.

Esta voz, aquela voz, fala com os deuses, ou o que se queira chamar a alguém cujo nome não se diz, e na amálgama de sensações os corpos respondem hipnotizados ao chamamento: seja num menear que se insinua, como se ouve logo a abrir em Yulunga (Spirit Dance), seja na convocação de uma oração, como em Bylar — ou também, no momento em que Lisa fica sozinha em palco, imperturbável atrás do microfone, a cantar (e este verbo confunde-se com encantar) Persian Love Song (The Silver Gun). 

No jogo entre a antiguidade e a modernidade, que sempre marcou a sua música, Brendan e Lisa — acompanhados de um quinteto (de múltiplas percussões, várias guitarras, teclas e coros) tão cativante como competente — tecem uma sonoridade dionisíaca, sensual, arrebatadora, contemplativa, com os ritmos a sucederem-se por entre hipnóticas percussões, inesperados sons resgatados da Natureza, numa tensão permanente que ora remete para danças libertinas (e Dance of the Bacchantes foi uma festa em palco), ora nos embala em sonhos de serafins (e The Host of Seraphim foi o remate sublime, antes do encore previsto).

Com o álbum mais recente, Dionysus, publicado já em 2018 (e que deu o mote à anterior passagem dos Dead Can Dance por Lisboa, em maio de 2019), esta digressão europeia, que terminou esta quinta-feira à noite, dia 2, em Lisboa, foi sobretudo uma fantástica viagem pela obra do grupo de origem australiana — Into the Labyrinth, com quatro temas, e Anastasis, com três, são os discos que mais canções forneceram ao espetáculo, o que retrata bem como este concerto foi beber a todos os discos dos Dead Can Dance para compor as 18 canções que se ouviram em palco. 

No Coliseu, o público respondeu à celebração da música como pedem as canções de Brendan e Lisa: com júbilo, que é assim que se recebem os deuses na terra. Ámen.


[foto da conta oficial de Instagram dos Dead Can Dance, do concerto da véspera, 1 de junho, também em Lisboa]

Maio 24, 2022

Parlamento. As cadeiras foram para restauro

Miguel Marujo

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O verão é quente de trabalhos no Parlamento. Nas catacumbas, restaura-se mobiliário, nas cozinhas aproveita-se para fazer a barrela. Encerar, limpar, desparasitar: são os verbos que, em agosto, se usam na descrição dos trabalhos parlamentares. Em agosto, a Assembleia da República fecha, dizem as notícias, que acompanham os dias parlamentares, mas a verdade é outra. Nestes dias de intensos trabalhos de orçamento, recupero uma reportagem do verão de 2015, sobre esses dias de agosto na Assembleia da República.

 

Os passos ecoam no vazio dos Passos Perdidos: o Parlamento foi de férias, mesmo que, ao longo de agosto, haja partidos que o usem como cenário para as suas declarações habituais. Mas, passados esses 20 minutos de fumo mediático, o verão permanece quente de outros trabalhos pelos corredores, salas, cozinhas e catacumbas do Palácio de São Bento. Restaura-se mobiliário, faz-se a barrela. Encerar, limpar, desparasitar são alguns dos verbos que substituem aqueles que habitualmente se usam na descrição dos trabalhos parlamentares.

Desta vez, a entrada nem se faz pela porta lateral do edifício antigo ou pela escadaria principal. É logo por uma garagem, paredes-meias com o velho convento, mas já no edifício novo da Assembleia da República. Há cadeiras que são levadas para uma carrinha. Vão a caminho do restauro, mas algures num subterrâneo parlamentar há mais exemplares gastos, velhos, partidos pelo uso. Datam de 1867, vêm da Sala do Senado, da antiga Câmara dos Pares do Reino, mas muitas já não têm remédio, apenas vão servir para o patchwork paciente de restauro das que ainda têm solução: o material de uma, o braço de outra, a perna ou um rodízio, até uma simples lasca, podem ser reutilizados num trabalho em que Frankenstein seria convocado, não fosse a perfeição o objetivo de quem mete as mãos ao trabalho. Não é imagem metafórica da política deste reino.

Esta "transplantação" de peças, como lhe chama Cátia Mourão, a responsável do museu da Assembleia da República, tem como objetivo "manter o mais possível a traça original" das cadeiras e passa pelas mãos de Rodrigo Bobone, o marceneiro e restaurador, que descobre nos rodízios de cerâmica das cadeiras uma inscrição que ajudará a explicar a sua origem. "Tente", lê-se numa das rodas; "COPE... patente" noutra; ou "C&C Paten" numa terceira. "O facto de terem uma patente prova que eram peças com qualidade", aponta Cátia Mourão, que situa em Inglaterra a proveniência destes rodízios de cerâmica. "Os ingleses eram muito avançados, à época, nestas ferragens", contextualiza, para logo acrescentar: "E diz muito das relações que tínhamos à época", recordando o fontismo e os empréstimos contraídos junto da banca inglesa por Fontes Pereira de Melo para o seu programa de fomento.

É no verão que se fazem estes "trabalhos de maior monta", anota Cátia Mourão, no caso do restauro de peças como estas cadeiras ou umas esculturas que também seguiram dias antes para conservação. Obras que obriguem a muito barulho, que o dia-a-dia de uma assembleia em pleno funcionamento não permite, acabam por ser agendadas para os fins de semana (mesmo em agosto). O Palácio das Cortes nasce em 1834 no antigo convento beneditino, daí o nome de São Bento, feito sede parlamentar pelo traço do arquiteto régio Possidónio da Silva, um homem do século XIX que se ocupava de vários saberes, de quem foram encontradas cartas de trabalho escritas em francês, e que aproveitou a Sala do Capítulo para instalar a Câmara dos Pares e fez de raiz a Câmara dos Deputados. Estas estruturas necessitam de cuidados permanentes, é um museu vivo, regista Cátia Mourão.

No Parlamento há mobiliário mais antigo, ainda da época monástica, mas é já muito pouco, um relógio conventual, de fabrico inglês, de caixa alta, que ainda funciona. E entre este mobiliário histórico há peças que continuam a ser utilizadas, como uma mesa da Presidência. A Biblioteca tem tudo aquilo que acompanha as Cortes desde 1821, arquivos da época, mas também mobiliário.

A cadeira número 82 da Câmara dos Pares (que consta de três inventários - do museu, da Assembleia Nacional e da Assembleia da República) tem uma perna partida, o forro precisa de ser retirado e o bicho já atacou, vê-se a olho nu a ação dos insetos. A forma como está estofada ajuda a datar e a perceber a origem das peças. Aproveita-se o que está dentro do estofo, enchido com algodão e crina. À cosedura original juntaram agrafos, tachas que revelam intervenções posteriores, a costura da serapilheira com fio de norte, as molas e as precintas, "são camadas de história sobre ela, como um palimpsesto", resume Cátia Mourão. "São artes que tiveram as suas técnicas e artesãos", regista Rodrigo Bobone, que se fez na arte do restauro num curso aos 15 anos. "Hoje há poucos cinzeladores, poucos torneadores, havia aprendizes, hoje não." Sobra o lamento na voz.

O restauro que se vai fazer à cadeira número 82 (e às outras, todas de nogueira) estará de acordo com os tempos. Vão ser usadas tachas que replicam a técnica original, sem agrafos, mas o forro novo não será de pele verdadeira, que a isso obriga a contenção orçamental. E procuram-se "peças que voltem a nascer", como explica Paula, a mulher e companheira de profissão de Rodrigo.


Alguns deputados ainda resistem a fechar papelada

Em 1615, os beneditinos decidiram-se pela instalação definitiva "da irmandade dos monges de hábito negro, numa quinta adquirida a Antão Martines", como se conta no site do Parlamento, "onde se encontrava a Casa de Saúde para acolhimento dos pestíferos vitimados pelo surto de 1569".

O novo Mosteiro de São Bento da Saúde, ou dos Negros, foi edificado de acordo com o projeto inicial de Baltasar Álvares, e é esta data redonda de 400 anos que a própria Assembleia da República vai comemorar em novembro com uma exposição no espaço do Refeitório dos Monges, onde hoje está instalado o Centro de Acolhimento ao Cidadão. No entanto, o refeitório sofreu já alterações, só um terço do chão será o original, com enxertados a preto e branco e pedra rosa na zona do púlpito.

Na I República houve uma renovação do edifício no seu aspeto exterior, ganhando a fachada definitiva que hoje vemos ao cimo da escadaria de São Bento, e no refeitório a fenestração ficou mais estreita, como explica Cátia Mourão. Houve necessidade de relocalizar alguns dos painéis de azulejos que espantam o visitante da sala.

Na exposição terá lugar de destaque a Burra, que é como se designa este cofre que está a ser fotografado para o catálogo, uma arca de bronze da época do mosteiro, que se crê vazia. Será necessário fazer uma chave que abra a fechadura.

Sai-se do refeitório, sobe-se aos Passos Perdidos, passam-se os corredores onde o bar do plenário está fechado, a tabacaria funciona a meio gás antes de uns dias de férias (e antecipam-se semanas mais paradas com as eleições legislativas a fazerem que os novos inquilinos de São Bento só cheguem em meados de outubro) e apenas alguns deputados ainda resistem a fechar papelada.

Na "cafetaria", o restaurante reservado a deputados, "aproveita-se para fazer a barrela", como explica João Xavier, um dos responsáveis na Divisão de Aprovisionamento e Património da Assembleia da República. Encerar o chão, limpar cortinados, desparasitar sofás, os trabalhos parlamentares são outros.

Desce-se um piso e um detetor de metais, semelhante ao que acolhe visitantes e funcionários nas portas do Parlamento, é usado para alimentos ou outros bens que são encaminhados para o edifício. "Passa tudo por detetores", aponta João Xavier. No restaurante dos deputados, agora sem funcionar, são servidas cerca de 60 refeições diárias. Na chamada "cantina", em frente, em média o número atinge as 200 (ou mais, dependendo de visitas de grupos), números que em agosto são mais modestos: 115/120. Há uma caixa com melancias. "Primeiras a sair", escreveu alguém num papel.

Ao longo do ano, os fins de semana são aproveitados para os trabalhos regulares de manutenção, mas em agosto a limpeza é profunda em bancadas e canalizações, substituem-se os filtros dos exaustores e extintores, faz-se a manutenção dos alarmes de incêndio. No local da lavagem de "loiça grossa" exigiu-se a abertura de um respiradouro, por ser mais quente. Todo o cuidado é pouco.

A Assembleia da República dispõe de quatro armazéns. Um deles, aproveitando o vão de uma escada, fica a meio caminho entre o edifício antigo e o novo e é usado para guardar material informático. Algum equipamento mais obsoleto é retirado, ficando ali à disposição computadores e impressoras, prontos a levar para o sítio onde forem necessários. Em agosto, na casa da Democracia, "é preciso preparar aquilo para que nunca se tem tempo".


2011, o ano em que a Assembleia da República (quase) não parou

Em agosto, a Assembleia da República fecha, dizem as notícias, que acompanham os dias parlamentares. A verdade é outra: os deputados param, a casa fica a meio gás, dois terços dos funcionários gozam férias, mas há quem vá garantindo o regular funcionamento da Assembleia, naquilo que é urgente. Em 2011, o credo na troika trocou as voltas a deputados e funcionários.

O então recém-empossado governo de Passos Coelho e Paulo Portas fez do trabalho mote e da produtividade contrassenha. Ainda em maio desse ano, sem se conhecerem resultados eleitorais, o CDS antecipava que ia propor que a Assembleia da República trabalhasse durante o verão, admitindo apenas uma a duas semanas de férias em agosto, para cumprir o que já estava estabelecido no memorando de entendimento com a troika.

Nas contas centristas, segundo o plano de ajuda externa, até ao fim desse ano de 2011, o Parlamento teria de legislar em cerca de cem matérias, "o que não é compatível com um prazo de férias muito prolongado", como explicava o dirigente Pedro Mota Soares. O CDS propunha que o Parlamento funcionasse ao longo dos meses de junho e julho, bem como logo a partir de setembro (por regra, as pausas de plenários eram de 15 de junho a 15 de setembro, prática caída em desuso pelos anos da troika). Mas só em julho, já com agosto a espreitar a uma quinzena, os deputados ficaram a saber que o mês de pausa não o seria completamente.

Nada que não fosse esperado depois da ladainha do primeiro-ministro, mal tomou posse: "O Parlamento e o governo, durante este período, não gozarão férias. Os portugueses estarão absolutamente comprometidos em que nos próximos meses, o essencial das decisões que tivermos de aplicar possam sê-lo", afirmou Pedro Passos Coelho no dia 23 de junho de 2011, falando em Bruxelas. "Nos próximos dois meses", repetiu o chefe de governo, era preciso tomar "o maior número de decisões práticas que permitam traduzir os objetivos que estavam em políticas concretas que vão ser aplicadas rapidamente a Portugal." Às férias curtas seguiu-se o corte nos feriados, subjugados à sacrossanta produtividade.

[reportagem originalmente publicada no DN, a 26 de agosto de 2015; na foto, Rodrigo Bobone, da empresa que faz o restauro, transporta cadeiras para um patchwork em que artes de outras cadeiras serão usadas para conservar as seis que vão para restauro. © Reinaldo Rodrigues/Global Imagens]

Maio 06, 2022

"O MRPP é uma seita." O partido que está a mando de um homem que não é seu dirigente

Miguel Marujo

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Esta reportagem foi publicada em novembro de 2016, um ano depois da demissão de Garcia Pereira do partido, por entre um clima tenso de acusações a ex-militantes. Hoje, o PCTP é cada vez mais um grupúsculo, reduzido a uma expressão eleitoral mínima. Depois de ter perdido a subvenção pública em 2019, os resultados de 2022 foram ainda piores. O espaço que foi ocupado por Arnaldo Matos e seus compagnons de route na Avenida do Brasil já não tem qualquer marca de ali se terem discutido "sociais-fascistas" e "vermes da caneta" (resta saber como estará a sede nacional do partido). O jornal online mantém a truculência costumeira, mas já sem a pena do fundador, e ali se anuncia a realização do II Congresso Extraordinário, para o 1.º de Maio deste ano. Ninguém deu conta, nem o jornal do partido. Regressemos por momentos a 2016.

 

"É favor manter a porta sempre fechada." E está mesmo fechada. Toca-se à campainha, sem resposta. Telefona-se para o número indicado como sendo o da sede nacional, na Rua da Palma, 159, já mesmo junto ao Martim Moniz, em Lisboa, e surge uma mensagem de voz a informar-nos de que "o número não está disponível". A placa dourada com letras bem vermelhas, ao lado da porta, diz que estamos no local certo: "PCTP MRPP Sede Nacional 2º Dto."

Olhando para cima, as quatro janelas estão também identificadas, com quatro bandeiras que se enrolam nos mastros num dia em que não há vento que as desfralde e só a chuva as molha. Há portadas de janelas entreabertas no 2.º direito, mas nada mais. Uma senhora apanha a roupa do seu estendal no 3.º.

Na porta ao lado, a agência vende "excursões" e viagens a Talin, Riga, Dubrovnik e Praga, cidades que outrora estavam para lá da cortina de ferro. Em frente, enquanto um camião é esvaziado de mercadoria no meio da rua, proliferam lojas, armazéns de "revenda de malhas", uma sapataria que acumula tantos sapatos como caixas fechadas, todas elas com caracteres chineses. O partido maoista podia sentir-se em casa — estivesse alguém em casa.

É 5,6 km para cima, no Pote de Água — na bem mais inóspita Avenida do Brasil, onde os carros passam apressados em direção à Rotunda do Relógio —, no qual o PCTP/MRPP tem outro espaço, arrendado por 1825 euros ao mês, que se notam sinais de vida. Em duas montras, imagens com a reconhecida estética do partido ilustram diferentes painéis: uns reproduzem textos do Luta Popular (o jornal oficial do MRPP fundado em 1971) e outros relatam a história do movimento.

Arnaldo Matos foi um dos quatro fundadores do Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado (MRPP). Advogado, 77 anos, é ele quem alimenta hoje o Luta Popular Online (e que no papel não passa de folhas A4 policopiadas), com editoriais inflamados, que pede o voto no PCTP/MRPP — "isto é, ao meu Partido" — e que se dedica todos os dias a insultar em nome desta força partidária aqueles que eram os seus rostos até há um ano: Garcia Pereira, Domingos Bulhão e Luís Franco.

O homem que quer, pode e manda hoje no PCTP carrega apenas o título de fundador. Não faz parte do Comité Central do partido, o órgão dirigente do partido sempre que não se reúne o Conselho Nacional (que é, por sua vez, o órgão máximo entre congressos), nem é o seu secretário-geral.

Arnaldo Matos renunciou em 1982

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A 2 de maio de 2004, em entrevista ao DN, revelou que abandonou o MRPP em 1982 porque "a contrarrevolução tinha ganho". Antigos militantes do partido confirmam esta data ao DN.

No processo do partido depositado no Tribunal Constitucional (TC), que o DN consultou, há uma informação assinada por Garcia Pereira, datada de 3 de dezembro de 1985, em que se regista que "o Comité Central do PCTP informa o TC que tomou conhecimento da renúncia por parte do camarada Arnaldo Matias de Matos aos cargos de secretário-geral do partido e de membro do Comité Central [CC], com efeitos desde 13 de novembro de 1982, e ainda que as funções de secretário-geral [então Arnaldo Matos] serão asseguradas pelo CC do partido até à realização do próximo Congresso Nacional".

O partido demorou três anos a digerir a saída de Arnaldo Matos, para a tornar oficial junto do Palácio Ratton. E demorou ainda mais a convocar um Congresso Nacional (CN): o II CN realizou-se de 13 a 15 de junho de 1980, o III só 20 anos depois, a 15 e 16 de abril de 2000.

Há um ano, assinalou-se ontem [18 de novembro de 2016], António Pestana Garcia Pereira comunicou [a sua demissão] ao TC por carta, que deu entrada a 25 de novembro de 2015, [e] apresentou no dia 18 desse mês, "a sua decisão com efeitos imediatos", requerendo que "sejam o respetivo registo e lista de membros do Comité Central devidamente retificados em conformidade".

Depois das eleições legislativas de 6 de outubro de 2015, o Luta Popular fez de Garcia Pereira, Domingos Bulhão e Luís Franco alvos a abater e a responsabilizar pelos maus resultados. Sem eleger qualquer deputado (nunca aconteceu), o PCTP passou a fasquia dos 50 mil votos que lhe dá uma subvenção estatal (como já tinha acontecido em 2011), mas desceu em votos. "Mário", "Jaime" e "Conceição" (os nomes de código pelos quais aqueles dirigentes eram tratados no partido) tiveram de fazer uma autocrítica, numa reunião convocada por "Marta", Manuela Parreira.

O partido foi tomado por Arnaldo Matos, que assina também Espártaco e Viriato, como apontaram ex-dirigentes. "O MRPP acabou, tornou-se uma seita", desabafou ao DN Domingos Bulhão, um dos que se desfiliou do partido.

Na quinta-feira passada, o DN contactou o escritório de advocacia de Arnaldo Matos, pelas 16h37. Quando questionada a voz masculina que atendeu pelo nome do fundador do MRPP, ao breve silêncio do outro lado da linha, ouviu-se o desligar do telefone. Um minuto depois, a segunda chamada não obteve qualquer resposta.

Na quinta-feira também, o DN fez seguir por e-mail um conjunto de questões para Arnaldo Matos, sobre as funções que ocupa no partido e quando voltou ao PCTP, no pressuposto do abandono referido na entrevista de 2004. E sobre as críticas violentas que há um ano dirige a Garcia Pereira. Sem resposta.

Ninguém atendeu ontem as chamadas para esse escritório, para a sede nacional e para Carlos Paisana, membro do CC do PCTP e representante do partido junto do TC, cujos números foram dados pelo funcionário da Avenida do Brasil.

 

[artigo originalmente publicado no Diário de Notícias, a 19 de novembro de 2016; foto de Miguel Marujo, sobre foto original de José Sena Goulão, na exposição coletiva de fotografia sobre a pandemia "everydaycovid — diários fotográficos em estado de emergência"; foto do encontro do PCTP, com Arnaldo Matos, de pé, e Garcia Pereira, ao lado, com a cara tapada pelo microfone, numa ação de campanha no início dos anos 1980: © Rui Homem/Arquivo DN]

Abril 13, 2022

Há algoritmos que não perco por nada

Miguel Marujo

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Há algoritmos que contaminam os nossos dias com prazer, já escrevi em tempos. E estes dias com mais tempo permitem-me deixar o algoritmo ir navegando por ele, alinhavando canções e vozes que aqui e ali me surpreendem. Falta tempo é para parar em cada uma das propostas e ir ouvir tudo o mais que ali mora — e o Spotify, no caso, multiplica-se por mil, desvelando um oceano de música que nunca estaria ao nosso alcance de outro modo (sim, não ignoro como pagam mal aos autores que lhes valem todo o tráfego do mundo, mas esta montra já me levou a vários sites de artistas e a lojas para comprar aquele disco em que tropecei).

Estes dias têm-se feito sobretudo no feminino, a partir de uma canção que me era proposta nas “descobertas da semana” — e não há classificação mais enganadora, porque não se trata necessariamente de música recente: por exemplo, a tal canção de que falo é de um álbum de 2020, e depois apanhei-me viciado numa outra cantora, Tiny Vipers, cujos discos disponíveis vêm de 2007 e 2010 (mas já fui à sua conta no Bandcamp, na qual ouvi as coisas mais recentes e mais antigas…). 

 

Dizia: a partir de Monk’s Robes, de Deradoorian, do álbum Find The Sun, vi-me a navegar num mar muitas vezes enganadoramente calmo. Volto a Tiny Vipers (na foto), ou melhor, Jesy Fortino, por exemplo, e descubro na sua biografia disponibilizada no Spotify que colaborou com Grouper (um projeto de Liz Harris), outra favorita recente. Daí já ouvi em loop nomes atrás de nomes, alguns já bem familiares — como Marissa Nadler ou Brendan Perry —, a maioria completas novidades, sem que alguma vez me tenha visto a carregar para a canção seguinte, e várias vezes tenha ido espreitar quem canta, e ouvir discos inteiros. Falta-me vida e tempo para isto. Talvez alguém queira financiar este meu trabalho de prospeção. 

 

Tomem nota, numa amostra breve e apressada: Deradoorian, Tiny Vipers, Emily Jane White, Heather Woods Broderick, Yowler, Gyða Valtýsdóttir, Hilary Woods, Gareth Dickson, Sarah Davachi (e a lista vai crescer certamente). Há algoritmos que não perco por nada. Não têm de quê.

Abril 12, 2022

Jorge Sampaio não se arrepende de nada. Santana fica sem resposta

Miguel Marujo

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Chegou-me esta foto de uma página de um livro muito recente, Os Presidentes, a Política e os Media  — Uma história do 25 de Abril, de Francisco Rui Cádima (ed. Dom Quixote, 2022), no qual se cita um artigo meu no DN, em março de 2017, e resolvi recuperar o texto aí mencionado. A peça é uma notícia, mas com Sampaio nunca saía uma mera notícia. O último parágrafo do artigo é disso exemplo — e, assim, também se ajuda a fazer história.

 

Já estava à espera da pergunta, inevitável por estes dias, em que se conheceu parte do conteúdo do segundo volume da sua biografia que chega hoje às livrarias. Com o título Jorge Sampaio — Uma Biografia. Volume II — O Presidente (ed. Porto Editora), percebe-se logo a pergunta de que o antigo Presidente da República já estava à espera. "Não consigo libertar-me de 2004", atirou entre risos da plateia à jornalista Anabela Mota Ribeiro, perante a questão sobre a crise que levou à dissolução da Assembleia da República e à queda do governo de Santana Lopes.

Admitindo que "houve vários erros na explicação" do que se passou, Jorge Sampaio recordou que dois anos antes já tinha escrito — no prefácio do livro que compilava as suas intervenções como Chefe do Estado, "a que ninguém prestou atenção" — que "as dissoluções podem ser momentos graves em que pode ser preciso consultar a vontade popular". "Não tive hesitação nenhuma", defendeu-se sobre 2004.

Em abono da sua tese, Sampaio recordou que "havia sinais maiores que apontavam para a vontade de uma relegitimação popular". No livro, o ex-Presidente da República disse ao autor, o jornalista José Pedro Castanheira, que estava "farto" de Santana Lopes como primeiro-ministro, que este estava a deixar o país à deriva. "O que é para mim importante hoje, independentemente do estilo, das frases, das palavras, dos desabafos", reconheceu, "é que a uma dada altura me convenci que só a dissolução podia servir" o país.

Para Sampaio, a sua decisão "foi difícil na altura", "mas foi compreendida por uma larga maioria", pelo que, passados estes anos, sente que contribuiu "para outra vez" o país regressar à estabilidade, um esforço seu que tentava desde 1996 (quando da sua eleição para Belém). E recusou qualquer combinação prévia para empossar Santana em julho de 2004 e largar a "bomba atómica" da dissolução em novembro seguinte. "Tem havido uma ideia de que é tudo uma coisa sinistra, combinada, é tudo absolutamente mentira", atirou ontem na conversa no Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém, em Lisboa.

Por responder ficou o desafio do então primeiro-ministro para Sampaio discutir esse episódio com ele na televisão, ou as críticas que o atual provedor da Santa Casa de Lisboa tem feito ao antigo Presidente da República, de que a sua queda se deveu a um pedido de empresários e banqueiros e não do povo.

Sentado num grande cadeirão preto, no meio do palco, com a sala a meia-luz, o registo da conversa quase esquecia a parte de que trata a obra hoje lançada. Da infância em Sintra, da importância do pai e da mãe, da estada em Baltimore, nos EUA, Sampaio foi desfiando um longo livro de memórias. Foi a sua passagem por terras americanas que lhe deixou o gosto por hambúrgueres. Estávamos em 1948. "Vinha da escola, descia o parque e sentava-me na drugstore a comer um hambúrguer e um chocolate sundae, dias a fio, meses a fio", contou.

Com a crise académica de 1962, que se iniciou com a proibição de celebrar o Dia do Estudante, o pai de Jorge, o médico Arnaldo Sampaio, disse-lhe: "Queres ser político, já percebi. Mas primeiro tem uma profissão." A advocacia foi a sua enxada e a política "foi acontecendo" por uma coisa que o Cenoura (alcunha que lhe deram) deve aos seus pais: "Seriedade e dedicação ao serviço público."

Sem arrependimentos, garantiu. "Já me arrependi, já não tenho idade para mais arrependimentos", disse a dada altura. Mais à frente citou uma canção de Edith Piaf, "Non, rien de rien, non, je ne regrette rien." E completou, provocando mais risos na plateia: "Eu não regreto nada." Santana bem pode esperar.

[artigo originalmente publicado no DN, em 20 de março de 2017, ligeiramente revisto]

Abril 05, 2022

Viagens à Lua? Isso é tudo falso, dizem eles

Miguel Marujo

Viagem-à-Lua.jpegO filme de 1902, Viagem à Lua, inspirou muitos na primeira vez que o homem foi à Lua.
Contudo, cerca de 6 por cento dos americanos acreditam que é uma mentira.


Ainda há quem não acredite que "aquele pequeno passo para a humanidade" tenha sido mesmo dado. E nos EUA, o país que pôs um homem na Lua, há mesmo quem se dedique a tentar desmontar a façanha. Há teorias da conspiração para todos os gostos.

Num mundo que elegeu Donald Trump e Jair Bolsonaro, que tantas vezes põem em causa as mais óbvias e sensatas evidências científicas, não admira que, meio século depois, ainda persistam teses conspirativas de que o homem nunca chegou na Lua. É um dos feitos maiores da humanidade, mas para alguns o pequeno passo de Neil Armstrong foi um "gigantesco salto de falsidade".

Nos EUA, de onde partiu a missão, há homens que se empenham em desmontar o que dizem ser o filme mais caro de sempre, montado pela NASA, para enganar todo o mundo. Literalmente: o mundo todo.

Em 1957, a União Soviética colocou no espaço com êxito o primeiro satélite. Num tempo em que se vivia a Guerra Fria, com a ameaça do nuclear bem presente, os russos eram inimigos, e o lançamento do Sputnik 1 abriu porta aos maiores receios. É neste contexto que os EUA se lançam também na corrida espacial. Quem chegará primeiro à Lua passa a ser um desafio não só tecnológico como também político.

É neste caldo que emergem também os céticos, como Bill Kaysing. Este analista e engenheiro de Rocketdyne, a companhia que projetou os foguetes Apollo, surge num programa de televisão de 2001, transmitido pela Fox, assertivamente chamado Teoria da Conspiracão: Nós Pousámos mesmo na Lua?, convencido "de que nunca enviámos homens à Lua".

"Acho que foi uma intuição", "aquilo tudo pareceu-me falso", explicou-se no referido programa. Kaysing "ficou chocado com inconsistências", porque "não havia estrelas no céu lunar", a bandeira americana tremulou, "sabendo que não existe ar na Lua", e "não havia nenhuma cratera debaixo do módulo, que deveria ser provocada pelo forte motor" no momento em que a nave pousou.

Bart Sibrel é outro profeta das mirabolantes teses que garante, com os pés bem assentes na Terra, que o homem não chegou à Lua. Diz que faz "jornalismo de investigação", tem um site no qual pede ao visitante que "apoie a verdade" e dedica-se a apregoar o engodo que terá sido a viagem ao satélite.

Os ingredientes estão todos servidos: num filme de série B, escrito pelos piores argumentistas de Hollywood, Kaysing e Sibrel alinham meia dúzia de dúvidas retóricas com base em "suponhamos", sem qualquer rigor científico. E está lançada a teoria de conspiração.

Como foi então montada a farsa? "O lançamento do foguete Saturno 5 com a Apollo foi real", diz Kaysing no documentário. Mas não levou astronautas para a Lua. Eles ficaram oito dias em órbita "e ao oitavo dia a cápsula separou-se e voltou à Terra".

Os EUA têm o local ideal para alimentar a mais tosca imaginação: a Área 51, uma base supersecreta na extensa região desértica do Nevada, onde tudo pode acontecer.

Para ajudar, os EUA têm o local ideal para alimentar a mais tosca imaginação: a Área 51, uma base supersecreta na extensa região desértica do Nevada, onde tudo pode acontecer. Para os autores do programa, foi nesta zona restrita — com uma superfície quase lunar — que se filmaram os passos dos astronautas que pisaram a Lua e as pegadas de Armstrong. E foi onde cravaram a bandeira dos EUA, a tal que esvoaçou. "Significa que existia vento na Área 51 quando filmaram", descrevem os descrentes. Ou os "crentes em falsidades", como lhes chamam cientistas e astronautas que responderam com minúcia ao programa de TV de 2001.

Nada foi deixado ao acaso nesta "teoria da conspiração": Mitch Pileggi, que conhecemos como o diretor do FBI, Walter Skinner, em Ficheiros Secretos, é o narrador deste documentário. E todos nos lembramos do lema desta série de ficção: "Não confie em ninguém."

"Teorias grotescas"

Tudo é dito e mostrado para instalar a dúvida no mais empedernido fiel da chegada à Lua, decompondo em 50 minutos aquilo que um porta-voz da NASA, Brian Welch, classifica de "teorias grotescas". Às teorias juntam-se dados falsos: "20% dos americanos acreditam que nunca se foi à Lua", diz o narrador. Serão 6%, nas sondagens feitas. E juntam-se vozes supostamente credíveis para dar gás a teses que não têm (elas sim) qualquer evidência. Brian O'Leary é um ex-astronauta e cientista consultor das missões Apollo. Diz ele no programa que "não pode garantir que estes homens tenham andado na Lua".

E ao bom estilo americano não faltam mortes. O astronauta Gus Grissom, da missão Apollo 1, morreu num acidente da nave. A família acredita que não foi acidente porque ele terá dito que alguém iria morrer. "Foram silenciados porque sabiam demasiado?", pergunta o narrador.

Também Thomas Ronald Baron, inspetor de segurança da Apollo 1, testemunhou no Congresso que o programa tinha tantos problemas que os americanos nunca chegariam à Lua. Uma semana depois, Baron morre num acidente quando o carro é colhido por um comboio. "Foi assassinado", sentencia Kaysing. "Entre 1964 e 1967, dez astronautas morreram em acidentes estranhos", diz-nos o narrador. Nunca lhes ocorreu que o treino e as viagens espaciais não eram propriamente um passeio no parque.

O porta-voz da NASA responde com números: o programa Apollo envolveu diretamente 250 mil pessoas e indiretamente outras 500 mil. Era muita gente. Mas os profetas da conspiração não deixam que a verdade lhes estrague uma boa história, como afirma Sibrel: "Era tudo dividido, não sabiam deste engodo." E só acreditarão como São Tomé: "Se a NASA pousou mesmo na Lua, os restos das seis missões estão lá." Trump, o homem que gosta de teorias da conspiração, já pediu à NASA para voltar à Lua.

 

[texto originalmente publicado na revista 1864 do DN, em 13 de julho de 2019 e replicado no site do jornal a 15 de julho de 2019]

Abril 03, 2022

"Revolução de Outubro foi o maior acontecimento libertador da história da humanidade"

Miguel Marujo

Albano Nunes © Leonardo Negrão:Global Imagens.jp

 

O PCP celebrou o centenário da revolução de Outubro (que teve lugar a 8 de novembro, no nosso calendário), em 2017. Numa conversa com o DN, o militante comunista Albano Nunes, durante anos responsável da secção internacional do partido, falou sobre a importância destes 100 anos, não fugindo ao que chamou de "erros" e "deformações", mas também exaltando as conquistas da revolução e do que foi a União Soviética — uma primeira tentativa para chegar ao comunismo.

 

Há 100 anos [em 1917] começou de facto "uma nova era para a humanidade"?

Estamos profundamente convencidos que sim, que começou uma nova era, que nós consideramos ser a época da passagem do capitalismo para o socialismo.

E essa "nova era" como é que se traduziu? Como é que traduziria para as gerações mais novas aquilo que há 100 anos aconteceu?

O que aconteceu há 100 anos foi que na primeira vez na história da humanidade se deu uma revolução, não apenas política mas social profunda em que, ao contrário de revoluções anteriores, incluindo revoluções profundas como a Revolução Francesa de 1879, pela primeira vez uma classe exploradora não é substituída por outra classe exploradora. Pela primeira vez foram os trabalhadores que acederam ao poder com um objetivo que concretizaram de criar uma nova sociedade sem exploradores nem explorados. Foi a primeira vez na história que isto aconteceu.

E acha que essa sociedade foi criada?

É uma pergunta que coloca questões de fundo. A primeira é o tempo histórico que diz-nos que o capitalismo, para chegar onde chegou, precisou de vários séculos e o socialismo iniciou-se apenas há 100 anos numa primeira tentativa que teve êxito em aspetos fundamentais, mas que acabou por fracassar na viragem dos anos 1980 para os anos 90, na União Soviética e noutros países de leste da Europa. A nosso ver não põe em causa nem que tenham sido realizadas profundas transformações, nem o significado histórico universal da revolução de Outubro.

Lenine sempre considerou que a edificação de uma nova sociedade completamente livre da exploração do homem pelo homem e da opressão de uma classe por outra classe exigiria várias tentativas. O que aconteceu ao longo destes anos é que os sucessos em determinados aspetos foram tão grandes, nomeadamente na sequência da II Guerra Mundial, que no movimento comunista e no nosso próprio partido se criou a ideia de que a evolução para o socialismo seria mais fácil, mais rápida do que aquela que efetivamente se veio a verificar. O facto de ter soçobrado a primeira tentativa não põe a nosso ver em causa a dimensão histórica desta primeira revolução, desta primeira conquista do poder pelos trabalhadores.

Que êxitos se verificaram?

Em tudo quanto se tem escrito e dito na comunicação social, sobre a revolução de Outubro e sobre o empreendimento socialista a que deu lugar a União Soviética, omitem-se realizações e conquistas. Esta revolução deu-se num país que era uma ditadura, a mais reacionária da Europa, que era considerada a prisão dos povos, na medida em que era um império que oprimia um conjunto grande de nacionalidades, algumas das quais nem alfabeto tinham e esta revolução o que conseguiu fazer, para além da liberdade, das questões fundamentais, foi resolver os problemas essenciais do desemprego, analfabetismo, num tempo histórico particularmente curto, foi dotar a sociedade soviética de direitos, regalias sociais de nova geração, as oito horas [de trabalho], a segurança social; foi resolver o problema nacional numa escala extraordinariamente profunda; foi transformar um país atrasado numa grande potência industrial dotada de conquistas na ciência e na técnica de primeiro plano que são reconhecidas, como a primeira central atómica para fins pacíficos e o primeiro homem no espaço.

A União Soviética conseguiu êxitos extraordinários. Há um, para terminar, que deve ser sublinhado, foi ter conseguido defender o poder digamos de uma hostilidade imensa desde o primeiro momento em que se realizou a revolução. Churchill dizia que era necessário matar o menino comunista no berço. Houve uma invasão de 14 potências, houve uma guerra civil tremenda e destruidora mas, no meio de isto tudo, a União Soviética conseguiu êxitos extraordinários e deu uma contribuição decisiva para libertar a humanidade do flagelo do nazismo-fascismo. Uma guerra que só foi possível ser vencida porque efetivamente houve uma grande identificação do povo soviético, em tempos extremamente difíceis, com o seu governo e o seu partido dirigente.

Nestes 100 anos podemos falar em mais avanços do que recuos?

Eu só vejo avanços. E vejo caminhos que levaram a recuos, em certa medida insucessos, na sequência de um braço de ferro terrível que foi a guerra fria. Com a corrida aos armamentos, obrigando a União Soviética a despesas colossais, que foram desviadas do seu desenvolvimento, enquanto o capitalismo precisa da guerra para se desenvolver, para alimentar o seu complexo militar e industrial como está a acontecer agora de uma maneira terrível. Acontece que neste contexto a União Soviética acabou por perder este braço de ferro da guerra fria, cometendo atrasos, cometendo erros, havendo deformações estranhas ao ideal comunista. Globalmente nós consideramos e pomos o acento nas potencialidades e nas realizações do socialismo neste período.

Entre esses erros, entre essas deformações, imagino que o PCP também reconheça os desvios autoritários do regime soviético e os muitos mortos que pereceram sob a ação do regime?

A primeira coisa que queria dizer é que isto tem que ser visto no contexto de uma terrível e agudíssima luta de classes. O novo não nasce sem grandes lutas e grandes conflitos: pensemos no que aconteceu aos escravos da velha Roma quando tentaram revoltar-se, foram milhares os crucificados na Via Ápia; lembremos o que aconteceu com a Comuna de Paris, que acabou num dos mais terríveis banhos de sangue; em relação à União Soviética, a hostilidade foi permanente desde o primeiro momento. Este contexto tem de ser levado em consideração.

Acha que o "inimigo externo" justificou esse autoritarismo interno?

Não, o que digo é que o desenvolvimento de fenómenos negativos na União Soviética e noutros países socialistas, o desenvolvimento de fenómenos de desnascença, certos erros muito graves, o afrontamento mesmo da própria legalidade do partido e da própria legalidade socialista, e mesmo crimes que existiram, têm que ser vistos neste contexto, não para os justificar mas para os compreender.

Há muito isto de escrever a história da revolução de Outubro e da União Soviética como uma sucessão de erros de faltas, de fracassos e de crimes. Existiram sem dúvida, nós não discutimos, não nos pomos a discutir se foram dois milhões [de mortos] se foram dez, se foram 20. Não nos pomos a discutir no detalhe o que aconteceu efetivamente: o que foram na Sibéria prisões efetivas de delito comum, o que foram campos de trabalho e o que foram prisões onde sofreram inclusivamente comunistas dedicados. Nós não entramos na discussão desses números, isso é para os nosso adversários.

Não é importante para a História?

Sem dúvida que é importante para a História mas a História tem que ser escrita em todos os seus aspetos. Estaline — a quem são atribuídos com razão erros, elementos de culto da personalidade e abusos em relação ao poder, infrações à legalidade socialista — não tem só aspetos negativos, tem aspetos positivos: leia-se o que disseram os dirigentes, mesmo dos países capitalistas da altura.

Nós reconhecemos este problema, nós não nos alegramos com isso e reconhecemos particularmente na viragem dos anos 1980 quando fizemos o nosso XIII congresso extraordinário [em maio de 1990] e depois no XIV e no XVIII reconhecemos que efetivamente houve no desenvolvimento da União Soviética o afastamento dos ideais e dos valores do socialismo em aspetos fundamentais, no plano político, económico, ideológico, no próprio funcionamento do Estado. Houve um afastamento das massas populares que pôs em causa todo o processo porque foi essa profunda ligação às massas populares, à classe operária, que permitiu justamente a Lenine e ao partido bolchevique dirigir em condições extremamente difíceis todo o processo revolucionário da velha Rússia e esse é o alfa e ómega da política dos comunistas.

Hoje o mundo parece muito pouco disponível para celebrar a revolução 100 anos depois?

A maneira como a revolução de Outubro está a ser predominantemente retratada... Eu queria abrir um parêntesis para dizer que, mesmo no nosso país, neste centenário, tem havido muitas iniciativas não só do nosso partido, de outras estruturas, da associação Iúri Gagárin, debates em escolas, exposições, etc.

A posição dominante é uma posição de crítica, de hostilidade e de ódio à revolução de Outubro, do que ela efetivamente significou e isso resulta de quê? Resulta de uma situação original que foi como disse, desde o berço da revolução, é o facto de a Rússia ter sido derrotada e a história está a ser escrita em larga medida pela classe dominante, à medida do interesse da classe dominante. Portanto que naturalmente quer apagar da consciência dos trabalhadores a importância desta data histórica para dificultar a sua organização e a sua luta por uma sociedade nova, particularmente derrubando o capitalismo e construindo uma sociedade socialista. O objetivo é esse. Nós lutaremos incansavelmente, com todas as nossas forças para que isso aconteça.

Pode ser-se comunista assumindo os erros do comunismo.

Mas nós assumimos! Houve atrasos, erros, deformações, aspetos em que se entrou mesmo em contradição com características fundamentais de uma sociedade socialista, reconhecemos tudo isso. Reconhecemos que nesta primeira tentativa de edificação desta nova sociedade isto se verificou mas temos de reconhecer toda a outra realidade, que é caracterizada essencialmente por realizações, por êxitos, por conquistas. A União Soviética, e não falo apenas da vitória na II Guerra Mundial, teve um papel determinante em toda a evolução do século XX, não é possível desconhecer isso. Mesmo em relação ao nosso próprio partido que para além da sua criação estar ligada também à revolução de Outubro, é uma criação da classe operária portuguesa à nossa revolução de Abril. 

A nossa revolução de Abril é fruto da luta do nosso povo. Os comunistas têm uma parte que toda gente reconhece como decisiva, é resultado da crise que se criou no próprio regime, é resultado da guerra colonial e da aliança do povo português com os povos coloniais irmãos. Sem essa guerra e sem essa aliança certamente tinha sido mais difícil derrubar o fascismo, mas no enquadramento internacional da nossa revolução é um elemento fundamental explicar o isolamento internacional do fascismo e as razões porque o imperialismo norte-americano e a NATO não tiveram nenhumas condições para intervir em Portugal, para abafar e liquidar na raiz a revolução portuguesa. Intervieram de mil e uma maneiras através da Europa. 

O verão quente é um momento particular mas não tiveram condições para desembarcar forças e liquidar a revolução portuguesa. Porquê? Porque a União Soviética praticava uma linha de paz, de desanuviamento, de coexistência pacífica e nessa altura, é bom recordar, vivia-se o clima da Ata Final de Helsínquia, conferência que teve lugar em 1975, na qual participou o marechal Costa Gomes que dificultava a ação do próprio imperialismo. Nós nunca esqueceremos isto, como nunca esqueceremos a solidariedade da União Soviética e do Partido Comunista da União Soviética com os antifascistas portugueses, connosco em particular, acolhendo doentes, filhos de funcionários do partido, propiciando descanso e tudo aquilo que sabemos, para não falar da contribuição que deu para o reconhecimento da revolução de Abril e com a ajuda que deu nomeadamente na reforma agrária.

Quarenta anos depois, o PCP também olha para trás e fala em perdas daquilo que foram as conquistas de Abril para usar uma expressão vossa.

Sim, naturalmente. Há revoluções e há contrarrevoluções. Isto não significa que a história não avance numa determinada direção, veja-se desde o esclavagismo até hoje os avanços que se deram e esses avanços deram-se com revoluções e contrarrevoluções. Nós podemos falar na chamada primavera dos povos, nas revoluções na Europa de 1948-49, nos massacres que se verificaram por exemplo em Paris, em junho, quando a classe operária e os trabalhadores procuraram reagir às tendências negativas que se verificavam desde fevereiro e conquistar o poder. Já lhe falei dos escravos crucificados na Via Ápia, já lhe falei na Comuna de Paris, mas isso não impediu que a história avançasse e que o marxismo e as teorias de Marx, o socialismo científico, fosse construído na assimilação dessas experiências revolucionárias e contrarrevolucionárias.

Em Portugal deu-se uma revolução, não tivemos no nosso povo a força suficiente para consolidar essa revolução e uma das razões, três dessas razões — mas falemos de duas que são muito claras — não se conseguiu construir um estado digamos democrático dirigido por forças revolucionárias, o poder foi sempre repartido com a direita, sempre, e não se conseguiu libertar o nosso país da influencia do imperialismo, influência que se agravou particularmente a partir de 1985 com a entrada de Portugal na CEE [Comunidade Económica Europeia, hoje União Europeia] e mais tarde na moeda única, situação gravíssima que hoje estamos a viver e que está a impedir que o nosso país possa resolver os seus problemas económicos fundamentais.

E essa é a segunda razão? A entrada na União Europeia?

É um elemento fundamental, a entrada na União Europeia foi conseguida, não apenas como a solução para problemas económicos, numa perspetiva da direita e da social-democracia, mas como um instrumento visando influenciar e condicionar o processo de desenvolvimento da revolução portuguesa, que estava ainda numa fase de grande resistência e onde muitas das conquistas ainda não estavam destruídas. Hoje, muitas delas estão destruídas, outras estão feridas, mas nós dizemos que a revolução de Abril sendo uma revolução inacabada não foi uma revolução destruída e derrotada e que os seus valores vivem, as sua experiências e ainda as suas realizações. A liberdade, o fim das guerras coloniais e muitas outras coisas são realizações que já não voltam para trás.

E, apesar de tudo, o desenvolvimento do país.

E apesar de tudo o desenvolvimento do país, naturalmente com a reconstituição dos monopólios, com a reconstituição do latifúndio, com profundas injustiças e desigualdades sociais, mas sim, estamos numa situação que certamente não é pior do que era no tempo negro do fascismo. Mas não se ligue à participação de Portugal na União Europeia, na divisão internacional de trabalho capitalista, não se ligue aquilo que há de positivo a essa integração, pelo contrário, isso tem sido um travão.

É possível imaginar o caminho para uma sociedade socialista no atual quadro português?

Naturalmente — no português, europeu e mundial. Enquanto existir a exploração capitalista, enquanto existirem tão profundas injustiças e desigualdades sociais, tanta opressão, tanta degradação moral, tanto militarismo, tanta guerra, tanta invasão e agressão a estados e a países soberanos será necessário encontrar soluções. Os povos vão necessariamente encontrá-las.

Repare que o capitalismo vive uma crise estrutural profunda, que não há hoje ninguém mesmo na classe dirigente que esteja contente com a situação que se vive no mundo capitalista e que não esteja preocupado. Podemos falar da União Europeia e do quadro em que se encontra e não é apenas do Brexit, não é apenas do avanço da direita e da extrema-direita. Os problemas e as contradições agudizam-se e precisam de uma solução. Ela pode tardar mais ou menos, as forças comunistas e revolucionárias em geral enfraqueceram sem dúvida nos últimos anos. A vida mostra que o avanço se faz de uma maneira muito irregular com avanços, com recuos.

Enquanto existir exploração, a necessidade de acabar com a exploração e de acabar com estas taras e contradições do capitalismo é indispensável também por uma razão fundamental que é salvaguardar a vida na terra, salvaguardar a humanidade: nós estamos à beira, perante o perigo efetivo de guerras de catastróficas dimensões, nem falo sequer já da questão ambiental, estou a falar da questão militar que está em desenvolvimento de uma maneira terrivelmente acelerada com ameaças reais de uso da própria arma nuclear.

Nós temos de olhar para isto como qualquer coisa que cria grandes responsabilidades aos comunistas e a todas as forças do progresso social e amantes da paz, não tenhamos duvidas que as grandes alianças e as grandes coligações para defender a paz, para conseguir o desarmamento, para salvar a vida humana sobre a terra vão aparecer e se vão realizar, nós não desistimos, nunca desistimos.

Há aquela canção que diz que mesmo nas noites mais tristes, em tempos de escuridão, de solidão há sempre uma voz que resiste, há sempre alguém que diz não. Nós dizemos não ao capitalismo e dizemo-lo não apenas em termos de uma resistência, em termos de confiança da possibilidade de avanço reais que a classe dirigente teme e é por isso que está a reforçar as medidas de segurança e está a limitar liberdades e direitos fundamentais, incluindo na França das liberdades... É por isso que está a generalizar a coordenação das polícias, que está a erguer barreiras de todo tipo quando digamos gritavam pela liberdade de viagem, quando se tratou de derrotar os países da Europa de Leste, e é por isso que o imperialismo se está a armar até aos dentes com as decisões dos Estados Unidos, o maior orçamento militar da sua história, com o aumento de 2% assumido pela União Europeia no quadro da NATO, com as decisões do Japão a pretexto dos acontecimentos na Coreia de acabar com a sua constituição democrática e pacifista, para poder intervir militarmente fora do seu próprio território — é este o quadro que temos, não nos enganemos sobre isso.

Na Europa temos partidos comunistas que perderam a expressão relevante que tinham, como em Itália, Espanha e França. Como é que olha, como é que interpreta essa perda?

Com tristeza.

Acha que é uma incapacidade de os partidos comunistas nesses países de fazerem passar a mensagem ou foi a tentativa de refundarem a sua linguagem e a sua forma de estar? O que é que falhou?

Ao contrário da generalidade dos partidos comunistas, compreendemos que o que estava em causa na viragem dos anos 1980 era de uma gravidade tal que exigia que se efetuasse uma discussão profunda sobre as causas dessa situação, sobre as suas consequências e definir com rigor a posição do próprio partido. Nós não atirámos às malvas a nossa história, não renegámos a história do movimento comunista internacional, com os seus imensos méritos e também com as suas sombras e os seus erros. Fomos dos poucos partidos que o fizeram. Outros partidos embrulharam-se em grandes discussões, abandonaram a sua ideologia e uma posição solidária internacionalista, social-democratizaram-se. Naturalmente que há partidos com influência, há partidos que estão no governo em vários países, que governam estados inteiros na Índia, na África do Sul e outros países. Há partidos comunistas no poder, processos que têm uma grande importância, mas pensemos na China, no papel que tem na vida internacional. Podem dizer que o desenvolvimento e o papel que tem está ligado a certas medidas de carácter mais capitalista do que socialista mas a reflexão tem que ir muito mais longe. Vejam-se as afirmações e as definições ideológicas do último congresso do Partido Comunista da China, mas eu não quero antecipar análises que o meu partido ainda não fez.

É possível olhar para esses países como olha o PCP nas suas Teses, dizendo que, ao seu modo, são "resistentes" daquilo que é a "ordem dominante"?

Sim, essa é a maior convicção que temos. Podemos ter dúvidas sobre tais ou tais medidas que tomam no seu processo interno, podemos ter dúvidas e interrogações e há países então que temos discordâncias profundas. Se há coisa em que não hesitamos é do papel que efetivamente desempenham no plano internacional, um papel positivo.

De contrabalanço com aquilo que é o Ocidente.

Sim, não estará ao nível da política internacionalista da União Soviética e do campo socialista, poderá não estar, mas joga um papel positivo no quadro de uma arrumação de forças que está a impedir os Estados Unidos e os seus principais aliados de impor a ordem mundial que quiseram impor a partir da guerra do Golfo, em 1990, essa nova ordem mundial.

A partir da queda do Muro?

Sim, por essa altura porque a guerra do Golfo vem na sequência da queda do Muro, tal como [o tratado de] Maastricht [em 1992], em relação à União Europeia e o salto em frente federalista, vem na sequência da queda do Muro, é aquilo que nós chamamos a contra-ofensiva do imperialismo para reganhar as posições perdidas ao longo do século — e essa ofensiva continua em marcha, portanto nós lutamos para a combater.

O PCP entende que há algum estado que estará mais próximo daquilo que seria o regime socialista?

Não há regimes socialistas — Cuba é um país socialista. Claro que nós temos uma tese: é que o socialismo não é qualquer coisa que sai de um manual, não é um arquétipo, não há um modelo único de socialismo. O socialismo é uma fase transitória do caminho para o comunismo e que demora, pelos vistos, muito mais tempo do que pensávamos.

O socialismo é construído na base da situação concreta de cada país, de acordo com as suas tradições, da sua cultura, do peso relativo do partido, com tudo isso. A situação de Portugal não é a de Cuba, a de Cuba não é a do Vietname, a do Vietname não é a da China e o que nós vemos nestes países é o esforço para resolver os problemas dos povos respetivos. É um esforço num contexto internacional extremamente difícil. Olhemos para Cuba e pensemos no bloqueio, pensemos na base de Guantánamo, pensemos num dos seus aliados da região que é a Venezuela, que o imperialismo decidiu que tem que ser destruído para alterar a proporção de forças na América Latina e cercar ainda mais Cuba. Pensemos na China que está a ser rodeada pelo imperialismo de bases militares por todos lados e mais um e ameaçado pelo sistema antimíssil que está a ser instalado na Coreia do Sul.

Mas a Coreia do Norte preocupa...

Naturalmente que há aqui assim uma escalada que dificulta a própria compreensão do que de essencial está em jogo na Coreia do Sul, na Coreia e o que de essencial está em jogo na Coreia é o imperialismo a alimentar um foco de tensão para justificar a corrida aos armamentos, para justificar o cerco à China, para justificar o que agora se viu no Japão, que apesar de ter uma opinião pública que defende a constituição, que está contra a política reacionária do atual governo do Abe, acabou por dar uma maioria a este governo com o pretexto de que há uma ameaça terrível de um determinado país. São questões que nós temos que ter em conta, não há modelos, há tentativas, há processos.

No posfácio do livro Dez dias que abalaram o mundo, de John Reed (ed. Avante), refere-se que o PCP deseja uma sociedade socialista em Portugal que tenha em atenção as características portuguesas. Como é que isso se pode antecipar?

É a nossa política desde sempre: nós nunca tivemos outra política que não fosse a de levar em conta aquilo que damos por adquirido na ciência marxista-leninista, que damos por adquirido com a experiência da revolução de Outubro. Pensamos que esta revolução não é para lançar no caixote do lixo como dizem certos articulistas publicados, mas nem sequer é para colocar no museu da história. Nós pensamos que na revolução de Outubro há lições e ensinamentos de uma grande atualidade.

Nós temos exemplos disso, nós somos internacionalistas, não somos nacionalistas estreitos, somos patriotas internacionalistas e ao dizer isto estamos a dizer que a revolução portuguesa, levando tudo isto em consideração, tem de levar em primeiro lugar em consideração a concreta realidade sócio económica e política portuguesa e a cultura e a vontade política das massas populares em Portugal. É isso que dizemos e é isso que, a nosso ver, vai permitir que venha a ser confirmado o nosso programa atual redigido em consequência do avanço do processo contrarrevolucionário em Portugal e dos constrangimentos colocados pela União Europeia e do imperialismo em geral.

O nosso programa de uma democracia avançada nos valores de Abril no futuro de Portugal será concretizado e deste programa fazem parte direitos, liberdades, garantias fundamentais, existência de partidos políticos que não existiam na União Soviética e que não existem atualmente em Cuba porque são processos históricos particulares que se desenvolveram desta maneira, sem obedecer a esquemas rígidos que o capitalismo pretende impor a estes países: o seu sistema liberal burguês representativo que depois de representação real não tem nada como se vê com tudo que se está a passar, é outra coisa. Cada país tem a suas tradições e as suas características e o nosso programa responde do nosso ponto de vista aos interesses do povo português.

Recusa a ideia de que o comunismo morreu com a queda do Muro?

Recuso. Apetece-me sorrir. Nós temos uma tese muita clara sobre isso: o comunismo não morreu, vê-se que existe em partidos enfraquecidos sem dúvida, existe na ideologia, existe na própria necessidade de transformar esta sociedade. Uma coisa que não existe de facto é o fim da História. O socialismo foi posto no banco do réus em 1989, 90, 91, houve uma imensa campanha sobre a morte do comunismo, o declínio irreversível do PCP. Toda gente se admira ainda porque é que o PCP existe, toda gente se vai continuar a admirar porque mesmo em sítios onde há partidos fracos ou diminuídos momentaneamente existem lutas, existem potencialidades de transformação real.

Falta ainda sentar o capitalismo no banco dos réus?

Nós acreditamos no comunismo científico, temos este defeito - não morreu. O partido comunista não está condenado à derrota e ao declínio irreversível, cá está agindo, trabalhando, uns considerando que estamos a impor ao governo políticas, outros considerando que estamos a seguir na penumbra a política do governo, mas todos incomodados com este partido.

Mas falta colocar o capitalismo no banco dos réus?

Não, o capitalismo já está no banco dos réus, no banco dos réus da História, para nós está muito claro. Não vemos hoje quem defenda a situação tal qual existe, não há, leia o que ler. A apologia de [Francis] Fukuyama desapareceu.

Como é que perante um jovem o chamaria para o comunismo?

Vamos ver: eu tenho de ir a uma escola nestes dias na Marinha Grande e estou a pensar o que é que vou dizer. Creio que vou dizer muito pouco, sobretudo vou pôr os catraios a falar, perceber o que é que vai naquelas cabeças porque, sabe, nós temos uma posição muito crítica em relação ao sistema de ensino nestas matérias e então sobre a revolução de Outubro nem imagino o que seja dito nos manuais. Estou muito interessado.

Se calhar não há tempo para ensinar no ano letivo.

Não há tempo. Tenho que pensar mas estou convencido que encontrarei exemplos, argumentos, sem pintar a história do comunismo e do socialismo, da revolução de Outubro de cor de rosa, não o podemos fazer. Mas estou convencido que dizendo a verdade, mostrando as contradições que há no desenvolvimento da história do movimento social conseguirei se não encantar, convencer muita gente. A nossa experiência é essa, quando vamos a uma escola e falamos da revolução de Abril parece que se abre um horizonte novo, como quando temos ido falar da revolução de Outubro. Despertar o espírito crítico, combater a irracionalidade que se procura inculcar nas massas em geral, defender a verdade histórica, portanto é isto que eu pretendo fazer, não pretendo fazer nada mais.

Numa única palavra, como é que define a revolução de Outubro?

É impossível explicar com uma palavra só. É o maior acontecimento da história da humanidade, o maior acontecimento libertador da história da humanidade. É isto: o maior acontecimento libertador da história da humanidade — escreva isso, sem falta.

Está gravado. E ficou escrito.

 

[entrevista originalmente publicada no DN, em 5 de novembro de 2017, revista e editada; foto de Albano Nunes, defronte da sede do PCP, em Lisboa, por Leonardo Negrão/Global Media]

Março 15, 2022

a gosto [in memoriam Jorge Silva Melo]

Miguel Marujo

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algures num verão de Lisboa, apaixonei-me por estas histórias de agosto, na Arrábida, filmadas por Jorge Silva Melo, a quem cheguei por causa do Olímpio, sempre ele, nestas coisas — o teatro, os filmes, os livros, os textos nos jornais... na morte abrupta do Olímpio, Jorge Silva Melo escreveu um belíssimo texto sobre este nosso grande amigo, e (como bem recordou, na noite de ontem, a Mariana Pinto Dos Santos) terminava dizendo "não seremos jamais órfãos, sempre seremos herdeiros"... sorte a nossa, esta de sermos herdeiros de Jorge Silva Melo.